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architectourism ISSN 1982-9930

Praça Jamaa el-Fna, Marrocos. Foto Victor Mori

abstracts

português
Em Ilha Bela, relativamente distante do continente, um grupo de turistas passeia pela mata e tem encontros inesperados com os moradores locais.


how to quote

GUERRA, Abilio. Da ilha longínqua. Crônicas de andarilho 23. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 137.05, Vitruvius, ago. 2018 <http://vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.137/7079>.


“Boa caminhada”, diz o velho. “Boa caminhada”, responde a moça ao passar por ele. Ele marcha rápido pela picada no meio da mata à frente de grupo numeroso, doze pessoas, todos ansiosos para chegar na praia seguinte. Ela segue acompanhada do marido no sentido contrário, pela trilha paralela à praia, junto à encosta, dezenas de metros acima do nível do mar. Vão para o sul da ilha, provavelmente perto de onde partiu o grupo, hospedado em uma pousada há poucos quilômetros de distância.

O programa do grupo era avançar por quatro praias, percurso avaliado pelos locais em cerca de duas horas. Conforme avançam, no meio da vegetação densa se abrem de quando em quando pequenas frestas em meio às árvores de onde se pode ver o mar, alguns barcos e navios, uma ou outra casa. Na metade do caminho surge a primeira dúvida: uma encruzilhada onde o caminho à direita sobe e desaparece no meio do mato enquanto o outro desce à esquerda e se abre generoso para o mar. Opção assumida, em poucos minutos, todos pisam chinelos e tênis na areia da praia.

O mais jovem sobe na enorme pedra e contempla a paisagem que finalmente se descortina sem obstáculos. O casario pacato diante do mar calmo é emoldurado por árvores altas, algumas com flores coloridas. A última construção da fila parece casa de fazenda, daquelas pequenas e simples, de quem trabalha na lavoura. Dela sai uma velha, moradora de meio século no lugar, gaúcha, quem sabe ex-hippie, e traz nas mãos cartão com telefone divulgando os quartos para locação. Ela informa que não é possível seguir; o retorno é inevitável, equívoco normal de quem arrisca caminhos desconhecidos.

Retomada a trilha, sobem e descem a picada estreita, chão lamacento e escorregadio, formigas, aranhas e esquilos, bromélias e bambus bojudos em cores verde e amarelo, filetes d’água de nascentes a montante. Outra praia surge, maior do que a anterior, destino do grupo. Banho de mar para alguns – a água fria do inverno não anima muito – e mormaço na areia da praia para os outros – o sol encoberto por nuvens confirma a previsão do website de meteorologia.

Na conversa vem à tona o passeio do dia anterior, quando o grupo rumou de lancha para a ponta extrema da ilha. A mais velha das mulheres, ao pisar no remanso da água entre as pedras enormes fincadas na areia, teve os pés agarrados pela areia movediça e foi sugada até a altura dos ombros. Seu filho a sustentou pelos braços e evitou a tragédia, ao menos na fala de quem conta a história. O almoço torna-se assunto urgente e as opções são diminutas. O restaurante com deck de madeira sobre o mar, avistado na vinda, foi a escolha natural.

O ruído do grupo rompe o silêncio do restaurante vazio. Cinco pratos e algumas entradas são rapidamente escolhidas, cervejas, caipirinhas, refrigerantes e sucos para acompanhar. O barqueiro conhecido há pouco mostra o celular em punho e pergunta se alguém tinha visto o homem da fotografia. Três respondem que sim, que o homem da fotografia havia perguntado há pouco sobre onde poderia se hospedar e almoçar. Vem a ficha completa dos malfeitos cometidos pelo sujeito, um turista argentino: há duas ou três semanas na ilha, avançava pelas praias pulando de pousada em pousada e alternando bares e restaurantes, sempre dando calote e fugindo sem pagar. Alertados pela eficiente comunicação via WhatsApp, todos por ali estavam preparados para sua chegada.

Sem aviso ou convite, o argentino entra no restaurante e é abordado de imediato pelo barqueiro. O entrevero só não é maior devido a presença do grupo de turistas, mas o espertalhão é avisado que não é bem-vindo, que deve partir de imediato. Tenta retrucar, tenta se explicar, tenta até dizer que pretende se radicar na ilha, o que só aumenta a indignação do barqueiro e de outros moradores locais que se amontoam a seu redor. Alguém fala em mandá-lo para o xadrez, outro em confiscar suas coisas para amenizar o prejuízo dos comerciantes locais, o barqueiro se diz confortado em espancá-lo, mas no fim o afortunado argentino é colocado em um barco prestes a rumar para o litoral. O saveiro parte e o barqueiro chama o coro de achincalhes obscenos que o argentino recebe com resignação. O degredado tem a cara de quem nasce de novo.

O grupo toma o caminho de volta. Poucos minutos depois cruzam o casal novamente. “Divertida nossa caminhada”, diz o velho. “Também foi boa nossa caminhada”, responde a moça.

[17 de agosto de 2018]

notas

NA – Vigésima terceira publicação da série “Crônicas de andarilho”, com textos originalmente publicados no Facebook. Artigos da série:

GUERRA, Abilio. Cinco cenas paulistanas. Crônicas de andarilho 1. Minha Cidade, São Paulo, ano 15, n. 179.01, Vitruvius, jun. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/15.179/5561>.

GUERRA, Abilio. Dez cenas paulistanas. Crônicas de andarilho 2. Minha Cidade, São Paulo, ano 15, n. 180.02, Vitruvius, jul. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/15.180/5595>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: a velocidade nas marginais e outros assuntos. Crônicas de andarilho 3. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 181.03, Vitruvius, ago. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.181/5637>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: caipirice, regionalismo, erudição, cidadania, obra pública e mobiliário urbano. Crônicas de andarilho 4. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 183.01, Vitruvius, out. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.183/5735>.

GUERRA, Abilio. Dez cenas paulistanas: bicicletas, escadarias, caminhadas, rios ocultos, escolas, resiliência, diálogo. Crônicas de andarilho 5. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 185.02, Vitruvius, dez. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.185/5830>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: lixo, lixeiros, orelhão, quadro com vidro trincado, estátuas urbanas, praia de asfalto e Mario de Andrade. Crônicas de andarilho 6. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 187.03, Vitruvius, fev. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.187/5932>.

GUERRA, Abilio. Memórias do futuro: sobre a recusa de se ver o óbvio. Crônicas de andarilho 7. Drops, São Paulo, ano 17, n. 103.02, Vitruvius, abr. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/17.103/5982>.

GUERRA, Abilio. Oito cenas paulistanas: política, política cultural e urbanidade. Crônicas de andarilho 8. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 191.03, Vitruvius, jun. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.191/6050>.

GUERRA, Abilio. Do nome das coisas: qual o motivo para mudar o nome do Elevado Costa e Silva? Crônicas de andarilho 9. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 193.06, Vitruvius, ago. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.193/6167>.

GUERRA, Abilio. Do vizinho: como Jacques Tati e Michel Foucault podem explicar a boçalidade do novo-riquismo. Crônicas de andarilho 10. Drops, São Paulo, ano 17, n. 112.06, Vitruvius, jan. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/17.112/6383>.

GUERRA, Abilio. Do higienismo: sobre as práticas urbanísticas do século 19 em pleno século 21. Crônicas de andarilho 11. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 198.04, Vitruvius, jan. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.198/6385>.

GUERRA, Abilio. Do gênero na fala popular. Crônicas de andarilho 12. Arquiteturismo, São Paulo, ano 11, n. 122.05, Vitruvius, maio 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/11.122/6540>.

GUERRA, Abilio. Do táxi. Crônicas de andarilho 13. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 202.05, Vitruvius, maio 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.202/6541>.

GUERRA, Abilio. Três crônicas sobre a arte e a vida. Crônicas de andarilho 14. Minha Cidade, São Paulo, ano 18, n. 206.05, Vitruvius, set. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/18.206/6712>.

GUERRA, Abilio. Do sadomasoquismo. Crônicas de andarilho 15. Drops, São Paulo, ano 18, n. 124.01, Vitruvius, jan. 2018 < www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.124/6820>.

GUERRA, Abilio. Do cordão de isolamento: ano novo, realidade arcaica. Crônicas de andarilho 16. Arquiteturismo, São Paulo, ano 11, n. 129.06, Vitruvius, dez. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/11.129/6822>.

GUERRA, Abilio. Do choro – entre lágrimas e música. Crônicas de andarilho 17. Minha Cidade, São Paulo, ano 18, n. 212.04, Vitruvius, mar. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/18.212/6923>.

GUERRA, Abilio. Da cavalaria de hoje e de antigamente. Crônicas de andarilho 18. Drops, São Paulo, ano 18, n. 126.06, Vitruvius, mar. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.126/6926>.

GUERRA, Abilio. Da inveja infame: a trajetória histórica de Lula e a viagem pela metrópole de um casal qualquer. Crônicas de andarilho 19. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 133.03, Vitruvius, abr. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.133/6953>.

GUERRA, Abilio. Do andaime. Crônicas de andarilho 20. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 134.04, Vitruvius, maio 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.134/6984>.

GUERRA, Abilio. Da dobradura. Crônicas de andarilho 21. Drops, São Paulo, ano 18, n. 129.05, Vitruvius, jun. 2018 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.129/7033>.

GUERRA, Abilio. Das estradas da vida. Crônicas de andarilho 22. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 136.05, Vitruvius, jul. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.136/7049>.

GUERRA, Abilio. Da ilha longínqua. Crônicas de andarilho 23. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 137.05, Vitruvius, ago. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.137/7079>.

GUERRA, Abilio. Dos sem teto. Crônicas de andarilho 24. Drops, São Paulo, ano 19, n. 134.02, Vitruvius, nov. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/19.134/7164>.

GUERRA, Abilio. Da casa prototípica. Crônicas de andarilho 25. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 140.05, Vitruvius, nov. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.140/7165>.

sobre o autor

Abilio Guerra é professor de graduação e pós-graduação da FAU Mackenzie e editor, com Silvana Romano Santos, do portal Vitruvius e da Romano Guerra Editora.

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