Your browser is out-of-date.

In order to have a more interesting navigation, we suggest upgrading your browser, clicking in one of the following links.
All browsers are free and easy to install.

 
  • in vitruvius
    • in magazines
    • in journal
  • \/
  •  

research

magazines

architectourism ISSN 1982-9930

Nova York vista de um parque no Queens. Foto Victor Hugo Mori

abstracts

português
José Tabacow explica, através da observação da paisagem natural, como nascem os manguezais no chamado cinturão intertropical.


how to quote

TABACOW, José. O nascimento de uma paisagem. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 139.01, Vitruvius, out. 2018 <http://vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.139/7133>.


Em toda a Terra, os manguezais distribuem-se predominantemente pelo cinturão intertropical, com alguns poucos prolongamentos que indicam extensões da tropicalidade para fora da faixa intertropical

Tal é o caso da ilha de Santa Catarina, em latitudes ao sul do trópico de Capricórnio, mas limite meridional aproximado da distribuição de manguezais na costa atlântica da América do Sul. Enquanto aqui os manguezais desaparecem a partir dos 27º sul, do lado do Pacífico terminam já por volta de 4º sul, no litoral peruano.

Mapa da distribuição dos manguezais no mundo
Imagem divulgação

Por quê esta diferença? A explicação é muito simples: as águas muito mais frias na costa ocidental do continente (Pacífico) não permitem a ocupação por uma formação tipicamente tropical. Ao contrário, no Atlântico, as águas aquecidas pela corrente do Atlântico Sul, tornam o litoral brasileiro (exceto no Rio Grande do Sul e em pequena parte de Santa Catarina) potencialmente apto para o estabelecimento de manguezais e outras manifestações tipicamente tropicais.

No mundo, os manguezais variam em número de espécies, embora sejam todos de baixa fitodiversidade (1), podendo ocorrer entre vinte espécies de plantas, na parte norte do Oceano Índico ou apenas três, como em grande parte dos manguezais brasileiros. Assim mesmo, a composição fitossociológica (2) varia entre mangues de uma mesma região ou país. Em Santa Catarina, por exemplo, o mangue-vermelho não aparece com a mesma abundância que nos estados mais para o norte.

As plantas que vivem aqui escolheram um substrato impossível para qualquer espécie vegetal não adaptada a condições tão difíceis como excessiva salinidade, ventos fortes e constantes, alternância de inundação e seca pelas marés e a dinâmica das areias, que passeiam ao longo das praias, ao sabor das correntes, dos ventos, das ondas. Claro, há vantagens na escolha de um ambiente tão hostil. A principal delas é a ausência de competição pelo espaço, tal como ocorre, por exemplo, nas florestas atlânticas, onde a luta por um lugar ao sol – ou à sombra – pode assumir contornos dramáticos.

Além das correntes marinhas quentes, outras variáveis determinam ou não o surgimento de manguezais. Talvez a compreensão dos processos de formação da vegetação ultra-especializada desses ambientes ajude a compreender as condições especiais aqui reinantes. Os manguezais estão sempre associados à saída de rios e córregos. A água doce traz sedimentos de argila das terras que atravessam. Em contato com a água salobra da foz, tais sedimentos floculam, isto é, juntam-se em flocos que, pelo peso, vão se depositando no fundo. Por este processo, denominado floculação dos coloides, forma-se a lama dos mangues, também conhecida como vasa.

Inicio da colonização por Spartina alterniflora
Foto José Tabacow

O solo assim formado é primeiramente ocupado por uma gramínea (Poaceae), o capim-praturá (Spartina alterniflora), geralmente na linha de frente para o oceano. Em seguida, surgem plantas arbustivas e árvores: o mangue-vermelho (Rizophora mangle), com suas raízes de escora, verdadeiras esculturas buscando aumentar a base de apoio da planta no solo instável. Esta planta apresenta uma adaptação notável ao ambiente: suas sementes germinam presas à planta-mãe, desenvolvendo-se um órgão em forma de lança – o propágulo  – apontando para o solo. Quando está bem desenvolvida, essa estrutura destaca-se do galho onde está presa, cravando-se no solo pouco consistente, quase um auto-plantio. Assim, mesmo que a área esteja inundada pelo mar, são grandes as chances de sobrevivência e perpetuação da espécie.

Rhizophora mangle
Foto Luiz Cláudio Marigo

Propágulos de Rhizophora mangle
Foto José Tabacow

Outra árvore presente é o mangue-preto (Avicennia schaueriana), que apresenta uma estrutura auxiliar de respiração da planta, uma notável adaptação, os pneumatóforos (3), tubos como periscópios, que levam o ar às raízes no solo anaeróbico das marés cheias.

Avicennia schaueriana
Foto José Tabacow

Pneumatóforos de Avicennia schaueriana
Foto José Tabacow

E, por fim, o mangue-branco (Laguncularia racemosa), mais arbustivo e com glândulas especializadas em excretar o sal que a planta absorve juntamente com a água do mar, o que torna esta espécie um verdadeiro destilador vivo.  Eles se distribuem pela parte posterior do manguezal, já próxima à transição com a planície costeira, em geral, ocupada por restingas (4). Nestas transições são comuns o algodão-da-praia (Hibiscus pernambucencis) e uma samambaia, o avencão-do-mangue (Acrostichum danaefolium).

Laguncularia racemosa
Foto Luiz Cláudio Marigo

Hibiscus pernambucencis fora do alcance da água do mar
Foto José Tabacow

Acrostichum dannaefolium (no centro da imagem)
Foto José Tabacow

Este processo de formação está ocorrendo na saída de um pequeno córrego, no bairro do Cacupé, na ilha de Santa Catarina (município de Florianópolis SC). Imediatamente nos vem a pergunta: Por quê isso não aconteceu antes? Por quê já não havia antes um manguezal ali? Investigando em entrevistas informais com moradores do local, vem a revelação: há poucos anos, talvez um ou dois, este córrego sofreu um desvio. Suas águas, que desembocavam no meio da praia, passaram a correr para um dos cantos, onde um cordão rochoso ancora as areias (5). E, provavelmente, também faz acumular os sedimentos argilosos que as águas transportam das encostas dos morros para dentro do mar. É o processo de formação da vasa. Já se percebe, nos pontos de maior acumulação, pequenas colônias do capim-praturá e mesmo duas plantas jovens de mangue-preto. Toda a região passa por modificações. Restos de um trapiche e os próprios limites do brejo atestam que por ali passou um rio.

Foz do riacho no fundo o cordão rochoso em primeiro plano a vasa se formando sobre a areia logo a seguir uma primeira colônia do capim-praturá
Foto José Tabacow

Restos de um trapiche sobre o antigo leito do córrego; a formação brejosa é função da umidade residual
Foto José Tabacow

Na foz antiga o mar bloqueou com areia sua própria entrada. Como as águas do riacho não estão mais ali para forçar sua chegada ao mar, a barragem permanecerá e a água salobra não vai mais entrar. O antigo leito, por causa da umidade residual, tornou-se um brejo que, a cada dia que passa, torna-se mais seco. Brevemente, todo o capim agora seco, e que antes era uma saudável colônia de plantas higrófilas (6) e muito verdes, vai desaparecer. Novos arbustos e árvores vão se estabelecer por aqui, irão projetar sombras em áreas maiores, tornar o terreno um habitat viável para uma nova leva de espécies de plantas. Um novo ecossistema vai se estabelecer e a expansão da colônia de algodoeiros-da-praia já caracteriza o espaço como de transição.

A areia tende a entupir a foz dos rios, mas a força da corrente rompe a barragem e a água doce pode chegar ao mar, processo que se repete indefinidamente
Foto José Tabacow

Brejo secando; brevemente a vegetação do fundo ocupará toda a área
Foto José Tabacow

Brejo secando à esquerda em segundo plano a expansão da colônia de algodoeiro-da-praia
Foto José Tabacow

Pelo outro lado, as margens ao longo do novo leito já estão bastante colonizadas pelo mangue-preto. Seus pneumatóforos ajudam a estruturar e conter a vasa, marcando sua presença na nova linha d’água. Há ainda alguns remanescentes do algodoeiro-da-praia que, com o passar do tempo, serão inapelavelmente eliminados. Eles não suportam a salinidade trazida pelas águas do mar que, nas marés altas, invadem o leito do riacho e encharcam os solos do local. E há também testemunhos de interferência antrópica: crescem na parte mais alta do terreno, fora da influência da água do mar, dois exemplares de Leucena leucocephala, árvore exótica que, depois de introduzida no país, tornou-se subespontânea, invasora e contaminadora biológica (7). Esta é a contribuição do homem para a formação da nova paisagem.

Colonização da margem pelo mangue-preto
Foto José Tabacow

Pneumatóforos ajudam a estruturar o solo
Foto José Tabacow

Em primeiro plano, remanescente de algodoeiro-da-praia; ao fundo, colonização das margens por plantas resistentes à água salina
Foto José Tabacow

No centro da foto, com vagens secas, Leucena leucocephala
Foto José Tabacow

Assim surge, em linhas muito gerais, um novo manguezal, assim um ambiente é modificado em seu substrato e em seu recobrimento vegetal. Tão importante quanto o aparecimento da nova formação é a percepção de que o processo que começa por um fator tão pequeno, o desvio de um córrego de pouca importância na hidrologia da região, pode se alastrar pelo espaço e causar modificação tão significativa e em área muito maior.

Ampliação da praia com sedimentos argilosos trazidos pelo riacho
Foto José Tabacow

Em branco, no centro da foto, a antiga praia; a ilha de vegetação é uma colônia do capim-praturá, com duas plantas jovens de mangue-preto
Foto José Tabacow

Aterro feito pelos sedimentos argilosos do pequeno córrego, redistribuídos pelas águas do mar
Foto José Tabacow

Subida da maré inundando colônia do capim-praturá
Foto José Tabacow

A dinâmica que governa tais mudanças tem uma natureza caótica, naquele sentido que uma pequena alteração nas condições iniciais pode levar o sistema todo a uma situação inesperada e, de um ponto de vista antropocêntrico, fora de controle. Esta verdade é mais dramática na linha do litoral. Ali, os processos de alteração são perceptíveis a olho nu, enquanto acontecem em tempo muito curto, um instantâneo na história da paisagem. Para o bem ou para o mal!

notas

1
Índice que leva em conta a abundância e a proporção dos indivíduos de cada uma das espécies de plantas presentes em uma comunidade em relação ao total de indivíduos desta mesma comunidade.

2
Ramo da botânica que estuda as comunidades vegetais, suas inter-relações e relações com o meio; fitocenologia.

3
Do grego, pneumat – sopro, vento, ar e phorós – que conduz, que leva.

4
Terreno arenoso e salino, próximo ao mar e coberto de plantas herbáceas, arbustos e arvoretas características.

5
Não consegui apurar se o desvio foi natural, espontâneo ou se provocado pelo homem.

6
Vegetal que gosta de umidade.

7
Subespontânea é a espécie que, após ser introduzida em uma nova região, se estabelece com sucesso, propagando-se sem a intervenção do homem. Ela é considerada exótica quando introduzida em um local diferente ao de sua distribuição natural. Se a espécie exótica consegue se reproduzir e gerar descendentes férteis, com alta probabilidade de sobreviver no novo hábitat, ela é considerada estabelecida. Caso a espécie estabelecida expanda sua distribuição no novo hábitat, ameaçando a diversidade biológica nativa, ela passa a ser considerada uma espécie exótica invasora. As plantas invasoras são hoje a segunda maior ameaça mundial à biodiversidade – só perdendo para a destruição de habitats.

sobre o autor

José Tabacow é arquiteto (UFRJ, 1968), especialista em ecologia e recursos naturais (UFES, 1991) e doutor em geografia (UFRJ, 2002). Professor de paisagismo em diversas instituições, foi sócio do escritório Burle Marx Cia Ltda (1967-1982). É autor dos livros Arte e paisagem (Nobel, 1987), Árvores (AC&M, 1989) e Rio natureza (Rio Arte/ PMRJ, 1981). Em 2017 recebeu a medalha Mário de Andrade do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Iphan.

comments

139.01 ecologia
abstracts
how to quote

languages

original: português

share

139

139.02 viagem cultural

Cartagena de Índias – uma visita

André Luiz Joanilho

139.03 ensaio fotográfico

Procura-se uma casa no Recôncavo

Eduardo Oliveira Soares

139.04 patrimônio

Fazenda Vassoural em Itu

Victor Hugo Mori

newspaper


© 2000–2018 Vitruvius
All rights reserved

The sources are always responsible for the accuracy of the information provided