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arquitextos ISSN 1809-6298


sinopses

português
Com o intuito de demonstrar que estamos muito longe de obter um edifício de uso habitacional com bom desempenho térmico, o artigo discute os resultados de uma simulação comparativa entre três configurações distintas.

english
In order to demonstrate that we are far from obtaining a residential building with good thermal performance, the article discusses the results of a comparative simulation between three configurations.

español
Con el designio de mostrar que estamos muy lejos de obtener un edificio de vivienda con buen desempeño térmico, el artículo analiza los resultados de una simulación comparativa entre tres configuraciones.


como citar

DALBEM, Renata; GRALA DA CUNHA, Eduardo; RHEINGANTZ, Paulo Afonso; VICENTE, Romeu; SILVA, Antonio César Silveira Baptista da. Atender às normas de desempenho é indicativo de conforto térmico na edificação de uso habitacional? Arquitextos, São Paulo, ano 18, n. 211.03, Vitruvius, dez. 2017 <http://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/18.211/6828>.

Alinhados com a abordagem sistêmica do desempenho térmico do ambiente construído, neste artigo discutimos a complexidade do atendimento aos requisitos mínimos preconizados na Norma Brasileira NBR 15575/2013 – Edificações Habitacionais – Desempenho. Apresentamos e analisamos os resultados de uma simulação de desempenho termoenergético de uma edificação residencial localizada na cidade de Curitiba-PR, Zona Bioclimática Brasileira 1 (ZB1). Para a simulação, utilizou-se o software Energy Plus®, variando a configuração do envelope para atender três situações: a) atendendo aos requisitos mínimos estabelecidos pela NBR 15575/2013, b) atendendo a classificação Nível A, de acordo com o RTQ-R; e, c) atendendo aos limites estabelecidos pela certificação alemã Passive House, adaptados para climas quentes. Foi verificada a classificação do nível de eficiência energética da envoltória dos modelos, foram comparados os resultados de consumo de energia e, por fim, foi analisado o conforto térmico dos modelos, pelo método adaptativo da ASHRAE 55 (2010), com a intenção de demonstrar a distância que existe entre simplesmente se atender às exigências mínimas da NBR 15.575/2013 e projetar e construir edifícios habitacionais efetivamente responsivos e adaptados ao clima, aos hábitos e valores de seus futuros usuários.

Acredita-se que atendendo às normas de desempenho de edificações teremos uma habitação com qualidade, que atenda de forma satisfatória às necessidades dos usuários. Observamos que muitas construtoras empenham-se em atender às prescrições da NBR 15575 apresentando seus produtos como edifícios diferenciados e de qualidade diferenciada. Frente a este cenário, questionamos particularmente o entendimento de que o desempenho térmico mínimo preconizado na NBR 15575/2013 (1) seja suficiente para satisfazer a percepção de conforto térmico, caracterizando um contexto em que o usuário precisa se adaptar a condições térmicas internas em desconforto, ou então, utilizar sistemas de climatização, aumentando assim o consumo de energia da edificação.

Em vigor a partir de julho de 2013, a NBR 15575 define o nível de desempenho mínimo ao longo da vida útil dos elementos principais de edificações habitacionais (estrutura, vedações, instalações elétricas e hidrossanitárias, pisos, fachadas e cobertura). A NBR 15575/2013 também especifica as incumbências dos projetistas, do incorporador, do construtor e dos usuários, define prazos de vida útil de componentes da construção, prazos de garantia, condições de manutenção, requisitos e critérios de avaliação do desempenho dos principais sistemas de uma edificação. A norma produz dois impactos diretos na prática profissional: a necessidade de maior detalhamento e cuidado com as especificações técnicas dos projetos (caderno de encargos), de modo a observar o desempenho mínimo exigido para os componentes da edificação; e maior domínio da tecnologia no projeto de arquitetura. Por exemplo, para atender ao desempenho acústico mínimo de lajes entrepisos observando o ruído de impacto, uma solução possível seria a previsão de lajes flutuantes – prática bem diferente da maioria das soluções adotadas nas edificações em altura.

Com a norma, alguns conceitos e variáveis de desempenho passam a ser de domínio obrigatório na definição de elementos de arquitetura: na concepção de paredes e coberturas de edifícios residenciais, a transmitância térmica de paredes e coberturas, a capacidade térmica de paredes (desempenho térmico), a diferença padronizada de nível ponderado (desempenho acústico) entre ambientes, entre muitas outras variáveis, passam a ser pressupostos básicos de projeto. A inclusão de informações sobre garantias e cuidados de manutenção no Manual do Usuário ilustra a transformação com relação à definição dos direitos e deveres do projetista, do incorporador, do construtor e do usuário.

O desempenho térmico é um dos 13 aspectos a serem considerados durante a análise da edificação de uso residencial definidos pela NBR 15575/2013. A norma possibilita alternativas de análise: o método simplificado, a simulação computacional e uma terceira, sem caráter normativo, as medições in loco. No método simplificado são estabelecidos os requisitos para o envelope, como mostrado na tabela 1, relativa à zona bioclimática 1 (ZB1). Além das características do envelope também é definida uma área efetiva de ventilação, cujo valor mínimo proporcional de ventilação natural na ZB1 corresponde a 7% da área do piso do ambiente considerado.

Tabela 1 – Requisitos térmicos do envelope para edificações residenciais para Zona Bioclimática 1

 

No caso de a edificação não atender aos requisitos do método simplificado, será necessário recorrer ao método de simulação computacional, que define o nível de desempenho a partir da diferença de temperatura entre os ambientes internos de permanência prolongada e os ambientes externos. Durante a estação fria a temperatura dos ambientes internos deve ser igual ou superior à temperatura externa acrescida de 3,00oC, enquanto durante as estações quentes, deve ser inferior ou igual à temperatura externa máxima do dia típico de verão.

Outra maneira de avaliar o desempenho de edificações residenciais é através do RTQ-R – Regulamento Técnico da Qualidade para o Nível de Eficiência Energética de Edificações Residenciais (2), publicado em 2012. O regulamento classifica as edificações em uma escala que varia de “A” maior eficiência, a “E”, menor eficiência, que permite a obtenção da Etiqueta Nacional de Conservação de Energia – ENCE. Este regulamento é de caráter voluntário, porém espera-se que passe a ser obrigatório dentro de alguns anos.

Como o estudo compara o envelope conforme as normativas brasileiras NBR15575 e RTQ-R (Nível A) com a normativa Passive House, que apresenta um elevado nível de isolamento térmico, faz-se necessário contextualizar o cenário onde este edifício de elevado desempenho termoenergético está inserido.

Em 2010 a União Europeia publicou a Diretiva 2010/31/UE (3), estabelecendo as metas a serem alcançadas pelos estados membros: até o final de 2018 todos os novos edifícios públicos, sejam próprios ou alugados devem ter consumo de energia quase nulo (nZEB – nearly zero energy buildings); até o final de 2020 essa regra será estendida a todos os edifícios.

Uma alternativa para alcançar edificações com consumo de energia quase nulo seria a aplicação do conceito de construção Passive House – criado pelos físicos Bo Adamson e Wolgang Feist, em 1988, na Alemanha (4) – que garante o conforto térmico dos usuários das edificações com baixo consumo energético. Para obter a certificação, a edificação deve cumprir alguns requisitos de energia previamente estabelecidos (5): a) consumo de energia para aquecimento inferior a 15 kWh/m² ou a carga de aquecimento inferior a 10 W/m²; b) consumo de energia para arrefecimento inferior a 15 kWh/m²ano ou a carga de arrefecimento inferior a 10 W/m²; c) demanda de energia primária inferior a 120 kWh/(m²a); d) elevada estanqueidade, reduzindo a taxa de infiltrações, que deve ser comprovada através de um teste de pressurização, onde o resultado, em termos de infiltração, deve ser inferior a 0,6 h-1; e) o sobreaquecimento interior não deve ultrapassar em mais de 10% das horas do ano a temperatura de 25ºC.

Para a aplicação em climas quentes, segundo o projeto Passive-On (6) deve-se considerar os requisitos: f) demanda de energia para refrigeração inferior a 15 kWh/(m²a); g) resultado do teste de pressurização inferior a 1,0 h-1; h) o sobreaquecimento interior não deve ultrapassar em mais de 10% das horas do ano a temperatura de 26ºC. Uma Passive House deve ser projetada empregando os seguintes princípios de projeto:

  • elevado nível de isolamento térmico;
  • minimização de pontes térmicas;
  • esquadrias eficientes;
  • estanqueidade;
  • sistema de ventilação mecânica com recuperador de calor.

Para todos os elementos do envelope é recomendado um valor de transmitância térmica (U) inferior a 0,15 W/(m²K) (7). Para climas mais amenos, segundo o projeto Passive-On (8), a transmitância térmica do envelope pode ser próxima de 0,30 W/(m²K). A transmitância térmica de uma esquadria instalada, que inclui a perda através do vidro, do caixilho e dos espaçadores dos panos de vidro e instalação, não deve exceder 0,85 W/(m²K) (9). Em climas mais quentes a utilização de um vidro duplo com película de baixa emissividade e a caixilharia com corte térmico é suficiente para cumprir os requisitos mínimos (10).

Neste primeiro momento, caracterizamos o objeto de estudo analisado para a verificação do nível de conforto térmico e de eficiência energética gerado por uma edificação com três configurações distintas quanto ao envelope. Na primeira temos um edifício que simplesmente atende à NBR 15575/2013 quanto à transmitância e capacidade térmica do envelope, na segunda configuração a edificação atende à classificação Nível A, conforme o RTQ-R e, na terceira configuração, atende aos exigentes requisitos da Passive House. Posteriormente apresentamos os resultados da classificação do nível de eficiência energética da envoltória, a análise do consumo de energia e o desempenho térmico dos modelos testados utilizando o software de simulação dinâmica Energy Plus®.

Cabe ressaltar que uma simulação de desempenho térmico de uma edificação é a representação simplificada de uma realidade, como também a análise das trocas térmicas desta edificação com o ambiente onde está inserida.

Objeto de estudo

O objeto de estudo é uma residência unifamiliar com 126,45m² distribuídos em dois pavimentos (figura 1). No térreo estão a cozinha e a sala de estar integradas, solário, dois dormitórios e banheiro, e no pavimento superior, área de trabalho, área técnica e lavabo (11). Este projeto arquitetônico tem servido de referência no processo de análise do padrão alemão de eficiência energética Passive House ao contexto climático do sul do Brasil, justificando sua escolha. A edificação foi orientada sobre o eixo leste-oeste, a fim de obter maiores ganhos de radiação solar no inverno através da fachada norte e reduzir os ganhos solares das fachadas leste e oeste no verão. A área envidraçada corresponde a 13,56% da área opaca da edificação, sendo que as maiores aberturas estão orientadas para norte. Todas as esquadrias possuem elementos de proteção solar que permitem o controle seletivo da radiação.

Figura 1 – Plantas baixas dos pavimentos térreo e superior

Configuração e simulação térmica da edificação

O estudo tem o objetivo de verificar o nível de eficiência energética dos modelos, através do método de simulação do RTQ-R, e compreender o comportamento da edificação, quanto ao desempenho térmico, com um envelope atendendo três normativas: 1) NBR 15.575/2013; 2) RTQ-R, com classificação de eficiência energética nível A; e, 3) Passive House, utilizando as recomendações para o clima do sul da Europa. Para tanto foi realizada uma simulação térmica utilizando o software Energy Plus®, versão 8.3 com interface gráfica do SketchUp 2015 e com o plugin Legacy Open Studio 1.0.13 (figura 2).

Figura 2 – Vista externa da edificação modelada

O estudo utilizou o arquivo climático da cidade de Curitiba-PR, localizada na zona bioclimática 1 (ZB1), zona mais fria do Brasil. A temperatura média anual de Curitiba-PR é de 17,39ºC, sendo que fevereiro é o mês mais quente, com temperatura média 20,9ºC, e junho é o mês mais frio, com temperatura média de 14,7ºC. As características climáticas são apresentadas na tabela 2.

O arquivo climático utilizado nas simulações foi disponibilizado pelo Laboratório de Eficiência Energética em Edificações (LABEEE), elaborado por Maurício Roriz (ANTAC – GT Conforto e Energia) mediante dados registrados pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) no período de 2001 a 2010 (12).

Tabela 2 – Dados climáticos de Curitiba – ZB1 TBS= Temperatura de Bulbo seco; UR=Umidade relativa

Foram simulados três modelos, variando a transmitância térmica (U) do envelope, de forma a atender aos limites mínimos exigidos pela NBR 15575/2013, RTQ-R (nível A) e pela Passive House (tabela 3).

Tabela 3 – Características do envelope nos três casos analisados U = Transmitância térmica (W/m²K); a = absortância para radiação solar

Para realizar o balanço térmico da edificação foi necessário definir as condições de uso e ocupação dos ambientes, as cargas de iluminação e equipamentos, como também o desempenho do sistema de ar condicionado. Essas definições devem ser baseadas em condições reais de uso e ocupação ou em regulamentos e normas existentes. As características de uso, ocupação e equipamentos dos modelos utilizados neste trabalho foram configuradas de acordo com o RTQ-R – Regulamento de Eficiência Energética para edifícios residenciais – Requisitos Técnicos para a Qualidade do Nível de Eficiência para Edifícios Residenciais (13).

Para classificação do nível de eficiência energética a edificação foi necessária a configuração da edificação em duas condições: ventilada naturalmente e condicionada artificialmente.

Os modelos ventilados naturalmente foram configurados com uma temperatura de termostato para abertura de janelas de 20ºC, quando a temperatura externa for inferior à temperatura interna. A ventilação ocorre durante todo o período de simulação, que corresponde às 8760 horas do ano.

Os modelos condicionados artificialmente foram configurados com sistema de climatização nos ambientes de permanência prolongada no período noturno, das 21h00min ás 8h00min. O sistema de condicionador de ar possui um COP de 2,75 W/W para aquecimento e de 3,0 W/W para refrigeração. No período diurno é definida a ventilação natural, das 8h00min ás 21h00min, controlada conforme descrito anteriormente.

O modelo acordando com a Passive House foi climatizado por um sistema de ventilação mecânica com recuperador de calor, configurado ativo 24 horas durante todo o período de simulação. Neste modelo não foi considerada a ventilação por abertura de janelas, apenas infiltração de 0,6 h-1, valor máximo permitido pela Passive House. O sistema possui um fluxo de ar constante de 0,4 h-1 e com possibilidade de by-pass até uma vazão máxima que garanta uma renovação de 0,8 h-1. A recuperação de calor possui eficiência de 84%, ativa para um setpoint de temperatura 20-26ºC. Quando a temperatura está fora dos limites de setpoint a configuração da climatização deve ser realizada com a previsão de um sistema de condicionador de ar com coeficiente de performance (COP) de 1 W/W.

Cabe esclarecer na definição das condições de contorno das simulações computacionais, a importância da análise da edificação ser realizada de acordo com o RTQ-R (Requisitos técnicos para a qualidade do nível de eficiência energética de edificações residenciais) que regulamenta e classifica o nível de eficiência energética de uma edificação. Esta análise se justifica pela necessidade de entendermos se a edificação modelada segundo a NBR 15.575/2013 é eficiente energeticamente de acordo com o RTQ-R.

Projetar um edifício que atende à NBR 15575 representa um projeto eficiente energeticamente?

Na avaliação do desempenho da envoltória utilizamos o método de simulação do RTQ-R, que implica em simular a edificação em duas condições: ventilada naturalmente e condicionada artificialmente. O desempenho da edificação sob avaliação foi comparado com os valores de referência das tabelas de classificação de acordo com a zona bioclimática (14). Também foram atendidos os pré-requisitos estabelecidos pelo programa e pelo arquivo climático utilizado na simulação (15). Para simular a edificação ventilada naturalmente foram comparados os indicadores de graus-hora de resfriamento (GHR) dos ambientes de permanência prolongada com os níveis de eficiência das tabelas de classificação. A temperatura-base para o cálculo dos graus-hora de resfriamento é de 26 ºC.

O procedimento da avaliação da edificação condicionada artificialmente compara os consumos para aquecimento (CA) e para refrigeração (CR) dos ambientes de permanência prolongada com os níveis de eficiência das tabelas de classificação. A tabela 4 apresenta os valores utilizados para a classificação do nível de eficiência energética das zonas bioclimática 1.

Tabela 4 – Classificação pelo método de simulação – ZB1 EqNum: Equivalente numérico – GHR: Graus hora de resfriamento – CR: Consumo de Resfriamento / CA: Consumo de aquecimento

De acordo com o RTQ-R, a classificação do nível de eficiência energética da envoltória da edificação é realizada através de uma ponderação entre o desempenho de verão e de inverno, de acordo com cada zona bioclimática do país. No caso de Curitiba, temos uma ponderação considerando 8% para o desempenho de verão e 92% para o desempenho no inverno. De acordo com a pontuação final obtida no equivalente numérico da envoltória (EqNumEnv) é atribuída uma classificação que varia do nível A (mais eficiente) ao E (menos eficiente).

O mesmo método de classificação foi utilizado para a determinação do nível de eficiência energética da envoltória considerando a utilização do sistema de ventilação mecânica com recuperador de calor (MVHR).

Na análise do edifício residencial modelado para atender à configuração mínima da NBR 15575/2013, foi obtido nível de eficiência energética D. A tabela 5 indica que o resultado do número de graus-hora fica próximo a zero nos três ambientes, o que indica que o edifício reponde bem aos desafios no período de verão com um desempenho nível A. Ela também indica que, no período frio, o desempenho é ruim, pois os resultados de consumo de aquecimento foram muito altos, com nível de eficiência energética D. Os resultados do consumo de refrigeração são apenas informativos.

Para a classificação do nível de eficiência energética da envoltória, foi realizada a ponderação entre o nível de eficiência energética no verão e inverno. No verão a edificação obteve desempenho nível A, com equivalente numérico igual a 5, que corresponde a de 8% da classificação final. No inverno a edificação obteve classificação nível D, com equivalente numérico igual a 2, e que corresponde a 92% da classificação final. Assim, a eficiência energética final da envoltória da edificação foi classificada em nível D.

Tabela 5 – Avaliação do nível de eficiência energética da edificação caso base (atende à NBR 15575/2013)

Para a obtenção do nível A foram necessárias algumas alterações no envelope do edifício, com o objetivo de melhorar o seu desempenho no inverno. Os vidros simples foram substituídos por vidros duplos com transmitância térmica de 1,66 (W/m²K), que reduz perdas de calor do ambiente interior, e com fator solar de 0,55, que possibilita ganhos de calor através da radiação solar. Foi aumentada a absortância solar das paredes externas, passando de 0,2 (cor branca), para 0,4 (cor verde clara), para absorver mais radiação solar. Com o objetivo de reduzir as perdas de calor do interior para o exterior da edificação, foram acrescentados 6 cm de isolamento térmico em todo o envelope da edificação, assim, os valores de transmitância térmica, calculados pelo software EnergyPlus, foram de 0,59 (W/m²K) nas paredes, 0,60 (W/m²K) na cobertura e 0,66 (W/m²K) na laje de piso. Com esta solução de envelope os resultados obtidos, descritos na tabela 6, ficaram abaixo dos limites para nível A, de acordo com o RTQ-R, classificando a edificação em nível A.

Tabela 6 – Avaliação do nível de eficiência energética da edificação Nível A (atende ao RTQ-R)

Também foi feita a análise do nível de eficiência energética da envoltória da Passive House, e, utilizando o sistema de ventilação mecânica com recuperador de calor, conforme descrito anteriormente. Na tabela 7 observamos que os resultados de graus-hora de resfriamento e consumo de aquecimento ficaram abaixo dos limites para nível A (RTQ-R), classificando a edificação em nível A.

Tabela 7 – Avaliação do nível de eficiência energética da edificação Passive House

Com isso, observamos que o consumo de aquecimento do modelo Passive House foi de apenas 4,29 (kWh/m²a), o que representa uma redução de aproximadamente 90% do consumo em relação ao modelo atendendo aos requisitos mínimos de desempenho da NBR 15.575/2013, no qual o consumo de aquecimento foi de 49,14 (kWh/m²a).

Em comparação com o modelo Nível A, conforme o RTQ-R, que obteve um consumo de energia para aquecimento de 15,60 (kWh/m²a), a redução do consumo de energia para aquecimento da Passive House é de aproximadamente 70%. Além disso, o uso de um sistema de ventilação com recuperador de calor, garante um conforto térmico durante 24 horas, enquanto o modelo Nível A é climatizado apenas durante o período noturno. Os consumos e energia dos modelos podem ser verificados na tabela 8 e na 

Tabela 8 – Consumos de aquecimento e refrigeração dos modelos

Figura 3 – Consumos de aquecimento e refrigeração dos modelos

De acordo com o RTQ-R vale observar que o simples atendimento das exigências mínimas da NBR 15575/2013 ainda está muito aquém das demandas de qualidade e eficiência energética das edificações de uso habitacional.

Respondendo à pergunta proposta no título

Utilizando os modelos naturalmente ventilados, foi realizada uma análise do conforto térmico dos usuários da edificação, através modelo adaptativo da ASHRAE Standard 55 (16). A norma define faixas de conforto térmico em relação à temperatura neutra ou temperatura de conforto, a qual depende da temperatura externa, para índices de 90% e 80% de aceitabilidade respectivamente. Através da análise das temperaturas ao longo do ano (figura 4) observa-se, que a edificação Passive House permanece na maior parte do tempo dentro dos limites do conforto adaptativo com nível de aceitação de 80%, ficando abaixo dos limites de apenas em um pequeno período no mês de junho, que é o mês mais frio do ano na cidade de Curitiba-PR. Os modelos com a envoltória acordando com a NBR 15.575/2013 e Nivel A, ficam abaixo dos limites de conforto na maior parte do ano.

Figura 4 – Temperaturas anuais internas e externa em relação aos limites da ASHRAE 55 (2010) – Modelo ventilado

A figura 5 apresenta os resultados da análise do percentual de horas em conforto térmico considerando todas as horas do ano, com um índice de 80% de aceitabilidade estabelecidos pela ASHRAE 55 (2010). De acordo com a NBR 15575/2013, a edificação obteve 20,95% de conforto térmico em todas as horas do ano, sendo que obteve 79,05% de desconforto por frio. A edificação Nível A, acordando com o RTQ-R, obteve 32,37% de conforto térmico e 67,63% de desconforto por frio. Por sua vez, a edificação Passive House obteve 62,37% de conforto térmico, com 37,63% de desconforto por frio. Nenhum dos casos apresentou desconforto por calor.

Figura 5 – Percentual de horas em conforto e desconforto dos modelos ventilados naturalmente

A edificação Passive House (super-isolada) demanda condicionamento de ar em 37,63% das horas do ano, enquanto a edificação que atende à norma NBR 15575/2013 demanda condicionamento artificial em aproximadamente 80% das horas do ano.

A edificação concebida de acordo com a NBR 15575 apresentou 16.073 graus-hora de aquecimento, utilizando as temperaturas limites do conforto adaptativo, enquanto a edificação nível A apresentou 5.902 e a edificação Passive House apresentou 1.295 horas-grau de aquecimento. O resultado de graus-hora de resfriamento dos modelos foi nulo.

A diferença de desempenho entre os dois envelopes testados é muito grande, e revela um baixo nível de exigência da norma brasileira NBR 15575/2013 quanto ao desempenho térmico das edificações.

Considerações finais

Em linhas gerais o estudo apresenta um panorama preocupante para a cidade de Curitiba-PR, analisada neste estudo, quanto a baixa exigência do desempenho térmico das edificações residenciais estabelecido pela NBR 15575/2013. Alinhada com a abordagem sistêmica do desempenho térmico do ambiente construído, a comparação dos resultados da simulação com duas configurações do envelope – uma atende aos requisitos mínimos estabelecidos pela  NBR 15575/2013, outra aos limites estabelecidos pela Passive House adaptados para climas quentes – demonstra a distância existente entre os dois envelopes e a impossibilidade de produzir edifícios habitacionais efetivamente responsivos e adaptados ao clima e aos hábitos e valores de seus futuros usuários.

O estudo possibilita concluir que não basta atender aos requisitos mínimos da NBR 15.575/2013 para garantir o conforto térmico e elevado nível de eficiência energética das edificações de uso habitacional na zona bioclimática 1. Ele também evidencia que o desempenho de uma edificação residencial cujo envelope atende à Passive House obteve 62,37% de conforto térmico durante todas as horas do ano, enquanto que o envelope caracterizado para atender ao nível A do RTQ-R apresentou 32,37%, e simplesmente para atender à NBR 15575 apresentou apenas 20,95% das horas do ano em conforto térmico.

Os resultados permitem contestar o entendimento das construtoras de que produzem imóveis diferenciados apenas atendendo aos requisitos mínimos prescritos pela NBR 15575/2013. Um entendimento preocupante, uma vez que evidencia falta de compreensão ou descaso dos projetistas e construtores com as demandas dos usuários reais, como se esses fossem uma categoria homogênea cujas ações são imaginariamente e irrealisticamente prescritas ou projetadas. Ao se basearem em usuários projetados – seres imaginários que não correspondem aos usuários reais, cujos hábitos, gostos específicos, competências, motivações, aspirações e preconceitos políticos são definidos por eles (17) – projetistas e construtores desconsideram os usos e significados inventados pelos múltiplos [e diversos] usuários, em sua maioria completamente diferentes daqueles prescritos nos roteiros fabricados dos usuários. Desconhecem as dificuldades e os esforços dispendidos pelos usuários reais para sobreviver com algum conforto em suas habitações.

Mas o interesse em saber como os usuários reais consomem, modificam, domesticam, projetam, reconfiguram e resistem aos edifícios e aos seus dispositivos e tecnologias; em saber o que os usuários fazem com eles, uma vez que não existe um uso correto ou essencial – talvez possa existir um uso dominante, prescrito ou que sirva de garantia pelo construtor (18) – é assunto para futuros estudos, eventos, livros e artigos e transcende os limites e objetivos deste artigo.

notas

1
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 15575: edifícios habitacionais: desempenho. Rio de Janeiro, ABNT, 2013.

2
INSTITUTO NACIONAL DE METROLOGIA, NORMATIZAÇÃO E QUALIDADE INDUSTRIAL. Regulamento Técnico da Qualidade para o Nível de Eficiência Energética de Edificações Residenciais, RTQ-R. Brasil, Eletrobrás/Inmetro, 2012.

3
PARLAMENTO EUROPEU E CONSELHO DA UNIÃO EUROPEIA. Directiva 2010/31/UE do Parlamento Europeu e do Conselho de 19 de Maio de 2010 relativa ao desempenho energético dos edifícios (reformulação). Jornal Oficial da União Europeia, 2010.

4
PASSIPEDIA. The world’s first Passive House, Darmstadt-Kranichstein, Germany <http://passipedia.org/examples/residential_buildings/single_-_family_houses/central_europe/the_world_s_first_passive_house_darmstadt-kranichstein_germany>.

5
PASSIVE HOUSE INSTITUTE. Certified Passive House – Certification Criteria For Residential Passive House Buildings, 2013 <http://passiv.de/downloads/03_certification_criteria_residential_en.pdf>.

6
PASSIVE-ON PROJECT. A Norma Passivhaus Directrizes De Projecto Para Casas Confortáveis De Baixo Consumo Energético. Revisão De Casas Confortáveis De Baixo Consumo Energético, 2007.

7
MCLEOD, R., MEAD, K., STANDEN, M. Passivhaus primer: Designer’s guide A guide for the design team and local authorities <http://www.passivhaus.org.uk/filelibrary/Primers/KN4430_Passivhaus_Designers_Guide_WEB.pdf>.

8
PASSIVE-ON PROJECT. Op. cit.

9
MCLEOD, R., MEAD, K., STANDEN, M. Op. cit.

10
WASSOUF, M. Da casa passiva à norma Passivhaus: a arquitetura passiva em climas quentes. Barcelona, Gustavo Gili, 2014.

11
DALBEM, R.; KNOP, S.; GRALA DA CUNHA, E.; OLIVEIRA, R.; RODRIGUES, M. F.; ROMEU, V. Verification of the Passive House Concept to the South of Brazil Climate. Journal of Civil Engineering and Architecture, v. 10, 2016, p. 937-945.

12
INSTITUTO NACIONAL DE METEOROLOGIA. BRA_PR_Curitiba.838420_INMET, 2016 <www.labeee.ufsc.br/downloads/arquivos-climaticos/inmet2016>.

13
INSTITUTO NACIONAL DE METROLOGIA, NORMATIZAÇÃO E QUALIDADE INDUSTRIAL. Regulamento Técnico da Qualidade para o Nível de Eficiência Energética de Edificações Residenciais, RTQ-R. Brasil, Eletrobrás/Inmetro, 2012.

14
Idem, ibidem.

15
PBE EDIFICA. Tabelas de Classificação Pelo MÉTODO DE SIMULAÇÃO <www.pbeedifica.com.br/etiquetagem/residencial/simulacao>.

16
ASHRAE STANDARD 55 – 2010. Thermal Environmental Conditions for Human Occupancy. American Society of Heating, Refrigerating and Air-Conditioning Engineers, Inc. Atlanta, GA, 2010.

17
AKRICH, Madeleine. Apud Christina Lindsday. From the Shadows: Users as Designers, Producers, Marketers, Distributors, and Technical Support. In OUDSHOORN; PINCH (ed.) How Users Matter: The Co-Construction of Users and Technology. Cambridge, The MIT Press, 2005, p. 29-50.

18
OUDSHOORN, N.; PINCH, T. Introduction. In OUDSHOORN; PINCH (ed.). Op. cit., p. 1-25.

sobre os autores

Renata Dalbem é arquiteta e urbanista pela Universidade de Passo Fundo, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pelotas na área de conhecimento Qualidade e Tecnologia do Ambiente Construído, atua no grupo de pesquisa Eficiência Energética e Qualidade do Projeto de Arquitetura

Eduardo Grala da Cunha é arquiteto, doutor, professor adjunto da Universidade Federal de Pelotas, Programa de Pós-Graduação em Arquitetura, Pós-Doutorado pela Universidade de  Kassel, Alemanha (2008), lider do grupo de pesquisa Eficiência Energética e Qualidade do Projeto de Arquitetura, bolsista produtividade 2 CNPq.

Paulo Afonso Rheingantz é arquiteto, doutor, professor associado [aposentado] Programa de Pós-graduação em Arquitetura da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Professor Visitante do Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pelotas, bolsista produtividade 1D CNPq.

Romeu Vicente é engenheiro civil, professor associado do Departamento de Engenharia Civil da Universidade de Aveiro, Membro da Comisão Executiva do Departamento de Engenharia Civil e Membro da Direção da Passivhaus Zero Energy – Plataforma Portuguesa.

Antonio César Silveira Baptista da Silva é arquiteto, doutor, professor associado da Universidade Federal de Pelotas, Programa de Pós-Graduação em Arquitetura, coordenador do Laboratório de Conforto e Eficiência Energética e do Laboratório de Inspeção de Eficiência Energética em Edificações.

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211.00 patrimônio ambiental urbano

Cidade, patrimônio, herança e inclusão

Em busca de novos instrumentos

Nadia Somekh

211.01 planejamento urbano

Outorga Onerosa do Direito de Construir

Natureza jurídica e justiça social

Andréia Leal Ferro e José Marques Carriço

211.02 materiais sustentáveis

Critérios para seleção de materiais mais sustentáveis

Aprimoramento do instrumento ISMAS

Cláudia dos Santos Pereira, Caroline Proscholdt Zamboni, Lucas Martinez da Costa, Márcia Bissoli-Dalvi e Cristina Engel de Alvarez

211.04 história

Convivendo com a megalomania em concreto

Os bunkers nazistas e a cidade de Saint Nazaire

Carlos Smaniotto

jornal


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