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drops ISSN 2175-6716

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Abilio Guerra, em crônica que mistura irritação e bom humor, descreve o uso da casa como expressão do status social em total contradição com os interesses coletivos, descartando a gentileza necessária ao convívio urbano.

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GUERRA, Abilio. Do vizinho: como Jacques Tati e Michel Foucault podem explicar a boçalidade do novo-riquismo. Crônicas de andarilho 10. Drops, São Paulo, ano 17, n. 112.06, Vitruvius, jan. 2017 <http://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/17.112/6383>.



No filme Mon Oncle, de Jacques Tati, há uma cena impagável. Monsieur Hulot, protagonizado pelo próprio diretor, chega diante da casa do cunhado e observa o muro e o portão altos, impedindo a vista para a propriedade. Toca a campainha e, após alguns instantes, ouve o barulho d’água. O portão finalmente se abre e uma empregada paramentada o conduz pelo jardim, onde se vê um inacreditável chafariz na forma de peixe-espada cuspindo água numa fonte. O cunhado, com braços à cintura, o espera diante da casa cubista, com duas janelas circulares aos moldes de escotilhas náuticas no pavimento superior, uma carranca antropomórfica observando de forma severa o visitante inconveniente. Descrevo de memória, faz muitos anos que assisti ao filme, mas se você assistiu ao filme e discorda de mim, querida leitora solitária, fique certa que sua versão não é a verdadeira...

A conservadora e um tanto rançosa crítica à arquitetura moderna é muito divertida. No final dos anos 1950, quando realizou o filme, o alvo primeiro da gozação de Tati era Le Corbusier, Pierre Chareau, Jean Prouvé e outros enfants terribles da geração de arquitetos funcionalistas que construía formas prismáticas com concreto, aço e vidro, espaços anódinos, incapazes de abrigar vivências ruidosas e apaixonadas. O cineasta viria a demonstrar seu horror pelos espaços funcionalistas em Playtime, onde a transparência dos escritórios empresariais abriga postos de trabalho enclausurados em divisórias estandardizadas. Em uma cena memorável, Monsieur Hulot – novamente ele! – observa de cima os funcionários ensimesmados, como coelhos em suas tocas, trabalhando doentiamente para seu cunhado – novamente ele!

Imagino que em 1967, ano do lançamento de Playtime, em algum cinema pulguento e esfumaçado de Paris um sujeito careca estatelado na poltrona carcomida por cupins olha extasiado a cena enquanto descansa das jornadas alternadas entre leituras e escritura do livro que só publicará oito anos depois. Estou falando de Michel Foucault e de seu livro divisor de época, Vigiar e punir. Sua descrição dos mecanismos de introjeção do controle disciplinar no mundo moderno parte do modelo consagrado de vigilância penitenciária, o Panóptico de Bentham, onde uma torre com janelas de vidro hermeticamente fechadas abriga olhos que vigiam os presos em suas celas. A cena de Tati é a encarnação do conceito e não venha ninguém me dizer que fico inventando coisas.

Mas vamos deixar a empresa do cunhado e voltar à sua residência, à sua pose de braços na cintura, à sua certeza da imbecilidade de Monsieur Hulot, inepto para entender e usufruir das conquistas da modernidade. Convida o parente indesejado, contrapeso que veio junto com a esposa bela, recatada e do lar, para entrar em sua casa dos sonhos, e a cada passo, a cada cômodo, a cada equipamento mecânico – todos aqueles reluzentes eletrodomésticos que cortam, trituram, torram, fritam e tornam confortável a vida doméstica – aparecem as chances para as frases de autoelogio que ridicularizam o coitado e imprestável Hulot – afinal, para o cunhado, ele não era um “Monsieur”. Aqui nos deparamos com a maestria do artista, que nos revela o verdadeiro alvo de sua ironia ácida: o burguês que entendeu muito rápido as formas de exploração e os mecanismos de representação do seu novo status social histórico. As cenas revelam a cada fotograma quem é verdadeiramente o dono da empresa, o dono da casa e da esposa, o dono do dinheiro: um vencedor cujo único objetivo na vida é mostrar ao vencido quem ele é.

Todas essas considerações para falar da casa de uma prima querida, situada em uma vila com casinhas assobradadas, encostadas umas às outras em medianeira, com cul-de-sac e automóveis estacionados na rua calçada com paralelepípedos, onde crianças correm no final da tarde, entrando em saindo de suas casas, se escondendo nos jardins minúsculos do recuo frontal de algumas unidades, sendo chamadas pelos pais para tomarem banho antes do jantar. Quando todos os membros das famílias já assistiram televisão e escovaram os dentes, vão para suas camas e não se esquecem de fechar as venezianas das janelas. Depois da meia-noite, no meio da penumbra da ruazinha estreita, quem chega atrasado pisa macio e não fala ao celular, pois quem não incomoda não é incomodado.

Esse paraíso está encravado em pleno Jardim Paulista, a poucas quadras da Avenida Paulista. Décadas atrás morava ali uma tia – mãe da minha prima, como não poderia deixar de ser –, que me deixava acreditar que ali também era a minha casa, ao menos quando vinha de Campinas para São Paulo em meu tempo de universidade. Comento isso, caríssima leitora, para que você não pense que falo de coisas que não me dizem respeito.

Pois bem, vamos agora na jugular, sem tato ou aviso. Um rapaz, com muito dinheiro, comprou a casa ao lado do solar da minha prima, demoliu e construiu no lugar uma casa envidraçada, enorme em todos as direções e em todos os sentidos, uma “mansão” anacrônica cheia de espaços transparentes onde se expõe a toda hora e por qualquer motivo, como uma espécie de reizinho da vila. Fala alto, faz festas ruidosas, ironiza os vizinhos que enxerga como aldeões pobretões, atrasados, idiotas, incultos. Tal como o cunhado burguês de Monsieur Hulot, construiu seu mundo para mostrar aos vizinhos quem ele é. Na verdade, é ele o motivo do escárnio consciente ou involuntário dos que têm que conviver com ele à revelia, como é o caso da arrumadeira que perguntou sorrindo – sem que se soubesse se zombeteira ou ingênua – se ali funcionava uma clínica veterinária. Bem, o burguês está nu.

[22 de outubro de 2016]

nota

NA – Décima publicação da série “Crônicas de andarilho”, com textos originalmente publicados no Facebook. Artigos da série:

GUERRA, Abilio. Cinco cenas paulistanas. Crônicas de andarilho 1. Minha Cidade, São Paulo, ano 15, n. 179.01, Vitruvius, jun. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/15.179/5561>.

GUERRA, Abilio. Dez cenas paulistanas. Crônicas de andarilho 2. Minha Cidade, São Paulo, ano 15, n. 180.02, Vitruvius, jul. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/15.180/5595>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: a velocidade nas marginais e outros assuntos. Crônicas de andarilho 3. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 181.03, Vitruvius, ago. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.181/5637>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: caipirice, regionalismo, erudição, cidadania, obra pública e mobiliário urbano. Crônicas de andarilho 4. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 183.01, Vitruvius, out. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.183/5735>.

GUERRA, Abilio. Dez cenas paulistanas: bicicletas, escadarias, caminhadas, rios ocultos, escolas, resiliência, diálogo. Crônicas de andarilho 5. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 185.02, Vitruvius, dez. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.185/5830>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: lixo, lixeiros, orelhão, quadro com vidro trincado, estátuas urbanas, praia de asfalto e Mario de Andrade. Crônicas de andarilho 6. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 187.03, Vitruvius, fev. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.187/5932>.

GUERRA, Abilio. Memórias do futuro: sobre a recusa de se ver o óbvio. Crônicas de andarilho 7. Drops, São Paulo, ano 17, n. 103.02, Vitruvius, abr. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/17.103/5982>.

GUERRA, Abilio. Oito cenas paulistanas: política, política cultural e urbanidade. Crônicas de andarilho 8. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 191.03, Vitruvius, jun. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.191/6050>.

GUERRA, Abilio. Do nome das coisas: qual o motivo para mudar o nome do Elevado Costa e Silva? Crônicas de andarilho 9. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 193.06, Vitruvius, ago. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.193/6167>.

GUERRA, Abilio. Do vizinho: como Jacques Tati e Michel Foucault podem explicar a boçalidade do novo-riquismo. Crônicas de andarilho 10. Drops, São Paulo, ano 17, n. 112.06, Vitruvius, jan. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/17.112/6383>.

GUERRA, Abilio. Do higienismo: sobre as práticas urbanísticas do século 19 em pleno século 21. Crônicas de andarilho 11. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 198.04, Vitruvius, jan. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.198/6385>.

GUERRA, Abilio. Do gênero na fala popular. Crônicas de andarilho 12. Arquiteturismo, São Paulo, ano 11, n. 122.05, Vitruvius, maio 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/11.122/6540>.

GUERRA, Abilio. Do táxi. Crônicas de andarilho 13. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 202.05, Vitruvius, maio 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.202/6541>.

GUERRA, Abilio. Três crônicas sobre a arte e a vida. Crônicas de andarilho 14. Minha Cidade, São Paulo, ano 18, n. 206.05, Vitruvius, set. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/18.206/6712>.

GUERRA, Abilio. Do sadomasoquismo. Crônicas de andarilho 15. Drops, São Paulo, ano 18, n. 124.01, Vitruvius, jan. 2018 < www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.124/6820>.

GUERRA, Abilio. Do cordão de isolamento: ano novo, realidade arcaica. Crônicas de andarilho 16. Arquiteturismo, São Paulo, ano 11, n. 129.06, Vitruvius, dez. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/11.129/6822>.

GUERRA, Abilio. Do choro – entre lágrimas e música. Crônicas de andarilho 17. Minha Cidade, São Paulo, ano 18, n. 212.04, Vitruvius, mar. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/18.212/6923>.

GUERRA, Abilio. Da cavalaria de hoje e de antigamente. Crônicas de andarilho 18. Drops, São Paulo, ano 18, n. 126.06, Vitruvius, mar. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.126/6926>.

GUERRA, Abilio. Da inveja infame: a trajetória histórica de Lula e a viagem pela metrópole de um casal qualquer. Crônicas de andarilho 19. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 133.03, Vitruvius, abr. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.133/6953>.

GUERRA, Abilio. Do andaime. Crônicas de andarilho 20. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 134.04, Vitruvius, maio 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.134/6984>.

GUERRA, Abilio. Da dobradura. Crônicas de andarilho 21. Drops, São Paulo, ano 18, n. 129.05, Vitruvius, jun. 2018 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.129/7033>.

GUERRA, Abilio. Das estradas da vida. Crônicas de andarilho 22. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 136.05, Vitruvius, jul. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.136/7049>.

GUERRA, Abilio. Da ilha longínqua. Crônicas de andarilho 23. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 137.05, Vitruvius, ago. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.137/7079>.

GUERRA, Abilio. Dos sem teto. Crônicas de andarilho 24. Drops, São Paulo, ano 19, n. 134.02, Vitruvius, nov. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/19.134/7164>.

GUERRA, Abilio. Da casa prototípica. Crônicas de andarilho 25. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 140.05, Vitruvius, nov. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.140/7165>.

sobre o autor

Abilio Guerra é professor de graduação e pós-graduação da FAU Mackenzie e editor, com Silvana Romano Santos, do portal Vitruvius e da Romano Guerra Editora.

 

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