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drops ISSN 2175-6716

sinopses

português
A reflexão crítica sobre a prática se torna uma exigência da relação teoria/prática sem a qual a teoria pode ir virando um blábláblá e a prática, ativismo.

english
Critical reflection on practice becomes a requirement of the relation theory / practice without which theory can become a blablabla and practice, activism.

español
La reflexión crítica sobre la práctica se convierte en un requisito de la teoría / práctica sin la cual la teoría puede ir convirtiendo un bla, bla, bla y la práctica, el activismo.

como citar

SILVA, Marcos Antonio Francelino da. Não há docência sem discência. Uma crítica ao ensino de Arquitetura e Urbanismo. Drops, São Paulo, ano 17, n. 116.04, Vitruvius, maio 2017 <http://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/17.116/6527>.



É necessário antes de tudo afirmar a educação como um processo continuo, onde forma-se e reforma-se formando-se e sendo formado. Dito isso, se na minha formação aceito que o formador é um sujeito e que eu sou o objeto ao qual a ele cabe a tarefa de formar, torno-me eu um vaso que será preenchido pelos conhecimentos-conteúdos acumulados pelo meu formador (que sabe) e que são passados a mim que nada sei. Essa concepção de formação deve ser extinta. É preciso que, pelo contrário, desde o começo do processo, vá ficando cada vez mais claro que, embora diferentes entre si, quem forma se re-forma ao formar e quem é formado forma-se e forma ao ser formado. Os sujeitos apesar das diferenças não se reduzem a condição de objeto um do outro.

Ensinar não é transferir conhecimentos ou conteúdo, educadores não são deuses que formam objetos e a eles dão alma e transferem saberes, ensinar é um processo onde quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina a aprender. Ensinar é mais do que um verbo transitivo-relativo. Ensinar inexiste sem aprender e vice-versa, e foi aprendendo que homens e mulheres aprenderam que era possível ensinar.

Uma crítica ao ensino de arquitetura e urbanismo

É necessária a conscientização do papel social da arquitetura, que começa dentro das escolas. Porém, diversos são os mecanismos de aprendizagem equivocada que impedem essa conscientização.

As condições recentes do dito mercado educacional brasileiro abriram um caminho propicio ao crescimento das instituições privadas do setor educacional, reflexo disso em menos de uma década o número de cursos de arquitetura e urbanismo dobrou, hoje os são mais de 540 cursos espalhados por todo o país abrigando mais de 100 mil estudantes. Estas novas ingressantes experimentam um mundo que muda constantemente, softwares que são atualizados quase que diariamente e o compartilhamento de informações a um clique, entretanto acontece algo inaceitável, um modelo educacional em que alunos do século XXI são ensinados por professores do século 20.

A maioria dos estudantes admitem regularmente passar noites em claro, pular refeições, renunciar atividades sociais extracurriculares e exercícios físicos, a fim de concluir projetos dentro do prazo. Nestes casos, a motivação vem da esperança de produzir um projeto melhor a tempo, o que, evidentemente, supera os efeitos adversos sobre a saúde mental e física desses comportamentos. Segundo a União dos Estudante de Pós-Graduação de Arquitetura, Paisagem e Design – GALDSU da Universidade de Toronto (1), os estudantes reconhecem suas maiores fontes de estresse como: carga de trabalho, falta de organização da faculdade, os prazos coincidentes, e interações negativas com os membros do corpo docente. Apenas 3% se sentia como se o corpo docente estivesse fazendo o suficiente para lidar com questões de saúde mental entre os estudantes.

Esse comportamento é reflexo das metodologias, principalmente de projeto, induzem o estudante ao estresse. Essa prática naturalizada constantemente pelas escolas, coordenadores e corpo docente, individualiza estudantes e torna o ambiente que deveria servir para aprendizagem um local onde a competição entre alunos torna-se cenário central das cadeiras de projeto. Esse método de aprendizagem serve tão somente para afastar o discente de qualquer relação de afeto para com a universidade.

Somos todos bons e maus alunos (2). Há boas e más práticas. E se identificamos necessidades especiais nos alunos, reconheçamos necessidade nos professores. Se é verdade que há dificuldades de aprendizagem, também haverá as de ensinagem. E não há alunos deficientes, mas práticas deficientes.

Essa não é uma crítica direta aos professores, contudo, o despertar da atenção do professor será o despertar da atenção do aluno. As escolas dispõem de excelentes professores a trabalhar do modo errado. E acontece o inevitável: doenças, idas ao psiquiatra, ansiedade, de ambos os lados. Educadores precisam saber que não podem transferir conhecimento adquiridos por eles, mas dar condições reais de aprendizagem aos educandos para que estes transformem-se em verdadeiros sujeitos da construção e reconstrução do saber ensinado, tornando ambos educador e aluno igualmente sujeitos do processo de aprendizagem.

Apesar do Ministério da Educação crer que uma escola é um edifício de concreto, e uma crença não se discute, deve ser respeitada, crenças e achismos não deverão ser suportes de política educativa. Escolas são pessoas, um professor não ensina através do que fala ou por estar dentro de uma sala, mas através do que é. A velha escola há de parir uma nova educação. Mas as dores do parto serão intensas, enquanto as “naturalizações”, as “certezas”, as crenças ministeriais, a tecnocracia e a burocracia continuarem a prevalecer em domínios onde deveria prevalecer a pedagogia.

“Está errada a educação que não reconhece na justa raiva, na raiva que protesta contra a injustiça, contra a deslealdade, contra o desamor, contra a exploração e a violência um papel altamente formador”.
Paulo Freire, Pedagogia da autonomia: saberes necessários à pratica educativa

notas

1
União dos Estudante de Pós-Graduação de Arquitetura, Paisagem e Design (GALDSU). Universidade de Toronto. Disponível em <https://issuu.com/joelleon1/docs/galdsu_mentalhealth_report2014> acesso em 05 de maio de 2017.

2
Ver: PACHECO, José. Não é aceitável um modelo educacional em que alunos do século XXI são «ensinados» por professores do século XX, com práticas do século XIX <http://canalc.pt/index.php/2017/04/17/jose-pacheco-nao-e-aceitavel-um-modelo-educacional-em-que-alunos-do-seculo-xxi-sao-ensinados-por-professores-do-seculo-xx-com-praticas-do-seculo-xix> acesso em 05 de maio de 2017.

sobre o autor

Marcos Antonio Francelino da Silva é estudante de Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Alagoas. Pesquisador pela CNPQ no Projeto “Avaliação da produção habitacional de interesse social em Alagoas: aspectos metodológicos e aproximações entre o programa minha casa minha vida e o PAC urbanização de assentamentos precários” até 2014. Diretor de Relações Externas na Federação dos Estudantes de Arquitetura e Urbanismo do Brasil, desde 2015.

 

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116.04 ensino
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