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my city ISSN 1982-9922

abstracts

português
Problemáticas urbanas da cidade do Recife abordadas através da análise do filme O Som ao Redor, do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho, elaborada através da sua estrutura narrativa cinematográfica e sob o olhar da arquitetura da cidade.

english
Urban problems of the city of Recife broached through the analysis of the film The Neighboringsounds, from the pernambucan director, Kleber Mendonça Filho, produced through its narrative structure, cinematic, and under the gaze of the city's architecture.

español
Los problemas urbanos de la ciudad de Recife dirigidos a través del análisis de la película el Sonido Alrededor, del director Kleber Mendonça, elaborado a través de su estructura narrativa de la película y bajo la mirada de la arquitectura de la ciudad.

how to quote

QUEIROZ, Carlos Eduardo Japiassú de; NÓBREGA, Maria de Lourdes Carneiro da Cunha. O Recife d’O som ao redor’. Cidade de muros. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 202.02, Vitruvius, maio 2017 <http://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.202/6519>.



No filme O som ao redor (1), do cineasta Kleber Mendonça Filho, a imbricação dos registros ficcional e documental é surpreendente. Aproximando-se de um regime semi-documental, como uma crônica do território urbano, tangenciando ora o fantástico, ora o policial. Assim, enquanto o registro documental acompanha cenas do cotidiano de uma rua de classe média, onde estaria ocorrendo uma metamorfose urbanística, engendra-se a ele o discorrer progressivo de uma trama que ocupa o mesmo lugar, ou seja, a rua e o bairro, apontando uma espécie de conflito nostálgico entre passado e presente (2).

A crônica é definida pela abordagem de questões pertinentes ao contemporâneo, no tocante às modificações sofridas pelo espaço urbano, como também numa abordagem que leve a efetivar uma reflexão de caráter antropológico acerca das relações estabelecidas neste espaço-tempo: familiares, entre classes e mesmo entre grupos ou segmentos sociais específicos.

Assim, o filme faz um uso original, por exemplo, do corte para o futuro. Uma imagem-signo antecipadora que entrecorta o presente diegético que atribuirá a este uma densidade simbólica. É o caso da cena do banho de cachoeira: a inserção de um plano justaposto de uma “cachoeira de sangue” simbolizará, através de um cromatismo metafórico, uma ideia a ser confrontada no final do filme. O signo “vermelho” assume significância, porém não se dissociando de sua narrativa, a alusão à violência na formação histórica da Zona da Mata do Nordeste pernambucano, centrada em fatores socioeconômicos. Tal viés temático é o motivo central da trama: um assassinato praticado em consequência de uma disputa de terras, e o posterior plano de vingança decorrente dele.

Já a sequência de abertura (com fotografias em preto e branco) afirma-se como signo deste contexto histórico, um momento documental. Contudo, se esta sequência não se conforma na diegese narrativa, um recurso é associado à projeção das imagens fotográficas de maneira a incutir em seu efeito estético a dimensão narrativa. Trata-se da trilha instrumental do Dj Dolores, cuja dramaticidade incide uma tensão nas imagens. Ao pensar na especificidade do signo cinematográfico em sua dupla qualidade, acústica e visual, observa-se uma ação singular da banda sonora em relação às imagens: as fotografias são intrinsecamente documentais, enquanto a música sobressai-se na medida em que impulsiona a narrativa. É, portanto, desde a abertura, que a importância do uso do som na concepção do filme impor-se-á de forma cabal.

O som é usado majoritariamente de modo intradiegético, ou seja, pertence à matéria narrada, cujo sentido é determinado de modo bem mais acentuado pelo contexto e circunstância espaciais onde se passa a narrativa – o “ao redor” do título – que pelo próprio texto desta. Dir-se-ia que a imagem sonora é o elemento que mais intensamente contribui para o sentimento de realismo. Pois, se no plano do conteúdo, a visada da representação de uma contemporaneidade urbana nos põe diante do espaço encarcerado no qual somos obrigados a viver, enrijecendo e limitando as relações sociais, o plano formal acentua a liberdade dos sons, vozes e ruídos, os quais, em sua plenipotência física, ultrapassam grades e muros, criando liames e associações não permissíveis na dimensão de um contato humano.

Foto Lourdinha Nóbrega, abril 2017

No passado, as edificações abriam-se diretamente para a rua. Assim enquanto o transeunte caminhava pela calçada ele era visto pelo usuário do imóvel. Havia o que os urbanistas chamam de “vigilância social”. Todavia, no Recife, esta lógica passou a não mais existir nas áreas verticalizadas, e a região conhecida por Setúbal (bairro de Boa Vigem), cenário do filme, exemplifica essa questão. Caminha-se nas ruas em calçadas limitadas por muros altos, onde não há conexão visual e física entre passeios e edifícios. Ressalte-se que o tema da vigilância social não é um fato novo. Ainda na década de 1960, a jornalista norte-americana Jane Jacobs apontava a importância vital de se permitir uma permeabilidade visual entre espaços públicos e privados (3).

Todavia, em determinadas áreas do Recife a normativa municipal de construção determina o edifício vertical com os primeiros pavimentos não integrados à rua, como estoque de automóveis (4). Assim, o filme discorre neste descompasso das práticas urbanas, suas consequências e tensões sociais derivadas dessa forma não integradora de urbanização.

O espaço que não integra gera uma certeza equívoca que uma rede de vigilância eletrônica e mesmo pessoal, juntamente com os altos muros que cercam as edificações, traria mais segurança. “Cão de guarda” é um dos intertítulos que aparecem no filme e ilustra a importância da vigilância (paga) realizada principalmente pelo personagem Clodoaldo e os outros vigilantes, os quais representam a segurança do local.

Assim, aquilo que preconizava Jane Jacobs é nitidamente exposto, demonstrando que o crescente fenômeno de desvalorização dos espaços públicos urbanos é também consequência da segregação espacial causada pelo complexo de redes de vigilância eletrônica e pelos muros altos e cegos que separam áreas públicas e privadas.

Ao mesmo tempo em que ocorre a segregação espacial do espaço da cidade, também existe a segregação das pessoas. Ocorrem, simultaneamente, as diferenças espaciais e as diferenças sociais. O filme apresenta empregados que vivem e circulam em espaços (ou mundos) diferentes dos seus patrões, mas, na realidade, eles são aqueles que realmente usam os espaços públicos e privados simultaneamente no dia a dia. Eles são os “olhos da rua”.

Paredões do bairro de Boa Viagem, falta de permeabilidade física e visual na ruaFoto Lourdinha Nóbrega, abril 2017

Mora-se intramuros; assim, crianças brincam no condomínio e não na pracinha, ou mesmo na praia tão próxima; pessoas descem com seus animais e passeiam no jardim do prédio e não na rua; praticam-se atividades físicas nas piscinas condominiais. E o condomínio (com suas permanentes reuniões), por sua vez, passa a se constituir como forma de organização social daqueles que habitam o lugar.

Setúbal constituía-se no passado como uma região configurada por ruas casas térreas e raras construções. Converteu-se, ao longo do século 20, em uma área com maior densidade, que abriga altos edifícios multifamiliares. Há nesta e em outras áreas da cidade uma forte especulação imobiliária que promove a troca de antigas residências por empreendimentos verticalizados.

Este processo de verticalização e seu apelo de troca imobiliária têm como principais representantes no filme o personagem João, corretor de imóveis, e Francisco, avô de João, proprietário de grande parte dos imóveis do lugar. Os personagens expõem a prática especulativa e seus embates cotidianos. Estar em um edifício com inúmeros andares é a maneira de morar que é entendida e vendida como o lugar seguro, “o bom lugar”. Lógica esta que faz do personagem Anco (tio de João), que ainda possui a única casa térrea da vizinhança, parecer estranho ao lugar, como também faz com que a personagem, filha de Bia, sonhe com a invasão de sua casa por jovens negros, estereotipados como marginais. Expõe-se assim o conflito cotidiano do medo e das tensões sociais, agregando-se, para tal, os valores (vendidos pela especulação imobiliária) do ambiente construído em que se está.

O filme também resgata, através de imagens representativas do passado de seus personagens, um modo de vida diferente. O ponto central da compreensão do problema que essas imagens visam resgatar parece estar no fato de que o automóvel tem sido o protagonista no planejamento das cidades brasileiras. Este fato, associado a um inadequado sistema de transporte coletivo e a falta de outras alternativas de locomoção, contribui para a dependência do transporte individual. Assim, o cenário que abriga o filme é o dos prédios altos, com inúmeras vagas de garagem. O lugar seguro, além do condomínio fechado, é o carro (simbolicamente roubado na trama).

O automóvel é o protagonista dentre os meios de integração dos habitantes de Setúbal com a cidade, afinal, quem se sente seguro andando a pé em uma rua deserta? A cidade vem sendo construída para o automóvel, essa é a forma de mobilidade das classes mais favorecidas. A rua é então entregue para aqueles que não possuem outra  alternativa de locomoção e precisam utilizá-la no seu dia a dia, a pé, ou seja, vigilantes e domésticas, pessoas de baixo poder aquisitivo, aqueles que realmente circulam e presenciam o lugar no qual as ruas são delimitadas pelo muros altos de edifícios, os quais abrigam em seus pavimentos mais próximos ao chão, andares de garagem.

Promove-se assim uma gradual desertificação do espaço público urbano nas áreas onde os condomínios verticais são erguidos. O filme passa a exemplificar essa prática perversa do urbanismo legislado sem questionamentos.

Croqui estabelecido pela legislação municipal (Lei 16.176-96 e Plano Diretor 2008), altura da base do edifício podendo alcançar 7,5m
Digitalizado pelos autores

“Primeiro moldamos as cidades – então elas nos moldam”, através do entendimento dessa frase-título, o urbanista Jan Gehl explica como as estruturas urbanas influenciam o comportamento humano e a forma de funcionamento das cidades (5). Ele nos diz que o uso que as pessoas fazem dos espaços públicos molda a sua forma. E este espaço também passa a moldá-las. Mas a cidade é um bem comum, a qual deveria ser pertencer a todos e ser conservada por todos. Para que neste espaço as tensões sociais e pessoais possam ser minimizadas, visto que ali se encontra o lugar da coletividade.

A segregação espacial exposta no filme, suas tensões e narrativas, expõe a fragilidade dos seus personagens habitantes e usuários de um espaço que foi moldado para possuir uma arquitetura segregada por muros, que alimenta diferenças sociais e não fortalece as semelhanças, que induz à locomoção automotiva e à especulação imobiliária, e que pouco resta como elemento comum e de possível identidade urbana e humana. O som ao redor demonstra que apenas o som – existente no cotidiano urbano – deste espaço urbanisticamente moldado para inibir experiências sociais, constitui-se como elemento de identidade comum, culturalmente entendida por todos, e que, de alguma forma, representa a identidade humana.

notas

NE – Publicação original: QUEIROZ, Carlos Eduardo Japiassú de; NÓBREGA, Maria de Lourdes Carneiro da Cunha. Registros híbridos: uma análise da estrutura dos filmes “O som ao redor” e “Recife frio”, do diretor Kleber Mendonça Filho. Revista Tempos e Espaços em Educação, São Cristóvão SE, v. 10, n. 21, jan./abr. 2017, p. 77.

1
Som ao redor. Direção de Kleber Mendonça Filho. Brasil, Vitrine Filmes, 2013.

2
Fundamentam os estudos sobre a estrutura narrativa do filme: AUMONT, Jacques; et al. A estética do filme. Campinas, Papirus, 1994; GAUDREAULT, André; JOST, François. A narrativa cinematográfica. Brasília, Editora da UNB, 2009.

3
JACOBS, Jane. Morte e vida de grandes cidades. São Paulo, Martins Fontes, 2007.

4
Plano Diretor da Cidade do Recife (2008) e Lei no 16.176/1996.

5
GEHL, Jan. Cidades para pessoas. São Paulo, Perspectiva, 2013.

sobre os autores

Carlos Eduardo Japiassú de Queiroz é jornalista, atua como  professor adjunto do Departamento de Letras Vernáculas (DLEV) e como professor permanente do Programa Interdisciplinar em Cinema (PPGCINE) da Universidade Federal de Sergipe.

Maria de Lourdes Carneiro da Cunha Nóbrega é arquiteta e urbanista, atua como professora e pesquisadora nas áreas de paisagismo e urbanismo do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Católica de Pernambuco.

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