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LUZ, Vera. Jogos caleidoscópicos em Lina Bo Bardi. Resenhas Online, São Paulo, ano 05, n. 053.01, Vitruvius, maio 2006 <http://vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/05.053/3140>.


Primeiramente impressionam as imagens. O livro de Olívia de Oliveira, editado pela Romano Guerra e Gustavo Gili, nos faz ver o imaginário de Lina Bo Bardi ampliando consideravelmente a iconografia editada – o que é um grande prazer para o estudioso do assunto. Dispõe seus belos desenhos e imagens da arquitetura projetada e construída montando coleções de quadros finamente articulados ao texto. Isto, desde já, é uma preciosidade. Lina Bo Bardi mencionou certa vez seu amor pela coleção de pedras e a estima pelas pedras brasileiras não consideradas preciosas – possível embrião para o desenho de jóias.

O texto de Olívia de Oliveira vai também colecionando imagens a partir de associações de idéias, impressões, analogias. Constrói uma escritura poética particular, uma narrativa livre pautada na observação e leitura das obras, dos desenhos, dos indícios, mais do que a construção estrita de uma estrutura de tese. Esse procedimento convida o leitor à imaginação. O texto aponta para uma rede de possibilidades de significados, sobrepõe camadas chegando, em certos momentos, a flertar com o onírico.

Não fora, muitas vezes, a arquitetura de Lina Bo Bardi também próxima ao onírico e este procedimento poderia nos causar espécie, ou uma certa estranheza; não fora também, muitas vezes, à primeira vista, causa de estranhamento a arquitetura de Lina Bo Bardi? Meditando sobre essa escritura tão particular podemos imaginar que exista, no limite, um certo mimetismo entre o que Olívia de Oliveira destaca do que vê na arquitetura de Lina Bo Bardi e o recurso de seu próprio método narrativo. É provável que, se de fato esta mimese se dá, seja por uma atitude emotiva, uma relação muito afetiva entre o objeto de pesquisa e a pesquisadora.

inegável a impressão que fica, ao ler seu depoimento sobre as obras – vivencial, existencial –, de que haja uma relação de paixão, o que contribui, a nosso ver, para a legitimidade ao texto. A linguagem da paixão é cifrada, individual, cheia de particularidades, permite incursões por territórios e lógicas que a racionalidade não contém. Mas existe também uma dimensão racional implacável na obra de Lina Bo Bardi, racionalidade a qual, ao que nos parece, mede, ordena, calcula, organiza. Talvez o poder da arquitetura de Lina Bo Bardi resida, em grande parte, no controle e rigor da razão sobre a pulsão imaginativa. E estes dois pólos, neste caso, são indissociáveis, embora pareçam paradoxais.

Olívia de Oliveira propõe infinitos jogos de significado, especulares, labirínticos, caleidoscópicos. Por entre a vertigem de idéias e especulações podemos escolher as alternativas que quisermos, não há um texto fechado, convergente. Nessa articulação tecida, uma renda, uma colcha de retalhos, são estabelecidas categorias onde podem estar contidos ar, luz e tempo como sutis substâncias; onde tempo e respiração podem ser uma demonstração vital da arquitetura; onde espirais podem ser desenhadas no ar procurando sentido e onde natureza, arte e história são lidas como ritmos de candomblé. Se houver alguma procura mística nesse texto, certamente estará relacionada a uma ancestralidade pagã – musical e pré-verbal –, anterior e subjacente à história monoteísta mais recente.

Benvindos, sempre, os livros que falam de arquitetura; pois a arquitetura detém a irredutível necessidade de existir de fato, sem palavras, no mundo, nas cidades, ser construída e utilizada plenamente, formar ambiente. Mais além de se contentar com sua existência real há os que se detém procurando descobrir nos artefatos da arquitetura significados recônditos não evidentes. Parece que a obra de Lina Bo Bardi instiga essa busca. Que venham pois, os livros, nos convidar a pensar. Ou ao menos sonhar.

sobre o autor

Vera Santana Luz é formada pela FAU Mackenzie, Doutora pelo Curso de Pós-Graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade São Paulo, professora da FAU PUC-Campinas desde 1986 realizando projetos e obras de arquitetura em escritório próprio em sociedade com o arquiteto Fernando Vianna Peres na Casa de Projetos

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