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Em dois artigos sequenciais e articulados, Paulo Yassuhide Fujioka, a partir dos tratados de arquitetura da tradição clássica, lança a hipótese de quais seriam os textos canônicos da arquitetura moderna brasileira.

how to quote

FUJIOKA, Paulo Yassuhide. Tratados brasileiros de arquitetura moderna. Aprendendo arquitetura com quem faz – parte 2. Resenhas Online, São Paulo, ano 17, n. 182.01, Vitruvius, fev. 2017 <http://vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/17.182/6403>.


Esta é a continuação de um texto anterior, “Tratados brasileiros de arquitetura moderna: aprendendo arquitetura com quem faz – parte 1” (1). Originalmente era um texto só, que foi dividido em dois, para evitar ficar muito longo e pesado. Retomando o fio da meada, esta escrita nasceu da premissa de que, para o ensino de qualquer profissão, seria necessário um conjunto de livros, neste caso uma bibliografia para a formação do arquiteto como profissional de projeto. Como eram os tratados básicos de arquitetura pelos quais se fundamentava antigamente o ensino da profissão, antes do advento do Moderno. Necessário pois o ensino de arquitetura, e em particular, do projeto de arquitetura, pode ser considerado uma das atividades didáticas mais complexas, como pode admitir tanto o aluno como o professor.

Para começar, o campo de conhecimento da arquitetura e do urbanismo – bem como do design, universo correlato transversalmente à arquitetura e às artes visuais – se estende pelas ciências sociais aplicadas, artes, tecnologia, gestão de projetos, etc. e ao longo do tempo, do espaço, da cultura, da paisagem, da geografia, da economia; na história dos povos e na contemporaneidade.

Mais além, a prática de projeto, principalmente pelo rompimento do Movimento Moderno com a tradição clássica, levou a uma indefinição sobre como desenvolver uma prática projetual durante um curso de graduação em Arquitetura e Urbanismo. No Brasil, a repressão do Regime Militar (1964-1985) prejudicou o debate sobre o ensino de arquitetura, de tal forma que até hoje sofremos as consequências da interrupção das discussões iniciadas com a proposta de ensino elaborada em 1962 por João Batista Vilanova Artigas (1915-1985), que dividia o curso de arquitetura e urbanismo em três departamentos: projeto, história e teoria, tecnologia.

O professor Luis Espallargas Gimenez, em recente aula-homenagem a Pedro Paulo de Melo Saraiva (1933-2016), discorreu sobre a carreira deste arquiteto, começando pela sua formação na Faculdade de Arquitetura da Universidade Presbiteriana Mackenzie em 1955; notando que trata-se de um ano que coincide com o auge do Movimento Moderno no pós-guerra, e que desde então, os questionamentos “contra o tema da modernidade levaram à sua substituição por novas teorias que sucedem a cada cinco anos aproximadamente”, teorias que nunca param de mudar, levando Espallargas a se perguntar se é possível uma profissão ser ensinada sem uma “certa estabilidade, processo ou protocolo do que é pertinente na prática, e que permita que a cidade seja construída com certo controle”.

E os tratados mais importantes seriam, para este resenhista, aqueles livros onde se explica “o que o arquiteto pensa e como concebe arquitetura, seus princípios”, como bem definiu Espallargas naquela ocasião – e que vale também para outro compêndio de sua coautoria e publicada pouco depois, sobre o arquiteto João Kon (ver abaixo).

Estas ideias podem ser vinculadas ao conjunto de aulas do breve curso ministrado em 2016 pelo arquiteto e docente Angelo Lorenzi, do Politecnico de Milano, professor visitante do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo – IAU-USP, Campus São Carlos. O professor Lorenzi observou que toda concepção de projeto implica na escolha de relações, como as arquiteturas que se escolhem como referência ou como oposição (o que o projeto não pode se tornar). Portanto, o trabalho do arquiteto, como disse Lorenzi, “é também a construção deste mundo de referências – o que veio anteriormente, numa relação ideal à distância (no tempo e no espaço, diríamos) ou numa relação concreta ou direta com o passado”.

Este mundo de referências pode incluir um canon de projetos eleito pela reflexão do arquiteto ao longo de seu aprendizado, e de fato todo arquiteto deveria eleger um conjunto de referências, de predileções intelectuais. Mas este canon será muito mais substanciado se estiver embasado no pensamento dos arquitetos que conceberam tais projetos eleitos pelo arquiteto.

Neste sentido, destaca-se assim o papel do tratado de arquitetura onde se explica “o que o arquiteto pensa e como concebe arquitetura, seus princípios”, que incluem não apenas o approach do arquiteto em relação ao programa e intenções projetuais, mas como ele pensa a cidade em relação ao projeto, o diálogo entre projeto, sítio e entorno; o cuidado com a questão ambiental e o detalhe construtivo-arquitetônico – este no sentido vitruviano destacado por Alberti, das partes essenciais para a resolução do todo.

O primeiro tratado de arquitetura, ou o único que sobreviveu ao fim do Império Romano, evidentemente foi o clássico de Marcus Vitruvius Pollio (c.90-20 a.C), De Architectura Libri Decem, “Os Dez Livros da Arquitetura” (c.27 a.C.). Os romanos faziam tratados técnicos de várias práticas, desde a medicina até a guerra, então podem ter havido outros de arquitetura, mas se perderam. As circunstâncias excepcionais expostas por Vitruvius na dedicatória a César Augusto talvez expliquem sua sobrevivência.

Como bem definiu Fernando Vázquez Ramos, em Os Tratados do século XX: edições especiais (2011), os tratados de arquitetura “são peças típicas do Renascimento, renasceram com ele”, considerando-se que o tratado inaugural da Era Moderna, De Re Aedificatoria libri decem (1452), de Leon Battista Alberti (1401-1472) foi claramente escrito como uma inspiração comentada do tratado vitruviano. Vázquez ainda observa que “a partir dessa obra germinal, os tratados foram aparecendo paulatinamente até se converterem no veículo privilegiado da transmissão do conhecimento sobre a arte de projetar arquitetura” (2).

O primeiro tratado em que o arquiteto registra de fato como concebe projeto, seus princípios de arquitetura, narrando sua carreira e experiências de seu próprio punho, seria o monumental Quattro Libri dell’architettura (1570), de Andrea Palladio (1508-1580).

Então, como podemos selecionar aqueles que poderiam ser considerados, numa produção recente (neste século pelo menos), os “tratados de arquitetura” moderna brasileira no sentido que Espallargas definiu, “o que o arquiteto pensa e como concebe arquitetura, seus princípios”? No primeiro texto destacamos Residências em São Paulo 1947-75, de Marlene Milan Acayaba (3); Ícaro de Castro Mello – principais projetos, organização Joana Mello (4) e Marcos Acayaba, pelo autor de mesmo nome (5). Vários outros títulos também foram comentados.

Os outros tratados brasileiros, nesta continuação, são os seguintes:

Quarenta anos de prancheta, de Marcello Fragelli (6)

Edifício São Luiz, São Paulo, arquiteto Marcello Fragelli
Foto Nelson Kon

No texto anterior, destacamos que a monografia de Marcos Acayaba, com título do mesmo nome, constitui raro exemplo, remontando a Palladio e I Quattro Libri dell’architettura, de um arquiteto que apresenta e discute sua própria obra arquitetônica de forma honesta, crítica, didática, mas despretensiosa, e com clareza de escrita, sendo até hoje um item de desejo na biblioteca de qualquer estudante de arquitetura que se preze em sua paixão pelo desenho. Mais do que um catálogo raisonné de sua obra, aqui o arquiteto abertamente discute seus procedimentos de projeto, caso a caso, inclusive suas influências e inspirações, suas referências de projeto. Portanto, um verdadeiro tratado de arquitetura: memória, registro, procedimento, didática.

Outro raro exemplo de tratado nos mesmos critérios, mas infelizmente bem menos conhecido do que o de Acayaba é este Quarenta anos de prancheta, de Marcello Fragelli, desenvolvido por Eliana Tachibana, Márcio Bariani, Mita Ito e Romano Guerra Editora a partir de texto autobiográfico de Marcelo Accioly Fragelli (1928-2014), que é extremamente revelador e saboroso, uma crônica exemplar de formação e carreira de um arquiteto, urbanista e professor, que atravessa duas cidades e quarenta anos de lutas, ao longo de períodos dos mais turbulentos da história brasileira.

Todo estudante de arquitetura ou aspirante a arquiteto deveria ler ao menos uma vez Quarenta anos de prancheta. Isto porque a narrativa, desde o vestibular para a antiga Escola Nacional de Belas Artes da Universidade do Brasil (1948) até o encerramento de seu escritório de projetos, por motivos de saúde e crise econômica (1994), mostra que mesmo a carreira de um arquiteto bem-sucedido é sempre um percurso árduo. A trajetória de Fragelli, plena de realizações projetuais de alta qualidade, também nunca deixou de passar por pedras no caminho: a difícil vida do estudante de arquitetura, a difícil vida do arquiteto no trato com os clientes privados e públicos, a difícil vida do arquiteto ao lidar com a escala urbana e o programa extremamente complexo e pioneiro como o das primeiras estações de Metrô, em São Paulo e no Brasil. Tudo isto tornado mais leve pela leitura saborosa, com muita verve e brio, como não pode deixar de se ter na luta diária que constitui a vida de qualquer arquiteto, mais ainda hoje do que antes.

Pouco depois da retirada de Fragelli da profissão, a prática do arquiteto modificou-se pela introdução do computador, da Internet e da telefonia celular, como quase tudo na vida pessoal e profissional. Entretanto, o que podemos constatar é que os problemas da prática permanecem os mesmos: programa, cliente, orçamento, sítio e seu contexto natural, condicionantes de legislação e aprovação legal, consultores, mestres de obra e operários, fundações, estrutura, cobertura, acabamentos.

Assim, viramos página por página como quem lê um romance de suspense, de capa-e-espada, rocambolesco. Conseguirá o arquiteto resolver o projeto num terreno difícil? Convencer o mestre de obra a refazer os equívocos daquele? Resistir aos caprichos estilosos do cliente e/ou sua família? Ou ainda enfrentar os novos governantes eleitos não interessados em dar continuidade à obra encomendada por antecessor?

São dezenas de projetos expostos na forma de fotos históricas, desenhos originais e em AutoCAD, todos de alta qualidade, com implantação e plantas muito bem resolvidas. A variedade de programas mostra o arquiteto em ação com total domínio de sua prática: residências unifamiliares (pouco conhecidas, mas belíssimas), edifícios para a saúde pública, torres de apartamentos, igrejas, hotéis, fábricas, praças, centros comerciais, sedes institucionais e bancárias, restaurantes industriais, as estações de metrô – rara oportunidade para um arquiteto atuar na escala metropolitana através de equipamentos públicos de grande porte; justamente também o caso da sede da Promon que, além de exemplo modelar de sede empresarial, ainda conta com um belo auditório, que pode ser aberto ao público em geral. O arquiteto no domínio também da escala urbana, os projetos dialogando sem medo com o bairro e a cidade.

Não há, ao contrário de outras notáveis publicações acima, uma cronologia geral de obras, mas o compêndio foi embasado, como descrito no posfácio, no levantamento feito pelos pesquisadores do acervo do arquiteto doado à Biblioteca FAU USP, resultando neste excelente projeto editorial, que ainda conta com um índice onomástico precioso e raro para uma publicação sobre obra de arquiteto. As fotos de Nelson Kon, como sempre excelentes, conseguem chamar a atenção para aspectos ou detalhes despercebidos, mesmo para quem já conhecia as obras.

Salvador Candia, organização de Eduardo Ferroni e César Shundi Iwamizu (7)

Galeria Metrópole, fotomontagem, São Paulo, arquitetos Salvador Candia e Giancarlo Gasperini
Imagem divulgação [Acervo Salvador Candia/Escola da Cidade]

Esta publicação, baseado na dissertação de mestrado de Eduardo Ferroni na FAU USP (8), atendeu a uma curiosidade de longa data pela obra de Salvador Candia (1924-1991), um dos profissionais mais discretos da Arquitetura Moderna Paulista, autor de uma produção prolífica e de alta qualidade arquitetônica, mas hoje muito pouco conhecido e injustamente esquecido.

Como todos os estudantes de arquitetura que se prezem, costumávamos percorrer os bairros centrais da cidade para ver edifícios de qualidade, e por vezes deparávamos com alguma torre de apartamentos ou escritórios que nos chamava a atenção. Isto não por ter uma expressividade monumental ou espetacular, mas pelo que justamente Ferroni denomina de “dimensão urbana do edifício” (p. 11), uma arquitetura discreta e singela, mas muito bem resolvida enquanto forma e estrutura, e que abria um diálogo interessante com a rua, os edifícios vizinhos e o bairro em si, particularmente pela implantação. Arquitetura como artefato não isolado do contexto urbano. Depois, descobríamos tratar-se de obra de Candia, tão pouco mencionado nas salas de aula dos anos 1980. Aliás, graças a este livro, o resenhista descobriu que teve a oportunidade de trabalhar em empresas sediadas em duas torres de escritórios projetados por Candia, em anos distintos.

Evidentemente esta pequena brochura não esgota de forma nenhuma a curiosidade sobre a obra do arquiteto, conforme podemos ver na “Cronologia de projetos” (p. 133-142). De fato, mesmo a seleção de projetos feita por Ferroni e Shundi contém desenhos muitas vezes pequenos demais, criando dificuldade na leitura dos projetos e dos detalhes. É evidente que os desenhos em AutoCAD foram feitos com esmero, mas ao serem reduzidos para o formato diminuto da publicação, perdem nitidez e escala. E as próprias fotos da brochura demonstram o refinamento construtivo dos detalhes dos projetos, detalhamento no sentido vitruviano das partes essenciais para a resolução do todo, despertando uma curiosidade maior pelo desenho de detalhes.

Um livro de arquitetura jamais deveria ter o tamanho de um livro de bolso, a não ser que fosse um guia. Admita-se que as dimensões diminutas possam ser um conforto ao estudante de arquitetura, de mochila, que percorra a cidade a pé, de ônibus ou metrô. Se tiver sido esse o objetivo, está OK. Aliás, a já mencionada “Cronologia de projetos” indica o endereço de todas as obras construídas.

Aqui cabe um reparo em relação ao projeto gráfico do livro. Na p. 15 vemos três perspectivas magnificamente bem desenhadas, mas reduzidas ao tamanho praticamente de um selo de correio, bem como na p. 38 vemos outra perspectiva de difícil execução em função da declividade do sítio, em tamanho diminuto. Todos estes casos numa brochura que já tem dimensões muito pequenas.

Um rápido vislumbre em todas estas perspectivas cônicas mostra que devem ter sido elaboradas com esmerado esforço, em grandes pranchetas para dispor de pontos de fuga fixados com o possível auxílio de tachinhas – talvez até mesmo em outras mesas encostadas na prancheta, e com o uso de imensas réguas T para traçar as linhas de perspectivas. Sentia-se certo orgulho em não apenas ver como ficaria de pé a concepção projetual recém-acabada, como também pelo próprio desenho em si – pela dificuldade de sua execução. E muitas vezes interrompia-se o desenho ao verificar algum problema desapercebido, e que se evidenciava ao adquirir tridimensionalidade (às vezes a maquete de estudo não mostrava tudo). Portanto, reduzir tais perspectivas às dimensões de um selo é prestar um desserviço ao esforço do arquiteto.

Por que a arquitetura vertical de Salvador Candia, Pedro Paulo de Melo Saraiva ou João Kon (ver abaixo) continua a não ser estudada nas escolas de arquitetura, e até mesmo rejeitada por estudantes de arquitetura? A resposta parece estar nesta passagem de um texto de Luis Espallargas na revista Arquitextos do portal Vitruvius, A propósito do juízo da arquitetura paulistana, quando afirma que a arquitetura vertical é

“um tema de arquitetura que os próprios arquitetos evitam por ser associados, de imediato, à produção comercial voltada para o lucro, sem qualquer atributo artístico e interesse arquitetônico. É evidente que existem péssimos edifícios e é certo que ao perder esse tipo de encargo para esquemas de projeto mais pragmáticos e menos exigentes, há grande quantidade de construções sem qualquer atributo. Por outro lado é notável o aumento da quantidade de edifícios desenhados por arquitetos reconhecidos que procuram diferenciar-se do lugar comum acabam por propor edificações pretensiosas, caras e, inclusive, ineficientes. Críticos e arquitetos simplificam o problema quando defendem que a banalidade da arquitetura comercial coincide com baixa estima estética e constitui o principal problema a ser combatido com inventividade ou soluções plásticas excessivas, exageradas, quase sempre desentendidas com aspectos construtivos e materiais do projeto. É comum retornar a uma acepção estética comprometedora e precoce, de aparência pomposa e magnificente, para marcar a intervenção e destacar o profissional arquiteto.

Há preconceito por parte dos arquitetos com respeito ao tema dos edifícios de moradia verticais, talvez essa crítica se estenda para todos os tipos de edificação vertical invariavelmente interpretada como tipo do interesse do mercado imobiliário ou como programa comercial que não permite uma resposta isenta do arquiteto. Parecem raros os cursos de projeto das escolas de arquitetura dedicados a edifícios em altura que estudam e solucionam problemas específicos de estrutura, de transporte vertical, de segurança, de conforto e de fechamento e vedações. Dá a impressão que para os acadêmicos das escolas de arquitetura os edifícios verticais danificam com seus gabaritos as cidades e que seus projetos são providos por profissionais levianos ou mercantilistas.

Os edifícios relacionados e construídos entre as décadas de 1940 e 1950 expõem um panorama diverso. Um conjunto importante de arquitetos bem preparados, com muito sentido profissional e atitude anônima, é encarregado por promotores para atuar no mercado de projetos habitacionais. São arquitetos que aplicam uma noção de arquitetura moderna ponderada, mas potente, nova e consequente, com reconhecido e invejado êxito estético e prático. Anos em que bons arquitetos trabalham no mercado sem que isso implique em concessão ou aviltamento. Bairros paulistanos inteiros resultam desse tempo e causam admiração. Não é ingênuo considerar que o sucesso e a demanda de tantos arquitetos estejam relacionados com uma proposta de arquitetura apropriada, factível e respeitada por empreendedores e proprietários. É improvável que essa relevância coletiva e profissional dependa de sorte ou de outra circunstância que não seja essa experiência oportuna e desenvolvida, a mesma que coincide com o período em que a arquitetura moderna internacional alcança seu nível mais elevado” (9).

Antonio Carlos Barossi, organização de Carlos Augusto Ferrata e César Shundi Iwamizu (10)

Residência Dona Lina, São Paulo, arquiteto Antonio Carlos Barossi
Foto Gal Oppido

Outro volume da série empreendida pela Editora da Cidade, desta vez dedicada ao arquiteto e professor Antonio Carlos Barossi. Como no volume acima sobre Salvador Candia, as dimensões diminutas dos desenhos prejudicam um pouco a leitura dos projetos do arquiteto.

A expressão discreta das obras de Barossi só acentua a presença de um conhecimento tectônico aliado a uma erudição projetual e uma preocupação permanente com a cidade. O resultado é uma arquitetura quase silenciosa, tranquila, confortável de se viver. A solução dos detalhes construtivos e uso de materiais indica uma experiência de canteiro que é exemplar.

Os exemplos mostram uma variedade interessante de programas, incluindo residências unifamiliares, um condomínio horizontal de proposta alternativa a do mercado, uma torre de apartamentos duplex, escolas públicas, ateliers, edifícios públicos institucionais. Em todos os casos, uma austeridade formal derivada de programas modestos e partidos arquitetônicos enxutos – e um tema comum: um diálogo com a morfologia e a dinâmica da rua e do bairro, são arquiteturas pensadas para a cidade e não constituem artefatos isolados. Cada projeto, apesar da escala modesta, constitui uma aula de arquitetura. A “Cronologia de projetos – seleção de projetos 1980-2010” (p. 165-172) permite verificar que sua obra ainda merece uma publicação mais completa e em dimensões maiores.

Este pequeno compêndio pode ser considerado um tratado não apenas pelo que foi descrito acima, mas também pela entrevista dada a Anderson Freitas, Carlos Ferrata e Cesar Shundi (p. 151-162), com considerações que consistem em outra aula de arquitetura e digna dos critérios enunciados para seleção destes livros como tratados (11). O texto de Guilherme Wisnik (p. 9-15) complementa a apresentação, contribuindo com uma interessante hipótese da presença de uma tradição vernacular na obra de Barossi (p. 13-15).

Pedro Paulo de Melo Saraiva – arquiteto, de Luis Espallargas Gimenez (12)

Sede Administrativa da Prodesp, Taboão da Serra, arquiteto Pedro Paulo de Melo Saraiva
Foto Nelson Kon

Tal como ainda ocorre com a obra de tantos arquitetos modernos paulistas, há muito tempo se esperava um registro documental e analítico da arquitetura de Pedro Paulo de Melo Saraiva (1933-2016), lamentavelmente falecido pouco depois do lançamento deste volume escrito pelo indefectível Luis Espallargas, que finalmente faz justiça à carreira de cinquenta anos do arquiteto, urbanista, planejador, militante da profissão no IAB-SP, já pouco mencionado nos círculos acadêmicos e, portanto, já pouco conhecido pelos mais jovens. Já se fez menção a este livro no texto inicial deste “Aprendendo arquitetura com quem faz” e também nos parágrafos iniciais desta escrita.

O autor da monografia evita uma organização cronológica dos projetos e obras, preferindo dividir os projetos nos capítulos “A ordem e a medida”, “O moderno e as escolas”, “O concurso e o prestígio”, “A fachada e a estrutura” e “A forma e a aparência”. No final do volume há uma “Lista geral de projetos” (p. 252-259), dividida em projetos construídos e não construídos. Os temas dos capítulos indicam preocupações críticas do autor com questões de expressão, rigor e precisão do projeto arquitetônico e urbanístico moderno no Brasil do pós-guerra.

A obra do arquiteto, caracterizada por uma expressão eloquente dos materiais e da tecnologia estrutural como vimos acima, constitui um tema, um caso de estudo ideal para a reflexão destas questões pelo autor da monografia; na medida em que PPMS era, como vimos acima, um “arquiteto moderno, concebia de forma moderna, a estrutura era uma questão fundamental na maneira de pensar arquitetura [...] Pedro Paulo começa a te explicar o projeto pelo vão entre os pilares e as medidas [...] a maneira como a estrutura funciona e seus limites [...] e a partir disto estabelece critérios – não porque a estrutura é determinante no projeto, mas porque a estrutura é a pauta a partir do qual estabelece critérios muito claros para conceber plantas, artefatos nas quais as pessoas possam viver”.

Alguns podem questionar a pertinência de uma arquitetura de tão forte materialidade, nos dias de hoje. Seria realmente fruto de uma época que não volta mais? Pode ser. Entretanto, tal expressividade material resulta de algo que parece estar sendo rapidamente esquecido no debate da arquitetura contemporânea, inclusive nas escolas, numa era de virtualidades e fantasias digitais delirantes: coerência entre forma e estrutura, honestidade estrutural, a difícil busca por um partido em que a correspondência entre o todo e as partes, as partes e o todo estavam não somente na proporção e equilíbrio, mas de acordo com as necessidades do programa de forma austera, enxuta, sem desperdício de espaço útil, sem excessos ou carências.

Ou seja, o que temos nestas páginas é uma aula de projeto, nos diversos programas abordados: desde a residência unifamiliar ao grande equipamento público urbano, passando pelos prédios de apartamentos, edifícios escolares, clubes, sedes institucionais, torres de escritórios e de apartamentos, e o plano de intervenção urbana da ponte Colombo Salles em Florianópolis.

Houve um cuidado precioso em ilustrar os projetos, sempre que possível, com os desenhos originais, que de fato são magníficos, produtos de um tempo em que as pranchas eram planejadas para a escala necessária, de apresentação, execução ou detalhamento. Assim, montavam-se, em grandes pranchetas, imensas folhas em papel vegetal tamanho A-1, A-0 ou A-0 ampliado. A necessidade de compreensão precisa por parte dos mestres de obra exigia que plantas de projeto executivo fossem dispostas nessas pranchas em escala 1/50 ou até 1/25. E a precariedade da indústria de construção civil exigia que se detalhassem inclusive os corrimãos, gradis, portões; às vezes todas as esquadrias, até o nível de portas com marcos, batentes, contrabatentes, folhas e bandeiras em escala 1/2 ou mesmo 1/1. Do outro lado da escala, as pranchas de implantação, com áreas verdes, piscinas, corpos d’água, bem como a parte da topografia cortada nos cortes, recebiam películas feitas com uso de graxa ou pastel seco fixados com varsol e chumaços de algodão, definidas por máscaras de durex, num trabalho difícil de imaginar pelas gerações acostumadas ao desenho digital. Mas os desenhos adquiriam uma clareza inigualável.

Um dos maiores desapontamentos deste resenhista em relação ao desenho técnico digital é sua pobreza e aridez mecânica, em comparação com a representação gráfica manual, de leitura muito mais clara, dada a preocupação mais humana, esmerada, e até orgulhosa, do desenhista em expor o projeto da melhor forma possível. Isto está evidente nestas pranchas originais.

Esta monografia constitui um tratado, pelos critérios adotados por este resenhista, pois além da análise rigorosa dos projetos, há um capítulo biográfico e um texto de introdução “O livro e a arquitetura” (p. 25-29), onde o autor continua a desenvolver as ideias antes propostas no já mencionado A propósito do juízo da arquitetura paulistana (2009), como é possível ver nesta passagem, que bem define o norte deste livro:

“Saraiva se rende a uma publicação abrangente de seus projetos porque sempre é cobrado para que assim o faça, para que se apresente e divulgue a sua obra. Não há nada de obrigatório, ou justo, nisso, apenas a oportunidade de pensar e organizar uma panorâmica com projetos consistentes e conduzi-los por sólidas convicções a respeito da forma e da concepção da arquitetura.

Faz sentido que um livro esteja fora das prioridades de arquitetos obsessivos e enredados com a árdua e demorada tarefa de conceber, integrar, detalhar e dirigir arquitetura, ansiosos por estímulos, concursos e partidos incontestáveis. Arquitetos com essa mentalidade são reféns do ofício, estão imersos na condução do projeto” (p. 25).

João Kon – arquiteto, organização de Abilio Guerra, Luis Espallargas Gimenez e Fernando Serapião (13)

Edifício Albatroz, São Paulo, arquiteto João Kon
Foto Nelson Kon

Em mais uma realização de peso da Romano Guerra Editora, lançada pouco depois da monografia sobre Pedro Paulo de Melo Saraiva, aqui temos juntos Abilio Guerra, Luis Espallargas Gimenez e Fernando Serapião envolvidos, num esforço exaustivo de lavra, para apresentar um arquiteto extraordinário e relativamente pouco conhecido, tanto do público jovem quanto de muitos dos arquitetos mais velhos. Qualquer comentário às fotos de Nelson Kon torna-se irrelevante ao virarmos as páginas.

Tal como ocorria em relação à obra de Salvador Candia e tantos outros mestres dos anos 1940-1970, desde a época de estudante costumávamos percorrer alguns bairros-jardins da cidade e, por vezes, deparávamos com alguma torre de apartamentos que nos chamava a atenção, mas não tínhamos certeza de quem era o autor. Com o monumental compêndio de Abilio, Serapião e Espallargas, finalmente é possível definir a autoria de vários prédios de apartamentos que não só tinham chamado a nossa atenção externa, mas por vezes tínhamos conhecido por dentro, ao visitar alguém que fosse um afortunado morador, sempre despertando a admiração pela planta bem resolvida do apartamento, do andar-tipo e, surpreendentemente, do térreo muito bem elaborado na relação com jardins, entrada de garagem, área social e circulação.

É evidente que este volume levanta um imenso potencial de pesquisa, pois é possível perceber, principalmente nos bairros centrais de São Paulo, uma imensa produção de residências unifamiliares, torres de escritórios e prédios de apartamentos com alta qualidade projetual, por parte de arquitetos que nunca publicaram seus projetos em revistas e/ou levaram carreiras discretas fora do circuito do IAB ou das universidades.

Edifício Juriti, implantação, São Paulo, arquiteto João Kon
Imagem divulgação [Acervo Diâmetro]

Como no volume sobre Pedro Paulo, aqui também os desenhos originais ganham relevo, pelos mesmos motivos listados. Mas um aspecto inusitado, levantado pela pesquisa, é o do papel da colaboração entre arquiteto e artista, tão tradicional na história da profissão, e pouco invocado atualmente. O texto de Jacopo Crivelli Visconti destaca, na carreira de João Kon, a associação do arquiteto com Gershon Knispel, Waldemar Cordeiro, Volpi e Arcangelo Ianelli em várias construções do arquiteto. Também aborda um aspecto relativamente pouco conhecido da carreira do arquiteto, o dos projetos de exposições (para Norma Grinberg e Arcangelo Ianelli). O fato da colaboração arquiteto e artista não ser tão usual, no Brasil dos dias de hoje, é mais um sinal do desprestígio da arquitetura na sociedade atual.

Com esta segunda série de resenhas, encerramos a lista dos que seriam os tratados brasileiros de arquitetura moderna. Eventuais ausências serão acrescentadas em um futuro texto.

notas

1
FUJIOKA, Paulo Yassuhide. Tratados brasileiros de arquitetura moderna. Aprendendo arquitetura com quem faz – parte 1. Resenhas Online, São Paulo, ano 17, n. 181.01, Vitruvius, jan. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/17.181/6379>.

2
VÁZQUEZ RAMOS, Fernando Guillermo. Os Tratados do século XX: edições especiais. Arq.Urb, n. 5, São Paulo, Universidade São Judas Tadeu, 1o semestre 2011 <https://www.usjt.br/arq.urb/numero_05/arqurb5_07_artigo_fernando_vazquez.pdf>

3
ACAYABA, Marlene Milan. Residências em São Paulo 1947-75. São Paulo, Projeto, 1987.

4
MELLO, Joana (org.). Ícaro de Castro Mello – principais projetos. Série Portfólio Brasil / Arquitetura. São Paulo, J.J. Carol, 2005.

5
ACAYABA, Marcos. Marcos Acayaba. Textos de Marcos Acayaba, Hugo Segawa, Júlio Roberto Katinsky, Guilherme Wisnik. São Paulo, Cosac Naify, 2007.

6
FRAGELLI, Marcello. Quarenta anos de prancheta. São Paulo, Romano Guerra, 2010.

7
FERRONI Eduardo; SHUNDI IWAMIZU, César (orgs.). Salvador Candia. São Paulo, Editora da Cidade, 2013.

8
NE – ver: GUERRA, Abilio. Monografia sobre Salvador Candia e a necessidade de um diálogo acadêmico. Resenhas Online, São Paulo, ano 07, n. 078.03, Vitruvius, jun. 2008 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/07.078/3071>.

9
ESPALLARGAS GIMENEZ, Luis. A propósito do juízo da arquitetura paulistana. Arquitextos, São Paulo, ano 09, n. 105.02, Vitruvius, fev. 2009 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/09.105/73>. Do mesmo autor, ver: ESPALLARGAS GIMENEZ, Luis. Arquitetura paulista da década de 1960: técnica e forma.  Tese de doutorado. São Paulo, FAU USP, 2004.

10
FERRATA, Carlos Augusto; SHUNDI IWAMIZU, César (orgs.). Antonio Carlos Barossi. São Paulo, Hedra/Editora da Cidade, 2013.

11
Ver: FUJIOKA, Paulo Yassuhide. Tratados brasileiros de arquitetura moderna. Aprendendo arquitetura com quem faz – parte 1 (op. cit.).

12
ESPALLARGAS GIMENEZ, Luis. Pedro Paulo de Melo Saraiva, arquiteto. São Paulo, Romano Guerra Editora/Instituto Lina Bo e P.M. Bardi, 2016.

13
GUERRA, Abilio; ESPALLARGAS GIMENEZ, Luis; SERAPIÃO, Fernando (org.). João Kon, arquiteto. São Paulo, Romano Guerra Editora, 2016.

sobre o autor

Paulo Yassuhide Fujioka é arquiteto, mestre e doutor pela FAU USP, professor do IAU USP de São Carlos. De 1997 a 2000 foi Assistente de Curadoria da 3ª e da 4ª Bienal Internacional de Arquitetura em São Paulo, evento organizado pela Fundação Bienal e pelo Instituto de Arquitetos do Brasil.

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