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O prefeito de São Paulo, vítima circunstancial da ignorância, sintoma da decadência social brasileira, ultrapassa os limites do cargo executivo conquistado em eleição, quebra o decoro e até pratica crime de calúnia.

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LUZ, Afonso. Trolagem institucional. Resenhas Online, São Paulo, ano 17, n. 190.01, Vitruvius, out. 2017 <http://vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/17.190/6718>.


Sábado o prefeito de São Paulo endossou a campanha difamatória que o MAM-SP sofre. Choca ele sugerir que o Panorama da Arte Brasileira e o artista Wagner Schwartz praticam atos de “pedofilia”, ecoando deturpação dos fatos e da arte. Sua palavra: o MAM “permitiu que uma cena libidinosa, que estimula uma relação artificial condenada e absolutamente imprópria, seja colocada para o público; está cometendo uma ilegalidade e deve ser condenado”. Mas como pode botar “limites” naquilo que desconhece? Ainda depois do MAM esclarecer que a campanha virtual resulta do equivoco de caluniadores.

Caciporé Torres, A coia, 1972, Museu de Arte Moderna, Parque do Ibirapuera, São Paulo
Foto divulgação [Website MAM]

Boatos difundidos não são obras de arte. A deturpação da performance só pode fazer-nos crer em fantasias, condena-nos a confundir o vídeo editado com a próprio criação do artista. É como provar que Werther é pura apologia ao suicídio sem ter feito experiência de ler a novela de Goethe. Prática recorrente de fundamentalistas que usam a arte para disseminar suas paranoias, só gera maluquice e mau gosto, atacando injustamente pessoas honestas, institutos idôneos e até crianças acompanhadas dos pais, submetendo todos ao bullying virtual.

Acervo do Museu de Arte Moderna, Parque do Ibirapuera, São Paulo
Foto divulgação [Website MAM]

Concorda-se com o prefeito num aspecto repetido na fala, “tudo tem limite”. Até entende-se que seja uma pessoa limitada em termos da compreensão da arte, fruindo “marketing” e Romero Brito para formar seu gosto, dono de juízo estapafúrdio que só vê boa arquitetura hoje em São Paulo na Ponte Estaiada. Para isso tenta superar-se na estética futurista da velocidade, derruba o limite nas Marginais e garante ao paulistano a experiência estética de acelerar, até chocar-se como cometa e fragmentar em mil pedaços nas vias tão bandeirantes. Talvez o limite do limite seja admitir que o cidadão goze de liberdade pornográfica para atropelar pessoas em alta velocidade, ou imaginar dripping de sangue no asfalto e regozijar-se na beleza trágica.

Gêmeos, Grafitte, Museu de Arte Moderna, Parque do Ibirapuera, São Paulo
Foto divulgação [Website MAM]

É neófito que contempla arte americana da venerada Miami, mas quem poderia condenar o prefeito pelo seu mau gosto? Já suas palavras passam de toda medida, pois não pode desconhecer seus “limites institucionais” de alcaide e falar com descuido do MAM-SP, destinado pela Administração à atividade competente e séria no Parque do Ibirapuera. Deveria verificar detidamente o que aconteceu ali, mas resolveu extrapolar função pública, no sábado, e endossar correligionários com base em propaganda de seita política, vociferando contra instituição referencial, conexa a bens da cidade, um patrimônio internacional. A autoridade maior dissolveu-se na acelerada falta de limites, atropelando-se no cargo, quebrando decoro e até praticando crime de calúnia. Espero que a Justiça devolva limites na cidade e proveja ao prefeito honra de ocupar seu devido lugar.

Amilcar de Castro, Sem título, 1970, Museu de Arte Moderna, Parque do Ibirapuera, São Paulo
Foto divulgação [Website MAM]

Doria é vítima circunstancial da ignorância, sintoma da decadência social brasileira, deturpando genuínos atos da livre criação humana. Hoje visível, o resultado do Brasil há três décadas ter a cultura submetida aos Departamentos de Marketing, a ponto das pessoas já não conseguem distinguir a imoral edição em vídeo do MBL (este que expõe uma criança a milhões de detratores) daquilo que é a obra artística numa exposição de museu (ato cuidadoso que por acidente envolve uma mãe consciente e sua filha pequena). Até pessoas informadas debatem sem pudores como se “arte” fosse veículo de conteúdos, divulgação de valores morais ou campanha de crença ideológica, pois só podem mesmo perceber uma obra de arte como se fosse instrumento publicitário. Redes sociais preferem registros editados, reproduções grotescas, fragmentos de trabalhos, ao invés de ir a museus fruir verdadeiras obras de que imaginam coisas. Nada tem a ver com “liberdade de expressão”, tal conduta de manipulação fere direito autoral e moral de autor, sendo crime usar obra alheia para fins indevidos, sem autorização e respeito, contra garantias legais. E é nisso que as concepções neofacistas encontram solo fértil, confundem imprensa e autoridades, a empreender cruzada para museus serem apenas transmissores pacatos de bons costumes que eles julgam os mais adequados.

Mario Cravo Júnior, Exu mola de Jeep, 1953, Museu de Arte Moderna, Parque do Ibirapuera, São Paulo
Foto divulgação [Website MAM]

A inegociável liberdade criativa na arte é valor supremo da cultura ocidental, mas sem contato com a arte o cidadão não consegue cultivar tal valor fundante e desrespeita a autoria de quem dedica a vida em tradição estética e experimental. Além da calunia aberrante, se lê um palavrório tanto sobre Liberdade quanto Expressão, tolhendo uma e outra conforme conveniência do censor. A pretexto de defender “valores ocidentais”, por pura má formação cultural, explodem em terrorismo instituições sagradas que há séculos se formam entre nós. São Paulo não pode sujeitar-se a publicidade fundamentalista ou a linchadores virtuais. A arte requer nossa seriedade para que não se sucumba em onda maior de burrice e obscurantismo. Entremos na contra-campanha esclarecida dos artistas nas redes, “somos todos mam”.

Alfredo Ceschiatti, As irmãs, 1966/2001, Museu de Arte Moderna, Parque do Ibirapuera, São Paulo
Foto divulgação [Website MAM]

sobre o autor

Afonso Luz é crítico de arte, formado em filosofia pela Universidade de São Paulo, e pesquisador na área de estética e história da arte. Foi consultor do programa Monumenta – Iphan/BID/Unesco para Economia da Cultura, Artes Visuais e Crítica Cultural. Assessorou o Ministério da Cultura na gestão de Gilberto Gil e coordenou o Programa “Cultura e Pensamento”. Coordenou o Comitê Brasileiro de Internacionalização e Economia da Arte e o Programa Brasil Arte Contemporânea (MinC). Foi Diretor de Estudos e Monitoramento e Secretário Adjunto de Políticas Culturais do Ministério da Cultura.  Foi diretor do Museu da Cidade de São Paulo e do Arquivo Histórico Municipal. Atualmente é curador do Instituto Sergio Rodrigues e mora em Nova York.

biblioteca tempos temerários

Tempos Temerários é um projeto de Abilio Guerra e Giovanni Pirelli, produzido pela equipe do Marieta (portal Vitruvius + Irmãos Guerra Filmes + produtora Cactus), que visa ser um momento de debate sobre temas da atualidade, como um laboratório permanente para pesquisar técnicas, ações e ideias de resistência e transformação politica, social e cultural.

BRUM, Eliane. Gays e crianças como moeda eleitoral. El País, Madri, 18 set. 2017 <https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/18/opinion/1505755907_773105.html>.

COLI, Jorge. Erotismo em tempos de cólera e boçalidade. Drops, São Paulo, ano 18, n. 120.04, Vitruvius, set. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.120/6703>.

GUERRA, Abilio. As imagens e a palavra de Deus no gospel brasileiro. Sobre o musical Terremoto Santo, de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca. Resenhas Online, São Paulo, ano 17, n. 190.02, Vitruvius, out. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/17.190/6733>.

GUERRA, Abilio. Notícias dos tempos temerários. Resenhas Online, São Paulo, ano 17, n. 189.04, Vitruvius, set. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/17.189/6706>.

LIRA, José. Tempos sombrios. Drops, São Paulo, ano 18, n. 121.01, Vitruvius, out. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.121/6713>.

LUZ, Afonso. Lygia Clark: todo bicho tem articulações. Drops, São Paulo, ano 18, n. 121.03, Vitruvius, out. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.121/6719>.

LUZ, Afonso. Lygia Clark: todo bicho tem articulações. Drops, São Paulo, ano 18, n. 121.03, Vitruvius, out. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.121/6719>.

LUZ, Afonso. Trolagem institucional. Resenhas Online, São Paulo, ano 17, n. 190.01, Vitruvius, out. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/17.190/6718>.

MIYADA, Paulo. Carta ao prefeito de São Paulo. Sobre o nu no MAM-SP. Drops, São Paulo, ano 18, n. 121.02, Vitruvius, out. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.121/6714>.

PINHEIRO-MACHADO, Rosana. A nova direita conservadora não despreza o conhecimento. Carta Capital, São Paulo, 10 out. 2017 <https://www.cartacapital.com.br/politica/a-nova-direita-conservadora-nao-despreza-o-conhecimento>.

TIBURI, Marcia. Sobre os últimos acontecimentos. A arte, a alma, os inquisidores. Drops, São Paulo, ano 18, n. 121.05, Vitruvius, out. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.121/6732>.

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