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my city ISSN 1982-9922

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CUNHA, Claudia dos Reis e. Patrimônio industrial em Sorocaba: revisitando a Manchester Paulista. Minha Cidade, São Paulo, ano 06, n. 061.01, Vitruvius, ago. 2005 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/06.061/1971>.



Durante praticamente todo o século XX a cidade de Sorocaba foi (re)conhecida como Manchester Paulista, desde que, em 1903, o engenheiro Alfredo Maia atribuiu-lhe tal título, em virtude das semelhanças entre esta cidade do interior paulista e a inglesa Manchester – uma das pioneiras na implantação de extenso parque industrial ainda nos primeiros anos da Revolução Industrial e em que, tal como em Sorocaba, a indústria têxtil predominava.

Deixando para traz a vila tropeira, a partir do último quarto do século XIX Sorocaba passava a ser uma cidade fabril, povoada por operários que iam e vinham, obedecendo ao chamado dos apitos das fábricas, que ditavam as horas. Estas por sua vez, desenhavam novos contornos à cidade, marcando sua expansão, e lhe emprestavam a cor avermelhada dos tijolos de suas fachadas e enormes chaminés, marcos visuais na paisagem local.

Findava-se juntamente com as famosas feiras de muares o tempo em que a grande maioria da população sorocabana morava em chácaras nos arrabaldes; tempo em que o núcleo urbano não passava de algumas ruas esparsas por onde circulavam as tropas de mulas vindas do sul: paisagem eminentemente horizontal, em função dos casarões tradicionais de taipa e da modesta verticalidade das torres das igrejas.

Com o advento da industrialização, vivenciava-se uma nova experiência urbana, a cidade de taipa paulatinamente era substituída pelas construções de alvenaria de tijolos; modificação completa na feição da urbe, que passava a ser controlada pelo ritmo das fábricas, as quais se esparramavam em várias direções do território, às margens da recém-implantada ferrovia e do rio ou mesmo extrapolando esses limites. É nesse momento também que a cidade recebe, acompanhando o aumento demográfico, grande incremento na infraestrutura urbana, bastante precária até então: rede de água e esgoto; energia elétrica; os telefones e o telégrafo nacional; novas indústrias, novas escolas e a construção de novos edifícios; os bondes; pavimentação a paralelepípedos, etc.

Neste início de século XXI, não se escutam mais em Sorocaba o apito das grandes fábricas de tecido nem das oficinas da Estrada de Ferro Sorocabana. Os operários que hoje vivem na cidade – e ainda são muitos – se locomovem de ônibus ou automóvel até o Distrito Industrial – afastado do centro da cidade, onde se concentram indústrias de alta tecnologia, bastante diferente das antigas fábricas e dos “machinismos” característicos do período em que foram inauguradas as grandes têxteis.

Nova transformação no espaço urbano, que mais uma vez expande seus limites em direção à periferia; transformação nos modos de produzir, que não necessitam mais de galpões enormes e nem das chaminés de tijolos; transformações também nas relações de trabalho. As antigas fábricas desativadas, não mais determinam os contornos de Sorocaba, ao contrário, já estão incorporadas ao centro urbano. Seus interiores, antes apinhados de teares e fusos habilmente manejados pelos operários, hoje estão esvaziados dos equipamentos produtivos, e, na quase totalidade dos casos, permanecem sem qualquer uso, ainda que a grande estrutura fabril permaneça em pé, à revelia do tempo e dos vândalos, marcando com veemência a paisagem sorocabana.

Das seis grandes têxteis que funcionaram em Sorocaba, duas – a Santa Maria e a Votorantim – foram demolidas; outras duas – a Santo Antonio e a São Paulo – embora estejam em pé, permanecem abandonadas, sem qualquer destinação, e bastante deterioradas; a Nossa Senhora da Ponte esteve parcialmente utilizada, com a instalação da Biblioteca Municipal em um de seus galpões, mas voltou à situação de abandono e desuso com a mudança da biblioteca para sede própria; e, finalmente, a Santa Rosália há alguns anos abriga um hipermercado. Destinação semelhante à maioria das têxteis têm tido as oficinas e a estação da Sorocabana, abandonadas desde a desativação da FEPASA e aquisição da malha ferroviária pela Rede Ferroviária Federal, ainda que as construções se mantenham em pé.

Das inúmeras edificações de apoio ao funcionamento das fábricas, tais como armazéns, hospitais, igrejas, escolas, creches, bem como suas respectivas vilas operárias, quase nada restou, embora caminhando pelas ruas dos antigos bairros operários ainda se encontre um ou outro “bungalow” construído por iniciativa dos industriais e os hospitais da Votorantim e da Santa Rosália, municipalizados, permaneçam em plena atividade.

A partir dessa breve análise, pode-se perceber que diferentes temporalidades marcam o espaço urbano de Sorocaba, no qual se acumulam estruturas construídas em distintos períodos da história urbana, não como num palimpsesto, em que o novo rouba espaço ao antigo por simples sobreposição, mas numa coexistência – em maior ou menor medida – pacífica, lado a lado. Antigos espaços fabris, que permanecem na malha urbana de Sorocaba, mantêm-se contemporâneos, seja com os raros fragmentos da vila tropeira que ainda existem, seja em relação às construções recentes.

A Manchester Paulista se foi, assim como outrora findaram-se as feiras de muares, tão características da cidade. Entretanto, talvez seja possível afirmar que a próspera Manchester Paulista tenha simplesmente tomado outras feições, mantendo a vocação industrial do município. A grande transformação se dá, então, não tanto em relação à materialidade dessas edificações, mas, sobretudo, no tocante aos significados e usos a elas atribuídos. Se no princípio do século XX estas indústrias eram signos da modernidade que chegava à cidade, trazendo progresso e desenvolvimento, hoje são estruturas obsoletas, descartadas da possibilidade de manterem-se no sistema produtivo capitalista como o eram no passado. Torna-se, portanto, de fundamental importância pensar neste processo de atribuição de novos significados para construções ou áreas urbanas antigas no presente da cidade, capacitando esses espaços a integrarem-se novamente, embora sob modos diferenciados, na dinâmica urbana.

Juntamente com tantas mudanças nas formas e espaços de produzir, seria impensável a manutenção em funcionamento, tal como no passado, deste parque fabril de fins do século XIX e início do XX. Todavia, boa parte das edificações permanece no contexto da cidade em seu presente e seria interessante o reaproveitamento deste patrimônio, imbuído de evidente valor histórico, artístico e simbólico para a história da cidade. Deve-se buscar respostas para melhorar seu aproveitamento no dia-a-dia da urbe e não no saudosismo, em propostas que consigam conciliar o respeito e manutenção das memórias coletivas com as inevitáveis mudanças no espaço da cidade.

Françoise Choay, relembrando Gustavo Giovannoni, adverte que “os centros e os bairros antigos só poderão ser conservados e integrados à vida contemporânea se sua nova destinação for compatível com sua morfologia e com suas dimensões” (1). Assim, no trato com testemunhos do passado, se não há lugar para passadismos, também não se pode impor as necessidades atuais a despeito das características dessas edificações antigas, as quais devem fornecer os parâmetros e limites para a intervenção e uso contemporâneos, sempre bem-vindos, garantindo assim sua preservação e permanência no presente da cidade.

Trata-se, pois, de pensar na cidade do presente (com suas múltiplas temporalidades) e nas suas necessidades atuais, paralelamente à análise das condições daquelas antigas edificações, de modo que possa haver uma adequação dessas últimas àquelas necessidades. O historiador francês Bernard Lepetit afirma que “O território é essencialmente uma memória, e seu conteúdo é todo constituído de formas passadas – isto é, de algumas dentre elas, das quais só subsiste o que pode ser compreendido pela sociedade que, em cada época, trabalha em seus quadros” (2). Se a sociedade hodierna não é capaz de conferir significação presente para as antigas estruturas que recebeu do passado, cabe-lhe, ao menos, deixá-las como “reserva de sentido e ação para o futuro” (3).

notas

1
CHOAY, Françoise. A alegoria do patrimônio. São Paulo, Estação Liberdade / Ed. Unesp, 2001, p. 236.

2
LEPETIT, Bernard. Por uma nova história urbana. Seleção de textos, revisão crítica e apresentação de Heliana Angotti Salgueiro, São Paulo, Edusp, 2001, p. 149.

3
Idem, p. 181.

[Texto elaborado a partir da comunicação técnica apresentada no I Encontro em Patrimônio Industrial realizado na Unicamp entre os dias 17 e 20 de novembro de 2004. Faz parte das pesquisas desenvolvidas no mestrado “O Patrimônio Cultural da Cidade de Sorocaba: análise de uma trajetória”, entregue à FAU-USP em junho de 2005]

sobre o autor

Claudia dos Reis e Cunha, arquiteta e especialista em História e Cultura pela Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP. Concluiu recentemente pesquisa de Mestrado sobre políticas de preservação do patrimônio cultural, na qual analisa o caso da cidade de Sorocaba, no programa de Pós-Graduação da FAU-USP, na linha de pesquisa História e Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo, com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq.

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