Your browser is out-of-date.

In order to have a more interesting navigation, we suggest upgrading your browser, clicking in one of the following links.
All browsers are free and easy to install.

 
  • in vitruvius
    • in magazines
    • in journal
  • \/
  •  

research

magazines

reviews online ISSN 2175-6694


abstracts

how to quote

TRIGUEIRO, Edja. Nem Alberti, nem Vitruvius, nem Moisés, mas mandamentos tão importantes quanto. Resenhas Online, São Paulo, ano 13, n. 152.02, Vitruvius, ago. 2014 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/13.152/5270>.


Aplauso (ainda que tardio) para a publicação dos 10 mandamentos da arquitetura de Frederico de Holanda, em 2013. Acrescenta uma contribuição mais que bem-vinda ao conhecimento da arquitetura, esta desconhecida no Brasil, como bem lembra Ruth Verde Zein, no prefácio do livro. Aplauso pelo esforço e coragem de discutir etiquetas epistemológicas tidas como herméticas (não de todo gratuitamente), em uma escrita acessível para iniciantes e mesmo não iniciados nos meandros da academia, sem reduzi-las a conceitos estanques, explorando proposições em perspectiva historiográfica e delineando contornos entre fato e intenção, sintaxe e semântica. Situando a arquitetura como campo de interesses sociais conflitantes, em sentido lato, escapa à equívoca fragmentação conceitual do nosso campo disciplinar (tão valorizada nestes tempos de paixão por rótulos), sem evitar expor posicionamentos ideológicos, inclusive os seus próprios. Aplauso, também, pela postura ética, ao creditar filiações, contribuições (até as mais ligeiras) e inspirações, como a da mestra Julienne Hanson, maga no decifrar de relações socioespaciais e no bem escrever, a quem o livro é dedicado, seguindo o mote de um dos seus escritos – The ten commandments (for writing academic papers) – traduzido e anexado ao livro. Obra sazonada, fruto de saberes bebidos nos campos da filosofia, sociologia, linguística, história, antropologia, etnografia, da física até, mas cingidos por contornos próprios da arquitetura, principalmente quanto ao modo como relações entre cheios e vazios do mundo real – construído ou natural – associam-se a expressões próprias desses campos de conhecimento. Tais associações, além da grande serventia que têm no plano didático, sustentam visões por vezes nada ortodoxas, abarcando um registro que vai da reflexão sobre paradigmas habilmente apresentados pelo Holanda acadêmico e proposições transgressoras próprias do Holanda polemista.

Diatribes que percorreram a trajetória acadêmica desta resenhista (e da professora que nasceu comigo) e continuam a ser discutidas, dialogam com visões contemporâneas filtradas por muitas lentes, algumas capazes de expor particularmente bem, distorções entre a doutrina e o real. No capitulo introdutório, que trata do primeiro mandamento – Veja na arquitetura uma propriedade dos lugares – Holanda discute definições de arquitetura, apontando inconsistências, mesmo em seus autores-guia, ampliando e recortando sentidos para incluir todo o ambiente – construído e natural – desde que percebido por um olhar disciplinado, focado na medida de satisfação de nosso corpo e de nossa mente. A proposição de que o ambiente natural também pode ser entendido como arquitetura e de que toda construção é arquitetura, oferece pano para muitas mangas de discussão em sala de aula e alhures, ainda que pareça espantoso haver quem defenda ser possível traçar fronteiras entre edifícios que se qualificam e edifícios que não se qualificam como arquitetura, e mais espantoso que o façam com base em valoração estética (de quem? para quem? quando?). Existiriam artefatos cuja fatura tenha ocorrido isenta de decisões do tipo assim fica melhor? Passadas não menos de quatro décadas, desde que pela primeira vez me deparei com essa discussão, vejo-a retomada, felizmente, em perspectiva diacrônica, objetiva e morfológica. Outras questões abordadas ao longo do texto tangenciam o debate, como, por exemplo, a referência a mutações do sentido de “estético” com relação à dicotomia valor de uso / valor de troca, por Raymond Williams, e sobre precedência ou originalidade (novidade diria eu) como critério de valor, por Antonio Cicero.

Nestes tempos em que a razão de ser do professor não é trazer informação para a sala de aula (que os alunos fazem isso, em grandes partidas com seus i-pads, i-phones, e que-tais), mas buscar orientar arquitetos/acadêmicos em construção no sentido de conceber um mundo que acreditamos melhor, os temas abordados nos mandamentos 2 e 3 – Pense as causas e Pense os efeitos – são seminais para entender o alcance da forma da arquitetura, tanto como repositório e reflexo, quanto como mecanismo gerador de processos socioespaciais, direta e indiretamente relacionados ao seu potencial de facilitar, dificultar ou impedir movimento e visibilidade. Referências e exemplos ancoram o axioma da arquitetura como força atuante na sociedade, que, mediante a interação entre elementos-meio (os cheios) e elementos-fim (os vazios), delineia estruturas mais ou menos rígidas, mais ou menos previsíveis, mais ou menos controláveis, capazes de permitir ou coibir padrões distintos de encontros e esquivanças que estão na raiz de modos distintos de solidariedade. Em escritos anteriores Holanda (2003) polarizou tais estruturas nos conceitos de formalidade e urbanidade, que vêm sendo utilíssimos para nortear estudos sobre relações arquitetura-sociedade, e para instigar o debate sobre natureza, variantes, caminhos e descaminhos do que possa ser considerado o ser e o agir de modo "urbano", aberto à livre manifestação e negociação de diferenças. N’Os 10 mandamentos, esses conceitos subjazem quase toda a argumentação e são diretamente abordados nos capítulos finais, na perspectiva de conteúdos sintáticos, semânticos e éticos.

Os três capítulos (mandamentos) iniciais seriam já suficientes para sustentar uma obra de referência sobre fundamentos da arquitetura, mas, fiel ao mote inspirador dos 10 mandamentos, e aproveitando para dar vazão a saberes e inquietações muitas, nos demais capítulos Fred fecha o foco em um ou outro tema na raiz das causas e efeitos da relação arquitetura/sociedade, trazendo referências e exemplos complementares, tudo belamente ilustrado. Felizmente, em meu entender, porque aí se manifesta, com mais transparência, o Holanda mestre. Embora recomendando iniciar a leitura na sequência Apresentação, Prefácio, capítulos 1, 2, 3, penso que a partir do quarto capítulo qualquer esquema de leitura é igualmente adequado. Daí que agora passo a mencionar os mandamentos seguindo a trilha das ideias.

Retomando o axioma da forma atuante, o quarto mandamento reza que se Entenda a arquitetura como possibilidades e restrições delineadas pela estrutura de cheios e vazios. Nesse contexto, a velhíssima questão do determinismo arquitetônico é situada entre o sonho demiúrgico de uma nova arquitetura capaz de engendrar uma nova sociedade, dos pioneiros do Movimento Moderno, e a visão de arquitetura como artefato nem autoritário nem democrático, mas apenas suporte de meios autoritários ou democráticos de produzi-la e usá-la, conforme Tafuri, Rossi e Krier. Esta proposição que subentende a crença em uma arquitetura “neutra” em termos sociopolíticos, nega a evidente possibilidade de se decifrar na, e a partir da arquitetura, nexos sobre modos de vida e práticas sociais, mesmo acontecidas há séculos (como morfólogos têm feito desde há muito). Holanda a refuta, com base em farta evidência empírica, da qual destaco, um dos exemplos elencados pelo autor no Plano Piloto: os Setores Comerciais.

Os Setores Comerciais Sul e Norte diferem quanto ao nível de resistência que suas estruturas espaciais oferecem a apropriações dos espaços públicos por grupos sociais distintos. Enquanto no SCS, maior acessibilidade e transporte público possibilitam diversidade de usos e presenças, de modo que "forças da ordem" precisam estar em "estado de alerta" contra atos de subversão – i.é. comércio informal de ambulantes – no SCN "o urbanismo poupa o trabalho", desfavorecendo a mistura de classes, um vez que "trabalhadores manuais são limitados à demanda das firmas localizadas nos espaços internos", agravando, como pontua Holanda, o que o urbanismo moderno tinha de pior. A menção dessa estrutura “que auxilia as forças da ordem” evocou uma experiência que tivemos, a professora Sonia Marques e eu, quando teimamos em ir do nosso hotel a um restaurante do SCS a pé. Conseguimos ir, após muitas e muitas mudanças de direção, e tempos infinitos aguardando semáforos que abriam e fechavam antes que chegássemos ao outro lado da via. Na volta decidimos observar o movimento de pessoas que pareciam estar retornando ao trabalho e o percurso pareceu mais fácil. Passamos diante de algumas paradas de ônibus e nos beneficiamos de faixas de pedestres. Atravessada a última, já quase cantando vitória, nos descobrimos na lavanderia do hotel vizinho (e mesmo vizinho renegociar o caminho para o nosso foi outro martírio). O trajeto de pedestres levava das paradas de ônibus às áreas de serviço dos hotéis, traindo uma ordem cujo desígnio parece ser a de conduzir pedestres – no caso, os usuários “naturais” de transportes públicos – direto aos seus prováveis postos de trabalho.

Transgressões à ordem subjacente à estrutura espacial, também são discutidas no quinto mandamento: Leia na arquitetura igualdades e desigualdades sociais. O surgimento de quiosques, lanchonetes, lotéricas, bancas de revista, ambulantes e panfleteiros que compensam o isolamento e a aridez das empenas cegas dos blocos dos ministérios; a animação da Rodoviária e da antiga feirinha da torre de TV, depois deslocada para sítio menos favorável, são alguns dos exemplos citados como manobras criadas para contornar efeitos de tipos de configuração espacial que levam à apartação de gentes, fenômenos e tempos. Sugestões de reconfiguração, como nos casos da W3 ou do Eixo Rodoviário – o chamado “eixão da morte” – para o qual Holanda e colaboradores recomendam semáforos e canteiro central calçado e florido remetem a avenidas de cidades europeias como a Liberdade, em Lisboa, onde um comprido espaço linear flanqueado pelas pistas de rolamento alberga cafés, jardins, playgrounds e gente que passa e fica. Que inveja!!!! A recomendação Cuide a ordem sem descuidar a desordem – 7º mandamento – retoma essa linha de discussão, mediante a abordagem de fissuras na ordem dominante, como expressões de ações e trajetórias que dão resposta a necessidades negligenciadas por um modo de planejamento excludente, muitas vezes (mal) entendidas e equivocamente consideradas como falta de planejamento.

Filiações teóricas tornam-se mais explicitas no capítulo dedicado a recomendar que se Considere a sintaxe e a semântica (6º mandamento), outro presente para professores que lidam com morfologia da arquitetura, sobretudo nós, os “sintaqueiros”, à cata de meios e modos de transmitir o corpo teórico-metodológico da Sintaxe do Espaço. Ainda que não seja bicho de sete cabeças desmistificar falsas alegações de hermetismo que envolvem a metodologia quando se tem tempo para exposição e discussão, como em um curso ou workshop, são raros os alunos que nos chegam com algum conhecimento prévio, em parte pelo ranço acadêmico e sisudez da maior parte da literatura disponível. Nessa medida, a linguagem d’Os 10 Mandamentos, permeada pelos princípios da Teoria da Lógica Social do Espaço, mas sem carregar no jargão ou nas filigranas dos instrumentos analíticos, amplia as probabilidades de leitores virarem novos morfólogos, sobretudo dentre os que creem ser o espaço, ao mesmo tempo, função de práticas sociais e meio de viabilizá-los e reproduzi-los; e que se dispõem a refletir sobre arquitetura como espaço percebido e sociedade como sistema de encontros.

No capítulo 8, cujo lema é Atente à história, os conceitos formalidade e urbanidade são retomados em perspectiva diacrônica, de modo a estabelecer associações entre modos afins de configuração espacial surgidos com séculos de afastamento, mas servindo a propósitos socioculturais também afins. “As versões dos atributos mudam no tempo, mas se rasparmos a superfície do fenômeno (quase pleonasmo pois fenômeno implica aparência) vemos parentescos insuspeitados” (Grifos de Holanda). Empenhado também em advertir que por trás das “superfícies dos fenômenos” esconde-se, mais das vezes, o conhecimento objetivo, no qual é preciso focar porque sem esse “conhecimento de muito longo prazo somos presas fáceis da ideologia dominante”, o autor dedica seu 10º mandamento – Foque o conhecimento objetivo – a explorar modos de pensar e produzir conhecimento. Sem medo de soar mestre-escola define noções fundamentais como teoria (os pontos de partida para a discussão de fatos), método (o conjunto de procedimentos para viabilizar a análise de um problema) e técnicas (os meios investigativos), facilitando, mais uma vez, a vida de professores, sobretudo os que ministram cursos a iniciantes de pós-graduação em arquitetura, muitos destes profissionais há anos afastados da academia.

Projete a cidade sem ombros ou costas – só rostos, manda o capítulo 9, como ato de resistência à erosão do espaço designado para o desenrolar da vida urbana. A obviedade da ideia faz a proposição parecer pueril, não fosse a realidade de cidades com quadras e edifícios mais e mais de costas para o espaço público, espaços públicos e privados mais e mais reféns da violência, nossas cidades mais e mais distantes dos padrões de urbanidade que testemunhamos em outras tantas, inclusive da América do Sul.

Na apresentação, Frederico de Holanda lamenta não ter tido o tempo necessário para sintetizar o conteúdo do livro para um tamanho compatível com o das coleções tipo “primeiros passos”, “uma introdução a ...” etc. Talvez tenha sido uma benção em disfarce, com perdão do anglicismo. Teria perdido um recheio de exemplos, analogias, narrativas, recorrências até, que oferecem uma multiplicidade de motes e associações e fazem do texto – ao contrário do que pode acontecer em boas obras muito condensadas (e do que se costuma pensar) – mais rico e mais acessível. Um presente para mestres e discípulos em distintos estágios de formação, mesmo os bem verdes.

Eixo Rodoviário, Brasília, num domingo comum
Foto Frederico de Holanda

sobre a autora

Edja Trigueiro é professora na graduação e pós-graduação em arquitetura da UFRN, tendo recebido formação acadêmica na UFPE e na University of London. Estuda relações entre forma e práticas socioculturais. Coordena o grupo de pesquisa Morfologia e Usos da Arquitetura-MUsA.

comments

resenha do livro

10 mandamentos da arquitetura

new

10 mandamentos da arquitetura

Frederico de Holanda

2013

152.02
abstracts
how to quote

languages

original: português

share

152

152.01

Quem quiser ouvir que ouça

Fernando Diez fala sobre o que não queremos ouvir

Martín di Peco

152.03

Isto é mais do que um livro sobre habitação e cidades na América Latina

Ana Paula Koury

newspaper


© 2000–2021 Vitruvius
All rights reserved

The sources are always responsible for the accuracy of the information provided