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O Espaço Cultural BM & F Bovespa exibe a exposição individual Pitágoras: Dias e Noites, de Pitágoras Lopes Gonçalves (Goiânia; 1965). Organizada em torno de dois eixos opostos, Mulher Maravilha, associado ao dia, e Batman, à noite, a curadoria de Celso Fiorvante perfila os serem que povoam o universo do artista, seus tipos humanos e fauna. São apresentados 30 desenhos, intervenções e pinturas em acrílica sobre tela realizados pelo artista goiano entre 2006 e 2012.

Humor, dualidade e cultura pop

No extremo da sala expositiva estão representações da Mulher Maravilha, a semideusa e super-heroína da falange das Guerreiras Amazonas, nascida na Ilha do Paraíso. No oposto da sala, Batman, o vingativo Cavaleiro das Trevas. Entre eles passeiam, em cerca de 20 obras, os pássaros. borboletas, mergulhadores, submarinos, carros, cisnes, moscas, urubus, bêbados, garotos e garotas do imaginário de Pitágoras.

“Pitágoras é um herdeiro desconfiado de Emílio Goeldi, Iberê Camargo e Siron Franco, mas também de cinema, televisão, moda, literatura, ficção científica e histórias em quadrinhos Ele cria com seu gesto expressionista, intenso e visceral, um mundo próprio, povoado por seres aparentemente deslocados da sociedade, mas que nem por isso perderam a doçura ou a esperança. São representantes de uma sociedade mais democrática: a sociedade livre da imaginação, que desdenha de padrões de beleza e de moral. Em Pitágoras, a censura é livre”, disse o curador Celso Fioravante.

Sobre seu processo de criação o artista dispara: “Quando sinto que vou precisar pintar porque estou triste, eu prefiro ir beber em um bar, ligar para um amigo, sair andando por aí... Se eu usasse a arte como terapia, eu estaria vinculando a arte a algo moral, e isso eu detesto”.

Entrevista com Pitágoras Lopes Gonçalves
por Celso Fioravante

- Quando você começou a pintar e por quê?

Desde pequeno eu já desenho, mas não consigo localizar precisamente uma data. Acho que desde os nove ou dez anos... Eu tinha influência dos quadrinhos... O desenho servia também para apaziguar uma espécie de solidão que eu sentia. Eu sempre gostei de arte. Eu pensava que seria ator...

- Quando você percebeu que o desenho e a pintura poderiam ser uma atividade profissional?

Na verdade, eu me inseri nesse meio sem pensar nas conseqüências. É um mundo em que você joga as suas fichas sem a garantia de um retorno... A palavra “profissional” é complicada para mim, pois meu trabalho é feito com uma visceralidade que foge disso... Sou um pouco desencanado com tudo isso, embora eu venha me empenhando, na medida do possível: dando seqüência aos projetos, buscando exposições, nunca parando de desenhar e pintar... Agora mesmo quero voltar ao desenho, pois andei muito sufocado pela pintura. Quero desenhar mais, fazer mais interferências...

- Você já fez teatro. Como foi isso?

Eu tinha uns 22 ou 23 anos. Fiz parte da primeira fase do grupo Rinocerantes. Na verdade, é a fase que reconheço como a melhor do grupo. Me afastei, pois algumas pessoas entraram no grupo e o transformaram em algo intelectualóide. Não concordando com isso, me afastei definitivamente, até com certa frustração. Nós ensaiávamos em uma arena que havia perto da rodoviária e que, por incrível que pareça, foi tapada. O diretor tinha uma idéia muito arrogante e queria montar um peça impossível para os padrões do grupo e dos atores que ele escolheu. Minha participação no grupo foi uma quimera... Não durou nem um ano, pois logo briguei com o diretor. Achei que era muito freak-show esse esforço de passar fome, andar maltrapilho, ser a corja da sociedade... Achei tudo uma bobagem. Eu fazia teatro e, de vez em quando, ia beber na Praça Universitária. Lá era o meu point. Lá eu conheci muita gente... Mas depois o diretor suicidou-se e o grupo se extinguiu e virou “a lenda do Rinocerantes”, que muita gente tenta enfatizar, mas que não passa de uma lenda besta, um monte de babacas sonhadores com suas pequena vontade de fazer grande teatro. Tem um artista hoje em Goiás com o mesmo feeling do teatro daquela época...  Vou chamar essa pessoa de “senhor X”...

- Você acreditava que as artes plásticas lhe dariam mais autonomia em relação à sua produção artística que o teatro?

Quando eu cortei com o teatro, eu continuei a dar aulas de inglês e ainda desenhava... Eu descobri que o teatro não era o meu ideal. Eu tenho preguiça de viver as emoções dos outros. Já bastam as minhas. Eu não conseguiria mentir o tempo todo. Eu não conseguiria dar a devida dedicação ao teatro, cuidar do corpo e da mente. Eu não dou conta. Eu não teria condições de ficar me exercitando, pensando no meu físico, na minha voz, não podendo beber gelado... Um profissional de teatro tem que pensar em todas essas coisas...

- Quando você começou a pintar havia algum artista que o influenciava?

Na verdade, eu fiz uma fusão da minha violência ideológica interior e tudo aquilo que eu vivia. Eu via os artistas com aquela admiração sincera que se tem pelos artistas. Mas as minhas influências vêm principalmente de outras mídias, como o gibi, a literatura, a convivência com o subterrâneo, com os bares de copos sujos, com a cultura pop, com um pouco de antipatia social, de iconoclastia também. Sinto uma grande antipatia por essa alienação mental pela qual estamos passando. Não quero dar nomes aos bois, mas sinto uma revolta quase adolescente por saber que minhas paixões estão sendo sufocadas por um bando de imbecis que estão atravessando a mente dos jovens.

- O seu universo de referências muda com o tempo?

Mudou bastante. Mudou até minha tolerância em relação a certos artistas. Eu mudo todo dia. Hoje mesmo acordei com outras idéias sobre o que eu quero fazer, frutos até de uma crise emocional, de uma certa epifania. Fui dormir com umas idéias e acordei outro. Eu trabalho sobre pressão.

- A qual pressão você se refere?

A pressão emocional. Estou pouco me lixando para a pressão da sociedade. Sempre procurei me libertar dela, pois não quero viver sob estresse. Estou tentando me libertar do estresse ruim.

- A arte vai te ajudar a se livrar desse estresse?

Não. A arte nunca teve um papel terapêutico para mim. Quando sinto que vou precisar pintar porque estou triste, eu prefiro ir beber em um bar, ligar para um amigo, sair andando por aí... Se eu usasse a arte como terapia, eu estaria vinculando a arte a algo moral, e isso eu detesto. Isso é autocomiseração. Eu acho a terapia ruim. Acho que deveríamos viver nossas frustrações com intensidade, com a intensidade dos suicidas. No fundo podemos disfarçar os problemas com Prozac, com toalhas quentes, mas o melhor é viver os problemas com intensidade, até atingir o ápice.

- Você nunca pensou em sair em Goiânia?

Não. Eu me estresso até mesmo em viagens rápidas. Eu gostaria de viajar mais, mas é estressante para mim ficar fora daqui. Eu sairia se fosse para trabalhar ou se encontrasse alguma coisa que seduzisse meu coração... São coisas que podem acontecer na vida de um homem.

- Ficar em Goiânia não limita a sua carreira?

Eu sei que limita, mas a cidade tem dado passos largos para melhorar essa situação. Já foi pior, muito pior...

- Você tem medo de sair de Goiânia?

Tenho, pois sou muito preguiçoso em relação à adaptação. Sou conservador. Eu gosto de estar aqui. Eu sinto que eu preciso morar aqui. Existem coisas que eu quero fazer aqui. E hoje em dia, com todo esse universo on-line que temos, eu posso estar lá e aqui e em qualquer lugar. Os contatos são mais fáceis. Embora eu nunca use a Internet. Estou falando isso nem sei por que... Não sei nem operar o meu celular! Quando eu estive em Paris, o computador do meu amigo assim como estava, ficava. Não tinha qualquer mancha de gordura do meu dedo, pois eu nem olhava pra ele. Eu tenho mais atração pela TV que pelo computador. Meus colegas dizem que eu não sei o que estou perdendo, que o computador é um mundo maravilhoso... Mas os livros também são...

- Você participou em 2005 e 2006 de mostras nacionais importantes, como a “Erótica”, curada por Tadeu Chiarelli, “Panorama”, curada por Felipe Chaimovich, e o Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo, “Caos e Efeito”, no Itaú Cultural, convidado por Paulo Herkenhoff. Elas mudaram alguma coisa na sua carreira?

Elas promoveram dentro de mim um turbilhão de vontades. É um beijo que todos querem ganhar. É um abraço que se recebe por um mérito próprio. Acho legal conquistar isso em um mundo tão difícil como esse. A mola mestra do mundo não é tão grande para girar todo mundo e eu não acho que devamos ser bancados por órgãos do Governo. As pessoas estão sempre correndo atrás de recursos financeiros para uma grande obra, mas eu sei qual é a grande obra dessas pessoas, sei mesmo...

- Fazer uma exposição individual em São Paulo muda alguma coisa?

Eu não quero ser niilista. Já abandonei esse projeto de niilismo na minha vida. Acho que é preciso ter um sentido sim. É bom eu acumular essa nova experiência, pois eu sei que vou precisar dela em outra ocasião. Sei que ao expor vou correr um risco, mas eu amo o que eu faço e por isso preciso dar continuidade em minha carreira. Eu não diria que morro de amores pela arte. Às vezes tenho aversão, às vezes eu xingo a arte, mas às vezes sou todo amor para a arte. Isso parece piegas, mas eu sou um pouco piegas também.

Pitágoras, Sem Título, 2010<br />foto Sérgio Guerini

Pitágoras, Sem Título, 2010
foto Sérgio Guerini

Pitágoras, Sem Título, 2012<br />foto Sérgio Guerini

Pitágoras, Sem Título, 2012
foto Sérgio Guerini

Pitágoras, Sem Título, 2012<br />foto Sérgio Guerini

Pitágoras, Sem Título, 2012
foto Sérgio Guerini

Pitágoras, Sem Título, 2006<br />foto Sérgio Guerini

Pitágoras, Sem Título, 2006
foto Sérgio Guerini

Pitágoras, Sem Título, 2010<br />foto Sérgio Guerini

Pitágoras, Sem Título, 2010
foto Sérgio Guerini

Pitágoras, Batman, Mulher Maravilha e muito mais no Espaço Cultural BM&F Bovespa

happens
from 16/08/2012
to 29/10/2012

opening
16 de agosto às 19h

more
segunda a sexta-feira, das 10h às 17h
entrada gratuita

where

Espaço Cultural BM&FBOVESPA
Praça Antonio Prado, 48, Centro de São Paulo
São Paulo SP Brasil
De segunda a sexta-feira, das 10h às 18h
11. 2565-6826

source
Décio Hernandez Di Giorgi - Adelante Comunicação Cultural
São Paulo SP Brasil

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