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architectourism ISSN 1982-9930

Capela do Divino Espírito Santo, Largo do Divino, Sorocaba SP. Foto Victor Hugo Mori

abstracts

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O escritor Milton Hatoum, em crônica domingueira, comenta a vida de Felícia, que migrou de Belém do Pará para São Paulo, segundo ela “na doideira de viver melhor”.


how to quote

HATOUM, Milton. Felícia longe daqui. Arquiteturismo, São Paulo, ano 14, n. 167.01, Vitruvius, fev. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/14.167/8109>.


Podia ser sábado, terça ou sexta-feira: andava uns dois quilômetros, só para tomar o café da manhã na padaria onde ela trabalhava. Saudade da fala mansa e do sotaque do Norte, saudade das águas de lá.

Quando ela perguntava: “Maninho, tu queres uma tapioca com queijo coalho e um tiquinho de manteiga, né?”, os sons das vogais nasalizadas me levavam a Belém, onde Felícia nascera.

Quando saiu da infância e do orfanato, trabalhou no Ver-o-Peso, depois passou a vender açaí, “puro ferro e delícia”. Um dia uma mulher lhe ofereceu emprego de doméstica; Felícia aceitou: o salário era baixo, ia ganhar menos na casa, mas vender açaí na rua era mais perigoso.

“Ou tu pegas o ruim, ou tu ficas na pior”.

Em 2011, quando completou dezoito anos, fez a longa viagem de ônibus para São Paulo.

“Vim na doideira de viver melhor, rapaz.”

Ficou meio perdida na rodoviária, perguntando às pessoas por um quarto de pensão; foi assim que conheceu a viúva Dalva, que acabara de chegar de Ibotirama. A paraense e a baiana conversaram, se deram bem, riram. Dessa conversa surgiram duas coisas cruciais na vida: a amizade e um lugar para dormir. Outras coisas, não menos cruciais, surgiram com o tempo, que nem sempre é traição.

Dalva, também migrante, morava em Guaianases desde o século passado. Viajara a Ibotirama para ver o irmão, dono de um pequeno sítio. Dalva deu a Felícia teto, comida, palavras e atos de afeição. Com as palavras, trocaram histórias de vida, que Felícia me contava a conta-gotas, enquanto eu mastigava uma tapioquinha e tomava um pingado.

Eu chegava à padaria às oito da manhã; Felícia, para ser pontual, se levantava às quatro e meia e pegava duas conduções; antes das sete, já estava detrás do balcão ou perto da chapa quente.

“Com sol ou com chuva, sempre chego na hora. Quando atraso, é culpa do metrô.”

Tinha feições indígenas, o cabelo muito liso e preto, e o rosto arredondado; as sobrancelhas, um arco perfeito; e o sorriso, franco. Às vezes, depois de atender um cliente, olhava para fora, bem longe e pensativa; eu percebia nesse olhar longos sofrimentos, mas não lhe perguntava sobre o passado; o pouco que ela me contou, sem autocomiseração, bastava para sofrer um século: palavras que traduziam o absoluto da solidão. No entanto, não parecia uma mulher triste. Voltava à Guaianases no fim da tarde, ajudava Dalva a preparar o jantar, dormia às nove. Nos fins de semana, as duas amigas limpavam a casa, lavavam e passavam a roupa, às vezes iam ao mercado municipal e passeavam pelo centro.

Felícia leu, aos poucos e sempre aos sábados, os contos de “Antes do baile verde” e de “Alexandre e outros heróis”. Ela não conhecia esses livros nem os autores. De Belém trouxera onze livros velhos, que ganhara de uma freira e da ex-patroa. Agora tinha treze.

Gostava de ler e de cozinhar, desde o tempo do orfanato.

Certa vez, quando a gente falava dos pratos do Norte, Felícia perguntou se eu já tinha provado filhote na brasa, maniçoba, pato no tucupi...

Sim, mas faltou a sobremesa divina: sorvete de bacuri com castanha ralada.

“É mesmo, faltou um docinho.”

Ficou radiante quando levei para ela uma garrafa de tucupi, um pacote com jambu congelado, e outro, com farinha d’água de Cruzeiro do Sul. Felícia olhou a garrafa e os pacotes como se fossem totens: há quantos anos não provava essas delícias? Ia fazer uma surpresa à amiga baiana: arroz com jambu e molho de tucupi, farofa com banana, alho e cebola, e peixinho frito. Pediu licença, foi atender um freguês e, lá perto da chapa quente, disse em voz alta:

“Tás com água na boca?”

Muita, mana. Toda a água do Guamá e do rio Negro.

No ano passado, eu a vi uma só vez, em junho. Estava preocupada: temia perder o emprego na padaria, não podia parar de trabalhar, a pobreza no bairro aumentara. Juntava um dinheirinho pra viajar com Dalva a Ibotirama, mas só depois da pandemia.

Esse “depois” não veio: parece que o tempo parou, cativo de forças maléficas.

Em dezembro, fui levar um presente de Natal à amiga paraense, mas não a vi na padaria. Uma moça, colega dela, me reconheceu:

“Felícia não está mais aqui. Foi embora...”

As frases curtas eram ambíguas: Felícia não trabalhava mais lá ou tinha sido mais uma vítima da pandemia?

Pensava nisso com tristeza, quando a moça deu um tapa na testa, foi até o freezer e voltou com uma caixinha de plástico.

“Felícia deixou esse sorvete pra você. Foi passar o Natal em Ibotirama, parece que vai viver lá, com uma amiga.”

Fiquei duas vezes contente: minha amiga estava viva, e o sorvete era de bacuri, minha fruta preferida.

notas

NE1 – a revista Arquiteturismo, com periodicidade em atraso, vai sendo colocada em dia com alguns artigos escritos em data posterior ao mês oficial da edição.

NE2 – publicação original do artigo: HATOUM, Milton. Felícia longe daqui. O Estado de S.Paulo, Caderno 2, 28 mai. 2021.

sobre o autor

Milton Hatoum é autor dos romances Dois irmãos, Cinzas do Norte e A noite da espera, entre outros.

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