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projects ISSN 2595-4245

Apresentação Memorial


Imagem divulgação [Workshop Giudecca Reaction]

abstracts

português
O Giudecca Reaction, workshop coordenado por Cristiane Muniz e Fernando Viegas, teve como iniciativa projetar a transformação urbana no arquipélago, entendendo dinâmicas infra-estruturais numa condição peculiar.

english
Giudecca Reaction, a workshop coordinated by Cristiane Muniz and Fernando Viegas, had the initiative of projecting the urban transformation in the archipelago, understanding infrastructural dynamics in a peculiar condition.

español
Giudecca Reaction, un taller coordinado por Cristiane Muniz y Fernando Viegas, tuvo la iniciativa de proyectar la transformación urbana en el archipiélago, entendiendo la dinámica infraestructural en un estado peculiar.

how to quote

WISNIK, Guilherme. Giudecca reaction. Projetos, São Paulo, ano 21, n. 241.01, Vitruvius, jan. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/21.241/8095>.


Que outro mundo é possível imaginar a partir de uma revisão da experiência americana?

Guilherme Wisnik

Sem nunca ter sido capital da Colônia ou do Império, São Paulo se desenvolveu apartada dos principais influxos políticos e culturais vindos da Europa — a Côrte Portuguesa e a Academia Francesa de Belas Artes –, tornando-se base para a exploração e conquista do interior continental através da ação dos chamados “bandeirantes” (1). Situada num planalto que se prolonga a partir da Serra do Mar, a cidade é atravessada pelo Rio Tietê, que, ao contrário da maioria dos rios, evita o litoral e corre para o interior, contribuindo para formar o Rio Paraná, que desemboca no Rio da Prata. Assim, tendo crescido muito rapidamente a partir do início do século 20, através do cultivo do café e do desenvolvimento industrial, o estado de São Paulo construiu a mais importante rede ferroviária do país voltada para a hinterlândia, favorecendo uma particular consciência sobre as extensões continentais, a grande escala, e a arquitetura como construção do território, envolvendo a transformação técnica da natureza.

Radicado em São Paulo desde a adolescência, Paulo Mendes da Rocha tem uma visão da arquitetura fortemente lastreada na noção de território, que remonta às suas experiências primordiais tanto com os ensinamentos de seu pai, engenheiro que se tornou diretor da Escola Politécnica na Universidade de São Paulo, e que lecionava na cadeira de “navegação interior, portos, rios e canais”, quanto com a lembrança da ilha de Vitória, onde nasceu, que ele chama de “cidade naval”. Vem daí a sua admiração por obras como a cidade de Veneza, com seus canais, e os aterros feitos no Rio de Janeiro no início do século 20 através do desmonte hidráulico de antigos morros da cidade: “um exercício de inteligência”, afirma o arquiteto, “como um desmantelamento racional, antecipando aquilo que aconteceria fatalmente ao longo de muito tempo” (2).

Projeto Cidade no Tietê, maquete, São Paulo SP Brasil, 1980. Arquiteto Paulo Mendes da Rocha
Foto divulgação [Acervo Paulo Mendes da Rocha]

Um dos aspectos polêmicos do discurso de Paulo Mendes da Rocha, que encontra lugar exatamente na sua veia antinostálgica, é a crítica ao idílio romântico da natureza pura, que chega a qualificar como “trambolho”. Paulo tem uma visão fenomênica da natureza, e não bucólica. Para ele a natureza é fenômeno, e a arquitetura é coisa, assim como a linguagem também é. Portanto, mais do que construir objetos edificados isoladamente, em sua opinião, a arquitetura deveria se dedicar a conceber obras de consolidação do lugar, isto é, obras territoriais que contrastam com a natureza, potencializando-a. Ressoa inegavelmente, em seu discurso, muito da “visão geográfica” que Le Corbusier registrou em Precisões (3), a partir do seu primeiro e impactante encontro com a paisagem sul-americana, em 1929.

Ocorre que nos projetos de Mendes da Rocha a construção de “terrenos artificiais” soltos do solo ganham um sentido novo em relação ao ímpeto telúrico de Le Corbusier. Ela engendra uma revisão crítica, à luz das ciências e das técnicas disponíveis hoje, dos erros históricos do colonialismo, de modo a perguntar: que outra ocupação do território americano seria possível, se tivesse sido pensada de modo absolutamente artificial – com recintos aéreos que mal tocam o solo –, de sorte a deixar o terreno sempre intacto, in natura, sem a necessidade de cortes, dragagens, muros de contenção? Ou então: que sociedade teríamos hoje, se tivéssemos mantido limpos os rios, e construído cidades que amparassem a navegação fluvial interligando o continente por dentro, de modo a contrariar a divisão imposta ao continente pelo Tratado de Tordesilhas? Essas perguntas, feitas em termos arquitetônicos, equivalem a dizer o seguinte: como seria hoje a América se não tivéssemos massacrado os índios e escravizado as populações trazidas da África? Perguntas que visam, em última análise, indagações prospectivas, tais como: que outra América é ainda possível no futuro? Ou melhor: que outro mundo é possível imaginar a partir de uma revisão da experiência americana?

Projeto Cidade no Tietê, croquis, São Paulo SP Brasil, 1980. Arquiteto Paulo Mendes da Rocha
Imagem divulgação [Acervo Paulo Mendes da Rocha]

No caso da arquitetura paulista, a escala não é pensada quantitativamente, como geradora, necessariamente, de espaços monumentais. Mas sim, como formadora de um raciocínio que nega a partição exagerada do programa, e concentra núcleos herméticos (áreas molhadas, dormitórios) afim de não interromper a continuidade espacial, evitando o confinamento exagerado dos ambientes. E que busca, nesse sentido, explicitar não apenas os elementos construtivos (materiais, instalações), mas, principalmente, a mensuração indivisível do espaço: sua extensão material íntegra de uma fachada à outra, por exemplo, desobstruída pela limpeza estrutural. Partido que faz do edifício um instrumento de medida, de leitura perceptiva do espaço e, em maior escala, da paisagem (daí a recorrência de expressões como "régua", ou "marcação urbana", em muitos dos memoriais descritivos dos projetos recentes em São Paulo). O que permite uma indiferenciação em seus interiores, propícia à criação de espaços condensadores de programas, cuja matéria é o vazio.

Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, São Paulo SP Brasil, 1969. Arquitetos João Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi
Foto Manuel Sá

Não será necessário, aqui, referir o parentesco entre esses princípios de continuidade espacial e os atributos da planta miesiana, nem, tampouco, insistir quanto à sobrevivência do legado moderno na arquitetura brasileira contemporânea. No entanto, cabe avançar um pouco nessa discussão à medida que expandimos o espectro de observação para a escala urbana, onde a correção discreta e disciplinadora dos desenhos paulistas está vinculada às redes infraestruturais da cidade (rios, eixos de transporte, sistemas de áreas públicas), revelando a potencialidade arquitetônica desses aparatos técnicos. Nessa postura – que sobrevive e se reatualiza nas novas gerações –, é possível reconhecer um paralelo com a aceitação de Rem Koolhaas da impossibilidade de exercer uma determinação absoluta sobre o desenho da cidade, como atitude correlata ao desaparecimento das grandes ideologias urbanas. Igualmente, ao postularem-se como "arranjos programáticos", ou "disposições espaciais", ao invés de procurarem configurar uma "forma urbana", os projetos paulistas mais recentes manifestam uma visão sistêmica do urbanismo que procura, através de ações estratégicas, amparar a indeterminação, na expressão de Paulo Mendes da Rocha, desenhando a "imprevisibilidade da vida" (4).

Nessa lógica mais operativa que linguística, é possível reconhecer um certo conjunto de intervenções urbanas feitas por arquitetos paulistas, tal como no estudo de Reurbanização da Mooca-Ipiranga feito pelo Una Arquitetos (2006). Distante tanto do revivalismo nostálgico de modelos historicistas, quanto da ordenação universal e abstrata do urbanismo moderno, esse projeto é guiado por uma espécie de "realismo" estratégico. Contratado pela Prefeitura de São Paulo como amparo ao processo de modernização do sistema de transportes da cidade, o projeto atua em uma escala verdadeiramente metropolitana, repensando a localização das estações da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos – CPTM (atuais) e do metrô (futuras), a articulação destas com o novo corredor de ônibus "Expresso Tiradentes", o destino de um considerável estoque de galpões industriais abandonados às margens da linha férrea, e a reintegração de bairros historicamente separados por cicatrizes viárias.

Mooca Ipiranga Urban Requalification, São Paulo SP Brasil, 2006. Arquitetos Cristiane Muniz, Fábio Valentim, Fernanda Barbara, Fernando Viégas / Una Arquitetos
Imagem divulgação [Una Arquitetos]

Raciocinando de maneira análoga a Rem Koolhaas e a Mendes da Rocha, e assumindo diretrizes estabelecidas pelo Plano Diretor da cidade, os arquitetos conferem um papel estruturante aos vazios, transformando os resíduos em "máquina de recuperação" urbana: um parque linear que costura os dois bairros, e faz a mediação entre a linha férrea e a avenida do Estado (com seu "corredor" elevado). Vencendo os obstáculos viários, são criadas travessias qualificadas, sempre associadas a edifícios que amparam esses percursos normalmente áridos. Como elemento ao mesmo tempo paisagístico e infraestrutural, propõem a criação de uma raia artificial – feita pelo afloramento do lençol freático, e funcionando como bacia de retenção a céu aberto – no intervalo exato entre as duas estações que balizam o conjunto. Assim, ao trazer a população da cidade para essa faixa desocupada de terreno, preservando os galpões industriais e a leitura visual da várzea e das colinas ao seu redor, o projeto dá à experiência de uso desses espaços uma qualidade mais do que simplesmente funcional. Dá à essa experiência uma qualidade pedagógica: a capacidade de nos informar acerca dos processos de constituição da própria cidade. Processo no qual a história e a geografia ganham papel central, oferecendo resistência à eficácia produtiva com que a arquitetura normalmente tende a converter os espaços vazios em edificados. Agindo diretamente nas forças que efetivamente constroem a cidade – seus elementos estruturadores, tais como as redes hídrica, viária estrutural, de transporte e espaços públicos –, o ato de revelar permanências e vazios é um instrumento de desalienação na relação perceptiva do cidadão com o espaço urbano.

Por fim, é muito interessante perceber como esse modo particular de raciocinar opera em contextos tão distintos do paulista quanto o caso da cidade de Veneza, por exemplo. Refiro-me ao projeto para a Fondamenta Novissima na ilha da Giudecca, coordenado por Cristiane Muniz e Fernando Viégas – integrantes do Una Arquitetos –, no contexto universitário de um workshop de projetos na IUAV, em 2019. Certamente, a decisão de trabalhar o espaço da ilha inteira no tempo exíguo de apenas três semanas expressa uma atitude coerente com o modo brasileiro – e paulista – de tratar a escala, tal como referido até aqui. Nesse sentido, a proposta não se restringe à criação de um passeio público contínuo junto à faixa litorânea da ilha voltada para o oceano. Antes, a maneira de se chegar ao desenho desse passeio – que não se pretende contínuo, pois incorpora uma certa fragmentação própria à sua história – é a leitura e consideração de todo o tecido urbano e paisagístico da ilha, construído ao longo de períodos muitos distintos, com morfologias diversas, e marcado pela presença de signos traumáticos e invisibilizados na imagem mais conhecida que se tem da cidade.

Mooca Ipiranga Urban Requalification, São Paulo SP Brasil, 2006. Arquitetos Cristiane Muniz, Fábio Valentim, Fernanda Barbara, Fernando Viégas / Una Arquitetos
Imagem divulgação [Una Arquitetos]

No conjunto, esse projeto coletivo, coordenado por Muniz e Viégas, identifica o problema essencial da vocação habitacional da área. Assim, atenta para as diversas formas de uso do solo na Giudecca, propondo a inserção de programas comerciais no nível térreo, ativando também a produção manufatureira local ligada à construção e reforma de embarcações, as quais ganham dignidade compatível com um novo edifício-estaleiro linear e elevado, que se projeta sobre o mar, apoiado em duas faixas de terreno, criando uma nova fachada urbana muito simbólica. Com o título de “Giudecca reaction”, o projeto se orienta pela resposta a situações dadas, e não por um receituário de soluções importadas a priori. Se a proposta contém, por um lado, traços paulistas reconhecíveis, como uma certa visão lírica da paisagem construída, que se expressa pela escala, e pela dimensão exemplar de certos edifícios desenhados como “réguas urbanas”, ela também revela, por outro, uma preocupação contextualista pouco presente no urbanismo brasileiro em geral. Pois, como bem percebem Cristiane e Fernando, o estado atual da arquitetura e das cidades no mundo já não admite ações exemplares miradas na ideia de universalidade, tais como vemos na Lista de verbos de Richard Serra (1968). Evitando a normatividade, seu projeto reage à cidade de Veneza sem fórmulas prontas. Mas formula, a seu modo, ensaios a partir da provocação de Mendes da Rocha: que outro mundo é possível imaginar a partir de uma revisão da experiência americana?

notas

1
Bandeirantes é a denominação dada aos sertanistas do período colonial, que, a partir do início do século 16, penetraram no interior da América do Sul em busca de riquezas minerais, sobretudo o ouro e a prata, abundantes na América espanhola, indígenas para escravização ou extermínio de quilombos. Contribuíram, em grande parte, para a expansão territorial do Brasil além dos limites impostos pelo Tratado de Tordesilhas, ocupando o Centro Oeste e o Sul do Brasil.

2
ROCHA, Paulo Mendes da [1996]. Consolidar um lugar. In Guilherme Wisnik (org.). Paulo Mendes da Rocha. Rio de Janeiro, Beco do Azougue, 2012, p. 95-96.

3
Ver Le Corbusier, Precisões – sobre um estado presente da arquitetura e do urbanismo. São Paulo: Cosac Naify, 2004.

4
Paulo Mendes da Rocha, “O botequim é que é o centro cultural” [2007], in Guilherme Wisnik (org.), 2012, op. cit., p. 242.

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241.01
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241

241.02 parques urbanos

Parque Municipal Nair Bello

Celso Aparecido Sampaio, Conrado Vivacqua and Lucas Lavecchia

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