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LUZ, Márcia Ferreira. A arte de Lina Bo Bardi. Resenhas Online, São Paulo, ano 05, n. 055.02, Vitruvius, jul. 2006 <http://vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/05.055/3136>.


Arrojada e experimental, a arquitetura e a arte de Lina Bo Bardi serviram de inspiração para a tese de doutorado apresentada, na Escola Técnica Superior d’Arquitectura, Universitat Politècnica de Catalunya, em setembro de 2000, por Olivia de Oliveira, que morou em Salvador, formou-se pela UFBA e hoje reside na Suíça. O trabalho foi transformado no livro Lina Bo Bardi – Sutis Substâncias da Arquitetura, que acaba de ser lançado em conjunto pela Romano Guerra Editora (São Paulo) e Editorial Gustavo Gili (Barcelona). A obra apresenta 700 imagens entre fotos e desenhos e foi concebida com o apoio do Instituto Lina Bo Bardi.

A partir de textos, fotos e reproduções de plantas e rascunhos da arquiteta italiana, Olivia explica a obra e destrincha o estilo de Lina. Ela toma alguns exemplos de projetos arquitetônicos como a Estação Guanabara (centro de convivência da Unicamp, não construído); Sesc Pompéia; Masp (1957, primeiro grande projeto de Lina, localizado na Av. Paulista, entre o Parque Trianon e o Vale do Anhangabaú); Casa de Vidro – primeira residência do bairro paulista do Morumbi, ocupa um terreno de 700 metros quadrados – lá Lina Bo Bardi viveu e morreu em 20 de março de 1992; além da famosa Casa do Chame-Chame, construída em Salvador em 1958 e demolida em 1984.

Também são mostrados os elementos usados por Lina Bo Bardi na sua arquitetura: gárgulas, escadas, cadeiras; jardins, além de fotos de exposições realizadas por ela, a exemplo de Bahia e Nordeste, nas quais mostrou ex-votos. A primeira aconteceu na Bienal de São Paulo, Ibirapuera, em 1959, e a segunda, no Museu de Arte Moderna da Bahia, em 1963. "O Sesc, o Masp, a Casa de Vidro e a Casa do Chama-Chame apresentam-nos imagens que estão constantemente intercambiando-se: caixa d’água, caixa de luz, imersão, flutuação. Imagens que nos darão essa característica indeterminada e ao mesmo tempo interminável e indivisível da obra de Lina", analisa Olivia.

O que mais chama a atenção da autora no conjunto da italiana, que também foi artista plástica, cenógrafa, designer de móveis, objetos e jóias, e curadora de exposições, é o senso de liberdade privilegiado pela arquiteta em cada projeto que desenvolveu. Liberdade de ousar, de misturar coisas, criar funcionalidades e, sobretudo, não se enquadrar em rótulos.

Na opinião de Olivia, a criação de Lina é um "mosaico capaz de juntar o impensável, não porque parta de projetos, não porque tenha fantasias, mas, ao contrário, porque trabalha com o material disponível". Ou seja, Lina constrói e desconstrói para atender à necessidade do que tem a mão. Por isso, as obras dela sempre tiveram um ar espontâneo.

Nascida em Roma, em 5 de dezembro de 1914, Lina Bo Bardi formou-se no ano de 1939, pela Escola Superior de Roma, e após ter o escritório bombardeado durante a II Guerra Mundial, veio para o Brasil. Naturalizou-se em 1951, mesmo ano em que projetou a Casa de Vidro.

Versátil –  ela integrou a geração intelectual das primeiras vanguardas artística e política, que tinha o surrealismo como último grande movimento artístico-ético. Portanto, isso explica a efervescência criativa da arquiteta. Mais que isso: ela não exercia a arquitetura pela arquitetura, mas pincelava no trabalho dela referências de outros campos como arte, filosofia, antropologia, literatura e psicanálise. Por causa disso se aproximou de Lygia Clark, Hélio Oiticica, Glauber Rocha, José Celso Martinez e Flávio Império.

Ao longo das 400 páginas do livro, Olivia de Oliveira fala sobre essas coisas e faz também avaliações técnicas dos projetos e comparações, como ocorre entre a Casa de Vidro e a Casa do Chame-Chame. "Nessas casas, já encontraremos todos os temas essenciais desenvolvidos por sua arquitetura. Elas permitem que compreendamos, nos pequenos objetos e detalhes, como estão sendo abordados os temas e preocupações presentes em suas obras de maior envergadura. Em Lina, não há diferença entre grande e pequeno, ao contrário, o que pretendo fazer ver é que justamente nos aspectos marginais, fronteiriços, esquecidos e "mudos" é que reside a potência de sua arquitetura", comenta a autora.

Independente do fato de trabalhar com materiais diversos, Lina Bo Bardi imprimiu nas próprias obras uma unidade, que derruba qualquer tentativa de entender tal criação a partir de uma seqüência temporal biográfica. Essa característica permite identificar e interpretar obras concebidas em lugares e épocas diferentes. Tal unidade, descreve Olivia, é baseada na presença de elementos que se multiplicam na arquitetura, como gárgulas, rios, tanques de água de chuva, cachoeiras, árvores, pilares-árvores, escadas, carrosséis.

"Neste trabalho quis, sobretudo, alertar contra uma certa leitura bastante confusa e obscurantista em suas implicações políticas, salvaguardando a potência e a atualidade da obra de Lina, enquanto confrontação crítica e real a um estado de coisas. Sou contra uma leitura corrente da obra de Lina onde se pretende inseri-la em uma linha de pensamento utópico-imobilista originária das vanguardas modernas-européias", afirma. Sutis Substâncias da Arquitetura é um livro para quem é do ramo da arquitetura e também para quem gosta de arte e tem bom gosto, mas, sobretudo, deseja fazer uma viagem pelo rico universo de Lina Bo Bardi.

[texto publicado originalmente no jornal A Tarde, Caderno 2. Salvador, 22 maio 2006, p. 3 <www.atarde.com.br>]

sobre o autor

Márcia Ferreira Luz é jornalista

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