“Não amaldiçoe a escuridão, acenda uma vela” – o provérbio chinês foi uma das primeiras coisas que ouvi ao chegar ao Projeto Mindfulness, organização sem fins lucrativos que incentiva os seus participantes a entender a si mesmo através da observação do presente. Combinando conhecimentos práticos do budismo aliados às iniciativas permaculturais, ele vem fazendo a diferença não só para a população local, mas na vida de qualquer um que se proponha participar dessa aventura interna, através da yoga, meditação e lições de sustentabilidade.
O projeto se encontra na área rural da Tailândia, próximo ao pequeno vilarejo de Ban Muang Wan, e tem como objetivo criar uma comunidade sustentável e consciente, tendo como base a permacultura. O Projeto Mindfulness é iniciativa de Christian Carow e Anja Carow, fundadores e responsáveis pelo programa que conta também com a cooperação de outros voluntários. A partir de várias soluções comprometidas com o meio ambiente, como a revitalização e reflorestamento do solo, tratamento de resíduos, reciclagem criativa, reuso de águas cinzas, e utilização de energia limpas e renováveis, incorpora também técnicas de construções não convencionais, trazendo a comunidade local para a proposta. Enquanto recém-formada em arquitetura, e inspirada pelo princípio do Mindfulness de que a transformação do mundo acontece quando tomamos o autoconhecimento como caminho, o projeto me atraiu de primeira, ainda mais com a possibilidade de entender melhor, através dele, como a habitação social funciona em outros lugares do mundo.
Assim, me vi inserida na nova rotina de voluntária: o dia começava bem cedo, quando éramos acordados pela batida do gongo, imersos na beleza da floresta que circunda a comunidade. De maneira silenciosa, as primeiras atividades do dia são a prática do yoga, seguida de meditação. Preparamos o café da manhã em grupo, outros ficam encarregados pela limpeza dos banheiros ou organização do dormitório. De forma muito natural, voltamos a falar quando abraçamos uns aos outros na saudação após o café. Uma rápida reunião é realizada e os voluntários são divididos em grupos com suas respectivas tarefas, alguns na cozinha preparando o almoço coletivo, alguns no campo, trabalhando na horta, ou na casa de adobe que estava sendo construída para uma das famílias da aldeia, atividade em que o projeto na época estava envolvido.
No momento inicial, fazer uma casa de adobe era algo inconcebível para a população local, pois, de fato, a utilização desse material não é vista nas áreas rurais da Tailândia. Para Christian, idealizador do projeto, a opção pela utilização dos tijolos de adobe como método construtivo apresentava várias vantagens, como a facilidade de coletar o material no próprio terreno, não necessitar de mão de obra especializada por ser de fácil aprendizado, além do custo reduzido e o conforto térmico proporcionado. O sistema construtivo da técnica é o mesmo da alvenaria convencional, fazendo com que a casa da família não se diferencie na sua forma das outras casas da vizinhança.
A jornada de trabalho era cerca de quatro horas por dia pela manhã e envolveu várias etapas construtivas: da fundação a fase de acabamento final. Durante o meu período no projeto, participei da fase de nivelamento das paredes através do reboco feito do mesmo material dos tijolos de adobe. A massa dos tijolos produzidos era feita diariamente no local de trabalho, a partir de terra coletada no próprio terreno misturada à água e, por último, a casca de arroz, recurso abundante na região, responsável pela resistência do adobe. A mistura era amassada com os pés até formar um material consistente e homogêneo. As fissuras na parede eram quase inexistentes, pois tanto os tijolos quanto a argamassa são feitos do mesmo material e trabalham fisicamente da mesma forma. No processo, o cuidado essencial ao rebocar as paredes foi preencher vazios para evitar o alojamento de insetos.
Ao longo das fases da construção da casa a solução sustentável logo se popularizou, e foi visível o envolvimento dos habitantes locais, pois muitos se ofereciam para ajudar, fosse para levar de carro os voluntários para campo ou até mesmo auxiliar na obra. Todos eram movidos pela curiosidade de ver a tal casa de lama, nome pela qual ficou conhecida, pronta e “de pé”. A casa possuía aproximadamente 150m² e era composta por sala, cozinha, um banheiro, dois quartos, um depósito de ferramentas e alpendre frontal e posterior. Para proteger as paredes do contato com a água da chuva foi utilizado grandes beirais, e a fundação foi construída de maneira convencional, com uso da pedra corrida, como forma de impedir que a umidade da água atinja as paredes por capilarização. Dia após dia, podíamos perceber as mudanças, e a materialização de um sonho.
A aceitação das ações do projeto teve impacto positivo no pequeno vilarejo, sendo inclusive reconhecida sua importância quando o assunto era sustentabilidade. Com a construção da casa de adobe, se tornou recorrente visitas de aldeões curiosos, atraindo também a atenção da escola local. Durante o meu período como voluntária, jovens alunos e professores puderam se envolver com as atividades do Projeto Mindfulness, ocasião que proporcionou a eles vivenciarem de maneira prática lições de permacultura. Dessa forma, passar o conhecimento para a nova geração se torna um dos principais papeis do projeto, indo além do ato de construir, mas se responsabilizando com a nova geração local ao faze-los sentir o seu impacto no meio ambiente, e a partir disso, tornando-os mais conscientes da importância da sustentabilidade. Além disso, através do contato com a bioconstrução, os jovens passam a enxergar novas possibilidades de interação com o meio em que estão inseridos, se apropriando de técnicas vernaculares de construção. Os princípios da permacultura, de cooperação e solidariedade, promovem, ainda, o resgate da identidade local, fortalecendo a noção de comunidade, ao encorajar ao pensamento criativo e a valorização de técnicas locais já existentes, contribuindo à emancipação do padrão globalizado da casa construída de maneira convencional de alvenaria.
O contato dos voluntários com os locais também se dava pelo turno da tarde, quando podíamos visitar o vilarejo. Aproveitávamos para conversar com as pessoas, frequentar espaços de convivência comuns, principalmente alguns templos religiosos e, se tivéssemos sorte naquela tarde, podíamos participar de alguma celebração local. Como estávamos no mês de julho, período marcado por diversas cerimônias tradicionais do calendário budista, a minha principal forma de integração com os aldeões ocorreu através da religião.
O mergulho na experiência me proporcionou o amadurecimento das minhas vivências anteriores na área de Habitação de Interesse Social, além da possibilidade de conhecer sob outro olhar um país com uma cultura tão distinta como a Tailândia. Foi interessante perceber a mudança da perspectiva dos moradores da aldeia: à medida que a casa tomou forma e a solução construtiva ficou mais conhecida, atraiu os olhares respeitosos e interessados de todos. A chance de ouvir os futuros moradores, e o contato com os voluntários provenientes de áreas de conhecimentos diferentes do meu, me fez testemunhar a riqueza da troca de saberes. A permacultura é um caminho inteligente e acessível, que combina técnicas milenares e adapta-se as novas necessidades de morar, apontando para um caminho diferente de ser, estar e se relacionar.
sobre a autora
Jessica Bittencourt Bezerra é Arquiteta e Urbanista pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) com graduação sanduíche na University of Manitoba (Canadá). Criadora e responsável pelo escritório Gaia Arquitetura. Entusiasta da fotografia etnográfica. O artigo é resultado de suas experiências na área da Permacultura quando morou no Sudeste Asiático.