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research

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architectourism ISSN 1982-9930

Vista de São Paulo a partir do edifício Planalto, projetado por João Artacho Jurado. Foto Michel Gorski

abstracts

português
O artigo trata da visita realizada pela rota dos muros e fortificações da cidade de Friburgo, Suíça, refletindo sobre a valorização de nosso patrimônio construído.

english
The article is about the visit carried out along the route of the walls and fortifications of the city of Freiburg, Switzerland, reflecting on the valorization of our built heritage.

español
El artículo trata de la visita realizada a lo largo del recorrido de las murallas y fortificaciones de la ciudad de Friburgo, Suiza, reflexionando sobre la valoración de nuestro patrimonio construido.


how to quote

EKERMAN, Sergio. Friburgo: entre torres e fortificações. Arquiteturismo, São Paulo, ano 15, n. 176.03, Vitruvius, nov. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/15.176/8369>.


Por conta de missões científicas em parceria com pesquisadores da École Polytechnique Fédérale de Lausanne – EPFL, tive oportunidade de visitar a Suíça em 2018, 2019 e em setembro de 2021, realizando investigação sobre novas potencialidades do concreto com reforço têxtil em fibra de carbono, a partir da observação da obra de Lelé construída em argamassa armada (1). A primeira viagem, em 2018, foi a Lausanne, para trabalhos na sede da EPFL, mas em 2019 e 2021, estivemos situados na bela Friburgo, cidade de 39.000 habitantes onde a EPFL construiu o Smart Living Lab, edifício multifuncional onde está o ateliê PopUP, laboratório de construção cuja sofisticação excede inclusive os padrões helvéticos. Ali construímos, junto a estudantes, um pavilhão protótipo, com peças pré-moldadas de 10 a 15mm de espessura, articulando pesquisa, colaboração e o aprendizado através da prática construtiva.

Nesta viagem recente, marcada pelos diversos cuidados ainda necessários no enfrentamento à pandemia, permaneci em Friburgo no final de semana livre, ao invés de sucumbir à tentação de pular em um trem para outras incursões. Em parte seguindo a dica dos colegas Olívia de Oliveira e Serge Butikofer, de que Friburgo reservava a possibilidade de belas caminhadas pelas suas redondezas.

Trecho do Mapa oficial de visita aos muros e fortificações de Friburgo
Imagem divulgação

Em breve visita à cabine de informações turísticas da estação ferroviária foi possível descobrir, por exemplo, que desde 2020 a cidade renovou a organização de uma rota caminhável por "trilhas" correspondentes aos antigos limites e muralhas desta que é uma das maiores cidades medievais preservadas da Europa, fundada em 1157, e que ainda mantém de forma exemplar construções que remontam ao século 13, incluindo fontes, escadarias, muralhas e torres de fortificação. A rota turística, que conta com um Mapa oficial de visita aos muros e fortificações de Friburgo, também promoveu a construção temporária de acessos e escadas, bem como intervenções externas e internas que deram condições de circulação para os andares mais altos das torres, revelando ótimos pontos de observação da cidade, abertos todos os dias entre os meses de abril e outubro.

Situada no vale do Rio Sarine (ou Saane, em alemão), Friburgo é, assim como outras cidades fortificadas, caracterizada pela implantação em dois níveis muito marcantes, conectados entre si por ladeiras, muralhas, escadarias e equipamentos mecânicos. Destaca-se a existência de um funicular construído no final do século 19 por iniciativa dos donos da fábrica da tradicional cerveja local, Cardinal, que funciona com o auxílio das águas sujas da cidade, bombeadas a um tanque sob o bondinho mais alto para que seu peso seja capaz de carregar o bonde que sobe, cheio de passageiros, despejando de volta à rede de tratamento de esgoto a água excedente quando aquele chega na parte baixa. Estrategicamente situada na beira do Sarine, a cidade baixa desenvolve-se ao longo de seu sinuoso traçado, contraposto por um imponente paredão de "molasse", tipo de rocha sedimentar calcária de tom esverdeado e relativamente dócil, muito usada nas construções locais.

Imagem 02

Pont de Saint-Jean (1259). Lápis e aquarela sobre papel 200g/m2
Desenho Sergio Ekerman, 2021

Iniciei o roteiro indicado no mapa de trás para a frente, por acaso, descendo a escadaria ao lado do funicular, até a cidade baixa. A escadaria é uma construção de pedra, coberta por telhado com estrutura de madeira e telha cerâmica plana, presente em várias construções locais. Já na cidade baixa, passando pelas piscinas públicas, encontra-se a Ponte de Saint-Jean, de 1259.

Port de la Maigrauge, 1367. Lápis e aquarela sobre papel 200g/m2
Desenho Sergio Ekerman, 2021

Placa de sinalização da rota dos muros e fortificações de Friburgo
Foto Sergio Ekerman, 2021

Ainda sem cruzar o rio, caminha-se pela borda do Sarine até alcançar a Promenade de La Maigrauge, cruzando a Pont de La Motta para, em seguida, encontrar a Abbaye de la Maigrauge, convento cisterciense do século 13, e, mais a frente, subindo a montanha, a Porte de la Maigrauge, construída em 1367. Muito bem identificados por uma placa metálica padronizada e numerada, em correspondência com o mapa impresso, os monumentos aparecem, tanto na sinalização, como no mapa, reproduzidos em iconografias antigas, facilitando a compreensão de seu papel defensivo e conectando-se enquanto uma rede de acontecimentos históricos, situados no contexto urbano.

Vista de Friburgo a partir do Chemin de Lorette. Lápis e aquarela sobre papel 200g/m2
Desenho Sergio Ekerman, 2021

Chapelle de Lorette (1648). Foto Sergio Ekerman, 2021

Vista da Chapelle de Lorette e da Tour Porte de Bourguillon. Lápis e aquarela sobre papel 200g/m2
Desenho Sergio Ekerman, 2021

O caminho segue até a Chapelle de Lorette e a Tour Porte de Bourguillon, de 1367, local de onde é possível ter uma vista panorâmica privilegiada da cidade e do Rio Sarine. A Chapelle de Lorette, uma pequena construção barroca do século 17, é uma versão reduzida da igreja Santa Casa de Loreto, na Itália, e destaca-se como ponto de referência na paisagem que é possível contemplar desde a cidade medieval. O acesso à Tour Porte de Bourguillon, situado nas proximidades, foi viabilizado por uma escada efêmera de estrutura tubular e, no interior da torre, é possível também encontrar intervenções novas em madeira de tom claro, em contraste com as escadas existentes, de madeira de tom escuro, que permitem uma imediata diferenciação entre novo e antigo, bem como viabilizam a utilização funcional da circulação vertical. Outras torres passaram pelo mesmo processo, proporcionando fluidez à visita e confiança na infraestrutura oferecida. Vale notar que equipamentos mais complexos para acessibilidade universal não estão disponíveis.

Tour-Porte de Bourguillon, 1367
Foto Sergio Ekerman, 2021

Escada efêmera para acesso à Tour Porte de Bourguillon
Foto Sergio Ekerman, 2021

Intervenção na escada do interior da Tour de Chats
Foto Sergio Ekerman, 2021

Detalhe de intervenção na escada do interior da Tour de Chats
Foto Sergio Ekerman, 2021

Em seguida, o caminho segue pela parte alta da cidade, hoje uma área de expansão ocupada por casas unifamiliares, descendo a montanha mais à frente através de uma trilha na mata que dá acesso a Torre de Durrenbuhl, e, adiante, chegando a um pequeno platô que funciona como adro da Chapelle de Saint-Béat, de 1686, e também como acesso a um trecho notável do conjunto de fortificações, a Porta e muralha do Gottéron, de 1383, que protegia a entrada da cidade pelo Rio Gottéron, afluente do Sarine. A possibilidade de circular pelo topo da muralha, um ambiente coberto, conhecendo seus artifícios defensivos e construtivos, bem como vivenciar este espaço, é uma experiência rica e didática, sempre ilustrada por cartazes e textos explicativos, complementares ao mapa. Em tempos onde tudo tornou-se aplicativo de celular ou “nuvem”, foi perceptível o conforto de contar com os elementos impressos ao alcance da mão e do olho.

Porte du Gottéron. Lápis e aquarela sobre papel 200g/m2
Desenho Sergio Ekerman, 2021

Placa explicativa, Porte du Gottéron
Foto Sergio Ekerman, 2021

O conjunto seguinte, já na parte mais baixa da cidade junto ao rio, é formado pela Pont de Berne, de 1250, uma impressionante construção treliçada em madeira, totalmente coberta, pela Torre da Porta de Berne, de 1383, e pela Tour de Chats, de 1383, prédio que, por sua posição, oferece uma bela vista do vale e compreensão da posição geral das fortificações, em perspectiva oposta à Lorette. Ao fazer a rota completa, o visitante pode, portanto, compilar diferentes visões complementares da mesma paisagem.

Pont de Berne, 1250
Foto Sergio Ekerman, 2021

Detalhe de seteira na Tour de Chats e vista da Tour Port de Berne. Lápis e aquarela sobre papel 200g/m2
Desenho Sergio Ekerman, 2021

O passeio segue pela Route de Neigles, paralela ao Rio, que é posteriormente atravessado através da Passerelle de Neigles, ponte de pedestres estaiada de 107m de extensão construída em 1998. Uma escada leva de volta à parte mais alta da cidade, onde encontra-se o imponente conjunto da Tour-Porte de Morat, de 1441, que tem cerca de 34m de altura. Outros baluartes e muros na porção leste da cidade completam a rota, que passa ainda nas proximidades do prédio da Universidade de Friburgo, prédio construído em 1941 pelo arquiteto Denis Honegger, discípulo de Auguste Perret.

Passerelle de Neigles, 1998
Foto Sergio Ekerman, 2021

Conjunto da Porte de Morat, 1414
Foto Sergio Ekerman, 2021

Porte de Morat. Lápis e aquarela sobre papel 200g/m2
Desenho Sergio Ekerman, 2021

A visita, em meu caso, diante das paradas para os desenhos realizados in loco, que ilustram este texto, tomou praticamente seis horas. Nas proximidades da Tour Porte de Bourguillon uma confeitaria local foi ponto de parada para um lanche rápido, mas recomenda-se levar água e suprimentos, além de tênis e roupa confortável para enfrentar as subidas e descidas.

Além das rotas das muralhas, a cidade oferece também passeios temáticos por pelo menos dezessete fontes construídas na cidade a partir do século 16, dentre outras atrações, a exemplo da Fontaine de Notre-Dame du Rosaire, de 1839.

Universidade de Friburgo, Denis Honegger, 1939
Foto Sergio Ekerman, 2021

Fontaine de Notre-dame du Rosaire. Lápis e aquarela sobre papel 200g/m2
Desenho Sergio Ekerman, 2021

A lição depreendida da visita à rota das muralhas em Friburgo é simples: conhecer e valorizar, como ponto de partida fundamental para preservar o que é público e bem comum, algo que, apesar de elementar, parece ser importante lembrar diante dos recentes ataques ao patrimônio construído no Brasil e na Bahia. Aqui, parece, a sociedade vive desconectada de sua história. Há pouco mais de um mês, por exemplo, chegou através da imprensa a informação de que o próprio Estado da Bahia penhorou no passado o Solar da Quinta do Tanque – construído no século 18 em Salvador, onde morou Padre Antônio Vieira – como garantia de pagamento em um escandaloso processo judicial (2). O Arquivo Público do Estado da Bahia, um dos mais importantes do país, ali sediado, está agora sob ameaça frontal, assim como a posse pública do bem, onde foram investidos em 2020 cerca de 3 milhões de reais em reforma.

Sobre o inventário do patrimônio construído na Bahia, realizado pelo mesmo Estado da Bahia entre 1975 e 2000, diga-se de passagem, o arquiteto Paulo Ormindo de Azevedo, coordenador do projeto, escreveu: “O inventário básico de nosso patrimônio edificado está concluído, o que nos conforta, mas aumenta dramaticamente a nossa responsabilidade. A partir de agora, não podemos mais alegar que não sabemos o que possuímos e o que devemos preservar” (3).

É urgente que, além de intervenções e reformas visando à instalação de programas espetaculares, possamos trabalhar sobre a capacidade de informar e criar interesse pelo uso social e público de nosso patrimônio construído e dos eventos históricos que moldam nossa identidade. Para o bicentenário da independência da Bahia, em 2 de julho de 2023, por exemplo, porque não melhor organizar e valorizar a rota turística pelos pontos e monumentos que fizeram parte deste importante evento histórico nacional? Apenas uma, dentre muitas possibilidades que oferece uma cidade como Salvador para implantação de ações efetivas de educação patrimonial compatíveis com nossa herança.

notas

1
Em 2017 a arquiteta Olívia de Oliveira esteve em Salvador, como pesquisadora visitante na Faculdade de Arquitetura da UFBA, para cumprir etapa da sua pesquisa "Vazios Construídos", realizada em parceria com a Profa. Ana Fernandes e o Grupo de Pesquisa Lugar Comum. Veio da Suíça, onde reside, acompanhada dos professores pesquisadores da École Polytechnique Fédérale de Lausanne (EPFL) Dieter Dietz, Patricia Guaita e Raffael Baur. Mais adiante tive o privilégio de, estabelecer parceria com os professores Patricia Guaita, Raffael Baur, Miguel Fernández Ruiz no projeto de pesquisa “The possibility of a new building paradigm thanks to Textile Reinforced Concrete'', apresentado à Universitat St. Gallen, Leading House para financiamento de pesquisas entre Suíça e países da América Latina.

2
Ver: MATOSO, Danilo. Patrimônio nacional, Quinta do Tanque é ameaçada de privatização judicial em Salvador. O Partisano, 13 nov. 2021 <https://bit.ly/3pnpLx3>.

3
AZEVEDO, Paulo Ormindo de. A herança e o inventário. Revista da Academia de Letras da Bahia, n. 44, nov. 2000, Salvador, ALB, p. 201-210.

sobre o autor

Sergio Ekerman é diretor da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (2020-2024) e professor do Mestrado Profissional em Conservação e Restauração de Monumentos e Núcleos Históricos – MP-Cecre. Recebeu em 2019 o 14º Prêmio Arquiteto e Urbanista do ano da FNA, junto a arquiteta e urbanista Olivia de Oliveira, pelo projeto da nova sede do programa Neojiba no Parque do Queimado, em Salvador.

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