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architectourism ISSN 1982-9930

Plaza de la Concepción, San Cristóbal de La Laguna, Espanha

abstracts

português
A arquiteta Sonia Manski comenta o cotidiano tranquilo de Melbourne, uma das maiores cidades da Austrália.


how to quote

MANSKI, Sonia. Alguma coisa acontece.... Em Melbourne do meu coração! Arquiteturismo, São Paulo, ano 15, n. 178e179.01, Vitruvius, fev. 2022 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/15.178e179/8429>.


Alguma coisa acontece aqui em Melbourne. Pelo menos na rua. Levando o neto para a creche, sentado dentro de um carrinho – melhor dizendo, um carrão – de plástico, com quatro rodas, imitando um de verdade, sem capota e com uma haste longa para empurrá-lo, o inesperado me espera.

Começa que logo ao sair de casa, o rapazinho de dois anos fala: “Lua, Lua”. Fora do meu costume, morando em São Paulo, onde é difícil apreciá-lo, olho para o céu e vejo a Lua Nova. Mais uma vez me chama a atenção o horizonte descortinado em 360º. Para entender como se consegue a proeza, explico que o bairro é basicamente formado por casas, com no máximo dois andares, afastadas do alinhamento e com muros baixos em sua grande maioria. Nada de garagens no recuo frontal obstruindo a visão do pedestre. Ponto positivo.

Em seguida, virando a esquina, cruzamos com uma senhora de avançada idade, sorridente, rosto maquiado, batom vermelho e vestido bem colorido, passeando pela calçada, auxiliada por andador. Imagino deva ter algo na comida ou na água aqui para a longevidade ser tamanha, dada a quantidade enorme de pessoas mais velhas que encontro. Que ela abra um enorme sorriso para mim e para meu neto junto com um bom dia me surpreende.

Cena cotidiana em Melbourne
Foto Maya Golvan

Como não me espantar com a alegria de viver estampada no vestido e no rosto, apesar da dificuldade de locomoção? Sem falar que estava desfrutando o momento e aberta para o mundo. Juro que seus olhos brilhavam.

Prosseguindo na caminhada e algumas quadras adiante, antes de cruzar a rua, vejo um caminhão se aproximando e, apesar da pequena distância, e já sabendo que aqui os pedestres são bastante respeitados, tive certeza de que ele ia dar passagem e já me preparava para continuar a andar. Ao terminar a travessia, piso na calçada e observo que o netinho está acenando para alguém. Olho em volta, tentando entender o que está acontecendo. O que teria motivado esse gesto dele? Ora, ora, ora!... Não é que ao olhar para o caminhão, lá no assento elevado, está o motorista – bem atento ao seu redor – fazendo tchau para o garotinho!... Quem iria imaginar esse gesto tão simpático para com o mini pedestre? Não eu.

Na verdade, eu, sim. Devo confessar que já tinha experimentado um caso parecido. Mas, com pandemia e tudo o mais, fazia um tempinho que não tinha oportunidade de flanar e tinha me esquecido desse detalhe.

Cena cotidiana em Melbourne
Foto Maya Golvan

Foi na primeira vez em que aterrissei em terras australianas que me espantei com um gesto de atenção. De tanto cansaço, sentada no avião prestes a finalmente decolar para Melbourne, morta de cansaço abaixei a cabeça e encostei-a no encosto da frente, sobre os braços cruzados. A senhora ao lado na hora me pergunta se eu estava me sentindo bem e se precisava de ajuda. Jamais imaginei estar dando a impressão de alguém se sentido mal e rapidamente respondi que, vindo do Brasil, estava apenas exausta depois de dois voos. Tudo isso somado à ansiedade de estar vindo pela primeira vez para continente tão distante e sozinha. (Entre parênteses esclareço que sempre tive dificuldade de viajar sozinha.)

Ainda nessa oportunidade, tive outra demonstração de que há pessoas atentas observando ao seu redor e disponíveis para oferecer algum tipo de assistência. Estava no centro da cidade e abri um mapa – desses que desdobram e ficam relativamente grandes – para me localizar. Mais cara de turista, impossível. Logo um rapaz para e me pergunta se precisava de ajuda. Melhor do que isso, pede o endereço de onde eu estava indo, olha no Google Maps e orienta meu trajeto. Nem imagino a cena no centro de São Paulo, tamanho é o medo de ficar parada no meio da rua.

Voltando para o meu passeio matinal, ainda antes de chegar na creche, um homem em trajes esportivos vindo no sentido contrário me pergunta se o bebê já tem habilitação para dirigir. Sorrio e faço que sim com a cabeça em resposta.

Cena cotidiana em Melbourne
Foto Maya Golvan

Uma fala similar se repete quando, neto devidamente entregue na creche e carrinho vazio, um jovem na calçada – também ligado no seu entorno – me olha e pergunta sorrindo se eu perdi alguma coisa no caminho. Por trás da minha máscara, para mostrar que entendi o gracejo, devolvo o sorriso, tentando torná-lo mais claro com um som e com os olhos, única parte visível do rosto.

Continuo gostando de ver esse olhar pronto para ver o outro; fico com a impressão de que alguma coisa acontece por aqui: as pessoas estão mais presentes. Caminhando pela rua, parecem estar de fato onde estão. Isso me lembra a frase de um primo: “O melhor lugar para estar é onde se está. Até porque não há outro lugar para estar a não ser o aqui e o agora”. Talvez isso me chame tanto a atenção porque divagação é o meu nome.

Para minha sorte, o inevitável contágio acontece. Alguma coisa acontece de fato por aqui. Pelo menos hoje. Pelo menos agora. E não quero nem saber se essa abertura cordial para interagir com o outro é um traço da cultura ou apenas um acaso por mim experimentado. Me influencio do mesmo jeito e volto para casa aproveitando o momento, olhando para o céu, sentindo a brisa e o sol na pele, admirando as árvores e algumas folhas já mudando de cor para o outono. E obviamente cumprimento sorrindo – mesmo que por baixo da máscara – todas as pessoas que passam por mim.

Cena cotidiana em Melbourne
Foto Maya Golvan

sobre a autora

Sonia Manski, paulistana, formada em arquitetura (FAU USP) e psicologia (Unip), trabalha na Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa – Condephaat desde 1982. É autora de artigo na coletânea Infâncias (org. Heloísa Prieto, Escrita Fina, 2011) e autora do livro Meus queridos cavalheiros (Girafa, 2006) e Sem cerimônia: diário de uma psicoterapia (Ágora, 2002). Teve textos selecionados para participar da criação do espetáculo Eu de você, monólogo de Denise Fraga, com direção de Luiz Villaça (2019).

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