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research

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architectourism ISSN 1982-9930

Plaza de la Concepción, San Cristóbal de La Laguna, Espanha

abstracts

português
O artigo trata de apresentar as experiências de uma visita guiada dos pesquisadores do Grupo de Estudos em Arquitetura e Engenharia Hospitalar (GEA-hosp), do PPGAU UFBA, ao Hospital Sarah Kubitschek, unidade Salvador, na Bahia.


how to quote

NOBRE NETO, José Ferreira; et. al. O olhar dos arquitetos da saúde sobre a obra do Hospital Sarah, em Salvador BA. Arquiteturismo, São Paulo, ano 15, n. 178e179.02, Vitruvius, fev. 2022 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/15.178e179/8430>.


Em 1956 nasce a sociedade civil de utilidade pública Pioneiras Sociais, criada pela primeira dama, Sarah Kubitscheck, que tinha por objetivo atender a população carente através de assistência médica e educacional (1). O primeiro centro de Reabilitação Sarah Kubitschek, implantado pelas Pioneiras Sociais, foi inaugurado em 1960, em Brasília, e ampliado em 1969, passando a ser um hospital cirúrgico com 66 leitos e atendendo outras regiões, como Norte, Nordeste e Centro-oeste. Este hospital serviu de embrião para a formação da Rede Sarah, iniciada com a inauguração do Sarah Brasília, em 1980, e facilitada pela aprovação do projeto de lei que transformou a antiga Fundação em Associação das Pioneiras Sociais. A partir desta data surgem outras unidades dispersas no país, como em São Luís (1993), Salvador (1994), Belo Horizonte (1997), Fortaleza (2001) e Ilha da Pombeba, no Rio de Janeiro (2002). O grupo presta serviço de excelência em saúde no país e atua com o atendimento a sete especialidades médicas, como a ortopedia, a pediatria do desenvolvimento, a reabilitação neurológica, a neurocirurgia, a genética médica, a cirurgia plástica reparadora e a neurorreabilitação em lesão medular.

O arquiteto idealizador do conjunto das obras da Rede Sarah foi João Filgueiras Lima, o Lelé. O profissional adquiriu vasta experiência no desenvolvimento da capital do país, Brasília, juntamente com Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Após anos de trabalho com projetos e construções foi convidado pelo médico Aloysio Campos Paz para atuar com o plano da nova sede das Pioneiras Sociais e, logo em seguida, desenvolveu toda a rede dos hospitais utilizando princípios da industrialização, interação multiprofissional, baixa manutenção, custos reduzidos e intercâmbio tecnológico (2).

Fotografia da maquete física do Hospital Sarah
Foto autores

Sobre a infraestrutura das unidades da Rede Sarah, mesmo com a sua longa existência, os Estabelecimentos Assistenciais de Saúde – EAS até hoje despertam o interesse dos estudiosos, sobretudo da especialidade de arquitetura em sistemas de saúde, por sua complexidade e por conter vários campos disciplinares em um único hospital. Quando se fala em unidade de saúde projetada por Lelé, esse interesse ainda é maior, pois seus projetos são exemplos de soluções bem planejadas e eficientes para o bem-estar dos usuários.

É importante destacar que todas as Hospitais Sarah desenvolvidas por Lelé adotam os mesmos princípios básicos inerentes à sua concepção arquitetônica. Ou seja, a programação arquitetônica foi planejada de acordo com a lógica da racionalidade construtiva, da modulação estrutural, da coordenação modular, da funcionalidade, da setorização e dos fluxos claros. Com relação à humanização dos espaços, percebe-se a adoção dos princípios da sustentabilidade, a aplicação do conforto ambiental à arquitetura – acústico, térmico, ergonômico, higrotérmico e visual, o paisagismo e a escala humana.

Desenvolvimento

Experiência 1 – conhecendo o contexto urbano

O Hospital Sarah Salvador localiza-se no bairro Stiep, região que teve a sua ocupação inicial a partir de 1968. A área é contígua ao bairro Iguatemi, maior centro financeiro e comercial da cidade. Na localidade estão presentes equipamentos complexos, como os Shopping da Bahia e Salvador, o Terminal Rodoviário de Salvador, complexos hoteleiros e torres empresariais.

Na região do Stiep predomina a existência de equipamentos institucionais e educacionais, com o uso do solo urbano de características comerciais, residenciais e de serviço (3). O sistema viário da região é composto por vias arteriais e coletoras, de grande importância para a cidade e movimentação, onde ocorre com frequência o fenômeno do “engarrafamento”.

O terreno desta unidade Sarah compreende num grande lote entrecortado pelas Avenidas Tancredo Neves e Luís Viana Filho, conformando uma geometria trapezoidal. A topografia do local é acidentada, com o desnível máximo estimado de 24,00 metros. O platô mais próximo da via de acesso está implantado na cota 16,00 metros, onde foi implantado o antigo Centro de Tecnologias da Rede Sarah – CTRS, e o platô do EAS está implantado na cota mais elevada, com 40,00 metros em sua altimetria.

Reuniões dos pesquisadores na visita guiada
Foto autores

O complexo de saúde possui quatro blocos, orientados com relação à carta solar da cidade nos quadrantes sudeste-noroeste, no seu sentido eixo longitudinal. Ambos possuem tipologia pavilhonar, com características horizontais e apenas dois pavimentos. No nível do térreo estão assentados os serviços assistenciais de saúde (setores de ambulatório, tratamentos, diagnóstico, internação, centro cirúrgico, estacionamento e escola de paralisia cerebral) e no nível subsolo estão os serviços de apoio técnico e logístico (4).

A região é densamente arborizada e faz parte de um “pulmão verde”, compreendido entre as extensões dos terrenos das instituições militares do 6° Batalhão de Polícia do Exército e do 19° Batalhão de Caçadores. De certa forma, o local ainda se encontra preservado, sem a presença de edificações verticalizadas no seu entorno imediato, de modo a bloquearem a frequência dos ventos dominantes e a iluminação natural em todo o complexo. O bosque natural associado ao paisagismo proposto pelo conjunto da obra são elementos que contribuem para as práticas terapêuticas de cura dos pacientes.

Experiência 2: visita guiada ao Hospital Sarah Salvador

A segunda fase da experiência, correspondente à visita ao complexo de saúde (5), ocorreu dentro do bloco principal, em ambiente restrito e controlado, com a participação de alguns profissionais da unidade, entre eles dois arquitetos e um técnico de manutenção. Foi realizada uma reunião coletiva, com cerca de doze pesquisadores, para a apresentação da filosofia de trabalho e a definição dos circuitos da visita guiada pelo Hospital Sarah Salvador.

Reuniões dos pesquisadores na visita guiada
Foto autores

Em seguida, foram apresentados os desenhos técnicos executivos do Hospital e um vídeo institucional sobre a logística de montagem da estrutura dos prédios pré-fabricados. Toda a exposição foi realizada de forma didática, com o intuito de esclarecer o processo construtivo da edificação e os respectivos detalhamentos da obra.

Após a exposição, foi realizada a visita guiada com o grupo de pesquisadores a todos os blocos da Instituição. Em cada setor funcional visitado era comum a explicação sobre a forma de trabalho dos profissionais e o tipo de assistência direcionada para os pacientes. Também foi discutido com os coordenadores dos ambientes as especificidades em sua operação diária, como também foram inspecionadas as soluções arquitetônicas e os seus materiais construtivos.

Figura 02b

Experiência 3 – compreensão e registro fotográfico da infraestrutura hospitalar

A sede baiana do Hospital Sarah, inaugurada em 1994, possui um partido arquitetônico horizontalizado, sendo implantado em amplo terreno arborizado. Em sua solução foram criadas espacialidades generosas e funcionais, diretamente ligadas às terapias aplicadas aos usuários que necessitam de apoio para a recuperação do aparelho locomotor. Esta unidade se destaca, diante dos outros exemplares da rede nacional, por abrigar, além das áreas assistenciais, o Centro de Tecnologia da Rede Sarah – CTRS, composto por oficinas de metalurgia, argamassa armada, marcenaria e plásticos.

Criado com o objetivo de atender à exigência do contrato em relação à ampliação da rede, de modo a estender suas ações de cuidado por todo território brasileiro, o CTRS era responsável pela manutenção da estrutura física de todos os hospitais da Rede Sarah. “A implantação desse centro criou também a oportunidade de aprimorar e desenvolver as experiências acumuladas no campo da industrialização do concreto armado, da argamassa armada, do aço, dos aglomerados de madeira, dos plásticos injetados e em fibra de vidro” (6). Não obstante a sua importância, o CTRS foi desativado nos últimos anos e, atualmente, a Rede Sarah depende de serviços terceirizados para suprir suas demandas de infraestrutura, instalações e equipamentos.

Equipamento de circulação vertical
Foto autores

A notória capacidade técnica e a engenhosidade de Lelé, harmoniosamente associadas ao seu potencial criativo, trouxeram para o complexo hospitalar um resultado projetual de excelência, desde o ponto de vista macro, até os seus detalhes. Uma das soluções que se destaca é a utilização de um plano inclinado com funcionamento à base de contrapeso, inserido no declive do terreno com o objetivo de vencer o longo desnível existente entre as áreas do CTRS e do hospital. Cabe ressaltar a sensibilidade do arquiteto ao implantar esta circulação vertical em meio a uma massa de vegetação, gerando uma espécie de “túnel verde” por onde o pedestre transita dentro dos bondes. Desse modo, além de facilitar a circulação das pessoas ao longo da extensa área do terreno, o plano inclinado possibilita o contato direto de cada usuário com a natureza, através de um percurso agradável e humanizado.

Equipamento de circulação vertical
Foto autores

Além disso, vale ressaltar a existência, neste hospital, de uma das marcantes propostas de Lelé para a Rede Sarah: as galerias de ventilação (Fig. 04). Essas estruturas subterrâneas, que possuem 5 quilômetros de extensão, consistem em uma espécie de túnel de captação de ar com um funcionamento bastante preciso. Ao entrar nas galerias, o ar passa por diversas cortinas de água, auxiliando a reduzir, em até 2 graus celsius, a temperatura no interior do hospital. Sua estrutura é como uma grande contenção que recebe manutenção frequente, permitindo que o sistema renove e higienize o ar constantemente, contribuindo para a redução dos índices de infecção hospitalar.

Galerias de ventilação
Foto autores

O ar frio, transportado nessas galerias, chega aos ambientes através de dutos verticais com grelhas metálicas (Fig. 05). Esse ar empurra o ar quente do ambiente, que é expelido através dos sheds localizados na cobertura. Cabe ainda enfatizar que as galerias também funcionam como passagem para os cabeamentos e instalações de grandes equipamentos do hospital, chegando em cada ambiente através do piso.

Duto vertical de ventilação natural
Foto autores

Outro ponto característico da genialidade de Lelé, que pode ser observado no Hospital Sarah Salvador, é o uso dos sheds na cobertura. Seguindo a sua meticulosa preocupação com a qualidade do ar no interior da unidade de saúde, o arquiteto cria sheds com abertura em posição contrária aos ventos predominantes. Dessa maneira, é possível expulsar o ar quente da área interna do hospital através dessas grandes estruturas que funcionam como uma espécie de exaustor e auxiliam na renovação do ar.

Cobertura, racionalidade e modulação
Foto autores

Também é preciso enfatizar que os valores da racionalidade e economia construtivas que permeiam os projetos de Lelé podem ser claramente percebidos na sede hospitalar da capital baiana. A modulação pautada na malha de 625x625 mm está presente na estrutura, nos pisos, esquadrias e painéis de vedação, todos pré-moldados, contribuindo para a flexibilidade espacial do complexo. Para o arquiteto, nenhuma decisão projetual poderia ser gratuita, portanto, todos os elementos (desde a estrutura, até os forros, luminárias e mobiliário) deveriam atender a um propósito. É comum que cada componente tenha mais de uma função: através das vigas metálicas, passam cabeamentos; através dos pilares, passam tubos de PVC que recebem as águas pluviais provenientes das calhas.

Experiência 4: vivenciando a humanização dos espaços físicos

Entendendo a humanização do ambiente hospitalar como uma mudança de paradigma que busca priorizar a experiência dos usuários no espaço para a promoção, proteção e recuperação da saúde, o Hospital Sarah de Salvador foi projetado sob uma perspectiva à frente de seu tempo, que o tornou referência no assunto. Ao reconhecer o papel dos ambientes hospitalares no processo terapêutico, Lelé tira partido da funcionalidade, da estética e da técnica em suas obras, fazendo o edifício se relacionar com o entorno de forma simbiótica.

Ao considerar fatores biopsicossociais na conformação do processo de doença e cura, o paciente é elevado à condição de sujeito no tratamento. Questões relativas ao seu conforto físico e psicológico, bem como dos acompanhantes, profissionais de saúde e demais funcionários são inscritos na conformação dos espaços. Mudanças nos processos de trabalho são perceptíveis através da arquitetura, somando-se ao treinamento específico da equipe aos valores da instituição.

Em uma breve visita ao Hospital Sarah de Salvador, há de se concordar com Toledo (7) que apesar de um ambiente hospitalar, por si só, não ser capaz de desumanizar o serviço de saúde, quando bem projetado, pode contribuir consideravelmente para as boas práticas, melhorando a satisfação de usuários e trabalhadores, revelando-se um instrumento efetivo para a humanização.

A funcionalidade preconizada por Lelé está diretamente relacionada à eficiência energética do edifício. Termo até então pouco enfatizado à época, a obra analisada pode ser considerada sustentável. O hospital passa longe da contradição existente em EAS, que em vez de promover a saúde, causa danos ao meio ambiente, prejudicando a mesma, a médio e longo prazo para a população circunvizinha.

Contrariando a perspectiva reducionista da arquitetura hospitalar – onde não raro são projetados espaços para a efetivação de procedimentos médicos, sob uma perspectiva intervencionista e curativa –, o Hospital Sarah de Salvador apresenta grande contribuição para os estudos de soluções arquitetônicas em hospitais, em especial, no que diz respeito à estética e à humanização: o hospital não precisa ser asséptico, frio e impessoal para ser funcional, tampouco descaracterizado de sua função assemelhando-se a um shopping center ou hotel cinco estrelas, para ser agradável.

A valorização do espaço aberto e a conexão com o meio exterior para regulação do ritmo circadiano são fatores especialmente relevantes na condição de acamado, que são muito bem trabalhados por Lelé. A previsão de espaços verdes possibilitando exercícios ao ar livre próximos aos leitos, a iluminação e ventilação natural controlável, colaboram não somente para a recuperação e conforto do paciente, mas também para a redução dos custos da atenção à saúde, podendo reduzir o tempo de internação pelo papel terapêutico do espaço e os custos de manutenção da edificação.

Varanda descoberta interligada às enfermarias
Foto autores

Esse aspecto é claramente evidenciado na área destinada à internação do Hospital Sarah Salvador, que prioriza a criação de enfermarias conectadas diretamente a uma extensa varanda descoberta composta por árvores e bancos de concreto pré-moldado, permitindo uma maior relação entre os pacientes e aplicando o conceito de que a promoção do contato com a natureza auxilia o processo de reabilitação de maneira mais acelerada. Da mesma maneira que o hospital se abre para relacionar-se com a natureza, a natureza responde relacionando-se diretamente com o interior do hospital. Cabe lembrar que recursos artificiais, como o ar condicionado, também são utilizados, porém restringidos apenas aos espaços indispensáveis: centro cirúrgico, central de material esterilizado (CME), salas de raio-X, auditório, arquivo, etc.

Ainda em referência à presença dos jardins no projeto do Hospital Sarah Salvador, este é mais um item que comprova a genialidade do arquiteto Lelé. A unidade de Salvador, construída na década de 1990, período em que os jardins eram menos prevalentes na arquitetura hospitalar e a prioridade dada à eficiência funcional moldava (e ainda molda) os projetos de grandes hospitais no mundo inteiro, apresenta uma preocupação paisagística que somente a partir do início do século 21 voltaram a ser consideradas indispensáveis em projetos de arquitetura hospitalar.

Relação da circulação interna com a vegetação
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A percepção de que jardins ou a presença de plantas trazem benefícios para pacientes em ambientes de saúde e bem-estar possui mais de mil anos. Na Europa, durante a Idade Média, os mosteiros possuíam jardins elaborados com o objetivo de causar sensações agradáveis para as pessoas doentes (8) e reservavam pátios para o cultivo de ervas medicinais e para o recolhimento dos monges. Florence Nightingale (9) já citava que hospitais europeus e americanos dos anos 1800 comumente possuíam jardins. Porém, no início do século 20, os jardins diminuem sua presença na arquitetura hospitalar.

Fator-chave no grande ressurgimento do interesse internacional em fornecer jardins em hospitais são as pesquisas científicas realizadas neste campo, evidenciando que a visualização de jardins pode reduzir o estresse dos pacientes e melhorar os resultados da saúde. Pacientes podem apresentar menos ansiedade durante o período pós-operatório e sofrer menos dor severa, benefícios que resultam em menor tempo de internamento e menor uso de drogas, o que se traduz em vantagens econômicas para o hospital. Para os funcionários da saúde, os jardins são meios eficazes para uma fuga restauradora do estresse do trabalho e das pressões e condições adversas do ambiente hospitalar (10).

Roger Ulrich considera que jardins voltados à provocar benefícios à saúde de pacientes em ambientes hospitalares devem preferencialmente conter folhagens verdejantes, flores e sons de natureza como o barulho do vento e canto de pássaros e possuir espaços gramados com árvores espalhadas, com características semelhantes à parques. Todos estes elementos estão presentes no Hospital Sarah Salvador, cujos recursos paisagísticos possuem poder calmante e relaxante. A vegetação do Hospital Sarah se constitui numa ferramenta terapêutica bastante relevante, especialmente para os pacientes que não podem utilizar os espaços livres em razão de alguma deficiência ou do isolamento em que se encontram. Mesmo o paciente acamado, sem condições de caminhar, ao contemplar a natureza a partir do seu leito, pode recuperar o bem-estar, sem necessariamente ir até o jardim. O uso terapêutico da área paisagística pressupõe um convívio interativo, onde o paciente pode observar as plantas e seu comportamento, podendo ocorrer, a cada dia, uma experiência diversa, por meio do contato com a paisagem.

Jardins de hospitais devem ter atenção especial a itens de projeto como a acessibilidade, que deve ser simples, fácil e bem sinalizada, proporcionar segurança, possuir pisos adequados e seguros, corrimãos onde for necessário ao longo do percurso, mobiliário confortável e resistente e boa iluminação, no caso do uso noturno dos espaços ajardinados. Devem promover a autonomia de uso, incentivar o contato social e oferecer oportunidade e estímulo para realizar movimentos físicos. O Hospital Sarah Salvador, por meio de suas varandas descobertas, pátios ajardinados e caminhos para a circulação pelas alamedas arborizadas é um modelo de hospital que oferece ambientes que podem ser considerados jardins terapêuticos ou jardins de cura, elemento indispensável na arquitetura hospitalar contemporânea.

Área de reabilitação através da hidroterapia
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Área de reabilitação através da hidroterapia
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É importante pontuar que as referidas soluções arquitetônicas só se tornaram possíveis devido ao grande terreno onde o edifício hospitalar foi implementado, favorecendo o desenvolvimento do partido horizontal, qualidade defendida por Lelé, com aberturas, acessibilidade, visadas, paisagismo, ventilação e iluminação natural muito bem explorados. Além de maior contato com o exterior, essa conformação possibilita uma maior segurança do paciente em casos de incêndio. A utilização de rampas para conectar os poucos pavimentos, poupa custos de manutenção com elevadores, que geralmente são altamente dispendiosos à edificação. Essa qualidade segue a mesma lógica de evitar o emprego desnecessário de iluminação e ventilação artificial, tornando a edificação mais sustentável pelos custos reduzidos de manutenção. Por ter sido concebido como um hospital para recuperar indivíduos com problemas de locomoção, é totalmente acessível aos pacientes, estimulando-os a passear pelo hospital seja em muletas, andadores, cadeiras de rodas ou camas-macas, peças que foram por muito tempo especialmente desenvolvidas na própria unidade.

Equipamentos para assegurar a acessibilidade
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Para possibilitar a acessibilidade (Fig. 08 e 09), foram eliminadas todas as barreiras arquitetônicas, tanto do interior do hospital como de seus arredores, de modo a deixar o paciente livre para circular entre as enfermarias e as varandas, tomar banho de sol, acessar as salas de fisioterapia, os banheiros, as piscinas, os locais de reunião, ou até mesmo visitar outros pacientes (11). Além disso, é importante observar que a área externa para reabilitação localizada no pavilhão infantil possui uma rampa com elevado ângulo de inclinação, concebida dessa maneira propositalmente, com o objetivo terapêutico de promover a realização de testes de esforço em pacientes que estejam em estágio mais avançado de preparação física.

Acessibilidade: rampa terapêutica na área externa de reabilitação do pavilhão infantil
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Por fim, e não menos importante, cabe enfatizar mais uma atitude de Lelé que se aproxima a inúmeras obras da Arquitetura Moderna da Saúde: além de buscar uma relação direta entre o edifício e a natureza, ele também incorpora a arte aos ambientes, entendendo que ela constitui o conceito de qualidade espacial que deve permear as instituições de saúde com assistência centrada no bem-estar dos usuários. Observa-se no Hospital Sarah Salvador a presença de painéis pré-moldados com elementos artísticos geométricos e coloridos, que são utilizados para delimitar diversas áreas, criando um cenário agradável nos percursos. Além disso, há neste hospital uma obra emblemática do artista moderno Athos Bulcão (que trabalhou exaustivamente ao lado de Lelé), protagonizando a divisão entre as circulações e recepções com sua cor, vibração e movimento. Há ainda, em algumas salas e circulações, a exposição de obras artísticas desenvolvidas pelos pacientes nas oficinas de terapia ocupacional, contribuindo como um recurso que potencializa o sentimento de pertencimento e de identidade do usuário com aquele espaço construído.

Arte integrada à arquitetura da saúde
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Conclusão

Através da visita, realizada pelos pesquisadores do GEAhosp (UFBA), pôde-se constatar a eficiência das soluções desenvolvidas por Lelé no projeto do hospital Sarah Kubitschek de Salvador (Fig. 12). Apesar de ter sido projetado na década de 1990, época que a tipologia mista (monobloco vertical e pavilhonar) estava sendo bastante utilizada em projetos de hospitais, Lelé optou por utilizar a tipologia pavilhonar, partido adotado no século 19, no Brasil, quando os hospitais começaram a ser tratados como locais de cura.

Visita ao Hospital Sarah Salvador por membros do GEAhosp UFBA
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Os hospitais com partido pavilhonar foram bastante criticados, no início do século 20, por precisarem de grandes terrenos para implantação e por demandarem grandes percursos por parte do pessoal de saúde, manutenção e instalações. Lelé, no entanto, consegue mostrar que o partido pavilhonar pode ser a melhor solução quando pensamos no bem-estar do usuário (paciente, médicos, funcionários), transformando o edifício em um local de cura. A humanização, hoje, é um item fundamental em projetos de estabelecimentos assistenciais de saúde e ela pode ser encontrada em diversas soluções adotadas no projeto do Sarah Salvador, como os grandes jardins que entremeiam suas unidades; as soluções de conforto térmico, diminuindo o uso do ar condicionado; a elaboração dos seus próprios mobiliários e equipamentos, dando autonomia aos seus pacientes; a utilização de obras de arte, entre outros.

Em especial no que diz respeito ao sistema de renovação de ar, o Hospital Sarah deve ser explorado como solução ainda atual, para prover a higiene respiratória que será uma premissa fundamental, cada vez mais valorizada e necessária em EAS, no período pós pandemia.

notas

1
SARAH. Rede Sarah de hospitais de reabilitação. Brasil, Associação das Pioneiras Sociais <https://www.sarah.br/>.

2
LATORRACA, Giancarlo (Org.). João Filgueiras Lima, Lelé. São Paulo, Blau/Instituto Bardi, 2000, p. 199.

3
SANTOS, Elisabete; GOMES DE PINHO, José Antonio; MORAES, Luiz Roberto Santos; FISCHER, Tânia (Org.). O caminho das águas em Salvador: bacias hidrográficas, bairros e fontes. Salvador, CIAGS UFBA / Sema, 2010 <https://bit.ly/36eE8Nz>.

4
LIMA, João Filgueiras – Lelé. Arquitetura: uma experiência na área de saúde. São Paulo, Romano Guerra, 2012, p. 116.

5
Visita ao Hospital Sarah Salvador, bairro Stiep, Salvador BA, em 10 de janeiro 2020, com fotografias de Júlia de Souza Matos, Laís de Matos Souza e Larissa Scarano Pereira Matos da Silva.

6
LIMA, João Filgueiras – Lelé. Arquitetura: uma experiência na área de saúde (op. cit.), p.135

7
TOLEDO, Luiz Carlos Menezes de. Feitos para curar: a arquitetura como um gesto médico e a humanização do edifício hospitalar. Tese de doutorado. Rio de Janeiro, Proarq UFRJ, 2008, p. 152.

8
ULRICH, Roger S. Health benefits of gardens in hospitals. International Exhibition Floriade. Haarlemmermeer (Holanda), Green Plants for Green Buildings, 2002 <https://bit.ly/3Iyl1uW>.

9
NIGHTINGALE, Florence. Notes on nursing. Londres, Ballière Tindall, 1860.

10
ULRICH, Roger S. Op. cit.

11
TOLEDO, Luiz Carlos Menezes de. Op. cit.

sobre os autores

José Ferreira Nobre Neto é arquiteto, urbanista, professor, especialista em Sistemas de Saúde e Engenharia Clínica, Mestre e Doutorando pelo PPGAU FAUFBA.

Júlia de Souza Matos é arquiteta e urbanista, mestre pelo PPGAU FAUFBA.

Laís de Matos Souza é psicóloga, arquiteta e urbanista, mestranda pelo PPGAU FAUFBA.

Larissa Scarano Pereira Matos da Silva é arquiteta e urbanista, mestre pelo PPGAU UFPB e doutoranda pelo PPGAU-UFBA

Lucianne Fialho Batista é arquiteta, urbanista, professora, especialista, mestre e doutoranda pelo PPGAU FAUFBA.

Mariana Sodré é arquiteta e urbanista, mestre e doutoranda pelo PPGAU UFBA.

Rosana Santana dos Reis é arquiteta, urbanista, designer de interiores, turismóloga, professora, mestre e doutora em Arquitetura e Urbanismo pelo PPGAU FAUFBA.

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