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architexts ISSN 1809-6298


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Os novos ícones da contemporaneidade são fatores que funcionam como catalisadores no processo de desenvolvimento dos centros urbanos


how to quote

HAZAN, Vera Magiano. O papel dos ícones da contemporaneidade na revitalização dos grandes centros urbanos. Arquitextos, São Paulo, ano 04, n. 041.02, Vitruvius, out. 2003 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/04.041/645>.

Com a proliferação de construções monumentais nos grandes centros urbanos, resgata-se o papel do ícone como catalisador de ações que se multiplicam em torno do processo de revitalização de áreas degradadas nas cidades.

Entenda-se por ícone construção de impacto, seja por sua localização estratégica, visibilidade, escala, forma, aparência, monumentalidade ou uso. Ícone é aquela construção que, desde a sua concepção, vem causar alguma expectativa em relação à sua implantação.

Assim como os ícones da Antigüidade, os ícones contemporâneos já nascem com uma grande carga significativa, sendo concebidos, desde o início, com o objetivo de revolucionar o conceito do espaço em que serão inseridos.

A sociedade informacional em muito auxilia nesse processo, já que os mitos circulam na mídia e na rede com grande rapidez, fazendo deles símbolos além das fronteiras do espaço local.

Esses ícones da contemporaneidade são construídos a partir de uma concepção política, que visa sua projeção internacional. Se, em outros momentos, eles possuíam um significado e uma aparência condizentes com a sociedade local, eles agora pertencem à sociedade global.

Dessa forma, a construção dos ícones contemporâneos faz parte de um planejamento estratégico, que visa com isso, não apenas revitalizar aquele espaço ou cidade, mas capturar novos incentivos que garantam a sua sobrevivência.

Os ícones na história a serviço da política e do planejamento estratégico

Os ícones da contemporaneidade, em alguns aspectos, muito lembram os ícones da Antigüidade clássica. Em diversos momentos da história das cidades, governantes utilizaram construções para atribuir uma nova vitalidade aos espaços urbanos, seja através de templos, seja através de monumentos. O fato é que essas construções vêm servindo por vários séculos como catalisadores, que auxiliam no processo de desenvolvimento dos centros urbanos.

O ícone é um símbolo, concebido como tal, ou transformado em tal. Ele se destaca na paisagem urbana, ajudando a valorizar seu entorno, e às vezes toda a cidade em que se encontra. Segundo Yoshinobu Ashihara (1), ele deve ser analisado como parte dessa paisagem, a partir da observação de elementos construídos, com o fim de classificá-los segundo uma monumentalidade fundamental, que diz respeito a um objeto arquitetônico predominantemente vertical, isolado de outros elementos ou segundo uma monumentalidade complexa, que se refere a um conjunto de edifícios com relações de influência uns com os outros, demonstrando características de complexidade, luminosidade e penumbra, penetrabilidade, humanidade.

Na Antigüidade clássica, temos um exemplo supremo que é o Partenón em Atenas. Localizado em posição estratégica em relação ao resto da cidade, com proporções monumentais e grande carga significativa, é um ícone da Antigüidade que permanece como tal na história da arquitetura. Ainda que não tenha sido concebido com a intenção de se tornar um ícone, fez com que a cidade se desenvolvesse à sua volta, mantendo-se em destaque naquela paisagem.

O Coliseu de Roma é um outro ícone importante de ser lembrado, utilizado inclusive como marca (2) da cidade em que se encontra. Sua monumentalidade é tamanha que nenhuma outra edificação próxima consegue capturar a mesma atenção. Se o Partenón foi erguido para louvar os deuses do Olimpo, e agregar uma sociedade que se formava, o Coliseu foi construído para unir a sociedade em torno de eventos comandados por imperadores.

Os ícones da Idade Média foram as Catedrais, que com sua monumentalidade e forma de ocupação territorial impuseram novas estruturas urbanas para as cidades que começavam a se formar à sua volta. Com o propósito de unir a população em torno da religião, em busca de um Deus supremo e temeroso, elas eram projetadas com uma magnitude que se estende até os dias de hoje em boa parte das cidades européias em que se encontram. É inegável seu apelo formal, com sua concepção em cruz e torres que parecem arranhar o céu. Em torno delas se formaram muitas cidades, desenvolvendo-se uma nova dinâmica imobiliária e espacial.

Assim como a Igreja sentiu a necessidade de marcar sua presença e mostrar a força e o poder da religião cristã através de suas edificações, vários gestores, entre os quais reis, imperadores, e mais recentemente presidentes, governadores e prefeitos também sentiram a necessidade de afirmar seus governos, utilizando-se dos ícones arquitetônicos para permanecerem na história. Dessa forma, da comemoração da vitória de uma batalha a eventos de grande abrangência, muitos monumentos foram sendo erguidos com o objetivo de marcar épocas e, portanto, as iniciativas de seus gestores.

Se a maioria dos monumentos foi concebida para ter uma longa permanência, ajudando a contar a história da civilização, outros foram projetados para ter uma permanência provisória, o que se tornou possível devido à emergente industrialização e ao desenvolvimento das tecnologias da construção civil, a partir do fim do século XIX e início do século XX, que possibilitaram novas formas de edificações, que poderiam ser erguidas e desmontadas em curto espaço de tempo. As feiras internacionais lançaram, então, pavilhões e monumentos comemorativos, projetados para funcionarem somente durante o evento. A Torre Eiffel, por exemplo, foi erguida para a Exposição Universal de 1889 em Paris. Sua belíssima estrutura arrojada de rendas metálicas, entretanto, garantiu o seu sucesso e permanência, deixando de ser uma obra provisória, e passando a ser um marco referencial permanente e símbolo da cidade em que se encontra.

Assim como os ícones das demais etapas da história, os ícones da contemporaneidade são construídos a partir de uma concepção política, que visa atingir objetivos próprios da realidade em que estão inseridos. Eles não surgem por acaso, e sim para alterar os espaços, causar polêmica, valorizar a área em que se situam, dinamizar a cidade em que se encontram. Se, em outros momentos, eles possuíam um significado e uma aparência condizentes com a sociedade local, eles agora pertencem à sociedade global, surgindo em localizações sempre estratégicas, escolhidas justamente para auxiliarem na construção desse mito (3).

Os ícones da contemporaneidade (4) chamam atenção, não apenas por sua escala e monumentalidade, mas também por agregarem a essas duas características o fato de serem projetados por arquitetos conceituados mundialmente, que com seu reconhecimento profissional, ajudam a mitificar essas construções desde a sua concepção.

Segundo Henri-Pierre Jeudy (5), a estética é talvez mais próxima da política do que a ética. Ela não pode estar a serviço do político, mas deve provocar a questão política. O que temos visto atualmente é a estética a favor de uma política de mundialização, que utiliza relações trans-fronteiras (6) para instaurar modelos globais.

Se isto pode ser considerado positivo para a atração de investimentos nas cidades, há que se pensar, também, que esta face global acaba por desviar a atenção dos problemas locais (7). As metrópoles estão à sorte das informações e criações da comunicação. Elas são o topo das redes em matéria de política, economia e cultura. A internacionalização das trocas se acentua com a mundialização da economia. Esta internacionalização se traduz pelo reforço do nível superior da estrutura urbana, sob a forma de uma rede de grandes metrópoles mundiais (8).

Ainda segundo Jacques Bonnet, o relacionamento entre as metrópoles internacionais se revela mais intenso que entre uma capital e as pequenas cidades que ela comanda na região. A comunicação aproxima mais facilmente as unidades do mesmo nível de organização que os estabelecimentos vizinhos. Desta forma, pode-se estabelecer entre as grandes cidades mundiais a procura sobre os mesmos temas. Existe uma linguagem comum entre todas as grandes cidades de comércio do mundo, entre os grandes museus do mundo, entre as grandes universidades.

A utilização dos ícones como catalisadores de processos urbanização também vem se reproduzindo da mesma forma. Muitos governos têm se utilizado de construções monumentais para alavancar desenvolvimentos locais ou mesmo a revitalização de áreas e cidades. Isto acontece na Europa, nos Estados Unidos, na América Latina e na Ásia. É um movimento mundial que envolve, principalmente, as cidades que se propõem ser centros internacionais.

Segundo P. Soldatos (9), o perfil internacional das cidades modernas se define por uma posição geográfica de abertura ao mundo, por acolher os fatores de produção e os fluxos de comércio vindos de fora, e por exportar os fatores de produção, pela multiplicidade dos modos de comunicação social ao estrangeiro, pela importância dos meios de transportes, pelo relacionamento da mídia.

Na cidade mundial, a construção dos ícones faz, portanto, parte de um planejamento estratégico (10) que visa com isso não apenas revitalizar aquele espaço ou cidade, mas dar a ela condições de capturar novos incentivos que garantam a sua sobrevivência.

Políticas Locais x Políticas Globais. A utilização do Ícone como catalisador de novos investimentos

A utilização do ícone como catalisador de novos investimentos vem fazendo parte tanto de políticas locais quanto de políticas globais nas instâncias federal, estadual e municipal, marcando as gestões de presidentes, governadores e prefeitos de grandes centros urbanos.

Em seu governo entre 1981 e 1995, o Presidente da França François Mitterrand se utilizou da construção de grandes empreendimentos, principalmente de natureza cultural, para alavancar uma nova dinâmica em torno do país. A política das “Grandes Obras” (11) reflete a “sinergia assumida entre a cultura e a economia”, traço do governo Mitterrand (12). Paris como capital política e cultural centralizou os maiores investimentos, passando a mesclar suas edificações de outras épocas com peças arrojadas da arquitetura pós-moderna, projetadas por arquitetos reconhecidos mundialmente, alguns franceses, outros estrangeiros.

Fazem parte dessa iniciativa do governo Mitterrand o Grande Arco de La Defense (13), o Parc de La Villette, a Cidade da Música (14), a Biblioteca Nacional da França François Mitterrand (15), a Ópera da Bastilha (16), o Instituto do Mundo Árabe (17), e a ampliação do Museu do Louvre (18). Cada projeto tem sua peculiaridade, mas a monumentalidade, a história, o propósito e a autoria de cada um fazem com que se tornem ícones da arquitetura contemporânea e marcos de uma gestão reconhecida por tais iniciativas.

Questiona-se se Paris necessitava de tantas obras grandiosas sendo uma cidade tão especial e com grande visitação turística antes dessas construções. O fato é que essa política de natureza cultural ampliou suas receitas e trouxe à cidade ares contemporâneos que a tornam competitiva com outras cidades modernas. Além disso, intervenções em locais considerados anteriormente degradados, principalmente devido à desativação de indústrias, trouxeram nova vida a essas espacialidades, ajudando a integrá-las ao resto da cidade no circuito turístico-cultural.

Outras cidades européias também sofreram uma renovação cultural a partir da construção de grandes empreendimentos, revelados por construções que se tornaram ícones arquitetônicos. Um bom exemplo se refere a Bilbao na Espanha, que apesar de sua posição estratégica, próxima à fronteira com a França, era considerada uma cidade industrial do chamado País Basco, sem grande importância cultural para o resto do país. As construções do Museu Guggenheim Bilbao, projeto do arquiteto canadense Frank O. Gehry e da estação projetada pelo arquiteto inglês Norman Foster trouxeram novas perspectivas para aquela cidade (19), que passou a integrar o circuito turístico-cultural europeu.

Essa tendência de arquitetura globalizada pode ser sentida atualmente em todas as partes do mundo. Isso acontece seja porque os governos, de uma forma geral, têm contratado arquitetos estrangeiros para projetar obras de grande expressão, seja porque parece haver a intenção de colocar os grandes centros urbanos e capitais culturais no patamar das cidades mundiais, sem uma identidade cultural específica ligada à cultura nacional. Os arquitetos se colocam, então, a serviço de uma política global que impõe uma estética sem fronteiras, projetando uma obra arquitetônica que pode ser implantada em qualquer território ou nação. Seus traços algumas vezes refletem suas raízes e formação, outras uma simbiose de estilos que dificilmente identifica sua origem. Se, por um lado, existem resistências locais a essas iniciativas, a força dessa política global é tão forte, que acaba se disseminando rapidamente por todos os continentes.

Reflexos no Brasil. A utilização dos ícones no planejamento estratégico de algumas cidades brasileiras

Assim como em algumas cidades européias, algumas cidades brasileiras têm incorporado a utilização dos ícones e políticas globais em seu planejamento estratégico, principalmente no que diz respeito à revitalização de suas áreas degradadas. Os melhores exemplos se referem à cidade do Rio de Janeiro, que desde a gestão de Pereira Passos vem sofrendo intervenções embaladas por tendências internacionais.

De fato, muitos prefeitos cariocas vêm tentando imprimir em sua gestão o perfil empreendedor, através de projetos monumentais, que ajudem a alavancar o plano estratégico da cidade (20). Pereira Passos, Luiz Paulo Conde, César Maia, todos parecem querer dar à cidade um aspecto mundializado e competitivo, fazendo-a destacar do resto das metrópoles nacionais.

 Em sua primeira gestão como prefeito da cidade, César Maia apresentava a ação da Prefeitura no Plano Estratégico da Cidade, justificando a necessidade de um planejamento estratégico capaz de mobilizar a sociedade, uma vez que a cidade, naquele momento, estava num processo de degradação crescente, gerada pelo empobrecimento de sua população, pela ocupação desordenada dos espaços públicos e privados, pela deterioração dos serviços públicos e pela fuga de capitais financeiros e humanos.

Na gestão seguinte, com o arquiteto Luiz Paulo Fernandez Conde como Prefeito, foram estudados diversos projetos em torno da revitalização de espaços degradados da cidade, em áreas já consolidadas e com infra-estrutura, no Centro da Cidade e nas proximidades, caso do bairro de São Cristóvão, na Zona Norte da cidade. Foi nessa gestão que surgiram as primeiras negociações em torno da instalação do Museu Guggenheim no Rio de Janeiro, bem como outros tantos projetos polêmicos para a cidade. Com uma política globalizante, Conde tentou recolocar o Rio de Janeiro no hall das cidades mundiais, incrementando grandes projetos urbanos com consultorias estrangeiras, caso do projeto SÁ’s (21), no centro do Rio, que teve o arquiteto português Nuno Portas em sua coordenação, e da revitalização da Praça XV, coordenada pelo arquiteto espanhol Oriol Bohigas.

O que se observa em ambas as gestões, e mais claramente na atual gestão de César Maia, o Projeto do Museu Guggenheim fez parte de uma política institucional de city marketing (22) em torno de intervenções urbanas, que de alguma forma, pudessem constituir-se em ação e comunicação simbólicas em torno da cidade (23). O uso da motivação cultural se deu com uma intenção financeira de grande vulto por trás do empreendimento. Por isso, não se propôs um centro cultural local ou um museu ligado às questões da cidade, como outros projetos elaborados anteriormente (24) para a área, mas um museu internacional (25), que na verdade é um ícone por si só, com um projeto arquitetônico que catalisaria forças em torno do processo de revitalização da zona portuária da cidade (26). Seu propósito principal seria alavancar um processo de desenvolvimento da cidade a partir daquela área, que com uma edificação monumental, aliada a uma grife internacional, poderia trazer uma imagem global e competitiva à cidade.

Para a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, o Museu Guggenheim se constitui um empreendimento cultural capaz de estimular o processo de revitalização, recuperação e reabilitação de casas e ruas no Morro da Conceição e à diminuição do tráfego de automóveis e ônibus, liberando a superfície para os pedestres.

Outras cidades brasileiras também vêm utilizando políticas semelhantes para revitalizar espaços e se colocar em uma posição de destaque em relação ao país e a outros centros urbanos internacionais. Curitiba tem se destacado por iniciativas como o “Ligeirinho” (27), a Ópera de Arame e o Novo Museu (28), projetado por Oscar Niemeyer. O governador do Paraná, arquiteto Jaime Lerner, desde sua gestão como prefeito de Curitiba, vem tentando colocar a cidade no hall das capitais culturais do país, através de iniciativas como as mencionadas.

Niterói também tem investido na construção de novos ícones, todos projetados por Niemeyer, que no momento vê se concretizar o Caminho Niemeyer, na orla da Boa Viagem, que agrega uma série de obras projetadas por ele. A primeira delas, já inaugurada há alguns anos, que se tornou a marca da cidade, é o Museu de Arte Contemporânea – MAC, que tem uma implantação estratégica, que facilita sua visualização de diversas áreas da cidade e de cidades vizinhas.

O MAC é um verdadeiro ícone, seja por sua forma inesperada, seja por sua implantação, seja por ter sido projetada por Niemeyer. Sua construção ajudou a renovar aquela área e a revigorar a cidade, que apesar das belezas naturais de suas praias oceânicas e patrimônio arquitetônico, em muito se distanciava da capital do Estado. A partir da implantação do Museu, de fato houve uma revitalização da cidade, que com isso conseguiu impulsionar uma série de outros projetos, bem como pensar na viabilização de outros, como o próprio Caminho. Se, até alguns anos atrás, ela era considerada uma cidade com um certo potencial a ser explorado, hoje é considerada o pólo turístico-cultural da região Leste fluminense.

É interessante comparar as cidades de Rio de Janeiro, Curitiba e Niterói, principalmente quando se fala da construção de ícones arquitetônicos. Enquanto a primeira escolhe um arquiteto estrangeiro para projetar um novo marco referencial da paisagem urbana, numa área com um perfil histórico e uma série de bens imóveis tombados, como as Igrejas da Saúde, da Prainha e o Mosteiro de São Bento, as outras duas escolhem Niemeyer, um arquiteto brasileiro de projeção internacional, para planejar seus novos monumentos. O Rio se coloca, assim, em uma posição “hierárquica” na competição entre as cidades brasileiras, tentando deixar clara a sua postulação como cidade mundial, acolhedora de uma arquitetura globalizada, sem traço nacional.

Na verdade, há uma certa competição entre as cidades brasileiras em torno dos poderes e realizações, e como o Rio quer se tornar uma cidade competitiva em termos globais, opta por ter um novo monumento com um aspecto global, projetado por Jean Nouvel, um arquiteto estrangeiro, que apesar de se dizer respeitoso com a paisagem encontrada, modifica seu aspecto predominantemente local. Planejado para ser um ícone com aspecto globalizado, o Museu visa dar uma visibilidade internacional à cidade, e em especial àquela área estratégica, na beira do mar, pretendendo-se viabilizar, dessa forma, os demais empreendimentos pensados para a ela.

A ocupação dos vazios urbanos pelos ícones da contemporaneidade

Assim como a área em que se propôs construir o Museu Guggenheim no Rio de Janeiro, outras tantas áreas estratégicas consideradas degradadas em cidades brasileiras e estrangeiras vêm tendo seus vazios urbanos ocupados por projetos monumentais.

O desenvolvimento das redes tecnológicas, a containerização das mercadorias, bem como o avanço dos meios de transportes de alta velocidade acabou por fragilizar o sistema portuário, ajudando na desativação de uma série de atividades ligadas ao porto, tornando as áreas em que se encontravam desagradas e vazias. Geralmente localizadas em pontos estratégicos, as Zonas Portuárias vêm sendo estudadas, principalmente por oferecerem um estoque de áreas bem localizadas, com necessidade de revitalização.

O caso do Rio de Janeiro não é diferente de outras cidades do mundo. A revitalização dessas áreas faz, de fato, parte de um processo global. Não se pode esquecer que o Porto é uma das entradas da cidade, que normalmente oferece uma visibilidade interessante para qualquer investimento de grande impacto. O terreno inativo e o esqueleto industrial numa área como esta se constituem vazios urbanos contemporâneos de grande valor.

Murray (29) indaga a possibilidade de se fazer uma intervenção arquitetônica em áreas que se Shane destacam precisamente na paisagem, porque aparentemente iludem ou resistem à arquitetura, ao menos em sua concepção convencional. Para Wilfried Wang (30), o conceito de vazio urbano tem raízes históricas precisas. O fato de que alguns arquitetos exijam um domínio para sua liberdade criativa e ao mesmo tempo possam por ordem num tecido construído altamente diverso, pode provocar a um observador externo a impressão de paradoxo, se não esquizofrênico. Segundo Joan Busquets (31), o uso do termo vazio urbano revela o potencial de transformação dos grandes espaços, vazios de atividades, encontrados no interior das cidades. Lugares que, em outras épocas, eram geradores de atividades, e atualmente tornaram-se obsoletos na cena urbana.

No caso das áreas portuárias, elas se encaixam no que ele chama de grandes portos que deram origem e estrutura à cidade, e que devido às mudanças da escala dos navios e à crescente containerização, tornaram-se obsoletos. Para José Morales (32), as áreas de complexos industriais, já em desuso, lugares em que no passado encontravam-se as mais importantes infra-estruturas, hoje são enclaves da superposição de inumeráveis extratos da comunicação e dos vazios. Enfim, locais onde se centram grande parte de nossas interrogações sobre as cidades e paisagens contemporâneas. Espaços da incerteza e, portanto, de projetos.

Refletindo sobre formas de revitalizar essas áreas, utilizando-se os vazios urbanos encontrados nelas, uma série de governos tem trabalhado com as mais diversas iniciativas, optando por possibilitar uma coexistência das antigas atividades com novos usos, principalmente aliados a iniciativas culturais e comerciais. Isso pode ser visto nas Docklands de Londres, no Porto de Barcelona, na Zona Portuária de Buenos Aires, em Nova York, Baltimore etc. Essas iniciativas em geral combinam esforços dos governos federal, estadual e municipal e da iniciativa privada, que ajuda a viabilizar economicamente os novos empreendimentos.

No caso do Rio de Janeiro, a Prefeitura tem realizado uma série de investimentos na zona portuária, desde melhoria das redes de infra-estrutura e reurbanização, até estudos de alternativas de transportes públicos de massa, como o VLT (33), bem como mudanças na legislação para resgatar antigas atividades e incrementar novos usos na área. A área em questão faz parte do Plano de Recuperação e Revitalização da Região Portuária do Rio (34), que visa incrementar o retorno das moradias, e integrar esta área ao resto da cidade, criando-se uma nova frente marítima, com um skyline diferente do atual, renovando-a visualmente, ainda que se preservando o patrimônio (35) encontrado no local. Segundo o Plano, o conceito é combinar as novas intervenções arquitetônicas com a preservação e recuperação do patrimônio histórico, e o marco do processo de revitalização será o novo Píer Mauá, onde se pretende implantar o Museu, ao lado de uma Praça Mauá redesenhada e de armazéns restaurados, com novos e variados usos.

É interessante discutir os encaminhamentos dados pela Prefeitura a esta nova paisagem a ser construída no local, que atualmente se coloca como um grande vazio urbano. Quando comparamos a proposta do Museu Guggenheim de Jean Nouvel com os projetos realizados anteriormente para a área, fica patente que o empreendimento Guggenheim é o único que atinge as expectativas do que se elabora para o Píer, seja por sua monumentalidade, seja por se apresentar numa embalagem repleta de polêmica e glamour.

Segundo Sharon Zukin (36), o processo social de construção de uma paisagem pós-moderna depende de uma fragmentação econômica das antigas solidariedades urbanas e de uma reintegração que está fortemente alterada pelos novos modos de apropriação cultural. A genialidade dos investidores imobiliários, nesse contexto, consiste em converter a narrativa da cidade moderna em um nexo fictício, uma imagem que é um grande embrulho daquilo que a população pode comprar, um sonho de consumo visual. A proposta de Nouvel é inovadora, ainda que questionável. Sua ousadia é visível, seja pelo arrojo das formas, seja pelas tecnologias de construção que se apresentam no projeto. Ele constrói um ícone, um sonho, uma revolução naquela paisagem, que com isso começa a sofrer mudanças de escala.

Para Lilian Vaz Fessler e Paola Berenstein Jacques (37), as transformações espaciais não se restringem mais à sua dimensão físico-territorial, mas envolvem, em grau crescente, considerações de ordem simbólica. O lugar, a sua imagem e sua identidade se tornaram fundamentais. No mundo global, a diferenciação através da força da identidade local se torna um trunfo essencial.

Ainda que alguns arquitetos tenham uma preocupação em preservar traços e laços locais, de uma forma geral, os ícones contemporâneos acabam por quebrar a harmonia com a paisagem local, trazendo um aspecto global que os transporta para um território trans-fronteiras, possibilitando a sua assimilação por culturas diversas, ainda que muitas vezes sem alcance para a própria população local.

Há que se refletir sobre a utilização de ícones espelhados numa política globalizante em políticas estratégicas locais. O sucesso desses empreendimentos não é tão certo quanto se imagina, pois nem sempre o que se reproduz de modelos importados é adequado a alguns lugares. Os ícones da contemporaneidade, diferentemente dos ícones de outras épocas, não têm compromisso com os espaços em que vêm sendo inseridos. Enquanto os ícones da Antigüidade permanecem ícones ao longo de séculos, as novas construções monumentais são efêmeras, seja pelas mudanças em torno delas, seja pelo aspecto globalizado que as torna objetos do momento, encontrados nos mais variados pontos do mundo. Alguns talvez se tornem ícones da posteridade, por sua qualidade arquitetônica, sua implantação urbanística, por sua história. Mas, possivelmente, a maioria fará parte de um conjunto de edificações monumentais, sem traços que identifiquem suas origens e propósitos.

Há uma grande diferença entre as cidades mundiais de países desenvolvidos e as cidades mundiais de países em desenvolvimento. As primeiras, de uma forma geral, exportam seus fatores de produção, padrões de consumo, cultura etc, enquanto as segundas tendem a importar o modelo das primeiras, ainda que este não seja apropriado para as suas realidades. Se, por um lado, projetos grandiosos podem ser positivos sob alguns aspectos para algumas cidades, e até mesmo para algumas nações, por outro lado, políticas desse tipo acabam por implementar uma segregação ainda maior, com equipamentos culturais elitistas, muitas vezes inacessíveis ao poder aquisitivo dos moradores locais. Coloca-se, assim, mais um debate sobre a questão. Como o arquiteto, através da concepção de um ícone, pode auxiliar no processo de revitalização de uma área, ajudando a integrá-la não apenas ao resto da cidade, como viabilizando a socialização desse espaço para a população de uma forma geral.

notas

1
Ver ASHIHARA, Yoshinobu. El diseño de espacios exteriores. Barcelona, Gustavo Gili, 1982.

2
O Coliseu é uma marca da cidade de Roma. Ponto turístico dos mais visitados da cidade, tem uma forma peculiar que atrai os olhares de quem passa pela área em que se encontra. Seu antigo uso certamente auxiliou em seu processo de mitificação, que até hoje permanece. Sua imagem é utilizada em diversos artigos promocionais da cidade, sendo dessa forma considerado uma marca da cidade de Roma. A forma circular em torno de uma arena é até hoje reproduzida nos estádios de grandes concentrações de público.

3
Desde a Antigüidade clássica, os monumentos eram construídos em lugares estratégicos, de forma a haver uma hierarquia deles em relação às demais edificações. O Partenón é um bom exemplo disso. Atualmente, o cenário se reproduz, até mesmo porque a política sempre esteve presente na concepção dos projetos mais grandiosos, fosse ela laica ou religiosa, caso do uso das catedrais na dinamização dos centros urbanos europeus.

4
Utilizo aqui contemporaneidade ao invés de pós-modernidade, uma vez que me refiro à dinâmica atual. Em relação aos conceitos de pós-modernidade, faço uso dos textos de HARVEY, David. Condição pós-moderna. São Paulo, Loyola, 1992. JAMESON, Fredric. Espaço e imagem, Teorias do pós-moderno e outros ensaios. Rio de Janeiro, UFRJ, 1994; e JENCKS, Charles. The language of post-modern architecture. Nova York, Rizzoli, 1977.

5
HAZAN, Vera Magiano. “Informação, Acessibilidade e Espaço Urbano”. Dissertação de Mestrado, Rio de Janeiro, IPPUR-UFRJ, 2000. Trecho sobre a palestra “Mais estética e menos ética” que o sociólogo francês proferiu em setembro de 2000, no Instituto de Arquitetos do Brasil, Departamento do Rio de Janeiro.

6
A expressão trans-fronteiras foi utilizada pelo sociólogo Jeudy, ao se referir às relações entre as culturas globais.

7
SANTOS, Milton. Técnica, espaço, tempo – globalização e meio técnico-científico informacional. São Paulo, Editora Hucitec, 1994.

8
BONNET, Jacques. Les grandes métropoles mondiales. Paris, Nathan Université, 1994.

9
Soldatos é citado por Bonnet.

10
Ver VAINER, C. “Pátria, empresa e mercadoria”. In ARANTES, Otília et alii. A cidade do pensamento único, Petropólis, Vozes, 2000.

11
Esta é a forma como caracterizam o governo de Mitterrand, graças às inúmeras grandes construções realizadas durante os seus 14 anos de governo.

12
In POIRRIER, Philippe. “O Estado e a política cultural. O imperativo cultural”. www.ambafrance.org.br.

13
O Arco de La Defense foi projetado pelo arquiteto dinamarquês Johan-Otto von Spreckelsen.

14
A Cidade da Música foi projetada pelo arquiteto francês Christian de Portzamparc.

15
Projetada pelo arquiteto francês Dominique Perrault.

16
A Ópera da Bastilha foi projetada pelo arquiteto uruguaio Carlos Ott.

17
O Instituto do Mundo Árabe foi projetado pelo arquiteto francês Jean Nouvel.

18
Que passa a se chamar o “Grande Louvre”, a partir da com a construção da pirâmide de vidro projetada pelo arquiteto sino-americano I. M. Pei.

19
A cidade de Bilbao, como capital do país Basco era conhecida, principalmente, por sua política separatista em relação ao resto da Espanha, assim como pelos atentados terroristas do grupo ETA. Os investimentos na cidade proporcionaram, dessa forma, não apenas sua integração em relação ao circuito turístico-europeu, como em relação à própria Espanha.

20
César Maia em sua primeira gestão como Prefeito da cidade do Rio de Janeiro. Ver Relatório da Cidade 2, Plano Estratégico da Cidade do Rio de Janeiro, de 1996.

21
Projeto SÁ’s, coordenado pela Secretaria Municipal de Urbanismo, se refere ao estudo de revitalização da área compreendida pelas ruas Salvador de Sá, Estácio de Sá e Mem de Sá.

22
City marketing. Ver GARCIA, Fernanda Ester Sánchez. Cidade espetáculo. Política, planejamento e city marketing. Curitiba, Palavra, 1997.

23
Idem, ibidem.

24
Os outros projetos a que me refiro são detalhados no decorrer da construção do objeto na parte que se refere ao espaço.

25
O Museu Guggenheim Rio se espelha na iniciativa do Museu Guggenheim Bilbao. Ambos fazem parte de uma política cultural global desenvolvida pela Fundação Guggenheim, que apesar de sua origem norte-americana, vem trabalhando como uma empresa multinacional com filiais em vários continentes. A importância do projeto do edifício se reflete pelas escolhas dos arquitetos, a começar pela unidade principal de Nova York, projetada por Frank Lloyd Wright. As outras unidades contemporâneas foram projetadas por arquitetos de nacionalidades diversas das dos países em que foram ou serão implantadas – Bilbao teve projeto do canadense Frank O. Gehry, Las Vegas do holandês Rem Koolhaas e Rio de Janeiro do francês Jean Nouvel.

26
Em seu depoimento na CPI da Câmara Municipal dos Vereadores em 11 de novembro de 2002, o Secretário deixou clara a sua intenção, chamando o museu de catalisador de forças para o projeto de revitalização do centro da cidade do Rio de Janeiro.

27
O “Ligeirinho” é uma estação tubular de transportes de passageiros, que faz ligação entre diversas linhas de ônibus da cidade. Projeto do atual governador do Paraná, arquiteto Jaime Lerner, virou uma marca da cidade, sendo um mobiliário urbano considerado ícone por sua imagem inovadora, diferente e referencial.

28
O Novo Museu foi inaugurado em novembro de 2002.

29
MURRAY, Shane. “Terras do Nada, Espaços Inapreensíveis”. Quaderns D’Arquitetctura I Urbanisme nº 214, Barcelona, Espanha, 1997.

30
WANG, Wilfried. “Terras do Nada, Espaços Inapreensíveis”. Quaderns D’Arquitetctura I Urbanisme nº 214, Barcelona, Espanha, 1997.

31
BUSQUETS, Joan. “Terreno baldio y potencial reestructurador.” Quaderns D’Arquitetctura I Urbanisme nº 214, Barcelona, Espanha, 1997.

32
MORALES, José. “Terrain Vague – Emplaziamentos Incertos”. Quaderns D’Arquitetctura I Urbanisme nº 214, Barcelona, Espanha, 1997.

33
VLT – Veículo Leve sobre Trilho.

34
O plano, elaborado pelo Instituto Pereira Passos, ao longo de 2001, tem como pontos vitais as mudanças na legislação urbanística e a criação de núcleos de desenvolvimento. In: Porto do Rio, CAU/SMU/PCRJ, Rio de Janeiro, 2001.

35
A Lei 7351 assegurou a preservação de cerca de 2.000 edificações nos morros da Conceição, Saúde, Livramento, Gamboa e Pinto, as Igrejas da Prainha e de Nossa Senhora da Saúde, o conjunto industrial do Moinho Fluminense e alguns armazéns do Porto.

36
ZUKIN, Sharon. Paisagens urbanas pós-modernas: mapeando cultura e poder. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, nº 24, 1996.           
37
VAZ, Fessler Lilian. JACQUES, Paola Berenstein. Reflexões sobre o uso da cultura nos processos de revitalização urbana, IX Encontro Nacional da ANPUR, Rio de Janeiro, 2000.

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Vera Magiano Hazan é arquiteta, mestre em Planejamento Urbano e Regional pelo IPPUR/UFRJ e professora da FAU-UFRJ.

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