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my city ISSN 1982-9922

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CARRASCO, André de Oliveira Torres. Um breve comentário sobre o Bexiga, o Teatro Oficina e o Centro Cultural e Comercial do Bixiga. Minha Cidade, São Paulo, ano 06, n. 064.03, Vitruvius, nov. 2005 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/06.064/1960>.


Centro Cultural e Comercial do Bixiga, 2004/2005. Rua Jaceguai, Bixiga, São Paulo. Brasil Arquitetura


Centro Cultural e Comercial do Bixiga, 2004/2005. Rua Jaceguai, Bixiga, São Paulo. Brasil Arquitetura

Centro Cultural e Comercial do Bixiga, 2004/2005. Rua Jaceguai, Bixiga, São Paulo. Brasil Arquitetura

 

A idéia de escrever esse pequeno comentário surgiu a partir da leitura de uma matéria publicada na revista Ocas, número 37, de agosto de 2005. Seu título era “Integração homem cidade no Teatro Oficina”.

Por ter acompanhado, nos últimos meses, o debate sobre a construção de um shopping center do grupo Silvio Santos no terreno vizinho ao Teatro Oficina, o texto chamou a minha atenção. E foi então que descobri, com considerável espanto, que mesmo depois de um conflito que durou 25 anos, envolvendo Poder Público, defensores do Teatro, defensores do bairro do Bexiga e defensores do empreendimento, o shopping será mesmo construído. Mas não a partir do polêmico projeto proposto pelo arquiteto Júlio Neves, e sim a partir de um projeto desenvolvido pelos arquitetos Marcelo Ferraz, Francisco Fanucci e Marcelo Suzuki.

Serei direto. Como arquiteto, considero a pergunta necessária: existe alguma diferença fundamental, para o bairro do Bexiga, entre a construção de um shopping center projetado pelo arquiteto Júlio Neves e outro projetado pelos arquitetos Marcelo Ferraz, Francisco Fanucci e Marcelo Suzuki? No meu ponto de vista, não. Não existe nenhuma diferença, e é por isso que me manifesto. E aqui é importante destacar que minhas observações não se baseiam em qualquer avaliação da obra individual ou coletiva dos arquitetos citados. Esclarecendo: considero que o impacto negativo, sobre a cidade e sobre o que chamamos de cultura, causado pela construção do tal shopping center será a mesma, qualquer que seja o projeto escolhido para orientar tal empreendimento.

A primeira reação dos que consideram que existiriam, sim, diferenças entre os dois possíveis shoppings, provavelmente será apontar as principais divergências entre as soluções arquitetônicas em questão. Os próprios arquitetos responsáveis pelo projeto, divulgado como definitivo, apontam algumas qualidades de seu desenho:

“Os shoppings, de certa maneira, negam a cidade, criam muros e dão as costas para ela. No entanto, nós apostamos na convivência, de forma que a cidade possa penetrar no shopping.”

Eles ainda destacam, segundo a matéria citada, que o projeto pretende recuperar as relações entre espaços públicos e privados presentes em lugares como as galerias do centro da cidade e o térreo do Conjunto Nacional, o que seria um importante elemento de diferenciação entre o novo shopping e os outros que estamos acostumados a freqüentar, marcados pelo isolamento em relação ao entorno próximo.

“Terá chuva, vento e muita luz do dia, com ar condicionado apenas dentro das lojas. As pessoas estarão dentro de um shopping como se estivessem em um jardim da cidade. Convivência é a palavra chave de nosso projeto. Um lugar democrático e público.”

No entanto, apesar das qualidades arquitetônicas do projeto do novo shopping, apontadas pelos autores, pretendo levantar duas questões. Primeira: é possível reduzir uma discussão de 25 anos sobre políticas públicas para a cultura e para a cidade a uma “discussão” sobre projeto de arquitetura?

Segunda: é possível acreditar que um espaço privado de uso coletivo pode ser tratado como espaço público, transformando-se em referência para pensarmos as relações entre os espaços da cidade e seus habitantes?

Em relação à primeira pergunta, os arquitetos, e não apenas os autores do projeto, parecem acreditar que sim, que é perfeitamente possível resolver um impasse dessa dimensão com um projeto interessante. Parecem ainda acreditar que a função primordial da arquitetura é eliminar conflitos, ou na melhor das hipóteses camuflá-los.

Para o arquiteto classe média, a arquitetura deve eliminar conflitos ("Arquitetura ou revolução", já dizia Le Corbusier) e não propor espaços onde eles possam aflorar. O arquiteto é preparado para pensar a cidade formal, a habitação burguesa, as grandes intervenções do Estado e da iniciativa privada. É formado para pensar na produção do espaço, e em sua utilização, a partir de relações fundamentadas na divisão de tarefas e na hierarquização entre os envolvidos. Condição definida justamente como meio eficaz para garantir a manutenção das estruturas de dominação e coerção vigentes no processo de produção e gestão do espaço urbano. E é por isso que nos parece perfeitamente natural que um conflito tão longo seja suprimido através de um novo projeto, como num passe de mágica. Supressão que se apresenta como uma vitória daqueles que contestavam as intenções do grupo Silvio Santos, mas que pode ser suficiente para desmobilizar todos os que vinham defendendo o bairro do Bexiga, e o teatro Oficina, de uma operação imobiliária que finalmente vai se concretizar.

E considerando o processo de gentrificação, que certamente acompanhará essa operação, quem poderá ser considerado como vitorioso, no final das contas?

Em relação à segunda pergunta, os autores do projeto também parecem acreditar que sim, que um espaço privado de uso coletivo pode ser considerado como espaço público. A citada integração do shopping com a cidade, segundo os mesmos, ocorrerá nos moldes das galerias do centro da cidade e do espaço do Conjunto Nacional. Espaços privados, é importante lembrar. No entanto, quais são as possibilidades de apropriação democrática do espaço, por aqueles que o vivenciam, quando tratamos de espaços privados? Nenhuma. Os limites da apropriação nesse caso são determinados pela lógica do consumo, do mercado. O espaço é pensado para consumidores e não para cidadãos.

Como exemplo, podemos comparar as possibilidades de apropriação de dois espaços bem próximos: o térreo do Conjunto Nacional, privado de uso coletivo, e as calçadas da Av. Paulista, públicas. Podemos listar uma série de atividades que são impossíveis de serem pensadas para o primeiro, enquanto são cotidianas no segundo, por seu caráter verdadeiramente público. Comércio popular, manifestações políticas e culturais, sentar no chão, andar sem rumo, dormir, brincar, correr, usar roupas velhas ou sujas sem ser importunado por um segurança bem vestido.

Essa rápida comparação entre as atividades possíveis em espaços públicos e privados nos mostra como nossa categoria se ilude com espaços semelhantes ao Conjunto Nacional, MASP, Sesc, Fiesp, etc...Ilusão justificada principalmente porque esses ambientes, privados, atendem perfeitamente nossas necessidades de consumidores padrão classe média, em um momento em que cada vez mais tomamos a esfera do consumo como sendo a única esfera de vida possível. Tomamos essa pequena fração da vida como se fossa a vida toda. Tomamos a nossa classe social como se fossa a sociedade inteira. E conseqüentemente, tomamos os espaços destinados ao desenvolvimento do consumo de classe média como sendo os únicos onde a vida pública pode ser possível, quando o que ocorre é exatamente o contrário. São nesses lugares que a vida pública definha até desaparecer completamente.

Assumir o projeto de arquitetura como ferramenta para costurar acordos, estabelecer frágeis consensos, atropelar os processos sociais que revelam o confronto entre os que detêm o controle da produção e gestão do espaço urbano e aqueles que contestam esse poder, e ainda considerando que espaços privados podem se transformar em referência para a vida pública, é fazer apologia à segregação social e espacial.

E mais. Se ampliarmos essa discussão para toda a cidade de São Paulo, considerando os termos em que a atual administração da cidade trata os conflitos presentes em seu espaço urbano, ainda corremos o risco de abrir um perigoso precedente que pode legitimar o processo de “limpeza social” deflagrado pelo nosso prefeito (José Serra), devidamente assessorado por especialistas (dos quais se destacam colegas arquitetos e urbanistas), em algumas regiões do centro. Algo do tipo: se o projeto de arquitetura for bom, qual o problema do processo ser excludente e violento?

Então, não haveria problema se a prefeitura mobilizasse recursos humanos e financeiros para uma reforma da Praça da Sé cujo principal objetivo é expulsar as pessoas que hoje vivem e dormem lá porque já foram expulsas de outros espaços da cidade.

Ou construir equipamentos “anti-mendigos” sob os viadutos da Av. Paulista.

Ou expulsar moradores que ocupam legitimamente edifícios abandonados pelos grandes proprietários de terra urbana.

Ou eliminar os calçadões do centro da cidade, ampliando ainda mais os espaços para a circulação de carros na cidade, no melhor estilo Prestes Maia, somente para dispersar vendedores ambulantes.

Diante disso, não é possível continuar cultivando o caráter redentor do projeto de arquitetura.

Não é possível continuar acreditando que o projeto, e conseqüentemente o arquiteto, isolado do mundo real em seu escritório, tem o poder de eliminar, ou o direito de se esquivar, das contradições e dos conflitos resultantes do nosso modelo de produção do espaço urbano.

Não é possível continuar pensando no espaço público a partir de referências restritas à classe média consumidora, minoria tida falsamente como maioria.

Se o arquiteto não levar em consideração, garantindo possibilidades reais de intervenção no processo de projeto, as pessoas que vivem o dia a dia dos bairros populares, os moradores de ruas, os ambulantes, aqueles que ocupam edifícios abandonados e todos os demais que não se encaixam nos padrões de sociabilidade atualmente reconhecidos pelos arquitetos e pelo Poder Público, ele nunca deixará de ser apenas mais um instrumento de dominação e coerção, independentemente da qualidade, cada vez menos objetiva, atribuída a seu desenho.

sobre o autor

André de Oliveira Torres Carrasco, arquiteto, mestre pela FAUUSP 2005.

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