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my city ISSN 1982-9922

abstracts

português
Após visitar países europeus, onde pôde passear pelas ruas da cidade à noite, sem qualquer risco, Luiz Fernando Janot faz considerações sobre a vida urbana da cidade do Rio de Janeiro e sobre o passivo social que impede a vida urbana democrática.

how to quote

JANOT, Luiz Fernando. Por uma cidade sem segregação social. Minha Cidade, São Paulo, ano 15, n. 172.02, Vitruvius, nov. 2014 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/15.172/5338>.


Paisagem do Rio de Janeiro
Foto Chensiyuan [wikimedia commons]


Desde que cheguei das férias na Europa, vários amigos me perguntam sobre o que mais me impressionou nas cidades que visitei. Poderia listar uma infinidade de paisagens exuberantes, de monumentos históricos, de prédios com bela arquitetura, de museus maravilhosos, de bons restaurantes e de outras tantas particularidades notáveis que encontrei em Madrid, Toledo, Lisboa, Porto, Dublin, Glasgow, Edimburgo, Londres e Paris, cidades por onde passei.

Mas, para alguém como eu que gosta de andar a pé desfrutando das ambiências locais e do convívio com outras culturas, o que realmente me impressionou foi a possibilidade de circular tranquilamente pelas ruas, a qualquer hora do dia e da noite, sem a menor preocupação em ser assaltado. Mesmo quando retirava dinheiro em caixas eletrônicos espalhados pelas ruas. Para quem vive sobressaltado nas cidades brasileiras essa tranquilidade não deixa de ser um privilégio extraordinário.

Poderia acrescentar que nessas cidades não presenciei bicicletas circulando pelas calçadas e motoristas desrespeitando os sinais de trânsito. Atravessar a rua na faixa para pedestres traz a certeza de que não seremos atropelados. O espírito coletivo sobressai nos espaços públicos e cada sociedade busca os meios mais adequados para preservá-lo. Infelizmente, não se pode dizer o mesmo da maioria das cidades brasileiras.

Um aspecto que merece ser mencionado diz respeito ao recrudescimento da violência no Rio de Janeiro. Após um período de trégua voltamos a conviver com a barbárie praticada pelas facções do narcotráfico envolvidas na luta pela retomada dos territórios ocupados pelas forças policiais. Lamentavelmente, a banda podre da polícia militar vem contribuindo para enfraquecer o papel relevante desempenhado pelas Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) na segurança pública da cidade. Como corolário, percebe-se um aumento significativo do número de roubos praticados nas ruas e nos ônibus. Qualquer ganho é lucro para quem vive exclusivamente desse tipo de expediente. O preço por tal desfaçatez tem sido em alguns casos a própria vida de quem foi assaltado.

Como reverter essa tendência? Certamente, não será enclausurando as pessoas nos ambientes seguros dos shoppings e dos condomínios fechados e renegando o espaço público como lócus da sociabilidade. Como se trata de um projeto de longo prazo é necessário que, em paralelo com a repressão policial, sejam incentivados programas sociais, culturais e educativos para enfrentar, principalmente, a cooptação de jovens pela criminalidade. Não me refiro apenas a aqueles que vivem em guetos urbanos sem qualquer perspectiva de ascensão social. Falo também dos jovens que pertencem a classes econômicas bem-sucedidas que se espelham nas falcatruas de colarinho branco para enriquecer ilicitamente, custe o que custar. É inconcebível aceitar passivamente a roubalheira disseminada em nosso país.

Para enfrentar esse quadro perverso de degeneração cívica, é necessário compreender que as questões de caráter social não podem ser relegadas ao segundo plano, sob a desculpa esfarrapada de que as restrições orçamentárias não permitem aumentar as aplicações em educação, saúde, habitação e infraestrutura urbana. É preciso acabar de vez com o mito de que a economia deve prevalecer sobre tudo o que diz respeito ao futuro de uma sociedade. Políticas de longo prazo, e não exigências financeiras de curto prazo, devem determinar as atividades econômicas mais eficientes para atender aos interesses da maioria da população.

Por convicção democrática, pretendo contribuir com o meu voto para que o resultado das eleições de amanhã aponte na direção de um futuro mais próspero e sustentável para a sociedade brasileira, sem discriminações ou preconceitos de qualquer espécie.

nota

NE
Publicação original: JANOT, Luiz Fernando. Véspera de eleições. O Globo, Rio de Janeiro, 25 out. 2014. Como a publicação no portal Vitruvius se dá bem posterior às eleições, o título foi modificado por ser muito datado.

sobre o autor

Luiz Fernando Janot, arquiteto urbanista, professor da FAU UFRJ.

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