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my city ISSN 1982-9922

abstracts

português
Documentação arquitetônica da antiga fábrica de tecidos Santo Aleixo, no município de Magé/RJ, como exemplar da arquitetura industrial fluminense. A edificação como importante elemento de memória no distrito e a possibilidade de novos usos.

english
Architectural documentation of the old Santo Aleixo fabric factory, Magé/RJ, as an example of industrial architecture in Rio de Janeiro. The building represents an important element of memory in the district and its possibility of new uses.

español
Documentación arquitectónica de la antigua fábrica de telas Santo Aleixo, en el municipio de Magé, como ejemplo de arquitectura industrial en Río de Janeiro. El edificio como elemento importante de la memoria en el distrito y su posibilidad de nuevos usos

how to quote

CARVALHO, Silvia Scoralich de; RIBEIRO, Rosina Trevisan Martins. Antiga Fábrica de Tecidos. Minha Cidade, São Paulo, ano 21, n. 247.02, Vitruvius, fev. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/21.247/8032>.


Cultura do café: uma fazenda entre a cidade de Magé e as montanhas da Serra dos Órgãos. Desenho de Johann Steinmann, litografia de August Brandmeyer [Fundação Biblioteca Nacional]


Antecedentes

O objeto aqui apresentado, a antiga Fábrica de tecidos Santo Aleixo, tem, a partir do forte sentimento identitário dos que habitam nos seus arredores, a motivação inicial para a preservação de sua integridade física e funcional. O texto que se segue, faz parte de pesquisa para a conclusão do curso de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro. No trabalho, se propôs um novo uso capaz de reabilitar a edificação, reafirmando sua estrutura enquanto exemplar industrial a ser preservado como testemunho histórico, este artigo diz respeito a documentação de um exemplar sem registros, visando a visibilidade de um patrimônio em acelerado processo de deterioração.

Santo Aleixo

Segundo distrito do município de Magé, região metropolitana do estado do Rio de Janeiro, Santo Aleixo localiza-se em pequeno vale cortado por inúmeros riachos, ao sopé da Serra dos Órgãos. Sua formação tem início por volta do século 18 quando desbravadores portugueses e escravos observam na região grande potencial para a lavoura, fator devido a seu solo fértil, água em abundância e clima ameno. Em 1743 a região passa a ser conhecida pelo nome de Santo Aleixo, após a construção da capela dedicada ao santo de mesmo nome. Por decreto, o distrito de Santo Aleixo é criado em 28 de maio de 1892.

A baixada do Rio de Janeiro tem seu surto industrial inicial no século 19, graças à mão de obra livre barata, proporcionada pela Lei Áurea, de 1888, o clima úmido e as condições geográficas favoráveis. Devido à sua localização privilegiada próxima a nascentes, regiões serranas e a capital do Rio de Janeiro, o município de Magé se vê escolhido para a implantação de inúmeras fábricas, principalmente nas localidades de Santo Aleixo e, posteriormente, na de Pau Grande (distrito de Inhomirim). Foi o capital oriundo da cidade do Rio de Janeiro associado ao capital e tecnologia inglesa os responsáveis pelos investimentos na região.

A industrialização em Santo Aleixo pode ser recortada como exemplo do processo de modernização, que transforma o país como um todo nesta época. Gerando elementos de memória com valor afetivo e simbólico para a região, que possui forte vínculo com seu passado industrial.

Neste contexto, observa-se no município o incentivo e manutenção das atividades industriais no distrito através do código de zoneamento do município, ao mesmo tempo em que se observa o abandono de elementos arquitetônicos que são marcos referentes ao princípio da industrialização deste local.

Dentro dos patrimônios oriundos da industrialização existentes no município, apresenta-se a Fábrica Santo Aleixo, a primeira da região, enquanto agente modificador inicial da influência fabril no distrito. Através de sua trajetória, documentos encontrados e relatos dos moradores, procura-se reafirmar sua relevância no cenário local e sua estrutura como importante elemento no fortalecimento da identidade local. Identidade esta de suma importância pois “a memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia” (1).

Fábrica Santo Aleixo

A construção da fábrica, segundo documento do Instituto Histórico de Niterói, data de 1847. A fábrica foi alocada em Magé, no distrito de Santo Aleixo, e estava destinada a produzir tecidos.

Os primeiros proprietários da fábrica eram norte-americanos, tendo como primeiro diretor Luis S. Moran que se associou a Francisco Jones. Um relatório do Tenente Adjudante do Chefe do 6º distrito de obras públicas da província do Rio de Janeiro, de 1849, descreve minuciosamente a fábrica que já se encontrava em funcionamento. No relatório a fábrica é descrita com cinco pavimentos construídos em madeira, tendo janelas na frente e nos fundos. Na frente, observava-se uma torre que termina em um condutor elétrico e este protegia todo prédio. Além deste edifício, existia um outro estabelecimento feito todo de madeira, onde moravam os operários e todo maquinário era movido à água que era conduzida por uma vala.

Em pouco tempo a Fábrica Santo Aleixo se tornou um dos estabelecimentos de maior porte do sudeste, sabe-se que “Nos anos 1850, o estabelecimento têxtil mais importante do Sudeste era Santo Aleixo, que, concorrendo com os tecidos ingleses, conseguiu controlar uma parte considerável dos mercados para seus tecidos grosseiros de algodão” (2).

Acredita-se que a Fábrica tenha adquirido por volta de 1920-1930 as características típicas de edifício fabril com influências inglesas: adoção de princípios utilitaristas, iluminação zenital, tendo o ferro como elemento estrutural de pisos e coberturas. Relatos de funcionários do Grupo Bezerra de Mello (responsável pela fábrica à época), Ildes Magalhães, relatam o fato:

“Agora quando chegou a eletricidade acabou esse perigo e eles começaram a horizontalizar a fábrica. Lá onde você vai ver no alto das colunas, 1922, 1923, 1928. Eles botaram mais um trecho e botava a data lá, botava mais um trecho e botava a data lá. Durante muito tempo, uma parte da tecelagem, da fábrica era alvenaria, outra parte ainda era da madeira. O encalhamento para o telhado era todo de madeira e telha francesa. Depois, quando os Bezerra de Mello chegaram, tiraram a parte de madeira e completaram com tijolo [...] eles melhoraram, depois eles construíram mais alguns galpões, depósito de algodão outras construções para ampliação eles construíram, para modernização eles construíram. Tanto a parte esquerda quanto a direita eles construíram. Tinha um armazém, uma farmácia, tinha uma residência que foi a residência do médico durante muito tempo. Hoje em dia, cada um foi sendo transferido para o comércio dentro ali do povoado mesmo, e a fábrica foi ocupando esses galpões que já eram conectados a fábrica mesmo” (3).

Fachada para a rua principal do distrito, 1950 [Periódico Santo Aleixo e suas histórias]

Fundos da fábrica, antiga construção em madeira, 1930 [Periódico Santo Aleixo e suas histórias]

 

Vendida em 1942 para o empresário Pernambucano Othon Lynch Bezerra de Mello, a fábrica sofreria grande modernização passando a se chamar “Companhia de Fiação e Tecelagem Bezerra de Mello”, cuja família continua proprietária, onde, atualmente, funciona uma lavanderia. Foi sob a administração da família Bezerra de Mello que o distrito de Santo Aleixo viveu seu melhor momento. O empresário adota o modelo europeu de fábrica com vila operária abastecida de água, luz elétrica e esgoto; constrói escola, igreja e praça. Ou seja, desenvolve-se ao redor da fábrica a vida social do distrito, as habitações, locais de lazer, educação e culto.

“O operário têxtil, além de ser empregado, é simultaneamente inquilino do imóvel que pertence à fábrica e usuário da rede de serviços (armazém, armarinho, posto de saúde, farmácia, escola, clube social, capela) que funciona dentro do complexo fabril, transformando o que seria uma simples relação patrão/empregado em um relacionamento complexo” (4).

Outro fator relevante para a adoção do sistema foi a existência da Fábrica Andorinhas nas proximidades, de propriedade do grupo da Fábrica Unidas de Tecidos, Rendas e Bordados S.A., que já possuía núcleo residencial de 450 casas. A Fábrica Santo Aleixo possuía 400 casas, onde morava a maioria dos seus 1.100 funcionários na época. Segundo o filho de Othon, Álvaro Bezerra de Mello, “papai tinha orgulho de dizer que em apenas quatro meses pagou a fábrica de Santo Aleixo, sem precisar investir um centavo sequer, apenas com a produção da própria fábrica”.

O declínio da Fábrica foi testemunhado a partir da década de 1970, com a venda das casas aos operários e a desorganização dos aparatos institucionais. O sentimento coletivo destes operários fazia com que se referissem uns aos outros como uma “grande família”, o que gerou grande sentimento de perda após a desativação. A dignidade proporcionada aos trabalhadores com a criação de tais “benfeitorias” é até hoje motivo de discurso dos que recordam a época de crescimento da região, especialmente na época da Guerra. Há de se levar em conta a situação de dependência ocasionada pela estrutura existente, uma vez que é desativada, a população local se vê sem emprego e sem perspectivas gerais. Quando conjuntas estas situações geram novos tipos de memórias que sobrepõem fatos como as jornadas de trabalho quase escravas ou o emprego de mão de obra infantil, principalmente feminina. Restando lembranças e referências saudosas.

A estrutura da fábrica, atualmente, encontra-se em avançado estado de deterioração. Para o desenvolvimento do projeto de reabilitação da edificação foi feito, pela autora, o levantamento de toda a edificação e seu desenho, pois ela carecia destas informações e registros. Cabe aqui mencionar que todo o patrimônio histórico e artístico do município de Magé possui deficiência de registros oficiais e carece de local adequado para consulta.

Setorização volumétrica da fábrica com indicação dos novos usos, modelo digital feito pela autora, projeto de Silvia Scoralich de Carvalho, 2015

Através de levantamento físico e iconográfico, observou-se o sentido de expansão da fábrica e foi possível reiterar sua qualidade enquanto exemplar industrial: sua estrutura modular de ferro possui ainda gravado em seus pilares marcações de sua fabricação, bem como indicações para sua montagem modular. Foi também através dos materiais de vedação uma possível datação de sequência nas modificações dos espaços internos. O telhado, antes em telha francesa, atualmente é em telhas de amianto e a ventilação dos sheds encontra-se vedada por pedaços de alumínio ou madeira. As partes posteriores que fazem margem com a Mata Atlântica ao fundo do terreno encontram-se tomadas por vegetação.

Fachada frontal da Fábrica, e vista a partir do interior para sua fachada frontal
Foto Silvia Scoralich de Carvalho, 2015

Um dos grandes desafios em se trabalhar em edificações industriais é gerado pela extensa área deles. A fábrica de Santo Aleixo possui estrutura modular a partir de suas fachadas, totalizando 29 módulos de mesmo tamanho e três irregulares, num total de 227,74m de fachada cuja profundidade varia entre 17 e 59,27m, totalizando 14.372m² construídos num lote de 50.955,50m². Parte deste lote é ocupado por Mata Atlântica e reconhece-se que deva ser preservado como tal.

Levantamento e mapeamento de danos
Produção e fotografia da autora, 2015

Busca-se através deste novo empreendimento, não a utilização de toda a fábrica de modo megalomaníaco e impensado, mas a ocupação dela através de um plano de ação a longo prazo. O plano teria início com a reestruturação do edifício da fábrica, recuperação de sua fachada e estrutura original onde ainda for existente.

Montagem com modelo 3d da fábrica em seu novo uso, com novas aberturas nas fachadas respeitando seu ritmo e pequenos marcos visuais indicando a utilização de cada segmento, projeto de Silvia Scoralich de Carvalho, 2015

Considerações finais

A reabilitação da Fábrica é consequência de sua importância, principalmente, para a memória do distrito. Reafirmar a identidade da Fábrica representaria mais que um ganho para a preservação do patrimônio arquitetônico da industrialização, mas a reafirmação da identidade operária local, cujo sindicato é ativo até os dias de hoje em forma de associação de moradores.

Por fim, espera-se que tal investimento gere um papel impulsionador para outras atividades, auxiliando no desenvolvimento da região e incorporando uma nova realidade ao distrito. E que a arquitetura industrial ali existente não se torne mais um exemplo cujo único potencial reconhecido é o econômico, mas também valorize seu potencial social e cultural.

notas

1
LE GOFF, Jacques. Memória. In: Enciclopédia Einaudi. Volume 1: Memória-História. Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1984, p. 46.

2
SOARES, Luiz Carlos. A manufatura na formação econômica e social escravista no sudeste: um estudo das atividades manufatureiras na região fluminense, 1840-1880. Orientador Victor Vincent Valla. Dissertação de mestrado. Niterói, História UFF, 1980, p. 173-174.

3
MARINS, Geilson de Sena. Fábrica de Santo Aleixo: fundação em 1848 e memória da vila operária no século XX. Trabalho de conclusão de curso. Niterói, História UFF, 2006, p. 62.

4
KELLER, Paulo Fernandes. Cotidiano operário & complexo fabril: Fábrica com vila operária em Paracambi-RJ. Enfoques, v. 5, n. 1, Rio de Janeiro, 2006, p. 10.

sobre as autoras

Silvia Scoralich de Carvalho é arquiteta e urbanista, mestre em Projeto e Patrimônio no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura (UFRJ). Bolsista no programa de intercâmbio Ciência sem Fronteiras (Budapest University of Technology and Economics). Bolsista da Universidade Federal do Rio de Janeiro, através do Programa de Bolsas de Iniciação Artística e Cultural – PIBIAC, na pesquisa Casas Brasileiras do Século XX: Banco de dados de Publicações. Atualmente é docente na Universidade Anhanguera e na Universidade Estácio de Sá.

Rosina Trevisan Martins Ribeiro é professora titular aposentada da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro – FAU UFRJ. Arquiteta (Universidade Gama Filho, 1977), mestre (Proarq FAU UFRJ, 1994) e doutora em Engenharia de Produção (Coppe UFRJ, 2000). Trabalhou 11 anos no Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Iphan. Coordenadora adjunto de Ensino do Proarq por 20 anos. Foi coordenadora do mestrado profissional em Projeto e Patrimônio (Proarq FAU UFRJ, 2013-2017). Atualmente é docente do mestrado profissional em Projeto e Patrimônio do Proarq, onde é professora do quadro permanente. É membro do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios – Icomos Brasil.

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