Your browser is out-of-date.

In order to have a more interesting navigation, we suggest upgrading your browser, clicking in one of the following links.
All browsers are free and easy to install.

 
  • in vitruvius
    • in magazines
    • in journal
  • \/
  •  

research

magazines

my city ISSN 1982-9922

abstracts

português
Esta pesquisa analisa os impactos em um ano de pandemia em Aracaju, onde desigualdades foram evidenciadas e bairros mais adensados e aqueles com habitações precárias tiveram alto números de contaminados.

english
The research aims to analyze impacts in one year of coronavirus pandemic in Aracaju. Surely, inequalities were evident and that more densely populated neighborhoods and those with precarious housing had high numbers of contaminated people.

español
La investigación analiza los impactos en un año de la pandemia de coronavirus en Aracaju. De hecho, las desigualdades eran evidentes y los barrios más densamente poblados y aquellos con viviendas precarias tenían un alto número de personas contaminadas.

how to quote

FRANÇA, Sarah Lúcia Alves; MORAIS, Amanda Santos; ALMEIDA, Viviane Luise de Jesus. Um ano de pandemia em Aracaju SE. Perdas, desafios e reconhecimentos. Minha Cidade, São Paulo, ano 22, n. 260.02, Vitruvius, mar. 2022 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/22.260/8503>.


Aracaju, Covid 19: casos confirmados e óbitos por bairro
Imagem divulgação [Boletim Cepur DAU UFS]


Em 17 de março de 2021, a cidade de Aracaju, capital do Estado de Sergipe, comemorou seu aniversário de 166 anos em meio à pandemia da Covid-19, doença que mudou drasticamente o cotidiano de todos, em escala mundial. A esperança de cura em forma de vacina chegou à capital no dia 19 de janeiro de 2021. A enfermeira do Hospital de Urgências de Sergipe — Huse, Sônia Aparecida Damásio foi a primeira vacinada, com uma justa homenagem representando todos que atuam no enfrentamento do coronavírus há um ano. Após dois meses foram 38.267 pessoas vacinadas, dentre idosos com mais de 75 anos e profissionais de saúde (1).

Ao longo de um ano, foram realizados 153.902 testes, sendo 81.109 casos confirmados, 77.300 pessoas recuperadas e, infelizmente, 1.183 vidas perdidas (2). Assim, em função desses números, que se ampliaram nas últimas semanas, da superlotação dos atendimentos emergenciais e da insuficiência de leitos de internação e Unidades de Terapia Intensiva — UTIs, que tem acarretado o fechamento de hospitais, a cidade aniversariante está em uma semana de restrições, com fechamento de serviços não essenciais, conforme decreto do Governo Estadual. Nesse sentido, somado a isso é importante reconhecer a sobrecarga de trabalho e estresse emocional dos profissionais da linha de frente, que merecem todo nosso reconhecimento.

Desde o primeiro caso confirmado na capital de Sergipe, em 14 de março de 2020 — uma moradora do bairro Atalaia, os hábitos mudaram. O Governo do Estado decretou, em 16 de março de 2020, situação de emergência de saúde pública e suspendeu atividades presenciais. Todos ficaram reclusos em suas casas, provocando o entendimento da real importância da moradia adequada. Com isso, ampliaram-se possibilidades de home-office (embora muitas vezes extenuantes e divididas com as atividades cotidianas do lar) e o desafiante ensino remoto foi utilizado como alternativa para retomada das aulas.

A pandemia, na verdade, só evidenciou as desigualdades sociais que já existiam. De um lado, as famílias de nível de renda médio e alto convivem em condomínios fechados com casas e apartamentos confortáveis, possuem automóveis e melhores condições de cumprir o isolamento social. Do outro lado, as famílias de baixa renda que convivem em habitações precárias encontram-se mais vulneráveis ao vírus, dependendo de transporte coletivo e condicionados a maiores deslocamentos, além da dificuldade e/ou impossibilidade de executar atividades em home-office.

De acordo com o boletim diário da Secretaria Municipal da Saúde — SMS, os bairros Farolândia (1o), Jabotiana (2o), Luzia (3o), Zona de Expansão (4o) são os que apresentam maior número de contaminados, representando juntos 23,76% do total de casos na capital. Entretanto, cruzando esses dados com pesquisas anteriores, esses bairros foram os que mais receberam empreendimentos imobiliários desde 2000, especialmente condomínios verticais (3). Então, um dos problemas seria o adensamento urbano sem controle?

De fato, para as classes de renda mais baixa, a realidade tem sido outra, a quem a gestão deve redobrar atenção, a fim de equilibrar a justiça socioespacial. Para auxiliar o planejamento em tempos de pandemia, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística — IBGE divulgou em maio de 2020, a contagem preliminar e estimada de 2019, referente aos espaços de moradia precárias para os municípios. Para Aracaju, foram registrados 95 aglomerados subnormais (nomenclatura utilizada pelo IBGE) abrigando 33.817 domicílios com formas de ocupação irregular, entre 214.290 domicílios estimados para a capital, nesse mesmo estudo (4).

Essa informação levanta preocupações em função das condições da moradia inadequadas e sem qualidade arquitetônica e urbanística, pois muitas delas se caracterizam por não ter banheiro próprio, dispor de ambientes sem iluminação e ventilação, várias pessoas viverem no mesmo cômodo, por não dispor de divisões nos ambientes, dificultando ainda mais o isolamento social, sobretudo nos casos de alguma infecção ou suspeita da Covid-19 em um dos membros da família. Isso leva a apontar a importância da regulamentação e implementação da Lei Federal n. 11.888/2008 da Assistência Técnica Gratuita para Habitação de Interesse Social — Athis (5), na capital sergipana através de um programa, garantindo o direito à moradia de qualidade à população de baixa renda, através da democratização do acesso aos serviços públicos de arquitetura para reforma e melhorias em suas residências.

Assim, percebeu-se também que a pandemia também se alastrou para os bairros com habitações precárias, cujos moradores são os que mais dependem do atendimento médico nas Unidades Básicas de Saúde. De acordo com a SMS, até o dia 16 de março de 2020 foram contabilizados no bairro São Conrado 3.495 contaminados (5o— 4,29% do total), no Santos Dumont 3.071 contaminados (6o— 3,8% do total) e Santa Maria 2.451 contaminados (8o— 3% do total).

Neste último bairro, dos 9.540 domicílios que constam no Cadastro Único do Bolsa Família em 2017, conforme o Observatório Social de Aracaju (6), 29,39% não dispõe do abastecimento de água através da rede geral de distribuição, se constituindo um grande entrave quanto à higienização das mãos, condição é fundamental para a prevenção da Covid-19.

Ainda nesse contexto, das 75.177 famílias inseridas atualmente no Cadastro Único em 2021, 59.734 recebem até meio salário mínimo, conforme aponta o Ministério da Cidadania (7). São trabalhadores informais que utilizam o transporte público como forma de deslocamento, embora o mesmo tenha sido considerado um grande vetor de disseminação da doença, de acordo com um estudo do Laboratório do Futuro do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro — Coppe UFRJ. Assim, apesar das rigorosas medidas de controle de higiene e do número de passageiros, em tempos de necessidade de distanciamento social são frequentes os relatos e cenas de ônibus lotação máxima, filas de espera nos terminais, sendo fundamental que os empresários e gestores adotem novas estratégias para reduzir os riscos dos usuários e também dos motoristas, cobradores etc.

Diante dessas questões de produção do espaço aracajuano frente à pandemia, é importante reafirmar a importância da integração do planejamento urbano participativo nas questões da saúde pública. Vários desses números dos contaminados da Covid-19 por bairros demonstram ausências ou ineficiência do planejamento e gestão pública ao longo de todos esses anos, que deveria pensar integradamente e antecipadamente diversas temáticas referentes à cidade, como habitação, emprego, mobilidade, saneamento básico, ocupação e uso do solo, meio ambiente, saúde, educação, dentre outros. Sendo assim, o Plano Diretor é esse instrumento, que define as diretrizes de desenvolvimento urbano (Lei n. 42, promulgada em 2000), mas encontra-se desatualizado, pois sua revisão obrigatória deveria ter ocorrido em 2005.

Dentre tantas perdas e índices que necessitam ser melhorados, Aracaju também tem comemorações.

É de grande reconhecimento o papel da ciência nas políticas desenvolvidas para o controle da pandemia da Covid-19 em Aracaju! A Universidade Federal de Sergipe — UFS, através de seus docentes e discentes realizou inúmeros estudos e experimentações, como a produção de insumos como álcool gel, equipamentos de proteção, tratamento de pacientes, auxílio e assistência estudantil, além do aplicativo Monitora SUS.

Foram realizados cerca de 5.600 testes da Covid-19 nos diversos bairros da cidade através dos projetos Força Tarefa e Projeto EpiSergipe em parcerias institucionais com o Ministério Público do Trabalho e Governo do Estado de Sergipe respectivamente, para desenvolvimento de estudos e ações que visam acompanhar o grau de contaminação e impactos do novo Corona vírus em Sergipe. No caso de Aracaju, estudos frequentes sobre o comportamento epidemiológico por zonas foram apresentados por docentes no Comitê de Operações Emergenciais — COE da Prefeitura Municipal de Aracaju.

De fato, a pandemia mostrou vários lados e olhares dessa cidade. Para que se possa vivenciar e desfrutar de forma saudável de seus espaços, faz-se necessário pensar coletivamente na efetivação de um planejamento de forma pactuada da cidade na pandemia e pós pandemia, a fim de que, a cura através da vacina atinja a todos, que a cidade recupere a economia, que os cidadãos reconquistem a autoestima e que, por fim, o direito à cidade e à moradia seja, para de fato todos aracajuanos, conforme prega a Constituição Brasileira.

notas

NE — Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Max. FRANÇA, Sarah Lúcia Alves; ALMEIDA, Viviane Luise de Jesus; MORAIS, Amanda Santos. Aracaju e um aniversário em meio à pandemia: perdas, desafios e reconhecimentos. Blog do Max, Aracaju, 17 mar. 2021 <https://bit.ly/3twNUmE>.

1
SECRETARIA ESTADUAL DA SAÚDE. Boletim Epidemiológico do dia 16 de março de 2021. Aracaju, Governo do Estado de Sergipe, 16 mar. 2021 <https://bit.ly/3aNqbbk>.

2
PROCURADORIA GERAL DO ESTADO DE SERGIPE. Decretos e Portarias Covid-19. Aracaju, Governo do Estado de Sergipe, 2020 <https://bit.ly/3NJSZ35>.

3
FRANÇA, Sarah Lúcia Alves. Vetores de expansão urbana: estado e mercado na produção da habitação em Aracaju SE. São Cristóvão, Editora UFS, 2019.

4
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Mais de 50 mil domicílios em Sergipe estavam em Aglomerados Subnormais. Aracaju, IBGE Departamento Sergipe, 2020

<https://bit.ly/3NJQG00>.

5
REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. Lei Federal n. 11.888/2008 da Assistência Técnica Gratuita para Habitação de Interesse Social. Brasília, Câmara dos Deputados, 2008 <https://bit.ly/3MIYdL9>.

6
OBSERVATÓRIO SOCIAL DE ARACAJU. Perfil das Famílias Cadúnico Santa Maria. Aracaju, Prefeitura Municipal de Aracaju, 2017 <https://bit.ly/3tTz2z5>.

7
SECRETARIA NACIONAL DE RENDA E CIDADANIA. Cadastro Único — Aracaju, SE. Brasília, Ministério da Cidadania, 2001 https://bit.ly/3MYghRL.

sobre as autoras

Sarah Lúcia Alves França é arquiteta e urbanista, mestre, doutora e professora adjunta do Departamento de Arquitetura e Urbanismo, Líder do Centro de Estudos de Planejamento e Práticas Urbanas e Regionais da Universidade Federal de Sergipe.

Viviane Luise de Jesus Almeida é aluna do curso de Arquitetura e Urbanismo e membro do Centro de Estudos de Planejamento e Práticas Urbanas e Regionais da Universidade Federal de Sergipe.

Amanda Santos Morais é aluna do curso de Arquitetura e Urbanismo e membro do Centro de Estudos de Planejamento e Práticas Urbanas e Regionais da Universidade Federal de Sergipe.

comments

newspaper


© 2000–2022 Vitruvius
All rights reserved

The sources are always responsible for the accuracy of the information provided