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A Capela do Menino Jesus em Itapetinga, Bahia, projeto dos arquitetos Yoshiakira Katsuki, Guarani V. Araripe e Albert Hoisel, incorpora elementos autorais dos construtores e, apesar de paralelos possíveis com Rochamp, mantém potência ímpar.

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MOREIRA, Pedro da Luz. A Capela do Menino Jesus em Itapetinga, Bahia. Uma grata surpresa. Projetos, São Paulo, ano 17, n. 193.01, Vitruvius, jan. 2017 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/17.193/6368>.


Em 1964 o fazendeiro Juvino Oliveira encomendou ao arquiteto de Salvador Guarani V. Araripe o projeto de uma pequena capela em homenagem ao Menino Jesus, que seria edificada junto a sede de sua fazenda na cidade de Itapetinga, no sudeste da Bahia. Na ocasião trabalhava no escritório de Guarani, o arquiteto japonês Yoshiakira Katsuki, que nesse trabalho desenvolveu uma maquete volumétrica prévia de argila, que depois foi desenhada. A obra é atribuída a Yoshiakira Katsuki, Guarani V. Araripe e Albert Hoisel. A planta do projeto apresenta o arranjo expressivo dos dois volumes, da nave e da sacristia, construídos integralmente num granito da região da cidade. Já havia visitado essa obra nos anos 1990s, por ocasião de um seminário de Desenho Urbano realizado na cidade de Itapetinga e em Vitória da Conquista, sob a organização da Universidade Estadual do Sudeste da Bahia – UESB, e lembro do expressionismo de sua concepção, algo inusitada e provocadora. Na primeira visita ainda não tinha desenvolvido meu blog (1), e portanto não me referi a essa obra peculiar e provocadora, que tanto me instigou a desenvolver essas reflexões que trago agora a público.

O interessante na pequena capela, que hoje se encontra nas bordas da cidade de Itapetinga, é que foram agregadas a ela um Memorial ao fazendeiro Juvino Oliveira, também primorosamente desenhado, e uma série de equipamentos de apoio como restaurante e buffet, que garantem a família a possibilidade de aluguel para festas e eventos da cidade. A experiência me parece exemplar da capacidade de aglutinação, que a boa arquitetura é capaz de gerar num lugar, impulsionando tanto a autoestima da população local, quanto referenciando-a com um exemplo inusitado e complexo de esforço construtivo, que se afasta de forma definitiva das zonas de conforto e da banalidade. Aqui, também se reforça o caráter coletivo do fato arquitetônico, que não é fruto apenas de um projeto bem lançado, mas também de um esmero construtivo da mão de obra engajada na construção. Há na obra construída uma série de registros dos operários, que grafaram pedras com preciosas expressões, que com certeza pretendia franquear a autoria aos anônimos operários, uma proposição teórica que se aproxima de manifestações próximas do TeamX na Europa nos mesmos anos 1960. A professora Nelma Gusmão de Oliveira, que é de Itapetinga, e que me mostrou a obra nas duas ocasiões que visitei a Capela do Menino Jesus, já escreveu sobre a obra, destacando também esse caráter coletivo, inusitado e único dessa construção.

“A harmonia entre idealização do projeto e execução da obra, refletindo uma perfeita integração entre o sonho de seu Juvino, os arquitetos, o engenheiro Fidelino Lopes Ribeiro, o mestre de obras Gilberto Assis, o escultor Lênio Braga, o calculista Francisco Lemos Santana, o ferreiro João Batista de Souza, o marceneiro José Berilo do Nascimento e os operários da cidade de Itapetinga, que durante quatro anos, se dedicaram a essa construção num trabalho sem pressa que mais parecia um ritual, se torna um dos pontos principais que conferem a essa capela um caráter tão especial...” (1).

O caráter perene, e de um envelhecimento adequado, robusto e resistentte ao tempo e as intempéries naturais certamente é determinado pela materialidade escolhida paras as paredes de pedra, que também gera uma espacialidade adequada ao simbólico e ao sagrado. Essa mesma materialidade reforça a potente adequação do edifício ao clima extremamente quente da região. As aberturas junto ao solo, conjuminadas com as aberturas próximas as lajes de cobertura geram um fluxo de ar constante no seu interior, que ameniza o intenso calor da região, que atingem máximas bem próximas aos trinta e cinco a quarenta graus celsius. Toda a obra me parece bastante provocadora e inusitada, e apesar das claras referências já assinaladas por outros autores com Ronchamp de Le Corbusier e os Metabolistas japoneses, ela me parece dotada de uma potência ímpar.

Capela do Menino Jesus, Itapetinga BA, arquitetos Yoshiakira Katsuki, Guarani V. Araripe e Albert Hoisel
Foto Pedro da Luz Moreira

Há ainda um aspecto bastante notável, na concepção da pequena Capela do Menino Jesus de Itapetinga, que está no desenho do piso no seu interior, que nunca se consolida junto aos planos das paredes, como que mantendo sua autonomia. Essa decisão de desenho acaba por definir um piso artificializado, confortável ao andar humano, plano, que contrasta com o retorno ao piso do sítio antes da intervenção humana. Além disso, tal decisão reforça um caráter artificialmente natural dos planos de pedra das paredes, remetendo-nos ao espaço da gruta, no qual o altar mor e o batistério se posicionam para além desse piso, como que sacralizando-os. O único ponto em que o piso se consolida com o plano vertical da parede é junto a entrada da capela, onde também ocorre o único plano ortogonal de parede ao piso, numa ênfase de sua artificialidade humana.

Por último, a construção do Adro da capela num desenvolvimento triangular, marcado pela presença do cruzeiro esculpido pelo escultor Lenio Braga em pedra sabão cumpre um papel claro de assinalar o acesso principal ao altar mor, a axialidade do templo. Mas mesmo aqui, a axialidade não é apresentada ao observador de forma simples e linear. Há uma quebra. O visitante sobe ao plano do Adro de maneira lateral, sendo apresentado a porta principal por duas escadas hierarquicamente construídas, uma mais generosa e direta e outra tortuosa, que segue o desenho dos degraus do batistério no interior. As duas escadas acabam sendo articuladas por um pequeno púlpito, que parece cumprir o papel de ponto focal para cerimônias mais concorridas, além da capacidade da pequena capela. Tudo aqui parece reforçar um caminhar pausado, a ser construído pelo visitante, no qual a legibilidade só é fixada na memória com a experiência de vivência efetiva do espaço, nunca como premissa.

Enfim, a Capela do Menino Jesus de Itapetinga faz parte de um conjunto de obras de arquitetura onde o conjunto dos esforços construtivos desprendidos estruturam um objeto único, no qual cada decisão de projeto nos incita a ver como o fenômeno do espaço é potente, capaz de articular uma comunidade de forma marcante.

notas

1
Publicação original do artigo: MOREIRA, Pedro da Luz. A Capela do Menino Jesus em Itapetinga, Bahia, uma grata surpresa. Blog Arquitetura, Cidade e Projeto, 4 jan. 2017. <http://arquiteturacidadeprojeto.blogspot.com.br/2017/01/a-capela-do-menino-jesus-em-itapetinga.html?spref=fb>.

2
OLIVEIRA, Nelma Gusmão de. Capela do Menino Jesus: monumento da Arquitetura Moderna Brasileira. Jornal Dimensão, Itapetinga, n. 1379, 01 abr. 2006.

notas

Pedro da Luz Moreira é arquiteto e doutor em Urbanismo (UFRJ/FAU-Prourb). Sócio-gerente da Archi5 Arquitetos Associados Ltda, desenvolveu projetos para o Rio Cidade e o Favela-Bairro, e para o Jardim Botânico e o Parque do Vale dos Contos, em Ouro Preto. Foi professor adjunto da PUC-Rio e coordenador-geral do programa Morar Carioca. Atualmente, é professor adjunto (UFF/EAU), diretor do IAB e presidente do IAB-RJ.

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