Your browser is out-of-date.

In order to have a more interesting navigation, we suggest upgrading your browser, clicking in one of the following links.
All browsers are free and easy to install.

 
  • in vitruvius
    • in magazines
    • in journal
  • \/
  •  

research

magazines

projects ISSN 2595-4245


abstracts

português
O projeto Casa do Mel propõe atender objetivos do território onde se insere: preservar áreas ainda não ocupadas, restaurar áreas já degradadas e alimentar e gerar renda para a população local.

english
The Honey House Project is intended to achieve aims related to the territory in which it is inspired: to preserve virgin areas and regenerate deteriorated ones and promoting and creating economic resources for the local population.

español
El proyecto Casa de Miel propone atender objetivos del territorio donde se insiere: conservar las áreas aún no ocupadas, reconstituir las áreas ya deterioradas y alimentar y generar recursos económicos para la población local.

how to quote

TESHIROGI, Christian Naoyuki; COLONNA, Julianna; RIBEIRO, Noelia Monteiro de. Casa do Mel. Projetos, São Paulo, ano 22, n. 258.01, Vitruvius, jun. 2022 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/22.258/8545>.


Preservar e restaurar

A construção realizada para a Associação dos Apicultores de Canaã dos Carajás — AACC, chamada pelas associadas e associados Casa do Mel, e concluída em 2018, teve como objetivo sediar o processo de beneficiamento do mel, coletado pelos seus cinquenta e três associados — pequenos produtores rurais locais. Localiza-se no município de Canaã dos Carajás, no Sudeste do estado do Pará, na Amazônia legal brasileira, cidade que, como tantas outras do Norte brasileiro emergiu a partir de assentamentos agrícolas. Este em particular, originou-se do Projeto de Assentamento Carajás, implementado em 1982, pelo Grupo Executivo das Terras do Araguaia e Tocantins — Getat, do Governo Federal e, cujo nome adotado, advêm da sua proximidade com a Serra dos Carajás, território originalmente povoado pelos grupos indígenas Karajá e Kayapó.

Desde a década de 1960, a Serra dos Carajás, assim como seu entorno, tem atravessado uma profunda modificação paisagística devido aos grandes projetos de mineração instalados em seu território, atualmente densamente povoado. Grandes centros urbanos se instalaram nas proximidades do acidente geográfico, como resultado da exploração da jazida de minério de ferro, identificada por uma equipe de geólogos em 1964, processo descrito pelo engenheiro Newton Pereira de Rezende no livro Carajás: memórias da descoberta, publicado em 2009, onde faz menção ao “distrito ferrífero da Serra de Carajás” (1).

Serra dos Carajás PA
Imagem divulgação [Estúdio Flume]

Sobre a riqueza da flora e fauna da região, o plano de manejo florestal emitido por Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, descreve: “inserindo-se no Centro de Endemismos Xingu-Tocantins, a Floresta Nacional de Carajás se caracteriza como uma área de elevada biodiversidade e existência de diversas espécies endêmicas da flora e da fauna, especialmente de aves, répteis, anfíbios e plantas associadas aos ecossistemas abertos sobre canga. A unidade de conservação apresenta fisionomias predominantes de florestas ombrófila densa (montana, submontana) e ombrófila aberta (submontana). Destaca-se a ocorrência de uma vegetação herbácea-arbustiva caducifólia sazonal sobre substrato ferruginoso, identificada como savana metalófila, e denominada popularmente de canga, onde o endemismo está presente de forma significativa” (2).

O território onde se insere este projeto é marcado por duas urgências, de um lado a urgência de preservar as áreas ainda não degradadas e/ou ocupadas e de restaurar as áreas já degradadas, como os pastos de criação extensiva de gado mal manejados. De outro, a urgência de alimentar e gerar renda para a população local. O objetivo do projeto foi responder a essas duas urgências de forma autossustentável através do apoio à produção de mel, integrando a dimensão ambiental e social. Produzir mel pode acelerar a restauração de áreas degradadas e conservar a biodiversidade local — visto que as e os apicultores são diretamente interessados na disponibilidade de alimento para suas abelhas e, portanto, na presença de áreas protegidas. Além disso, a Casa do Mel permite agregar valor ao mel produzido pela comunidade e gera oportunidade de aumentar a produção individual e a quantidade de membros da associação diretamente envolvidos na produção.

Casa do Mel, diagnóstico de produtividade
Foto divulgação [Estúdio Flume]

Casa do Mel, produção
Foto divulgação [Estúdio Flume]

Neste contexto, no desenvolvimento de projetos arquitetônicos vinculados à soluções socioambientais em áreas rurais, buscando o fortalecimento de oportunidades na economia local e à geração de renda, com foco na segurança alimentar, visualizamos três escalas de aproximação para abordar a proposta do projeto e construção da Casa do Mel.

1. Tecnologia / detalhe: O estudo de soluções técnicas para construir com o material fabricado e comercializado no entorno imediato, no centro urbano mais próximo. Em áreas rurais, afastadas dos centros urbanos, optamos por criar estruturas resilientes no meio no qual se inserem que não demandem alto grau de manutenção;

2. Arquitetura / espaço: O entendimento espacial do ambiente de trabalho no caráter de cooperativas, como alternativa às condições adversas e de vulnerabilidade social;

3. Território / sistema: O fortalecimento dos sistemas urbanos constituídos por povoados de pequeno e médio porte; que conformam uma rede que se fortalece regionalmente.

Casa do Mel, produção
Foto divulgação [Estúdio Flume]

Em visita ao sítio, realizada em 2017, observamos que no terreno em declive, com aproximadamente sete metros de desnível entre frente e fundo, se destacava o afloramento rochoso logo no acesso à área, originalmente, parte integrante de uma fazenda, cercada por pastos, característicos da pecuária extensiva praticada nos latifúndios. Portanto, optamos pela suspensão da construção por pilotis, elevando a laje de piso e preservando o perfil natural do terreno e as rochas, garantindo a mínima movimentação de solo. A solução adotada, além de ser mais favorável do ponto de vista econômico, quando comparada com propostas sugeridas por empreiteiras que realizam obras na região, se presenta principalmente mais favorável do ponto de vista ambiental por não alterar a topografia natural do terreno e respeitar o caminho das águas de chuva enquanto não impermeabiliza o solo, mantendo a área de absorção. Esta solução favoreceu, também, a circulação de ar entre a edificação e o solo, contribuindo para o conforto térmico, numa área onde predominam altas temperaturas, típicas da região Norte do país.

Casa do Mel, fotografia do terreno prévio à instalação do projeto
Foto divulgação [Estúdio Flume]

Complementando a estratégia para o conforto térmico, executamos uma dupla cobertura, mantendo um vão entre a telha trapezoidal metálica e a laje de teto, que da mesma forma que os pilotis sobre a laje de piso, garante o fluxo contínuo de ar entre a edificação e o ambiente. Outras soluções simples adotadas, como áreas de sombreamento das varandas, ventilação cruzada através de aberturas na fachada por elementos vazados, bem como a implantação da Casa, considerando a orientação solar na manutenção das áreas de longa permanência, como as salas de processamento do mel, na face leste, garantiram a qualidade do ambiente de trabalho.

Casa do Mel, perspectiva isométrica, Canaã dos Carajás PA, 2018. Arquitetos Christian Naoyuki Teshirogi e Noelia Monteiro de Ribeiro / Estúdio Flume
Imagem divulgação [Estúdio Flume]

A preocupação na manutenção e conservação do espaço, com a geração mínima de resíduos e máximo reaproveitamento dos recursos são parte que também integram o projeto da Casa do Mel. Primeiramente, para limpeza das instalações, foi criado um sistema de coleta de água da chuva que permite sua reutilização. Em segundo lugar, a água utilizada na agroindústria, antes de retornar ao sistema recebe um tratamento primário baseado em técnicas da permacultura, como o círculo de bananeiras (método utilizado no tratamento de águas cinzas, evitando a contaminação do solo), o biodigestor (tratamento de resíduos orgânicos, resultando num biofertilizante utilizado na horta dos associados).

Cada uma das características e escolhas realizadas do ponto de vista arquitetônico, tais como a definição do programa de usos, o fluxo produtivo, a disposição e as características espaciais, foram construídas por nós de forma participativa com a AACC. Uma vez que decidiu-se realizar a construção de uma nova Casa do Mel — pois a antiga estava condenada — visitas ao terreno da associação, a outras agroindústrias de beneficiamento do mel e reuniões com os associados e associadas foram realizadas. O processo participativo pode ser resumido em quatro grandes fases: 1. Diagnóstico da produção de mel atual e potencial futuro, levantamento de expectativas e escuta dos membros da associação; 2. Elaboração do projeto 3D, apresentado e discutido com a AACC para incorporar mudanças; 3. Construção e apresentação da maquete para os associados; 4. Visitas regulares à obra pela AACC.

Casa do Mel, maquete física, Canaã dos Carajás PA, 2018. Arquitetos Christian Naoyuki Teshirogi e Noelia Monteiro de Ribeiro / Estúdio Flume
Foto divulgação [Estúdio Flume]

O objetivo de todas essas fases foi facilitar a discussão e apropriação do projeto pela associação. Projetos arquitetônicos têm sua própria linguagem que pode ser muito distante da linguagem dos beneficiários e beneficiária da construção. A conexão do projeto ao público, para nós, começa desde a sua concepção e passa obrigatoriamente pela comunicação efetiva entre as partes.

Inserida em um projeto de incubação, a construção da Casa do Mel, na verdade, fez parte de um conjunto de ações de apoio ao desenvolvimento da associação.

O chamado processo de incubação faz referência exatamente à incubadora de bebês prematuros ou que precisam de apoio para passar pelos primeiros momentos da vida. Ainda que a constituição da AACC não fosse recente, ela enfrentava desafios muito comuns a associações e cooperativas de base comunitária — formadas de forma geral pelos grupos minorizados, como agricultoras e agricultores familiares, populações tradicionais como indígenas, quilombolas e ribeirinhos, para citar apenas alguns. Os desafios que essas organizações enfrentam são diversos e complexos. No caso da AACC, uma das dificuldades que observamos foi a sobrecarga dos produtores, principalmente dos que se encarregavam da liderança e/ou administração da associação. Além da produção de mel — normalmente associada a outras produções agrícolas diversas — os produtores devem se ocupar da gestão da associação, do beneficiamento e das vendas do mel.

Casa do Mel, Canaã dos Carajás PA, 2018. Arquitetos Christian Naoyuki Teshirogi e Noelia Monteiro de Ribeiro / Estúdio Flume
Foto divulgação [Estúdio Flume]

Se a Associação deveria poder aliviar a sobrecarga dos produtores realizando a venda do mel, ela encontrava limites relativos à licença sanitária que a permitia de realizar vendas exclusivamente dentro do município de Canaã dos Carajás. A construção da Casa do Mel, seguindo todas as normas da Agência de Defesa Agropecuária do Pará — Adepara (3), permite que o mel beneficiado e embalado na Casa do Mel seja comercializado em todo estado. Futuramente, adequações que não são estruturais, mas que dependem de um segundo investimento de recursos econômicos, a AACC poderá requerer a vistoria válida para todo o território nacional (4), o que inclui a possibilidade de exportar o mel produzido em Canãa.

Além desses pontos, o potencial aumento da produção de mel associado a uma maior demanda pode fazer com que a AACC necessite criar postos de trabalho parciais ou integrais para garantir o funcionamento da agroindústria, gerando trabalho e renda. Uma pesquisa realizada em 2020 pelo Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura — IICA, sobre a situação da agricultura familiar e do fornecimento de alimentos ante à pandemia na América Latina e o Caribe, ressalta a urgência de medidas de distribuição de alimentos para populações afetadas pelo desemprego e emprego informal. Assim, o trabalho de apoio à AACC desenvolvido como parte de uma estratégia socioeconômica e ambiental, com foco na segurança alimentar, teve por objetivo desenvolver um projeto autossustentável que visasse, através do apoio à produção de mel, acelerar a restauração de áreas degradadas, conservar a biodiversidade de espécies na região, além de gerar trabalho e renda para a comunidade. Os resultados positivos da autonomia das e dos associados da Casa do Mel reforçam o interesse em replicar a experiência em outros projetos para áreas rurais, em vista da atual crise social, econômica e ambiental.

Casa do Mel, Canaã dos Carajás PA, 2018. Arquitetos Christian Naoyuki Teshirogi e Noelia Monteiro de Ribeiro / Estúdio Flume
Foto divulgação [Estúdio Flume]

notas

1
REZENDE, Newton Pereira de. Carajás: memórias da descoberta, Rio de Janeiro, Stamppa Editora Gráfica,2009, p. 7.

2
INSTITUTO CHICO MENDES DE CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE. Plano de Manejo Flona Carajás. Volume 2. Brasília, ICMBio, 2016, p. 16.

3
Agência responsável pela promoção das normas sanitárias e da qualidade da produção agropecuária do Pará. O mel, sendo considerado um produto de origem animal, segue regulamentações sanitárias mais exigentes que produtos de origem vegetal.

4
Selo de Inspeção Federal — SIF.

ficha técnica

projeto
Casa do Mel

local
Canaã dos Carajás PA

ano
2018

área
240 m²

arquitetura
Arquitetos Christian Naoyuki Teshirogi e Noelia Monteiro de Ribeiro (autores) / Estúdio Flume

estrutura
Megalos Engenharia

instalações
Ideale Engenharia

beneficiários
Associação dos Apicultores de Canaã dos Carajás

foto
Estúdio Flume

comments

258.01 prêmio tomie ohtake akzonobel
abstracts
how to quote

languages

original: português

source

share

258

newspaper


© 2000–2022 Vitruvius
All rights reserved

The sources are always responsible for the accuracy of the information provided