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ARUCA ALONSO, Lohania. Da colônia a neocolônia: Cuba e seus portos. Resenhas Online, São Paulo, ano 05, n. 050.01, Vitruvius, fev. 2006 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/05.050/3143>.


A História sustenta, abunda e confirma os enunciados da Teoria política (e também de muitas outras ciências sociais). Ainda que cada uma dessas disciplinas tem seu próprio passo, e sucede que a pesquisa histórica nem sempre marcha no mesmo tempo do desenvolvimento da teoria e da praxe da política ou da economia. Por este motivo, às vezes, fica na sombra a demonstração dos mecanismos, instituições, personalidades inclusive, que formam parte, ou intervêm de algum modo, em processos sociais complexos, de duração longa ou conjuntural, desatados a partir de uma política, ou de uma mudança nesta, que, simultaneamente, afeta a muitos aspectos da vida de uma sociedade em particular.

Esta identificação tardia de um fato histórico concreto com uma teoria, que se valida precisamente mediante os dados experimentais que aporta o primeiro, causa certa confusão na ideologia que orienta o comportamento de uma parte importante da sociedade. Especialmente tem lugar, quando os novos resultados das pesquisas históricas não cumprem seu objetivo essencial de atualizar e transformar a informação e formação dadas como conhecimentos, capacidades e habilidades, às novas gerações, através da instrução e da educação nos diversos níveis de ensino; quando o pensamento e o conhecimento, que se transmitem como um valioso legado cultural, ficaram detidos por motivos alheios à cientificidade que deve caracterizar um plano de estudo, e se propõe a educação por um conservadorismo que evade o cotejo e o confronto com novas realidades.

Posso acrescentar que, lamentavelmente, poucas vezes nos encontramos com estudiosos procedentes das “altas regiões” da atmosfera intelectual “primeiro-mundista”, que se interessem por nossos pontos de vista, e sobre tudo que citem nossas publicações. No geral nos julgam fora de moda ou faltos de referências teóricas, do primeiro mundo acadêmico certamente. Não obstante, avançamos certeiramente na recuperação e na análise de temas do passado, ao mesmo tempo em que vamos construindo um ponto de vista apropriado para enfocar os problemas que nos suscita nossa realidade.

Depois desta introdução, talvez demasiadamente ampla, vou ao ponto, para tratar do tema que anuncia o título de meu artigo – resenha: um novo livro que recentemente foi lançado, e que foi a causa de muitas das reflexões que já lhes antecipei.

Cuba e sus puertos – siglos do XV al XXI, 2005, co-patrocinado pelo Grupo de Trabalho Estatal Baía Havana, Instituto de História de Cuba, Editora Historia y Carisub; reúne vinte e cinco trabalhos que foram compilados por uma equipe integrada pelas doutoras Mercedes García Rodríguez e Yolanda Díaz Martínez, o doutor Gustavo Placer Cervera e a mestre em ciências Marilín Fernández Pérez. Foi apresentado no domingo 12 de fevereiro na Feira Internacional do Livro de Havana; anteriormente já se havia noticiado seu lançamento em outras atividades realizadas no Instituto de História de Cuba e na União de Escritores e Artistas de Cuba.

Na historiografia cubana a questão dos portos foi abordada anteriormente de muitas maneiras dentro da historia geral, mas sem chegar à profundidade requerida e merecida no estudo de suas características particulares. Os livros que acometem o tema com um enfoque específico sobre este campo, quase sempre, são compilações de artigos transformados em uma obra de autoria coletiva.

Posso mencionar como um antecedente notável da obra que nos ocupa, La Habana, Puerto colonial – siglos XVIII – XIX, 2000, coordenado por Agustín Guimerá e Fernando Monge e patrocinado pela Fundação Portuária, Madrid; deu inicio à série “Biblioteca Portuária”. Neste enxundioso tratado em torno à baía e porto de Havana, participaram um total de vinte e um autores, de várias nacionalidades: espanhóis (oito), cubanos (doze) e um colombiano. De modo, que podemos considerá-lo, com certa propriedade, dentro de nossa historiografia nacional.

Posteriormente, se realizaram outros projetos com o auspicio da Universidade de Veracruz no México e da Universidade de Havana, sobre as relações entre os portos de Havana e Veracruz. Um projeto mais ambicioso ainda foi patrocinado pelo Instituto José Luis Mora, El Golfo-Caribe e sus puertos, tomos I e II, coordenado pela doutora Johanna Von Grafestein. Este último possivelmente será lançado em abril de 2006. Neste caso junto a outros estudiosos caribenhos, também participaram alguns cubanos, esboçando as singularidades de nossa história portuária.

Uma delas é que, apesar de que Cuba, a maior ilha de nosso arquipélago, possui um número importante de excelentes baías, enseadas, rias, estuários, surgidouros e outros acidentes hidrográficos, onde podiam habilitar-se portos de distintas categorias, com assentamentos de populações próximos, este potencial econômico não se aproveitou durante um longo período da época colonial (1). O monopólio do comercio pela metrópole espanhola foi a doutrina principal para a dominação de suas colônias americanas e do Pacífico – e também foi empregado na Península. Um de seus efeitos foi a restrição do uso e desenvolvimento das zonas costeiras, inclusive vedou o acesso a estas (2). Sem duvida, o monopólio comercial foi a causa mais importante do comercio ilegal (contrabando) por cais clandestinos, para realizar um intercâmbio muito ativo por Cuba com outros territórios caribenhos ou continentais da América, violando deste modo, continuamente, as ordens reais.

A partir da organização da Frota do ouro e da prata (1561) até as primeiras regulamentações de liberdade de portos selecionados (1778) e a implantação do livre comércio em 1818, transcorreram mais de dois séculos, durante os quais a exploração da colônia se assentou firmemente no monopólio exercido através do porto de Havana. Santiago de Cuba e outros portos menores realizavam um comércio legal limitado unicamente à cabotagem. Por isso, grande parte da história dos portos cubanos neste primeiro período colonial se centra em La Habana, puerto–ciudad–región.

Esta compilação aparece dividida de acordo com eixos temáticos principais em seis Partes: I. Portos: economia e comércio; II. Portos: história e entorno; III. Portos: espaço cultural e recreativo; IV. Entorno portuário: identidade e Sociedade; V. Infra-estrutura portuária e espaço urbano; VI. Portos: sua função militar. O peso e rigor de muitos especialistas já conhecidos por sua obra neste tema, ou outros afins, como é o caso de Gustavo Placer Cervera (historiador militar e naval), Ovidio Ortega Perera (historiador arqueólogo), Mercedes García Rodríguez (historiadora econômica), Carlos Venegas Fornias (historiador de arte), Ernildo González Pérez (historiador do Ministério da Pesca), avalizam a seriedade desta obra que inicia uma linha de pesquisa de grande importância historiográfica.

Destacam-se vários trabalhos da Parte I por discutir com acerto algumas das formas nas que se organizou e manifestou o monopólio colonial sobre a industria e o comércio havanês, recomendo: “El Real Arsenal” do Dr. Ovidio Ortega Perera; “El trasiego mercantil de la Real Compañía por el puerto habanero” da Dra. Mercedes García Rodríguez: “Arqueología del comercio en el puerto de La Habana a inicios del siglo XIX” do Dr. Ortega, Yamilé Luguera González e César Alonso Sansón. Uma nota do Dr. Gustavo Placer Cervera titulada “El faro del Morro de La Habana en su 160 aniversario” (pertencente à Parte II), rememora a importância desta instalação e sua renovação tecnológica com meios muito avançados do século XIX.

Posteriormente, 1820 em diante, Ernildo González Pérez detalha em “Desarrollo de la pesca en el puerto de La Habana durante el período colonial”, como se estendem os métodos monopólicos favorecendo a influentes personagens peninsulares. Revelam-se as artimanhas da administração colonial para o estabelecimento do novo peixeiro e seu controle sobre o peixe em Havana, através do alferes de fragata da Real Armada Francisco Marty y Torrens, um carismático catalão da época, traficante de escravos africanos negros e proprietário do grande Teatro Tacón. A este seguiram no negocio do pescado outras personalidades, tão interessantes como o escritor havanês José Güell y Renté (1818-1884) (3), membro da ilustre família do Condado de Güell, na Catalunha (4), casado com a irmã do rei consorte de Isabel II, dom Francisco de Asís de Borbón (1822-1862), e, por último, senador pela Universidade de Havana em 1879.

Um extenso estudo sobre “Regionalidad en el Oriente de Cuba; puertos, migraciones y comercio” (Parte I) da MC Ivette García González, emoldura as generalidades de um desenvolvimento econômico social a fins do século XVIII e durante o XIX, muito diferente do protagonizado pelo ocidente cubano. Este último, quase sempre é mais conhecido, pela transcendência econômica social que teve nessa região a plantação açucareira escravista e a liderança nacionalista da classe que a fomentou; foi analisado erroneamente como um esquema geral da “historia de Cuba” em alguns livros de texto que precedem à historiografia contemporânea (dos anos sessenta até hoje em dia).

Os estudos de caso de portos habilitados depois da implantação do livre comércio, durante o início do século XIX, suas cidades portuárias e regiões econômicas adjacentes, têm grande interesse para os leitores, porque pelo quadro local se associam a diversos temas históricos gerais revelando dados muito peculiares no modus operandi do regime colonial. Assim sucede no artigo que trata sobre “El puerto de Matanzas y el tráfico de esclavos (1793-1839)” (Parte I), da Lic. Martha Silvia Escalona Sánchez; ou os que estudam valores urbanísticos e arquitetônicos associados a novos assentamentos de população com vocação portuária, que aspiram simultaneamente seguir o paradigma da modernidade: “Sagua la Grande, puerto naciente” do Lic. Carlos Venegas Fornias (Parte II); “El puerto de Santiago de Cuba a fines del siglo XIX: la utopía de la modernización” da Dra. María Teresa Fleitas Monnar, onde se resumem a inconformidade do obtido frente às aspirações de uma camada social da burguesia santiaguera que se destaca por sua cultura urbana. A influência das novas imigrações peninsulares é o centro do estudo nomeado “Emigrantes asturianos en Cienfuegos: comercio, arquitectura y modernidad” do Lic. Alejandro García, descobre uma nova faceta ou aresta da identidade daquela formosa cidade da região central de Cuba, fundada principalmente por imigrantes franceses. Os dois trabalhos que acabo de mencionar podem ser encontrados na Parte III.

“Puerto Príncipe: comercio marítimo y identidad cultural” do Lic. Marcos Antonio Tamames Henderson, confirma que as raízes do subdesenvolvimento brotaram nas cidades interiores ou mediterrâneas, intimamente relacionadas com a ausência do comercio marítimo legal, afetadas pelas limitações, carências e pelos altos preços que emanavam do contrabando de mercadorias de toda índole através de portos e cais próximos, estimulando seus incrementos pela permanente perseguição da Armada contra os que cometiam tais delitos.

As marcas histórico-sociais que constituem a identidade de segmentos de populações pobres, estabelecidos ao redor de portos com grande movimento comercial açucareiro escravista, como é o caso de Havana, Matanzas e Cárdenas, no século XIX, se refletem nas análises da MC. Ohilda Hevia Lanier sobre o mutualismo e suas contradições raciais, neste trabalho se destacam as evidências de uma contracultura negra: “La sociedad secreta Abakuá: una organización del entorno portuario de La Habana y Matanzas en el siglo XIX”. Enquanto que, “Delincuencia y marginalidad en torno al puerto habanero a fines del siglo XIX” da Dra. Yolanda Díaz Martínez, descreve os procedimentos da corrupção administrativa na sociedade colonial branca.

Através do feminismo a doutora Raquel Vinant Mata leva a cabo um olhar à vida portuária que documenta em “Los puertos de Cuba y la actividad laboral femenina”. A exploração da mão de obra feminina mediante a produção domiciliar alimentou um comércio ilegal vinculado a artigos de vestir, enxovais e outras atividades ao redor das confecções têxteis. A saída destes produtos, via do contrabando, foi o porto de Santiago de Cuba para outros países antilhanos, e tal atividade transcorreu desde fins do XIX até as primeiras décadas do século XX. Um esboço para o estudo do aceso à Ilha e sua cultura de novas religiões, de origem distinta ao metropolitano, foi através de certos portos cubanos, segundo propõe “Protestantes en puertos cubanos”, da MC. Yoana Hernández Suárez; todos os trabalhos mencionados aparecem na Parte IV.

Especialmente notável na etapa neocolonial da República de Cuba (1902- 1958), foi a evolução da instituição Marinha de Guerra e suas relações de subordinação aos corpos militares dos Estados Unidos da América. Sobre os momentos de trascendência histórica na conformação de tais vínculos de dominação, antes e durante a II Guerra Mundial e com posterioridade a esta, tratam os artigos da Parte VI: “Bahías y puertos cubanos en la geoestrategia norteamericana (1939-1945)” do Dr. Servando Valdés Sánchez e “Particularidades de una institución al servicio de las comunicaciones marítimas” de Marilú Uralde Cancio.

Ponho ponto final a estes comentários incompletos -porque é impossível referir-me a cada um dos vinte e cinco trabalhos por igual num espaço limitado, que me compreendam e desculpem todos os autores e organizadores-, quando expresso com sinceridade o acerto da Parte V, onde confluem vários trabalhos que se projetam em direção aos vindouros anos do século XXI com um enfoque ambientalista sobre os portos de Cuba. Isto é, de certa maneira, inovador e muito positivo.

De novo a baía e o porto de Havana centram a atenção, agora a do Grupo de Trabalho Estatal Baía de Havana. Seus projetos de recuperação, conservação e reutilização – em certas funções novas - deste centro marítimo de nossa capital, servirão de pauta para o resto do país (como já ocorreu em 1861, com as Ordens de construção de Havana). Dos quatro artigos assinados pelos especialistas Lic. Angel Valdés Mujica, a MC. Marilín Fernández Pérez, outro de um coletivo de autores sobre um sistema de informação geográfica na Baía de Havana, há um muito interessante, que já foi reconhecido em outra publicação excelente (El Pelícano da Bahía de La Habana, ano 2, agosto de 2005, p. 8-15): “Perímetro de la Bahía de La Habana: reflexiones sobre una evolución. Conformación y imagen de un territorio”, do arquiteto Yasser Farrés Delgado.

Parabéns para todos, os organizadores e autores!

notas

1
As populações aruacas que haviam descoberto e habitavam a Ilha não realizavam a função comercial que caracteriza essencialmente aos portos, empregavam as baías, enseadas, e outros lugares costeiros, como acessos, ou parte dos caminhos marítimos que uniam às Antilhas com as terras continentais. Também como fonte dos produtos que necessitavam para apoiar uma economia de subsistência.

2
O Vedado é o nome de uma nova urbanização em Havana da segunda metade do século XIX, que derivou do apelativo empregado para a zona da costa (vedado) à oeste da cidade amuralhada.

3
Diccionario de la Literatura Cubana, Instituto de Literatura e Lingüística da Academia de Ciências de Cuba, 1980, Editorial Letras Cubanas, Havana, Tomo I, A-LL, p. 396-397.

4
O condado de Güell, foi comprado com a fortuna de origem cubana unida por dom Antonio López López (1817-1883), primeiro marquês de Comillas, quem também respaldou economicamente a obra artística de Antonio Gaudí.

sobre o autor

Lohania Aruca Alonso é membro da UNEAC, Vice-presidente da Seção de História da Associação de Escritores e membro da UNAICC

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