Revitalização, reabilitação, revalorização, requalificação, reforma, não importa o nome que é dado ao processo que reúne capitais internacionais que se “especializaram” em uma certa arquitetura, associada a um certo urbanismo do espetáculo, superdimensionado, de máxima visibilidade, utilizando como álibi megaeventos esportivos, artísticos, tecnológicos ou culturais. Otília Arantes assim descreve esse fenômeno: “vive-se à espreita de ocasiões... para fazer negócios! Sendo que o que está a venda é um produto inédito, a própria cidade”.
Frequentemente as mesmas instituições financeiras, as mesmas mega-construtoras e incorporadoras, os mesmos arquitetos do star system, promovem um arrastão empresarial para garantir certas características a um pedaço da cidade, convertendo-o, no mais das vezes, a um parque temático. Endividamento, especulação imobiliária e gentrificação são marcas que acompanham essas transformações onerosas, embora venham comumente acompanhadas de promessas de incontáveis virtudes.

Museu de Arte Contemporânea de Barcelona. Arquiteto Richard Meyer
Foto Abilio Guerra
O planejamento urbano foi transformado no seu avesso pelas chamadas máquinas de crescimento urbano, e, ao invés de resolver os problemas das cidades, empenha-se em facilitar a construção de projetos faraônicos, verdadeiros “elefantes brancos”, que constituirão pesada herança destinada a ser, no futuro, apenas um fardo. Esse planejamento, por isto mesmo chamado “estratégico”, nasceu sob a marca das parcerias público-privadas e sobre as ruínas do Estado Providência.
Otília, autora reconhecida no manejo hábil da palavra escrita, de texto elegante e erudição inquestionável, analisa aqui os casos de Barcelona e Berlim. No entanto os leitores poderão perceber na descrição dessas intervenções urbanas, guardadas as especificidades, alguma premonição a respeito do que pode vir a ocorrer nas cidades do Brasil, por ocasião da Copa do Mundo de Futebol de 2014, ou das Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro.

Novo edifício na Potsdamer Platz, Berlim
Foto Betânia Cavalcanti
nota
NE
O presente texto foi publicado originalmente na “orelha” do livro de Otília Arantes.
sobre a autora
Erminia Maricato é arquiteta, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, foi coordenadora do programa de pós-graduação (1998-2002), secretária de Habitação de São Paulo (1989-1992) e secretária-executiva do Ministério das Cidades (2003-2005).