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português
A partir do filme Cabra Marcado para Morrer (1984), de Eduardo Coutinho, é feita uma análise que relaciona as dinâmicas do estado liberal, diante das ideias de John Locke, com a realidade do brasileiro marginalizado em dois momentos distintos da história.

english
From the movie “Cabra Marcado para Morrer” (1984), is drawn an analysis that presents a relation between liberal state dynamics, following John Locke’s ideas, with the reality of marginalized brazilians in two different moments of the country's history.

español
A partir de la película Cabra Marcado para Morrer (Eduardo Coutinho, 1984), se hace un análisis que relaciona la dinámica del Estado liberal, frente a las ideas de Locke, con la realidad del brasileño marginado en dos momentos distintos de la historia.

how to quote

MADRUGA, Gabriel de Oliveira; TENÓRIO NETO, Geraldo Padilha. Entre a sentença e a luta. Marginalização democrática e construção do mito liberal no documentário de Eduardo Coutinho. Resenhas Online, São Paulo, ano 20, n. 230.02, Vitruvius, fev. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/20.230/8022>.


“Era um país subdesenvolvido, subdesenvolvido, subdesenvolvido...” (1), harmoniza em euforia o Centro Popular de Cultura – CPC nos primeiros minutos de Cabra marcado para morrer (2). Mediante a retomada da filmagem original do seu filme em 1984 e a afirmação austera e sarcástica contida na música, o cineasta Eduardo Coutinho examina a realidade sociopolítica contida em dois momentos cruciais da história do Brasil: o pré e o pós-ditadura.

A obra, que começou a ser rodada em 1962, retrataria a vida e morte do paraibano João Pedro Teixeira, fundador da “Associação dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas de Sapé”, a maior liga camponesa do Brasil naquela época (3). Com o Golpe Militar de 1964, as filmagens foram encerradas e só regressaram dezessete anos mais tarde (4). Dessa forma, o que surge para homenagear uma das principais faces da luta revolucionária torna-se um retrato fiel da sensação de incerteza de futuro vivida no período posterior ao regime ditatorial. Essa ideia é desenvolvida através dos relatos desesperançosos dos habitantes do Engenho Galileia, Pernambuco, que funciona como a principal locação do longa-metragem.

Coutinho decide abrir seu documentário com imagens filmadas antes da ditadura que contrastam símbolos do desenvolvimentismo industrial e da miséria popular característicos do desenvolvimentismo da época. Mais tarde, ao decorrer das entrevistas, que ocorreram após o fim do regime militar, o cineasta deixa claro que muitas das pautas levantadas nos anos 1960 ainda estavam à espera das promessas da democratização:

“A luta é que não para. A mesma necessidade de 64 está plantada [...] na fisionomia do operário, do homem do campo e do estudante. [...] Enquanto se diz que tem fome e salário de miséria, o povo tem que lutar. [...] Quem tem condições, quem tem sua boa vida que fique aí. Eu, como venho sofrendo, eu tenho que lutar e tenho peito de dizer: é preciso mudar o regime, é preciso que o povo lute. Enquanto tiver esse regimezinho, essa democraciazinha aí... democracia sem liberdade, democracia com salário de miséria, de fome, democracia sem o filho do operário e do camponês ter direito de estudar, ah... não pode, ninguém pode” (5).

Fotograma de “Cabra Marcado para Morrer” (1984), documentário de Eduardo Coutinho
Foto divulgação

Através do discurso de Elizabeth Teixeira, viúva de João Pedro, é plausível configurar o liberalismo como o grande inimigo do povo marginalizado. Responsável por postular ideias acerca do estado de natureza humano, John Locke contribui para disseminar a ideia de que o homem é, por essência, dotado de três direitos naturais inalienáveis: liberdade, igualdade e propriedade privada (6). Certamente, a mesma ideologia defensora da igualdade e independência dos indivíduos é responsável por solidificar os empecilhos enfrentados pelos personagens, principalmente no que diz respeito à legitimação da propriedade privada enquanto uma posse fundamental, que marca o Artigo 5° da Constituição de 1988:

“Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade” (7).

Porém, refletindo acerca do contexto brasileiro, é necessário compreender que o que está por trás do liberalismo e das suas ideias é uma nação que já foi erguida através de títulos artificiais de posse de terra baseados em usurpação, rentismo, exploração do meio-ambiente e, principalmente, exploração da força de trabalho precarizada (8). Dessa forma, configura-se como um processo que sustenta alicerces de enriquecimento bastante financeirizados até os dias atuais.

Além disso, de acordo com a ideia de contrato social lockeana, a formação e desenvolvimento de uma democracia com bases liberais parte do princípio que o ser humano age naturalmente pela emoção, sendo necessário que renuncie parte do seu poder para que o Estado regule a justiça, amenize a violência e impeça a invasão à propriedade privada. Nesse sentido, o documentário explicita como ocorre a dinâmica entre o liberalismo e suas ferramentas de regulação de ordem, como a própria força policial, que se mostra mais preocupada em defender a propriedade do que em garantir o bem-estar do povo. Não é à toa que, quando a gravação é interrompida em 1964, muitos dos jornais de grande circulação da época, também mostrados pelo documentário, relatam a ação dos militares como apreensão de “material de subversão” e chegam até a afirmar que o filme “ensinava que os camponeses deveriam agir de sangue frio […] quando fosse preciso dizimar o inimigo” (9).

Em certo momento do filme, Coutinho questiona, quase como se o alvo fosse o espectador: “você tinha esperança que a gente voltasse para completar o filme, ou não?”, e a resposta vem de um dos moradores da antiga Galileia, que diz que sempre teve essa esperança. Afinal, Cabra marcado para morrer (1984) é, além de tudo, um filme sobre esperança que nasce para inspirar quem almeja lutar e encerra como um ensaio para uma nova luta. Ao fim da ditadura, pouco se sabia sobre o futuro do país, entretanto, para os homens e mulheres que Coutinho escolhe como centro de seu documentário, estava claro que ainda era necessário dizer: “é preciso que o povo lute”.

Fotograma de “Cabra Marcado para Morrer” (1984), documentário de Eduardo Coutinho
Foto divulgação

notas

1
Canção do subdesenvolvido. Intérprete: Conjunto do CPC da UNE. Compositores: Carlos Lyra e Chico de Assis. In: O POVO Canta. Rio de Janeiro, Som Indústria e Comércio S.A., 1962. Faixa 1 (8 min).

2
Cabra Marcado para Morrer, Brasil, 1984, 1h59min. Direção e roteiro de Eduardo Coutinho. Com Eduardo Coutinho, Elizabeth Teixeira e família, João Virgínio da Silva e os habitantes de Galileia (PE).

3
GONÇALVES, Paulo. Memórias da luta camponesa: Elizabeth Teixeira. A Nova Democracia, n, 10, Rio de Janeiro, jun. 2003, p. 10.

4
Originalmente contada para ser a história de um líder camponês paraibano que foi assassinado em 1962, a obra foi interrompida devido ao início da Ditadura Militar e só foi retomada vinte anos depois. Acompanha o desenrolar da vida dos personagens reais no Engenho da Galileia e a perspectiva perdida após a redemocratização do país.

5
Discurso da viúva Elizabeth Teixeira durante uma cena de Cabra Marcado Para Morrer (1984).

6
LOCKE, John (1689). Segundo tratado sobre o governo civil e outros escritos: Ensaio sobre a origem, os limites e os fins verdadeiros do governo civil. 3a edição. Petrópolis, Vozes, 2001, p. 83-90.

7
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de outubro de 1988. 4a edição. São Paulo, Saraiva, 1990. Versão eletrônica: BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de outubro de 1988. Brasília, Presidência da República Casa Civil / Subchefia para Assuntos Jurídicos, 2021 <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>.

8
MACHADO, Marina Monteiro. A trajetória da destruição: Índios e terras no Império do Brasil. Orientadora Márcia Maria Menendes Motta. Dissertação de mestrado. Niterói, Universidade Federal Fluminense, 2006, p. 115.

9
Na montagem final do filme, aparece um pequeno recorte de jornal: “Foi talvez em Galileia que o exército apreendeu materiais valiosos do maior foco de subversão comunista no interior de Pernambuco, abandonado pelos lideres vermelhos ao lado de mulheres e crianças. Num casebre característico de camponês, foi encontrado farto material que acionava o dispositivo de subversão ali montado pelos esquerdistas internacionais, sob a proteção do governo estadual, recentemente deposto. Nesse casebre estava instalado um poderoso gerador, destinado a fazer funcionar custosa máquina de projeção cinematográfica. O filme, entre os inúmeros encontrados, estava sendo levado na semana do golpe, era ‘Marcados para morrer’. A película ensinava como os camponeses deveriam agir de sangue frio, sem remorso ou sentimento de culpa, quando fosse preciso dizimar pelo fuzilamento, decapitação ou outras formas de eliminação, os reacionários presos em campanha e levados a Galileia, interior do Estado”. Ver: DOREA, Joana De Conti. Cabra marcado para morrer, de Eduardo Coutinho: histórias, olhares e leituras sobre um documentário brasileiro. Orientadora Sônia Weidner Maluf. Trabalho de Conclusão de Curso. Florianópolis, Ciências Sociais UFSC, 2006, p. 69.

sobre os autores

Gabriel de Oliveira Madruga é estudante da graduação em Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal da Paraíba.

Geraldo Padilha Tenório Neto é estudante da graduação em Medicina na Faculdade Pernambucana de Saúde.

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