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drops ISSN 2175-6716

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Em O homem do Rio, filme de 1964 dirigido por Philippe de Broca, o ator francês Jean-Paul Belmondo protagoniza inesquecível sequência de perseguição pelo Plano Piloto de Brasília, cena lembrada pelo texto de Abilio Guerra.

como citar

GUERRA, Abilio. Quando Jean-Paul Belmondo andou de bicicleta pelo Plano Piloto de Brasília. Drops, São Paulo, ano 18, n. 124.05, Vitruvius, jan. 2018 <http://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.124/6838>.



Quando adolescente, me interessei pela sétima arte e na época o cinema francês era parte importante da cena cinematográfica, com muitos diretores e atores de renome internacional. Dentre os atores homens, dois se destacavam: Alain Delon, o “lindo”, Jean-Paul Belmondo, o “macho alfa”, ambos amados pelas mulheres e detestados (invejados) pelos homens. Apesar das diferenças nos dotes físicos, Belmondo e Delon, além de ídolos do cinema, têm algumas coisas em comum – quase a mesma idade (84 e 82 anos, respectivamente), nascidos em cidades do interior da França (Neuilly-sur-Seine, em 9 de abril de 1933; Sceaux, em 8 de novembro de 1935), com altura mediana (1,76m e 1,77m).

Eu gostava de ambos, pois eram soberanos quando entravam em cena, mesmo considerando o número expressivo de filmes horríveis que participaram. Mas os filmes de primeira linha são igualmente significativos – trabalharam com Jean-Luc Godard, Claude Chabrol, Louis Malle, Claude Lelouch, Alain Resnais, René Clément, Luchino Visconti e outros grandes diretores – e garantem aos dois uma posição relevante na história do cinema.

Alain Delon é o personagem principal de Nouvelle vague, filme de 1990, marco na carreira de Godard, mas sua participação de minha predileção foi a atuação na película Roco e seus irmãos, magistral realização de 1960 dirigida por Luchino Visconti, onde Delon protagoniza o primogênito de uma família de mãe e cinco filhos, que migram do sul rural para Milão, cidade industrial no norte da Itália. Rocco, faxineiro, pessoa de uma bondade genuína e radical, se envolve com o boxe para livrar a família da miséria. Cinema em grande dia, emotivo, denso, humano.

Jean-Paul Belmondo também ganhou um presente de Jean-Luc Godard, o “enfant terrible de la Nouvelle Vague” francesa, e tem atuação soberba em O acossado (“À bout de souffle”, 1959). Mas sua participação mais marcante para mim – creio que por motivos óbvios – vai ser em O homem do Rio (“L'Homme de Rio”), de 1964, dirigido por Philippe de Broca, bem sucedido diretor especializado em filmes de ação, comédia e históricos (é dele O magnífico, de 1973, também com Belmondo, filme ao mesmo tempo descartável e encantador).

O homem do Rio não fica atrás em termos de descarte e encanto. Sua ruindade pode ser imaginada com a sinopse que encontrei na Wikipedia: “O piloto Adrien Dufourquet consegue uma semana de folga e planeja encontrar-se com a namorada Agnès em Paris. Ao chegar, depara-se com um bando de índios sul-americanos que raptam a moça. Eles pensam que a jovem sabe onde estão as estátuas que os levariam a um fabuloso tesouro. Adrien segue os bandidos até a Selva Amazônica e vive uma série de perigos ao tentar resgatar Agnès. Conseguirá o par reunir-se antes que a folga expire?”.

Mistura de Tim Tim com Indiana Jones, Adrien Dufourquet é um personagem caricato, galante em seus trajes impecáveis, mas fiel à sua amada, escapando do estereótipo mulherengo de James Bond. A cena que justifica minha predileção por esse filme de segunda é a insólita perseguição pelo Plano Piloto de Brasília praticamente deserto, com Belmondo fugindo a pé de dois perseguidores dirigindo automóvel norte-americano que me escapa a marca. Ele passa pela plataforma rodoviária, por entre os pilotis do Palácio do Planalto e chega a um edifício ainda em construção.

A cena de perseguição no interior do esqueleto do edifício em obras (totalmente desabitado, parece abandonado...) é eletrizante e, ao mesmo tempo, mambembe, como atesta o desenlace, do qual silencio para não cometer um spoiler excessivo. Após a perseguição, um achado inesquecível do roteiro: Belmondo encontra uma bicicleta abandonada e começa a pedalar pelos caminhos ainda não pavimentados da nova capital. O filme foi rodado em 1964 e a cidade continua em obras, com muito terrão vermelho e poeira em suspensão.

A sequência, disponível no Youtube, pode ser vista a seguir. Vale a pena, pois a sequência é imperdível!


Sequência do filme O homem do Rio, de Philippe de Broca

nota

1
O homem do Rio (“L'Homme de Rio”), direção de Philippe de Broca, coprodução franco/italiana, 1964, 1h 52min. Com Jean-Paul Belmondo, Françoise Dorléac, Adolfo Celi, Daniel Cessaldi, Jean Servais.

sobre o autor

Abilio Guerra é professor de graduação e pós-graduação da FAU Mackenzie e editor, com Silvana Romano Santos, do portal Vitruvius e da Romano Guerra Editora.

 

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