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No dia internacional da mulher, Ana Laterza e Júlio Moreno apresentam o balanço da participação profissional e institucional da arquiteta em estudo do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil.

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LATERZA, Ana; MORENO, Júlio. Visão completa sobre a presença da mulher na arquitetura e urbanismo. Resenhas Online, São Paulo, ano 18, n. 207.04, Vitruvius, mar. 2019 <http://vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/18.207/7288>.


Cresce a participação feminina no setor, mas mulheres ainda têm baixa representatividade nas entidades do setor

O Brasil possui atualmente 167.060 arquitetos e urbanistas ativos e registrados no CAU. A maioria, 63,10% (105.420) são mulheres, enquanto 36,90% (61.640) são homens. Em 2018, os percentuais eram respectivamente de 62% e 38%. Essa predominância tende a aumentar nos próximos anos, uma vez que a parcela de mulheres entre estudantes é bem maior: 67%. No entanto, as mulheres têm baixa representatividade nas entidades profissionais, como mostra – entre outros aspectos – diagnóstico setorial inédito produzido pelo CAU/BR.

Na faixa etária até 25 anos, as profissionais representam 79% do total de arquitetos e urbanistas. Ou seja, mais de três em cada quatro. Entre 26 e 30 anos, o percentual é de 72%. A maioria se mantém até a faixa dos 60 anos, acima da qual os homens assumem o posto com 60%. As mulheres têm entrado cada vez mais no mercado de trabalho, tendo um papel e um espaço crescentes na profissão. Veja detalhes nas pirâmides etárias abaixo, respectivamente, em quantidade e em percentual.

Idade das arquitetas e urbanistas (nº)
Imagem divulgação [Siccau]

Profissionais por sexo nos Estados (nº)
Imagem divulgação [CAU/BR]

Quantidade e percentuais por Estado

Na distribuição por Estados, São Paulo naturalmente, por ter o maior contingente de profissionais (53.541), possui o maior número de arquitetas e urbanistas: 33.057, em contraposição a 20.484 homens. Em termos percentuais, 11 Estados estão acima da média nacional de arquitetas e urbanistas: RN, AL, ES, MG, PE, GO, PB, SC, MT, PR e RS. O DF e o PA empatam. As mulheres são minoria apenas nos Estados do AC e do AP, onde representam percentuais de 47% e 45% respectivamente.

Profissionais por sexo nos Estados (%)
Imagem divulgação [Siccau]

Atividade profissional (RRT)
Imagem divulgação [Siccau]

Diagnóstico inédito

No contexto do compromisso com a equidade de gênero na profissão, assumido perante a ONU (1), o CAU/BR marca o Dia Internacional da Mulher de 2019 com o levantamento e a divulgação de um diagnóstico inédito que permite conhecer em detalhes a realidade da presença feminina no setor. Além do Sistema de Informação e Comunicação do CAU – Siccau, outras fontes utilizadas foram dados da Secretaria Geral da Mesa do CAU/BR, que coordena o trabalho das Comissões; da Comissão de Organização e Administração; da Assessoria de Comunicação Integrada do CAU/BR, inclusive os Anuários de Arquitetura e Urbanismo do Brasil; e do Censo da Educação Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – Inep.

Como reflexo da maior presença feminina no mercado de trabalho do setor, as arquitetas e urbanistas são também a maioria entre os profissionais que mais emitiram RRTs (Registros de Responsabilidade Técnica), nos montantes de até 50 registros. Esse número, contudo, deixa de ser superior na faixa de maior consolidação profissional (com a emissão de mais de 50 RRTs), correspondendo a somente 47%, proporção idêntica à de responsáveis técnicas mulheres nas empresas com registro no CAU.

Atividades realizadas por arquitetas e urbanistas
Imagem divulgação [Siccau]

Conforme os Registros de Responsabilidade Técnica (RRT’s) elaborados pelas mulheres com registro no CAU, a principal área de atuação feminina é relacionada ao projeto, que corresponde a mais da metade do total de registros. Em seguida, vem as atividades especiais em Arquitetura e Urbanismo (assessoria, consultoria, assistência técnica, vistoria, perícia, avaliação, laudo técnico, parecer técnico, auditoria, arbitragem e mensuração). As áreas historicamente mais relacionadas ao universo masculino, como execução, engenharia de segurança do trabalho e gestão, representam juntas apenas 11% dos registros consultados.

Percentuais de representatividade feminina
Imagem divulgação [Siccau, SGM e ACI]

Outra das constatações do diagnóstico é que nos concursos públicos de Arquitetura e Urbanismo 17% dos prêmios foram concedidos a equipes lideradas por mulheres, número relativamente alto, considerando que os papeis de coordenação são majoritariamente masculinos neste universo. No concurso público de projeto para a Sede do CAU/BR e IAB/DF, por exemplo, apenas 16% das equipes concorrentes foram coordenadas por mulheres. O projeto vencedor é de autoria da arquiteta e urbanista Tais Cristina da Silva, única mulher dentre os sete premiados. Nas premiações nominais por atuação ou trajetória profissional meritória, no entanto, somente 15% dos profissionais homenageados foram mulheres.

Para, Marina Lima de Fontes, pesquisadora e arquiteta e urbanista brasiliense, “é impressionante descobrir que praticamente todos os “grandes arquitetos” ou “grandes homens” da história da arquitetura e do urbanismo tiveram esposas também arquitetas trabalhando ao seu lado, ou melhor, à sua sombra, no desenvolvimento de seus projetos. Quando não esposas, existem sócias ou co-autoras que não receberam qualquer crédito ou reconhecimento pelo trabalho desenvolvido” (2).

Em seu livro Heroínas del espacio – mujeres arquitectos en el movimeinto moderno (3), a arquiteta argentina Carmen Espegel lista diversas arquitetas atuantes e de produção expressiva no século 20, que foram invisibilizadas seja pelo seu companheiro de trabalho ou de vida (ou ambos), como Aino Marsio Aalto (Alvar Aalto); Alison Smithson (Peter Smithson); Carmen Portinho (Eduardo Affonso Reidy); Charlotte Perriand (Le Corbusier); Clara Porset (Luís Barrágan); Eileen Gray (Jean Badovici e Le Corbusier); Karola Bloch (Auguste Perret); Lilly Reich (Mies Van der Rohe); Margaret MacDonald (Charles Rennie Mackintosh); Marion Mahony Griffin (Frank Lloyd Wright); e Ray Eames (Charles Eames).

Não se trata apenas de mercado de trabalho. Os obstáculos para a representatividade feminina se encontram principalmente nas posições políticas e de destaque nas organizações do setor. A maioria dos dirigentes das entidades profissionais e premiados pela atuação profissional são homens, cenário que se reflete também no panorama internacional.

Percentuais de representatividade feminina
Imagem divulgação [Siccau, SGM e ACI]

No caso do CAU, nos Estados e DF o percentual de conselheiras eleitas em 2017 (gestão 2018-2020) é de 41%, número superior ao percentual global desde a criação do Conselho, que corresponde a 34%. Certamente o estado de Santa Catarina contribuiu com esse crescimento, tendo tido uma chapa exclusivamente de mulheres nas últimas eleições (da atual presidente do CAU/SC, Daniela Sarmento), formada com o propósito de ampliar a representatividade feminina no Conselho.

Nas coordenações das Comissões estaduais, as titulares ocupam atualmente 31% dos postos e 22% das coordenações adjuntas, ambos inferiores às porcentagens totais, de 37 e 24% respectivamente.

Coordenação das comissões estaduais (2012-2019)
Imagem divulgação [SGM]

Coordenação das comissões federais (2012-2019)
Imagem divulgação [SGM]

Das 27 presidências de CAU/UFs, apenas 7 são ocupadas por mulheres, ou seja, 26%. Das 32 vice-presidências as mulheres ficaram com dez, o que corresponde a 31%. Considerando dados globais, as mulheres ocupam 21% das presidências estaduais e 24% das vice-presidências.

Com 6 representantes em um total de 28, as mulheres representam 21% das conselheiras federais titulares do CAU/BR igualmente eleitas para o mesmo período e 18% das suplentes (5). Dentre os coordenadores de comissões federais, 4 de 9 são mulheres (44%), percentual consideravelmente superior ao global (20%). Somente 2 dos adjuntos são mulheres (22%), número também maior que os 13% globais.

No Conselho Diretor, eleitas pelos pares do Plenário, elas são duas, representando 33% do grupo (no global apenas 17%). Em seus três mandatos, o CAU teve somente presidentes homens.

Considerando o histórico dos percentuais de representatividade política feminina no CAU/BR, assim como os dados globais (contando o universo de conselheiros estaduais e federais entre 2012 e 2019), nota-se que a presença das mulheres tem crescido, embora não linearmente, mas ainda representa um número consideravelmente inferior à sua real proporção no universo profissional.

Evolução dos percentuais por mandatos
Imagem divulgação [SGM e ACI]

O cenário atual nas posições de direção nacional das entidades do Colegiado das Entidades de Arquitetura e Urbanismo – CEAU é esse:

Participação das mulheres das entidades do Colegiado das Entidades de Arquitetura e Urbanismo – CEAU
Imagem divulgação [Entidades do CEAU]

A historiadora espanhola Beatriz Colomina, professora da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, escreveu muito sobre gênero e arquitetura. Segundo ela, a narrativa da arquitetura foi construída sobre ausências e a situação das arquitetas é uma das principais.

É dela a afirmação de que “as mulheres são os fantasmas da arquitetura moderna, sempre presentes, cruciais, mas estranhamente invisíveis”. A frase está no ensaio “With or Without you: Ghosts of Modern Architecture”, publicado em um catálogo de 2010 do Museu de Arte Moderna de Nova York sobre mulheres artistas e inspirou, no Brasil, o coletivo Arquitetas Invisíveis.

Para Beatriz Colomina, corrigir esse quadro “não é apenas uma questão de adicionar alguns nomes ou mesmo milhares à história da Arquitetura. Não é apenas uma questão de justiça humana ou precisão histórica, mas uma maneira de entender mais completamente a arquitetura e as formas complexas em que é produzida” (a declaração consta de entrevista dada pela historiadora em 2017 a Kiri Robyn McKenna, arquiteta da Nova Zelândia).

A questão não é circunscrita ao interior da profissão. Não por acaso, a UN Habitat dá ênfase às mulheres no planejamento urbano, “pois a cidade segura para as mulheres é segura para todos”. Palavras de sua diretora executiva, a urbanista malasiana Maimunah Mohd Sharif, ex-prefeita de Penang Island, na Malásia.

notas

NE – texto original: CAU/BR. Visão completa sobre a presença da mulher na arquitetura e urbanismo. Brasília, Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil, 7 mar. 2019 <https://bit.ly/2IVjHsn>.

1
CAU/BR. ONU aprova adesão do CAU/BR à Plataforma de Empoderamento das Mulheres. Brasília, Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil, 26 fev. 2019 <https://bit.ly/2BV5RjY>.

2
FONTES, Marina Lima de. Mulheres invisíveis: a produção feminina brasileira na arquitetura impressa no século XX por uma perspectiva feminista. Dissertação de mestrado. Orientadora Ana Elisabete de Almeida Medeiros. Brasília, Universidade de Brasília, 2016.

3
ESPEGEL, Carmen. Heroínas del espacio – mujeres arquitectos en el movimiento moderno. Buenos Aires, Biblioteca Nueva, 2007.

sobre os autores

Ana Laterza é arquiteta e urbanista, e analista da Secretaria Geral da Mesa do CAU/BR.

Júlio Moreno é jornalista e chefe da Assessoria de Comunicação Integrada do CAU/BR.

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