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Texto curatorial de Max Perlingeiro para a exposição “Estética de uma amizade – Alfredo Volpi (1896-1988) e Bruno Giorgi (1905-1993)”, que acontece na Pinakotheke Cultural, cidade do Rio de Janeiro, de 14 de junho a 27 de julho de 2019.

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PERLINGEIRO, Max. Alfredo Volpi e Bruno Giorgi. Pequena cronologia. Resenhas Online, São Paulo, ano 18, n. 210.02, Vitruvius, jun. 2019 <http://vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/18.210/7381>.


A amizade entre Alfredo Volpi (1896-1988) e Bruno Giorgi (1905-1993) iniciou-se em 1936, quando foram apresentados pelo escultor Joaquim Lopes Figueira Júnior (1904-1943), na chegada deste, em seu breve retorno ao Brasil. Juntos, frequentaram o Palacete Santa Helena – um ateliê livre onde artistas imigrantes, ou filhos de imigrantes, a maioria de origem italiana, dividiam despesas. Localizava-se em um antigo edifício da Praça da Sé, em São Paulo, demolido em 1971. Não obstante, pouco tempo depois, Bruno Giorgi retornou à Europa, matriculando-se no curso de Aristides Maiollol (1852-1944), passando a frequentar os ateliês livres das Academias Grand Chaumière e Ranson, convivendo nos então ambientes mais avançados em artes plásticas contemporâneas. Lá, permaneceu até 1939, quando voltou a São Paulo na companhia de sua primeira esposa, Giuliana Segre (1911-2009), e, ainda, de seu irmão Cesare Giorgi, estabelecendo-se em São Paulo.

Alfredo Volpi, Sem título, década de 1930, óleo sobre tela, assinado A Volpi no canto inferior direito
Foto Sergio Guerini

Giuliana Segre Giorgi é lembrada como ativista antifascista. Conheceu Bruno Giorgi na ilha de Ponza, na Toscana, onde seu pai tinha sido confinado por oposição ao fascismo. Casaram-se, provavelmente, em 1935. Em 1936, o casal foi para Marselha e, logo em seguida, para Paris, onde ficaram até 1939, quando se transferiram para o Brasil. Separaram-se, mas ela permaneceu no país até 1967. Ao voltar para Turim, entre 1967 e 1968, Giuliana começou a trabalhar como tradutora. Correspondia-se com sua amiga e compatriota Lina Bo Bardi, que sugeriu, a seu pedido, traduzir para o italiano obras de Mário de Andrade (1893-1945) (“Macunaíma” e as poesias), Machado de Assis (1839-1908), Jorge Amado (1912-2001) e Eça de Queiroz (1845-1900), entre outros.

Bruno Giorgi, Nu feminino, c.1939, bronze, assinado B Giorgi na base
Foto Jaime Acioli

Bruno Giorgi dedicou-se exclusivamente à escultura. Trouxera na bagagem a herança de Maillol, que marcaria sua produção artística por toda a década de 1940. Depois de anos de afastamento, reintegrou-se ao meio artístico e intelectual brasileiro, na companhia de Mário de Andrade, Lasar Segall (1889-1957) e Sérgio Milliet (1898-1966). Passou, então, a trabalhar em ateliê que dividia com Figueira Jr., recuperando, rapidamente, o contato com a cultura brasileira. Concomitantemente, reintegrou-se ao grupo de artistas do Santa Helena, quando praticou, inclusive, pintura, chegando a desenvolver desenhos de modelo vivo. Paulatinamente, foi reforçando sua amizade com Volpi. Integrou-se também ao grupo Família Artística Paulista e participou da última apresentação deste, quando do III Salão, realizado no Rio de Janeiro.

Bruno Giorgi, Anunciação, década de 1940, bronze patinado, assinado B. Giorgi na parte inferior direita
Foto Jaime Acioli

Em 1941, montou uma casa-ateliê na Praça Marechal Deodoro, já separado de Giuliana, sendo que tal local, pouco a pouco, tornou-se ponto de encontro dos artistas modernos de São Paulo. Entre os frequentadores, estavam Volpi, Aldo Bonadei (1906-1974), Francisco Rebolo (1902-1980) e Emiliano Di Cavalcanti (1897-1976). Neste período, Volpi e Bruno participaram juntos das mesmas exposições. Cabe destacar o I Salão de Artes da II Feira Nacional de Indústria, em Água Branca, São Paulo, organizado por Quirino da Silva (1897-1981). Bruno integrou o júri do XLVII Salão Nacional de Belas-artes e Volpi ganhou a medalha de prata. No concurso promovido pelo Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda, para então divulgar os monumentos de São Miguel e Embu, Volpi ganhou o primeiro prêmio, com júri formado por Mário de Andrade, Bruno Giorgi e Sérgio Milliet.

Já em 1943, Volpi casou-se com Benedita Maria da Conceição, carinhosamente apelidada por Volpi de “Judite”. Mudam-se para a Rua Gama Cerqueira, no bairro paulista do Cambuci. Giorgi e Milliet foram padrinhos de casamento do casal. A amizade entre Volpi e Bruno já adquiria contornos mais fortes, de ambiente familiar. Neste mesmo ano, o Volpi adquire sua propriedade em Mogi das Cruzes. Ainda em 1943, Bruno trabalha em sua primeira escultura ao ar livre, Monumento à juventude brasileira, em granito, encomendada para os jardins do Ministério da Educação e Saúde, atual Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro. Cumpre registrar que tal monumento foi concebido no porão da Biblioteca Nacional, onde Bruno Giorgi, Alfredo Ceschiatti (1918-1989) e José Pedrosa (1915- 2002) mantiveram um ateliê de escultura entre 1943 e 1945.

No que diz respeito à carreira do pintor, em abril de 1944, Volpi ganha sua primeira individual, realizada na Galeria Ita, na Rua Barão de Itapetininga, em São Paulo, cujas despesas de aluguel ficam a cargo de Carlo Tamagni (1900-1966) e Bruno Giorgi. Todas as obras foram vendidas. Mário de Andrade adquiriu uma de suas marinhas, hoje no acervo do Instituto de Estudos Brasileiros – IEB-SP. Segundo Sérgio Milliet, foi a primeira exposição de arte moderna a vender todas as obras. O texto de apresentação do catálogo é do físico Mário Schenberg (1914-1990).

Alfredo Volpi, Sem título, década de 1940, carvão sobre papel, assinado A Volpi no canto inferior direito
Foto Sergio Guerini

Neste mesmo ano, Volpi é representado na primeira coletiva de arte brasileira na Inglaterra, uma iniciativa em prol da causa aliada era lançada em Londres. Tratou-se de uma exposição de 168 pinturas, de autoria de setenta artistas contemporâneos brasileiros – nomes como Candido Portinari (1903-1962), Tarsila do Amaral (1886-1973), Alberto da Veiga Guignard (1896-1962), Cícero Dias (1907-2003), Roberto Burle Marx (1909-1994), José Pancetti (1902-1958), Lasar Segall (1889-1957) e Volpi – cujo objetivo era reverter o produto das vendas para a Força Aérea Real (RAF). A mostra foi montada na Royal Academy of Arts, em Londres, e circulou por outras cinco cidades do Reino Unido, cujo prefácio do catálogo foi de Rubem Navarra. Recentemente, remontou-se esta exposição histórica em Londres, sob os auspícios da Embaixada do Brasil no local e de uma publicação – The Art of Diplomacy: Brazilian Modernism painted for war foi editada para a ocasião, com ampla pesquisa documental.

Praticamente uma década havia transcorrido, desde que foram apresentados. A amizade já estava consolidada. Como se depreenderá da cronologia a seguir, as carreiras seguiram absolutamente próximas, ora paralelas, ora entrelaçadas de fato.

Alfredo Volpi, Sem título, década de 1940, carvão sobre papel, assinado A Volpi no canto inferior direito
Foto Jaime Acioli

Voltando o olhar para a carreira do escultor, em 1945, Bruno passa a viver com Isa Guttman. Em 1946, atendendo ao convite do ministro Gustavo Capanema, instala ateliê na Praia Vermelha (onde hoje é o hospital Pinel), no Rio de Janeiro, onde dá aulas para Francisco Stockinger (1919-2009), entre outros. Já Volpi expõe individualmente na Galeria Domus, também nessa cidade. No respectivo catálogo, o texto crítico fica a cargo de Mário Schenberg.

Em 1947, Volpi e Bruno participam juntos de exposição itinerante por várias cidades do interior de São Paulo, com 97 obras de artistas modernos, como: Di Cavalcanti, Guignard, Tarsila do Amaral, Lasar Segall, Mario Zanini (1907-1971) e Bonadei, entre outros. Em 1948, Bruno faz sua primeira exposição individual, com texto de apresentação de Jorge de Lima (1895-1953). Em 1950, volta a viver em São Paulo, já considerado um dos maiores escultores brasileiros. O Museu de Arte Moderna de São Paulo realiza, então, sua primeira retrospectiva.

Alfredo Volpi, Sem título, 1949, óleo sobre tela, assinado A Volpi no canto inferior direito
Foto Sergio Guerini

Em 1950, Volpi e Giorgi participam da 25aBienal de Veneza. Volpi viaja à Europa por seis meses, na companhia de Mario Zanini e Paulo Rossi Osir (1890-1959). Visita as cidades de Paris, Veneza, Pádua, Roma, Nápoles e Sicília. Quando de seu retorno a São Paulo, narrava, com alegria, que havia voltado cerca de doze vezes à Cappella degli Scrovegni para admirar os afrescos de Giotto, encantado com sua capacidade de humanizar as figuras dos santos, ali representados em meio ao povo. Já com relação a Cimabue, Volpi dizia ter aprendido a representar corpos entrelaçados – fascinou-se com as virgens com o menino abraçado em seu tronco, magistralmente pintadas pelo pré-renascentista.

A partir dessa experiência, Volpi passa a se interessar pela vida dos santos católicos, representando-os, ao longo de toda a década de 1950, em suas composições. Fez diversas versões de São Francisco, uma delas para Jorge Amado e Zélia Gattai. São Benedito (rodeado por bandeirinhas), Santa Bárbara e Santa Rita também foram retratados, em linguagem já puramente volpiana, além de pintar várias versões de Madonna com bambino. Desse longo período, que durou por toda a década, cumpre, porém, destacar uma imagem em especial: Santa Maria Egipcíaca.

Alfredo Volpi, Santa Maria Egipcíaca, c.1961-1963
Foto Jaime Acioli

Em 1951, Volpi e Bruno participam juntos da I Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Volpi tem uma obra adquirida por Theon Spanudis, enquanto Bruno ganha o prêmio pela escultura “Fiandeira”, em madeira. Em 1952, mais uma vez juntos, expõem na 26aBienal de Veneza. Volpi ganha o Prêmio de Aquisição, hoje no acervo da Galleria Internazionale d’Arte Moderna di Ca’Pesaro. Neste mesmo ano, participam juntos da exposição “Artistas Brasileiros”, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

Em 1953, Volpi recebe o Prêmio Melhor Pintura Nacional na 2aBienal de São Paulo, ex aequo com Di Cavalcanti. Nessa mesma edição, seguindo as comemorações do 4o Centenário de São Paulo, leva o Prêmio de Aquisição Unesco. Bruno Giorgi, por sua vez, é escolhido o melhor escultor nacional. Suas obras também são expostas no 4o Salão Baiano de Belas-Artes, em Salvador.

Em 1954, Volpi participa da 27aBienal de Veneza e da coletiva “Exposição Brasileira”, na Galleria Nazionale d’Arte Moderna, em Roma. Enquanto isso, neste mesmo ano, Bruno vai à Itália para executar “Monumento a Dante Alighieri”, encomendado pelo Instituto Cultural Ítalo-brasileiro de São Paulo para a Praça Dom José Gaspar – escultura que mede 6 metros de altura e pesa cinco toneladas, feita em um só bloco de mármore travertino.

Em 1955, Volpi expõe na 3aBienal de São Paulo. Entre as obras expostas, a tela Catavento desperta uma aproximação à poética dos concretistas locais. Realiza sua terceira individual, na Galeria Tenreiro, em São Paulo, e, em seguida, expõe na Petite Galerie, no Rio de Janeiro. Integra, ainda, uma coletiva no Carnegie Institute, em Pittsburgh. Neste mesmo ano, Bruno recebe o Prêmio Aquisição no IV Salão Paulista de Arte Moderna; e Volpi, o Prêmio Governador do Estado.

Em 1956, Bruno retorna à casa-ateliê, no Rio de Janeiro. Casa-se com Mira de Casrilevitz Engelhardt, médica e grande admiradora de música instrumental. A terceira esposa de Bruno é magistralmente retratada por Volpi.

Em 1957, juntos novamente, participam da 4aBienal de São Paulo. Neste mesmo ano, Bruno integra a Exposição de Arte Brasileira Contemporânea no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), que vai para Lima e Buenos Aires. No MAM-SP, Volpi, por sua vez, faz sua primeira retrospectiva, organizada por Mário Pedrosa. O crítico reconhece Volpi como “o primeiro pintor moderno”.

Entre 1957 e 1958, o ateliê de Volpi passa a ser frequentado por poetas e pintores do grupo concretista paulista. Especificamente em 1958, ganha o Prêmio Nacional Guggenheim para o Brasil. A obra premiada segue para Nova York, ao lado de obras de Lygia Clark (1920-1988), Djanira (1914-1979), Milton Dacosta (1915-1988) e Paolo Rissone (1925) para concorrer ao prêmio internacional. Realiza afrescos na Capela Nossa Senhora de Fátima dos Pioneiros Sociais (conhecida como a primeira igrejinha do Plano Piloto de Brasília). Tais pinturas foram destruídas nos anos 1960 (hoje, no lugar dos afrescos originais, há uma obra de Francisco Galeno).

Alfredo Volpi, Sem título, Retrato de Gilda Vieira, início da década de 1960, têmpera sobre tela, assinada A Volpi no canto inferior direito e no verso
Foto Sergio Guerini

A cúria metropolitana, anos mais tarde, procurou Volpi, pedindo-lhe que repintasse os afrescos. Volpi recusou-se. Pediram-lhe, então, que autorizasse terceiros a executá-los com base em seus estudos sobre cartão. Volpi tampouco permitiu. Assim, passa longa temporada na residência de Bruno, onde externa sua tristeza com os acontecimentos. Em tal período, desenha e orienta a confecção de tapeçaria para ornamentar a casa do amigo escultor.

Ainda em 1958, Volpi e Bruno têm obras exibidas lado a lado na Exposição Coletiva de Artistas Brasileiros na Europa (Amsterdã, Mônaco, Baviera, Paris e Lisboa).

Em 1959, Volpi é convidado para ser membro do júri de seleção da 5aBienal de São Paulo.

Bruno Giorgi, Santa Maria Egipcíaca, década de 1960, caneta hidrográfica sobre papel, 32 x 21cm
Foto Jaime Acioli

A partir de 1960, a produção de Bruno é marcada pela passagem ao abstracionismo. Executa o monumento para a Praça dos Três Poderes, “Candangos”, escultura que sintetiza a epopeia da construção de Brasília, em homenagem ao povo nordestino. Neste mesmo ano, Volpi toma parte na 2aBienal Interamericana do México.

Alfredo Volpi, Sem título, década de 1960, têmpera sobre papel, 25x33cm, assinada A Volpi no canto inferior direito
Foto Jaime Acioli

Em 1961, Volpi é homenageado com sala especial na 6aBienal de São Paulo, cujo prefácio do catálogo é de Mário Schenberg. Em 1962, Volpi participa da 31aBienal de Veneza. Toma parte na 1aBienal Americana de Arte, realizada em julho no Museo de Provincial de Bellas Artes Emilio A. Caraffa, em Córdoba, e em agosto no Museo de Arte Moderno de Buenos Aires, com texto de apresentação de Antônio Bento (1843-1898). Recebe o Prêmio Melhor Pintor Brasileiro da crítica de arte do Rio de Janeiro. No que diz respeito à carreira do escultor, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil organizou uma exposição individual de Bruno na Galleria d’Arte della Casa do Brasil, no Palácio Doria Pamphilj em Roma. Expõe também no Pavilhão do Brasil, na Feira Mundial de Seattle, nos Estados Unidos.

Bruno Giorgi e Alfredo Volpi na casa de Adolpho Bloch em Teresópolis, Rio de Janeiro, c.1964
Foto divulgação [Arquivo Pinakotheke]

Em 1963, Volpi expõe na Galeria do Studium Generale, em Stuttgart, com texto de apresentação de Max Bense e, ainda, exibe trabalhos na Galleria d’Arte della “Casa do Brasil”, em Roma, com texto de apresentação de Murilo Mendes (1901-1975). Bruno Giorgi prossegue apresentando esculturas pela Europa, mais exatamente em Varsóvia, na Polônia, em exposição individual. Nessa ocasião, conhece o empresário Adolpho Bloch e esculpe “Grupo da amizade” para a casa do empresário, em Teresópolis, no Rio de Janeiro. Adolpho pede a Bruno que convença Volpi a ceder-lhe obras para o acervo do instituto cultural que buscava criar. Bruno e Volpi, a convite de Bloch, hospedam-se na casa de campo deste. No entanto, Volpi nega-se a doar-lhe quadros. Segundo depoimentos, Adolpho chegou a importar várias caixas de vinho, além de uma peça inteira de queijo pecorino da Sardenha, iguaria da região italiana, muito apreciado por Volpi, mas nenhuma de suas tentativas logrou êxito.

Bruno Giorgi, Torso feminino, década de 1960, bronze patinado, assinado B Giorgi na lateral direita
Foto Jaime Acioli

Em 1964, Volpi participa da 32aBienal de Veneza e recebe o Primeiro Prêmio. Já Bruno realiza um mural em bronze com 32 metros de comprimento para a sede do Banco do Brasil, em Brasília.

Em 1966, Volpi é homenageado em sala especial hors-concours na 1a Bienal Nacional de Artes Plásticas, em Salvador. Theon Spanudis escreve o texto de apresentação do catálogo. Executa o afresco “O sonho de Dom Bosco”, no Palácio do Itamaraty, em Brasília. Bruno, neste mesmo ano, transfere-se para a cidade de Carrara, na Itália, onde realiza esculturas de grande porte para instituições brasileiras, passando a utilizar o mármore em muitos trabalhos. Entre eles, destaca-se “Meteoro” – com maquete premiada em 1966 na Exposição Internacional de Escultura ao Ar Livre, em Milão. A obra foi inaugurada em 1967, no lago do mesmo Palácio Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores. Assim como o monumento “Candangos”, ela é considerada um dos símbolos de Brasília.

Registre-se que Oscar Niemeyer (1907-2012) concebera o edifício com o nome de “Palácio dos Arcos”, sendo que tais elementos da fachada foram utilizados, tanto por Volpi quanto por Bruno, em seus trabalhos. O afresco de Volpi ocupou local cuidadosamente projetado por Niemeyer para que fosse refletido na parte direita do espelho d’água. Enquanto isso, “Meteoro”, de Bruno, ornamentou o lado esquerdo. Niemeyer, Bruno e Volpi trabalharam juntos na ocasião. O Arquivo Público do Distrito Federal armazena um projeto intitulado “Memória da construção de Brasília”, composto de entrevistas gravadas, no qual pode ser encontrado um depoimento de Bruno Giorgi, entrevistado por Georgete Medleg Rodrigues, com uma hora e meia de gravação. Nesta, narra em detalhes a montagem de “Meteoro”, mencionando as reações de Niemeyer. Volpi, por sua vez, como homenagem a seu amigo arquiteto, retrata Dom Bosco (padroeiro de Brasília) com o rosto de Niemeyer.

Bruno Giorgi com seu retrato pintado por Volpi ao fundo, 1972
Foto Calixto Murakami

Em 1967, Bruno Giorgi tem retrospectiva na Sala Especial na 9aBienal de São Paulo.

Em 1968, Volpi participa do Festival dei due Mondi, na cidade de Spoleto, na Itália. Entre 1968 e 1969, Bruno, por sua vez, realiza a obra abstrata Ritual, instalada nos jardins do Instituto Weizmann, em Tel Aviv, em Israel, e uma fonte em mármore para a Embaixada do Brasil em Beirute, no Líbano.

Em 1970, Volpi participa do 2oPanorama de Arte Atual Brasileira no Museu de Arte Moderna de São Paulo e ganha o Prêmio Aquisição de Melhor Pintor. Enquanto isso, Bruno realiza esculturas monumentais, faz a escultura “Teorema” – com cerca de dez toneladas de mármore, para o Banco Crefisul, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Realiza, ainda, a escultura “Labareda”, que representa o desenvolvimento da cidade de São Paulo para os jardins do Palácio dos Bandeirantes. Esculpida em mármore, a obra pesa 14 toneladas. Em Carrara, casa-se com Leontina Ribeiro.

Volpi, em 1972, perde sua mulher “Judite”. Neste mesmo ano, em outubro, é homenageado com retrospectiva no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. A mostra é organizada por Aracy Amaral, que seleciona cerca de duzentas obras do artista, produzidas entre 1914 e 1972. A retrospectiva ganha o Prêmio Golfinho de Ouro, como melhor exposição do ano. Pela primeira vez, a obra de Volpi é organizada por fases, explicitadas no texto de Aracy para o catálogo. Já Bruno, participa do 4oPanorama da Arte Atual Brasileira no MAM-SP e da Bienal Internacional do Mármore, em Carrara.

Bruno Giorgi, Nu feminino, década de 1970, crayon e grafite sobre papel, assinado BGiorgi no canto inferior direito
Foto Jaime Acioli

Em 1973, ambos recebem várias homenagens. Volpi recebe a Medalha Anchieta da Câmara Municipal de São Paulo, a Ordem do Mérito da República Italiana e o Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte. Por sua vez, Bruno recebe o Prêmio Personalidade do Ano Rio de Janeiro, do Instituto de Arquitetos do Brasil, pelo conjunto de sua obra. Além disso, participa da 2aBiennale Internationale de la Petite Sculpture, em Budapeste, Hungria.

Em 1975, Volpi ganha exposição retrospectiva no Museu de Arte Moderna de São Paulo, com trezentas obras do período entre 1914 e 1975. O texto de apresentação é de Paulo Mendes de Almeida (1905-1986). Recebe a Medalha Pero Vaz de Caminha e a Placa de Prata Phillips do Brasil. Neste ano, Bruno termina no Brasil e envia Monumento à resistência para a cidade de Arezzo, na Itália.

Bruno Giorgi, Figura feminina, década de 1970, lápis de cor, grafite e crayon sobre papel, monogramado BG no canto inferior direito
Foto Jaime Acioli

Em 1976, o Metropolitano de São Paulo realiza uma exposição de Volpi em comemoração a seus 80 anos. Em outubro, o Museu de Arte Contemporânea de Campinas recebe a retrospectiva do artista – “Volpi: a visão essencial”, organizada por Olivio Tavares de Araújo. É homenageado na Câmara Municipal de São Paulo por seu 80oaniversário e recebe, no grau de grande oficial, a Ordem do Ipiranga (Decreto no 808 de 13 de abril de 1976). Tal fato ficou gravado em sua biografia porque se recusou ir ao Palácio dos Bandeirantes, alegando não querer vestir terno e gravata. Com isso, o então governador Paulo Egydio Martins, acompanhado de dois secretários, foi à residência de Volpi para lhe entregar a condecoração pessoalmente. Avesso a protocolos e homenagens, conta-se que Volpi, ao agradecer, virou-se para Paulo Egydio e perguntou: “Como é mesmo o seu nome?”.

Alfredo Volpi em seu ateliê com as cabeças esculpidas por Bruno Giorgi, 1978
Foto Romulo Fialdini

Cumpre-nos registrar aqui que, alguns anos mais tarde, por meio do Decreto no 16.528 de 22 de janeiro de 1981, Paulo Salim Maluf confere a mesma Ordem do Ipiranga ao escultor Bruno Giorgi. Volpi, então, surpreende a todos, vestindo terno e gravata, e vai à cerimônia receber a medalha em nome do amigo. Leontina conta que, quando retornou de viagem a Portugal, encontrou Volpi e Bruno, lado a lado no saguão do aeroporto, cada qual ostentando sua medalha.

Em 1977, expõe na mostra “Projeto construtivo brasileiro na arte (1950-1962)”, na Pinacoteca do Estado de São Paulo e no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Recebe, ainda, algumas premiações, como o Troféu Personalidade Global, concedido pelo jornal O Globo e pela Rede Globo de Televisão; o Diploma Bandeirante do Brasil, pelo Instituto Nacional de Expansão Cultural; e o Troféu Francisco Matarazzo Sobrinho.

Ainda em 1977, ambos recebem homenagens e medalhas da prefeitura de Lucca, por intermédio da Embaixada da Itália no Brasil.

Em 1978, Volpi recebe medalha da Legião de Honra Giuseppe Garibaldi.

Bruno Giorgi e Alfredo Volpi, 1980
Foto divulgação [Arquivo Leontina Giorgi]

Entre 1978 e 1979, Bruno realiza vários monumentos e esculturas para espaços públicos. Sua obra “Candangos” participa de exposição coletiva em Stuttgart, cujo catálogo é escrito por Max Bense (1910-1990). Em 1979, Volpi e Giorgi participam da 15aBienal Internacional de São Paulo. Bruno recebe a medalha Mário de Andrade, do Governo do Estado de São Paulo.

Nos anos 1980, Volpi participa de inúmeras exposições individuais e coletivas. Em meados da década, começa a debilitar-se, em função do mal de Alzheimer. Bruno recebe o Prêmio Moinho Santista e continua a produzir obras públicas. Em 1983, nasce Bruno Giorgi Filho.

Em 1984, ambos participam da exposição “Tradição e ruptura”, organizada pela Fundação Bienal de São Paulo. A partir de então, Volpi já apresenta dificuldades motoras que vão se acentuando cada vez mais. Começam também os problemas de natureza cognitiva, razão pela qual a catalogação do artista se encerra neste ano.

Bruno Giorgi, em 1986, por ocasião do seu 80oaniversário, tem realizadas várias exposições em sua homenagem – uma delas na Sala Especial no II Salão de Belas Artes de Mococa. Recebe também a medalha de ouro no Prêmio Ciência, Letras e Artes da Fundação Moinho Santista, em São Paulo. Passa a alternar seu trabalho entre Petrópolis e Rio de Janeiro.

Neste mesmo ano, no MAC-USP, realiza a exposição “Alfredo Volpi: 90 Anos – Um Registro Documental por Calixto”, em São Paulo. Seguindo as comemorações de aniversário, Olivio Tavares de Araújo organiza a mostra “Volpi 90 Anos” no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Recebe o Prêmio Artes Plásticas Gabriela Mistral, da Organização dos Estados Americanos.

Em 1987, embora Volpi já não pintasse mais, ambos participam da coletiva “Modernidade: Arte Brasileira do Século XX”, realizada no Museu de Arte Moderna da Cidade de Paris, que segue para o MAM-SP no ano seguinte.

Em 1988, Bruno visita seu amigo pela última vez em São Paulo. Volpi já estava bastante debilitado. Bruno revela à sua mulher Leontina o medo de ter sido aquela a última vez em que veria seu amigo. Em 28 de maio de 1988, aos 92 anos, Volpi falece em São Paulo, interrompendo uma amizade com Bruno Giorgi de mais de 50 anos. Bruno recebe incontáveis telefonemas e mensagens de condolências.

Entre os anos de 1990 e 1993, Bruno, já debilitado, continua a participar de mostras individuais e coletivas. No cinquentenário da Companhia Siderúrgica Nacional, o artista doa uma escultura em aço da CSN, com 10 metros de altura – “Arigó” –, como uma homenagem aos trabalhadores da época da construção da usina. Recebe o grande prêmio da crítica da Associação Paulista de Críticos de Arte – APCA. Morre em setembro de 1993, no Rio de Janeiro.

Em breve síntese, eis aqui retratadas as carreiras, por mais das vezes entrelaçadas, de Giorgi e Volpi. Influências recíprocas. Andamentos criativos compartilhados. Entre os vários exemplos existentes, a ogiva horizontal desenhada por Alfredo na residência de Bruno, grafite sobre papel que contém toda a força da linguagem volpiana, posteriormente pintada à têmpera sobre tela. Gênese, compartilhada e comentada com o amigo, que se converteu em belíssima série de pinturas de Volpi bastante festejada.

Ao longo das carreiras, os amigos conviviam intensamente. Volpi passava temporadas hospedado na casa de Giorgi. A cumplicidade pode ser constatada nas obras exibidas, seja por meio da cabeça de Volpi esculpida por Giorgi, assim como na modernidade do retrato de Giorgi sentado na praça, lindamente pintado por Volpi. Amizade que pode ser sentida e saboreada na singeleza de uma vaquinha desenhada por Volpi, que Leontina bordou em uma colcha de retalhos. Mas, acima de tudo, na pujante tristeza do desenho feito por Bruno, retratando seu amigo quando o descobre enfermo.

nota

NE – texto curatorial da exposição Estética de uma amizade – Alfredo Volpi (1896-1988) e Bruno Giorgi (1905-1993). Curadoria de Max Perlingeiro e Pedro Mastrobuono. Rio de Janeiro, Pinakotheke Cultural, 14 de junho a 27 de julho de 2019.

sobre o autor

Max Perlingeiro é especialista na administração de coleções particulares no Brasil, membro do Conselho do Museu da Imagem e do Som e Paço das Artes de São Paulo, SP, e membro associado do Instituto Lina Bo e P. M.Bardi. É diretor das empresas Pinakotheke Cultural, Rio de Janeiro RJ, Pinakotheke São Paulo SP, e Multiarte em Fortaleza CE.

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