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architectourism ISSN 1982-9930

Pavilhão da Bienal, Parque do Ibirapuera, São Paulo, arquiteto Oscar Niemeyer. Foto Victor Hugo Mori

abstracts

português
Episódios vividos pelo autor nos Estados Unidos e Holanda onde a arquitetura e arquitetos brasileiros foram temas de discussão ou protagonistas diretos, que lhe permitiram chegar à conclusão do pouco interesse do exterior por nossa atual arquitetura.


how to quote

RODRIGUES, Felipe SS. Arquitetura brasileira vista do exterior. Diário de um estudante a partir de escolas e escritórios de arquitetura. Arquiteturismo, São Paulo, ano 08, n. 094-095.02, Vitruvius, jan. 2015 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/08.094-095/5420>.


A partir de uma jornada de experiências no exterior entre 2012 e 2014, nos Estados Unidos e na Europa, me dei conta que a arquitetura brasileira é ainda admirada por acadêmicos e profissionais de arquitetura da atualidade. Nomes como o de Lina Bo Bardi e Oscar Niemeyer são constantemente mencionados nas salas de aula e escritórios de arquitetura internacionais.

Certamente não seria esperado que diante dessa constante alusão o sentimento de orgulho que senti fosse substituído aos poucos pela clareza de que a arquitetura brasileira contemporânea tem sido ignorada pelo estrangeiro. Recorro à minhas anotações, destacadas entre aspas, e lembranças de situações que vivenciei para explicar esta transformação da minha percepção.

Maquete do Masp, autoria de Luisa Wysocka
Foto Felipe SS Rodrigues

De fora para dentro

6 de setembro de 2012, Universidade de Tecnologia de Nova Jersey, Estados Unidos

Dentro de uma lista com vinte projetos da arquitetura contemporânea mundial, estavam lá o Masp e o Sesc Pompéia, ambos em São Paulo, de Lina Bo Bardi, e o Jockey Clube de Goiânia, de Paulo Mendes da Rocha, selecionados pelo professor recém-chegado Keith Krumwiede, com passagens por Yale, Rice e SCI-Arc. Seu studio foi o mais concorrido.

Três projetos brasileiros em vinte: fiquei envaidecido! Mas o sentimento durou pouco, pois apenas um estudante de grande ingenuidade não teria percebido o anacronismo. Os projetos de Lina são de 1957 e 1977, respectivamente; e o de Paulo, de 1962. Ainda que se questione o período que consideramos contemporâneo, não era o que estava ali em questão. Dentro dessa amostragem para análise estavam projetos como a Biblioteca da Universidade de Arte de Tama, de Toyo Ito (2007), a plataforma para instalações de arte contemporânea – FRAC, de Lacaton & Vassal (2009), e o Museu de Kanazawa do SANAA (2004), entre outros da virada do século. Não havia um erro cronológico, pois os objetos contemporâneos não foram selecionados por data ou local, mas pela qualidade da proposta e sua validade para a dissecação acadêmica. Suspeito que para o professor Krumwiede aquelas eram obras brasileiras e para os alunos, o Brasil contemporâneo.

Horas depois, na sala ao lado, alunos do segundo ano de mestrado, debatiam as propostas precedentes do Serpentine Gallery de Londres, e dentre as eleitas estavam a de Zaha Hadid, Jean Nouvel, Frank Gehry, Toyo Ito, Daniel Libeskind, Rem Koolhaas, SANAA, Peter Zumthor... Minha audição aguçou-se ainda mais quando Niemeyer foi citado. Dessa vez, quem comentou a proposta de Oscar foi o professor Michael Mosteller, que em maio de 1970 introduziu o primeiro curso de Teoria da Arquitetura de Harvard, intitulado Approaches to Architecture (Formas de Abordar a Arquitetura), e com quem no ano seguinte tive o prazer de confrontar minhas ideias.

“O pavilhão de Niemeyer, para muitos não fora o mais excitante, descolava-se muito do momento da arquitetura de quando foi apresentado em 2003, contudo o que muitos não entenderam é que aquele era uma homenagem ao seu trabalho, uma compilação de sua trajetória, laureando sua contribuição para o campo da arquitetura. Parte desse desentendimento deu-se por ser ele o primeiro arquiteto de longa data a participar do projeto do Serpentine Gallery que tinha até aquela edição subentendido a promoção de arquitetos contemporâneos emergentes”.

Mais uma vez não bastou a citação de um arquiteto brasileiro para convencer-me de nossa representatividade. Os projetos contemporâneos brasileiros mencionados tinham por volta de cinquenta anos a mais do que projetos de outros países, e quando era ele recente, ocorria em reconhecimento aos tempos de notoriedade.

Cartaz da palestra de Angelo Bucci no YALE Lecture Series
Foto Felipe SS Rodrigues

Angelo Bucci

14 de janeiro de 2013, Universidade de Yale, Connecticut, Estados Unidos

Não fosse o cartaz anunciando a palestra de Bucci no mural da faculdade, imagino que seria ainda mais desolador. Distante 150 quilômetros de Nova Jersey, o professor visitante de Yale, Angelo Bucci, ocupante da cadeira Eero Saarinen, faria uma palestra sobre seus trabalhos recentes. Sugiro aos colegas que tomem informação sobre ele, acessem seu website. Mas a informação é restrita – apenas em português, diz um deles. Sugeri que todos fossemos assisti-lo. Três meses depois me sugeriram Zaha Hadid.

Oscar Niemeyer, ao centro, e a equipe de projeto da sede das Nações Unidas, Nova York, 1940; equipe de nove arquitetos internacionais, incluindo Le Corbusier à esquerda
Foto divulgação [United Nations Archives]

Tributo

24 de abril de 2013, Sede das Nações Unidas, Nova York, Estados Unidos

Com o suporte do departamento de informações públicas das Nações Unidas e coorganizado pelo escritório do presidente da Assembléia Geral e Missão do Brasil na ONU, em Nova York, na Sede das Nações Unidas, o Conselho de Projetos da ONU reuniu um pequeno grupo de oradores e uma platéia esparsa para um tributo a Oscar Niemeyer que falecera no ano anterior. Durante a solenidade as autoridades compartilharam sua experiência de habitar seu projeto de 1949, em colaboração com o americano Wallace Harrison e o francês Le Corbusier.

Paul Goldberger, crítico de arquitetura e educador, ganhador do Pulitzer Prize de 1984, foi o quarto a se pronunciar e não deixou escapar um detalhe do legado de Niemeyer, considerando sua vida e obra, corpo e espírito. Foi a primeira vez que ouvi alguém falar com tanta clareza sobre Oscar, não contando ele próprio. Impulsionado pela fala de Goldberger e pelas imagens e vídeos dos arquivos da ONU, uma foto em particular me provocou um sentimento inédito. Diante de uma mesa onde estava disposto o último modelo, dos mais de cinquenta que foram desenvolvidos para a sede da ONU, posava para a foto a equipe com dez arquitetos de nacionalidades diferentes. Embora a oito quarteirões de lá, a exposição intitulada Le Corbusier: um atlas de paisagens modernas, no Museu de Arte Moderna de Nova York, insistisse em afirmar Le Corbusier como protagonista do projeto da ONU – tal como ele próprio fizera com o Edifício do Ministério da Educação e Cultura (1936) no Rio de Janeiro –, aquela foto não permitia tamanha sabotagem. Oscar Niemeyer ao centro da imagem, cercado pelos colegas que se voltam para ele, frente ao modelo esbelto, sorri em inglês, o que apenas em português poderia ser traduzido.

Sede do OMA de Rotterdam
Foto Felipe SS Rodrigues

Do not touch

20 de agosto de 2013,Office for Metropolitan Architecture, Rotterdam, Holanda

Havia pedido que Isay Weinfeld, último arquiteto com quem colaborei antes de viajar, assinasse uma cópia de seu livro para que eu levasse um exemplar da arquitetura brasileira recente de presente para o OMA. Ainda que soubesse que ele jantou com Rem Koolhaas em certa ocasião, Isay não tinha empatia pelo mesmo e assinou com reticência. Ao chegar no escritório, Koolhaas estava de férias. Deixei o livro sobre a mesa de Ellen van Loon, associada desde 1998 e responsável por projetos como a Casa da Música do Porto (2005) e da Embaixada da Holanda em Berlim (2003). O livro passou duas semanas no mesmo lugar sobre sua mesa. Quando desaparece, me permito a audácia de tomar alguns segundos da agenda lotada de Ellen para perguntar se ela teria o folheado. Ao responder que gostaria de tomá-lo apenas para ela, pela qualidade do que vira, imaginei ter acertado na decisão de trazê-lo.

No decorrer dos próximos meses o livro foi utilizado como referência para diversos projetos, pulando de equipe em equipe. Em algumas situações, bilhetes escritos com “Do not touch” (não mexa) impediam que ele sumisse da bancada, em outras, Ellen o levava para sua mesa depois de mostrar algum dos projetos ao grupo.

A arquiteta Saskia Simon, responsável pela pesquisa e conciliação de materiais em diversos projetos, dentre eles o De Rotterdam (2013) e a sede do banco londrino Rothschild (2006), ficou impressionada com os projetos. Para ela, o arquiteto brasileiro já não era novidade; disse acompanhar cada novo projeto e que em breve importaria o livro que ainda não tinha chegado à Europa. O restaurante Fasano era uma constante em suas apresentações e referência para a qualidade em interiores que o OMA buscava.

Até o final da minha colaboração o livro não foi uma vez sequer depositado na biblioteca do escritório e pelo menos dois projetos no Oriente Médio tiveram paleta inteiramente definida por Isay.

Palácio do Itamaraty, Brasília
Foto Xenïa Antunes [wikimedia commons]

Niemeyer

Algum dia de 2013,Office for Metropolitan Architecture, Rotterdam, Holanda

O 5th floor foi um andar ocupado pela sede do OMA de Rotterdam por poucos meses. Sem qualquer tipo de acabamento, sem ar-condicionado, com janelas seladas e instalações da empresa que havia ocupado o espaço anteriormente, tinha a ambiência de um subsolo de garagem. Nele eram desenvolvidos projetos para concursos fechados; sob regime de trabalho incessante, as luzes raramente foram apagadas.

Uma vez por mês todos os sócios viajavam para Rotterdam para discutir os projetos em andamento. Todas as equipes preparavam uma apresentação naquela ocasião. No mesmo andar, acontecia a apresentação de um dos projetos mais atrasados: faltavam quatro dias para a postagem da maquete e pranchas rumo a Líbia. Rem Koolhaas, Ellen van Loon, Reinier de Graaf, Shohei Shigematsu, Iyad Alsaka e Betty Ng debatiam entre os mais de cinquenta modelos sobre os cavaletes diante de mais de vinte colaboradores silenciosos. As características físicas do terreno não eram muito diferentes das que o escritório vinha enfrentando nos últimos anos – uma grande planície árida.

Ainda que em dúvida sobre sua forma, que o mesmo emergiria de um espelho d’água era uma unanimidade. Buscavam um volume que gerasse uma estranheza a partir da totalidade do objeto e sua reflexão. Desse ponto em diante, o inconsciente de cada um engendrou em segundos silenciosos a referência desejada e – em coro e variada pronúncia – todos sintetizaram o rumo do projeto em uma palavra: “Niemeyer”.

Acesso ao 5th floor, entrada ao escritório OMA
Foto Felipe SS Rodrigues

Desconhecido

Outro dia de 2013,Office for Metropolitan Architecture, Rotterdam, Holanda

No mesmo andar já referido, painéis de foam board carregavam todas as referências para o projeto de um edifício de escritórios na China, próximo ao CCTV (2002); buscava-se, antes de tudo, a forma estranhamente familiar de Anthony Vidler. Alinhavam-se séculos dos mais peculiares edifícios. Entre o painel de Louis Kahn e a projeção de um vídeo em loop de madeiras estalando sob o fogo de uma lareira virtual, uma série de imagens reviradas do edifício da Fiesp em São Paulo (1979), do escritório Rino Levi Arquitetos Associados, eram abduzidas por um feixe de luz focal. Auxiliado por este efeito luminoso ficara ainda mais plausível o edifício libertar-se da Avenida Paulista e se tornar um objeto anônimo e iconográfico, mesmo à vista de quem o tivesse como familiar.

Parque Dom Pedro II
Foto Felipe SS Rodrigues

Acatar ou atacar

19 de março de 2014, Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, Brasil

As aulas de projeto de arquitetura tinham um ritmo bastante diferente do que os últimos semestres tinham exigido. O espaço de trabalho asséptico não só dificultava a concentração, bem como me provocava uma irritabilidade incontrolável. Dessa situação, a cólera era o único sentimento que me conectava à última experiência no OMA. Ainda embebido pelo ímpeto de argumentação avassalador de Koolhaas, reproduzi uma citação sua de quando viera para São Paulo, por ocasião do Arte/cidade de 1999, sobre o Parque Dom Pedro II, objeto de nossa discussão. Disse Koolhaas:

“coloca-se a questão do Edifício São Vito. Única edificação modernista na região, o prédio é exemplar de uma malograda tentativa de renovação do centro da cidade. Um caso emblemático dos impasses urbanísticos da cidade. Se São Paulo não souber equacionar, nesta década, um problema como o desse prédio, situado numa das áreas mais propícias para projetos de desenvolvimento urbano, isso será indicativo de que ela não conseguirá se integrar à dinâmica e ao formato das grandes metrópoles mundiais”.

Em 2010, o edifício foi demolido. Ao perceber meu ímpeto, o professor Marcos José Carrilho, pesquisador e colaborador do Iphan, indagou sobre a constante síndrome do subordinado. “seremos sempre submissos a esses arquitetos que sentenciam nosso destino? Não somos nós capazes de responder a estas questões com sabedoria?”

Embora não pudesse discordar da precisa afirmação de Koolhaas, o comentário de Carrilho abriu para mim uma nova possibilidade de vaidade.

sobre o autor

Felipe SS Rodrigues é arquiteto e urbanista. Colaborou com Rem Koolhaas no OMA de Roterdão  (2013) e com o arquiteto Isay Weinfeld (2011). Fez intercâmbio na New Jersey Institute of Technology, em Nova Jersey (2012), e no Pratt Institute em Nova Iorque (2013).

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