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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
Partindo da inexistência de um conceito único de humanização dos espaços hospitalares, o artigo analisa definições presentes em textos de diferentes arquitetos e o resultado de tentativas de sua aplicação no projeto de três hospitais pediátricos

english
Starting from the inexistence of a straight concept of humanization in hospitals, this article analyses current definitions of different architects and the results of its aplication on the project of three pediatric hospitals

español
Partiendo de la falta de un concepto único de humanización en hospitales, este artículo pretende analizar las definiciones actuales de distintos arquitectos y sus resultados en tres proyectos de hospitales pediátricos


how to quote

LUKIANTCHUKI, Marieli Azoia; SOUZA, Gisela Barcellos de . Humanização da arquitetura hospitalar:. Entre ensaios de definições e materializações híbridas. Arquitextos, São Paulo, ano 10, n. 118.01, Vitruvius, mar. 2010 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/10.118/3372>.

Introdução

Por muito tempo, e ainda hoje, a sociedade encarou o edifício hospitalar como sendo um local de doença, morte, angústia, entre outros sentimentos. Entretanto, segundo De Góes (1) a palavra hospital vem do latim hospitalis, adjetivo que significa “ser hospitaleiro, acolhedor, que hospeda” derivado de hospes, que quer dizer hóspede, estrangeiro, viajante. Durante a Idade Média, o hospital serviu basicamente para isso: hospedar doentes, viajantes e pobres. E a função de curar? Nesse período, essas instituições serviam basicamente como asilo tendo por objetivo somente o isolamento de pessoas doentes ou pobres do convívio com o restante da sociedade, evitando, desta forma, riscos sociais e epidemiológicos. A função da cura e do tratamento não existia e a “medicina” – entendida em sua concepção atual – não era realizada: tratava-se apenas do fornecimento de um abrigo e do estabelecimento de uma rotina.

A concepção do hospital como local de tratamento é relativamente recente. A partir do século 18, com o Iluminismo e a Revolução Industrial, constrói-se uma nova visão sobre o homem e a natureza. A crescente especialização das ciências e a ampliação dos conhecimentos neste período contribuíram para a busca do melhoramento das condições sanitárias, tendência que foi intensificada ao longo do século 19. Logo, é no século 18 – por volta de 1770, quando a doença passa a ser reconhecida como fato patológico – que o hospital se torna um instrumento de cura.

“O hospital como instrumento terapêutico é uma invenção relativamente nova, que data do final do século XVIII. A consciência de que o hospital pode e deve ser um instrumento destinado a curar aparece claramente em torno de 1780 e é assinalada por uma nova prática: a visita e a observação sistemática e comparada dos hospitais” (2).

A percepção deste equipamento como componente integrante do processo da cura leva a uma progressiva especialização de seus espaços. Questões relativas à distribuição espacial de seu programa e de seus fluxos tornam-se, paulatinamente, as de resolução mais prementes na prática projetual da arquitetura hospitalar. Essa preocupação inicia-se no século 18 com o simples combate à superlotação de leitos – estes não eram individuais (3) –, chegando ao final do século 19 com a ampliação significativa da área ocupada por essas edificações, através da difusão do modelo pavilionar – o qual buscava facilitar a circulação e renovação do ar a fim de adaptar-se às descobertas de Pasteur – e manifesta-se no século XX na crescente multiplicação e especialização dos componentes de seu programa e diferenciação de seus fluxos (4). O edifício hospitalar passa então a ser organizado segundo a especialização de áreas internas, baseada em atividades de cuidados aos pacientes e seus diversos apoios (5).

Entretanto, a partir de meados do século 20, o crescente interesse da sociologia e da antropologia pela saúde e pela doença – e as críticas que essas disciplinas desenvolvem à abordagem estritamente biológica desses conceitos – permitiram que o foco da discussão sobre os espaços hospitalares fosse renovado. Sob sua influência, organizaram-se movimentos que buscaram reformas sanitárias em diversos países, cujo objetivo era garantir o direito universal à saúde e o desenvolvimento da medicina preventiva (6).

As críticas à exclusão social promovida através da medicina hospitalar não são, no entanto, resolvidas apenas com a ampliação da saúde preventiva. Constrói-se um consenso de que é preciso renovar os espaços hospitalares e, nesse contexto, sua humanização aparece como solução para o impasse. Entretanto, se a necessidade da promoção da humanização afigura-se, por um lado, como consensual, por outro lado, a definição do que seria esta ação parece difícil de discernir.

O presente artigo tem como objetivo demonstrar a inexistência de um conceito único de humanização dos espaços hospitalares. Postula-se que essa ausência verifica-se tanto na esfera do discurso, quanto em sua materialização na prática projetual. Para tanto, analisam-se e contrapõem-se, ao longo deste artigo, diferentes definições e aplicações desta noção.

A análise das diferentes definições de humanização passa pelo cotejamento de textos especializados de autoria de arquitetos que abordaram a questão – Jarbas Karman, Lauro Miquelin, José Ricardo S. L. Costa, João Filgueiras Lima e Catherine Fermand. Já para a análise da materialização, optou-se por um corpus somente de hospitais pediátricos, visto que nestes a busca pela humanização, além de ser mais corrente, apresenta-se como mais premente: para o público infantil a estadia no hospital e a diminuição de seu ritmo normal de vida podem causar estresse emocional e complicar o processo de cura.

Entre a analogia e o conceito: ensaios de definição da noção de humanização no espaço hospitalar

Ao final do século 20, exige-se que a “máquina de curar”, nascida no final do século 18, torne-se humana. Qual o significado e as consequências dessa ação? Como procedê-lo? Como veremos na sequência, os arquitetos fazem apelo a diferentes analogias em seus discursos a fim de visualizar o que seria a humanização. As mais recorrentes poderiam ser agrupadas nas seguintes figuras metafóricas: (a) o hotel – analogia muito frequente na arquitetura hospitalar americana contemporânea –; (b) a relação com a natureza e a integração com obras de artes; (c) o lar e possibilidade da intimidade e, por último, (d) a figura do espaço urbano e do convívio social – geralmente associada às experimentações da arquitetura hospitalar francesa contemporânea.

Dentro da linha que busca na analogia com o hotel a chave para a solução da humanização do espaço hospitalar, encontramos os arquitetos Jarbas Karmam e Lauro Miquelin. Karmam acredita que, assim como os hospitais americanos, o paciente deve ser considerado como um cliente e a internação deve aproximar-se, cada vez mais, a um hotel. A atenção dirigida em especial à internação é justificada pelo fato de esta ser o local de maior permanência dos pacientes no hospital. Neste sentido, a humanização deste espaço proporcionaria maior bem-estar aos seus usuários, aliviaria suas angústias e reduziria, desta forma, o tempo de internação (7). Karmam destaca que “Projetos de hotéis onde o hóspede às vezes fica apenas um dia exigem tratamento especial para atrair o público. O mesmo deve ocorrer com o hospital, onde a permanência é mais prolongada” (8).

Dentro desta mesma linha, Lauro Miquelin, também busca a analogia com o hotel como possibilidade para humanização do hospital. Para o arquiteto, alcançar esse objetivo passa pela necessidade de desenvolvimento de projetos arquitetônicos que possam definir padrões de excelência. Os hospitais devem possuir recursos físicos que melhorem a qualidade de vida dos pacientes internados (9). Segundo Miquelin, “A meta é multiplicar exemplos de excelência para que possamos, daqui a pouco, entrar em um hotel bem planejado e ouvir alguém dizer que parece um hospital” (10).

No discurso do arquiteto João Filgueiras Lima, Lelé, as imagens da relação com a natureza e da integração entre a arquitetura e obras de artes – ambas já presentes na arquitetura moderna brasileira – são evocadas como possibilidade de humanização dos hospitais. Segundo esse arquiteto, apesar de os edifícios hospitalares serem projetos extremamente rigorosos em relação à funcionalidade – sendo, portanto, muito importante a atenção a sua distribuição espacial e a seus fluxos –, a beleza não deve ser excluída. A beleza é vista por Lelé como a chave para a humanização, visto que, em suas próprias palavras, ela “alimenta o espírito”. Deve-se, portanto, possibilitar no projeto de arquitetura hospitalar a junção destes dois fatores: humanização, através da beleza, e funcionalidade.

“Ninguém se cura somente da dor física, tem de curar a dor espiritual também. Acho que os centros de saúde que temos feito provam ser possível existir um hospital mais humano, sem abrir mão da funcionalidade. Passamos a pensar a funcionalidade como uma palavra mais abrangente: é funcional criar ambientes em que o paciente esteja à vontade, que possibilitem sua cura psíquica. Porque a beleza pode não alimentar a barriga, mas alimenta o espírito” (11).

Logo, o arquiteto busca a humanização/beleza através da inserção de amplos espaços coletivos no programa da arquitetura hospitalar, nos quais jardins e obras de arte são convocados como forma de dotar o edifício da capacidade de contribuir no processo de cura. Dentro desse contexto, a utilização da ventilação e iluminação naturais nas unidades do hospital evita os frequentes espaços herméticos e proporciona ambientes mais humanos, além de contribuir no combate à infecção hospitalar.

“defender iluminação e ventilação naturais não é só por esse aspecto da economia de energia, não é só para tornar o ambiente mais natural, mais humano, mas, no caso do hospital, também é para proteger contra a infecção hospitalar” (12).

Em conjunto com o artista plástico Athos Bulcão, Lelé, em seus hospitais, aproxima o espaço arquitetônico de elementos artísticos, como: painéis coloridos, muros de argamassa armada, pinturas, murais, entre outros. Busca-se, desta forma, a concepção de espaços mais alegres, que despertem o interesse dos pacientes e que sejam, portanto, belos.

“Os painéis e equipamentos criados por Athos Bulcão, presentes nos hospitais da rede, confirmam essa filosofia. São usados como uma contribuição integrada à arquitetura do local. [...] Os painéis de Athos fazem parte do ambiente. O paciente vai se sentir valorizado, mais respeitado, quando convive com uma obra de arte” (13).

A ideia do lar e da intimidade também é frequente nos discursos sobre a necessidade de humanizar as arquiteturas voltadas para saúde. O arquiteto Jorge Ricardo Santos de Lima Costa discute sobre as repercussões que a estadia no espaço hospitalar exerce na vida do paciente. Segundo o autor, o hospital é o símbolo da possibilidade de reformulação corporal e mental e, portanto, seus espaços devem ser configurados a partir do ponto de vista de seus usuários (14).

Para o arquiteto, o acolhimento em um hospital é, muitas vezes, traumatizante pelo fato de se tratar de um rito de passagem, em que o indivíduo sai do domínio privado (ambiente familiar) e entra no domínio público (hospital). No ambiente familiar, o ser humano está sujeito a um espaço com dimensões reduzidas – que transmitem sensações de bem-estar e acolhimento –, enquanto que o hospital é um ambiente com grandes dimensões, corredores extensos que transformam o espaço em um local distante, estranho e impessoal, impedindo sua apropriação. Além disso, o problema do paciente é socializado, ou seja, o seu corpo é invadido por ações e pensamentos dos profissionais da saúde deixando o indivíduo submetido às forças e normas desse espaço (15).

“A forma dos espaços internos sugere a dimensão do infinito, as circulações são extremamente extensas [...]. Parece que as referências físicas e de cura estão demasiadamente distantes do sujeito, visto que em um estado de enfermidade o indivíduo se torna fragilizado. A questão da proximidade nesse espaço é fundamental para pensarmos em um ambiente que se proponha a harmonizar e curar o indivíduo. A escala dos objetos e espaços internos parece que se amplia, em vez de reduzir-se e atingir um estado de bem-estar humano. O sentido de proximidade entre os objetos, sujeitos e espaços é necessário para a amenização do vazio do homem em crise. Urge a necessidade de uma aproximação física, de um preenchimento pelo afeto, com a respectiva atenuação da dor e a conquista da aceitação individual e social” (16).

Logo, a humanização do espaço hospitalar, para Costa, passa por reduzir a distância entre o hospital e o paciente. Tal aproximação, que se baseia na metáfora do lar, não se resume, no entanto à redução da escala de seus compartimentos. A impessoalidade desses equipamentos deve-se também ao fato de não permitirem personalização dos espaços por seus usuários, tal qual estes fazem em suas casas. Sem possibilidade de apropriar-se e identificar-se com espaço em que estão hospedados, a angústia dos pacientes amplia-se. O sentimento de estarem em um local estranho prejudica o processo da cura, tanto física quanto emocional (17).

“O hospital, enquanto equipamento social especializado, tem em sua estrutura espacial um sentido de impessoalidade, pois os usuários não podem marcar e personalizar o espaço que utilizam de forma objetiva. A forma já está estabelecida, não havendo oportunidade para redimensioná-la” (18).

As críticas de Foucault aos espaços hospitalares, e a exclusão social que promovem, influenciaram fortemente arquitetos franceses e italianos. Segundo Fermand, na França, a fim de responder às questões levantadas por Foucault, os arquitetos vêm experimentando o conceito de humanização como uma possibilidade de trazer a sociedade para dentro do hospital ao invés de excluí-la, buscando a inserção do espaço hospitalar dentro do espaço urbano.

“Durante os últimos vinte anos, os estabelecimentos hospitalares adquiriram, lentamente, uma nova imagem. Certamente, a evolução das técnicas e práticas medicais tiveram grande importância nas metamorfoses das 'máquinas de curar' dos anos sessenta. Entretanto, se os edifícios 'base-torre' antes edificados nas franjas das cidades – símbolos de ruptura do espaço urbano, como do tempo da vida cotidiana – dão lugar, progressivamente, a edificações melhores integradas em seu entorno, é também graças a uma evolução mais generalizada das mentalidades e às reformas que lhe acompanharam. [...] O hospital hoje deve ser aberto para a cidade e romper com esta imagem de fortaleza implantada no coração ou nas franjas de nossas cidades, que durante séculos simbolizou a exclusão, a doença e a morte” (19).

Esta busca da analogia com o espaço urbano não é, de fato, muito corrente nos discursos brasileiros sobre a humanização do espaço hospitalar. Contudo, essa analogia aparece de forma latente em alguns projetos relevantes dentro do contexto nacional, como é o caso da ampliação do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. O projeto de ampliação desenvolvido pelos arquitetos Jarbas Karmam, Domingos Fiorentini e Jorge Wilheim reconfigurou o acesso e o espaço de recepção ao público através de uma galeria com grande pé-direito no térreo – localizada no espaço de transição entre o segundo e o terceiro bloco (20). A intenção foi trocar os espaços frios e estressantes presentes nos hospitais tradicionais por um espaço mais humanizado, representado no caso por uma galeria semipública.

Esse conceito foi experimentado pela primeira vez pelo arquiteto Pierre Riboulet, no Hospital Pediátrico Robert-Debré, em Paris. O edifício abre-se para a cidade através de uma galeria pública que cruza o hospital e conecta-se a uma série de extensos terraços-jardins, buscando a integração dos usuários com a sociedade. Deste modo, o paciente não é apartado do convívio social durante a sua estadia e o hospital se torna parte do espaço urbano.

Materializações híbridas: a aplicação de diferentes conceitos de humanização em três hospitais pediátricos

Demonstramos, acima, que os arquitetos fazem apelo a diferentes analogias em seus discursos a fim de visualizar uma possibilidade de humanização do espaço hospitalar. Haveria, no entanto, uma correspondência direta entre tais analogias e a busca da humanização na prática projetual? Seriam essas figuras metafóricas também chaves para compreender uma ou outra materialização? A fim de responder a essas questões, analisaremos três hospitais pediátricos que se tornaram referências no debate sobre a humanização hospitalar: (a) o Centro Infantil Boldrini, referência latino-americana no tratamento de câncer infantil, projeto de Lurdez Helena; (b) o Centro de Reabilitação Infantil Sarah Kubitschek, obra do arquiteto João Filgueiras Lima e referência nacional, assim como toda a rede Sarah; e, por último, (c) o Hospital Pediátrico Robert-Debré, do arquiteto Pierre Riboulet, referência européia quanto à humanização da arquitetura hospitalar. Focaremos nesta análise o partido arquitetônico utilizado por cada arquiteto e a maneira pela qual os diferentes conceitos de humanização se materializam.

Centro Infantil Boldrini

O Centro Infantil Boldrini é um dos mais importantes da América Latina, tornando-se assim uma referência nacional e internacional no tratamento de crianças que sofrem de câncer. O projeto do centro foi desenvolvido pela arquiteta Lurdez Helena (Zelena) e contempla aproximadamente 11 mil m² dispostos em quatro blocos. Situado no distrito de Campinas Barão Geraldo, no bairro Cidade Universitária, o hospital implanta-se em um terreno de grande dimensão, próximo ao parque ecológico, que lhe permite a visualização de uma paisagem agradável.

O contato com a natureza é possibilitado também pela grande extensão do terreno onde o hospital foi implantado. Têm-se significativas áreas verdes, onde são localizados espaços de lazer com diversos mobiliários urbanos e brinquedos infantis. Nesse sentido, torna-se clara a aplicação do conceito de humanização do arquiteto Lelé através da integração das áreas de atendimento médico com jardins destinados às crianças e a seus familiares, para descanso e recreação.

Já na ala de internação do Boldrini, nota-se a materialização da noção de humanização proposta por Costa, ou seja, da busca da analogia com o lar. Isso se dá não somente pela escala dos ambientes, mas, sobretudo, pela possibilidade de os pais ficarem junto com os filhos durante o tratamento. Permite-se, desta forma, que a criança sinta-se protegida minimizando sua percepção do distanciamento de seu lar, de sua mudança repentina de um lugar aconchegante (o seu quarto familiar) para um local estranho (o quarto de um hospital). Logo, apesar de o tempo de internação no hospital não ser muito grande, estendendo-se apenas quando as crianças não têm condições de ficarem em casa, nota-se uma preocupação muito grande com a internação do paciente.

A ideia de lar e aconchego é permitida pela redução do número de quartos por ala. Os leitos são dispostos em seis alas de internação e cada ala é composta por nove quartos e um posto de enfermagem em formato de roseta no centro, possibilitando uma ampla visualização de toda a ala. Ao lado de cada quarto dos pacientes, existe um quarto para os pais da criança, que permite o contato da criança com os pais durante todo o tratamento. Os quartos são separados por paredes de vidro e, como as crianças estão com uma baixa resistência – sujeitas, portanto, a diversos tipos de infecções –, os pais devem passar por uma higienização em pias externas antes de entrarem nos quartos. Esta disposição diminui o estranhamento das crianças ao local em que estão hospedadas, permitindo uma associação deste ambiente, a algo mais familiar, como a um hotel ou até mesmo a própria casa.

Outra materialização da ideia de lar, proposta como forma de humanização por Costa, está na possibilidade de os usuários personalizarem o ambiente hospitalar. Permite-se uma aproximação dos pacientes com o espaço e um maior reconhecimento do ambiente por parte dos usuários. Isso é visível no Boldrini através do projeto “Pintando as Paredes do Mundo”, monitorado pela artista plástica Vera Ferro, no qual as crianças em conjunto com a artista pintam as paredes do hospital, deixando nelas as marcas de sua apropriação. O hospital torna-se mais acessível e aproxima-se, desta forma, do lar: suas alas possuem dimensões reduzidas, os pais permanecem junto de seus filhos e os pacientes reconhecem seus desenhos nas paredes.

Centro de Reabilitação Infantil Sarah Kubitschek

O Centro de Reabilitação Infantil Sarah Kubitschek do Rio de Janeiro, projetado pelo arquiteto João Filgueiras Lima (Lelé), foi construído em 2002 na ilha Pombeba - onde antigamente funcionava a 19° Divisão de Conservação da Cidade – localizada às margens da lagoa de Jacarepaguá, com ligação para a cidade através da Avenida Salvador Allende. O partido horizontal possibilitou uma implantação envolvida pela lagoa permitindo ampla visualização da paisagem e a integração dos espaços com grandes jardins destinados a banhos de sol dos pacientes.

Nessa unidade, como o atendimento se destina unicamente a reabilitação, não há, portanto, ala de internação. Mesmo assim, nesse projeto, como em todos os outros hospitais da rede Sarah Kubitschek, Lelé materializa a ideia de humanização através do contato com a natureza e a arte. O edifício horizontal totalmente envolto por jardins aproxima o usuário do contato visual com as pessoas e como exterior. Entretanto, a maneira como o centro foi implantado demonstra também uma semelhança com a noção de humanização defendida por Costa: sua horizontalidade e as dimensões reduzidas de cada unidade aproximam o usuário do ambiente. Cada unidade articula-se ao conjunto do hospital como um elemento autônomo, o que permite ao paciente a compreensão de sua escala e seus limites com o espaço exterior.

Além da integração do edifício com os espaços externos, Lelé integra a arquitetura com os painéis coloridos do artista plástico Athos Bulcão. Através do contato com estas obras de arte, busca-se sensibilizar os pacientes, estimulá-los com as diferentes cores e formas e contribuir, desta maneira, para o processo de cura. Entretanto o estímulo pela arte não é proposto somente através de sua contemplação. No Centro de Reabilitação Infantil do Sarah há oficinas de artes com os usuários e os trabalhos produzidos pelos próprios pacientes são utilizados para enfeitar as paredes do centro. Percebe-se aqui, novamente, grande semelhança com a definição de humanização hospitalar de Costa. Através dessas oficinas e da exposição de seus resultados, a questão da impessoalidade do espaço hospitalar e a ausência de personalização dos ambientes são contrapostas pela possibilidade de identificação do paciente a este espaço e de sua aproximação aos ambientes familiares.

O uso da luz e da ventilação naturais em todos os ambientes – questão fundamental na obra de Lelé – garante, como afirma o arquiteto, a interação com a natureza e de proporcionar o bem-estar dos pacientes. Às usuais iluminação e ventilação artificial dos espaços herméticos de hospitais, opõem-se a variabilidade de luzes e a oscilação da ventilação natural ao longo do dia. Através do uso extenso de sheds, o arquiteto enseja não somente uma maior integração com o espaço natural, como também um importante artifício de combate à infecção hospitalar. Para evitar a incidência direta do sol e, consequentemente, um ganho excessivo de calor nos ambientes internos, os sheds são protegidos por venezianas. Ou seja, assim como no restante da edificação, Lelé alia em seus sheds a funcionalidade do edifício hospitalar à humanização deste. Entretanto, neste projeto o hospital torna-se humano não somente pelo contato com o belo, com a natureza e a arte, mas também pela busca da personalização deste espaço, tendo analogia com espaço familiar.

Hospital Pediátrico Robert Debré

O Hospital Pediátrico Robert-Debré, projeto do arquiteto Pierre Riboulet, foi inaugurado em 1988 e se situa ao norte de Paris; é cercado ao sul pelo Boulevard Serurier e ao norte pelo anel periférico, ruas de grande importância na estrutura urbana de Paris. O edifício do hospital destaca-se claramente do entorno por sua forma e tamanho irregular.

Seu partido arquitetônico marca uma ruptura com o hospital tradicional, através da relação criada entre o espaço público e o espaço hospitalar. Trata-se do primeiro projeto na França em que se buscou a vinculação deste equipamento ao tecido urbano adjacente por meio de uma galeria pública que penetra transversalmente no hospital e organiza o acesso aos diversos serviços deste. Após esse primeiro ensaio, outros arquitetos franceses utilizaram o mesmo artifício ao buscar o prolongamento da cidade para dentro do hospital.

A ideia dessa galeria pública não é a de um simples corredor que percorre todos os espaços do hospital, mas sim de um espaço de convivência e relação com a sociedade. Nela se encontram usos que não estão diretamente vinculados ao hospital (tais como lojas e lanchonetes) e permite-se sua apreensão e apropriação como um grande espaço semipúblico.

Entretanto, além da analogia com o espaço urbano, frequentemente aventada nas descrições deste hospital, percebe-se nele também a busca da humanização através da integração com a natureza e arte. A grande galeria é também um local de exposição de obras de arte; um jardim interno vincula-se-lhe e a articula a uma série de terraços-jardins exteriores que ampliam seu espaço e suas fronteiras, de tal forma que ela parece desdobrar-se ao exterior. Assim como o arquiteto brasileiro Lelé, Riboulet busca promover a iluminação natural nos ambientes hospitalares.

A atenção dada no projeto à integração com jardins e obras de arte e à promoção de iluminação natural é demasiado intensa para que seja percebida como mera obra do acaso. Percebe-se uma relação íntima entre o emprego desses artifícios e a busca da humanização do espaço hospitalar semelhante à encontrada em Lelé. Entretanto, o enfoque do partido arquitetônico adotado por Riboulet volta-se para a humanização através da mudança da fronteira entre o espaço público e o privado, e da tentativa de ensejar através desta, uma nova urbanidade dentro do espaço hospitalar.

Considerações finais

Através desse trabalho, podemos concluir que o conceito de humanização do espaço hospitalar ainda está para ser definido. Por ora, como se demonstrou ao longo deste artigo, o que se percebe é que – na ausência de um consenso sobre esta noção – buscam-se permanentemente analogias na esfera do discurso que permitam torná-la mais concreta e acessível na prática.

A utilização de outros espaços arquitetônico-urbanísticos como metáforas faz-se presente em todos os discursos analisados e tem como fim o direcionamento das práticas projetuais ensejadas a partir destes. Nesse sentido, a analogia com o hotel deveria levar uma maior atenção e cuidado com as alas de internação; a natureza e a arte conduziriam à articulação do projeto a jardins e à integração deste com obras de arte; o uso da metáfora do lar permitiria a redução da escala dos ambientes hospitalares e a busca da possibilidade de personalização destes espaços; e, por último, a referência à cidade direcionaria o projeto a uma maior integração do espaço privado ao público, inserindo o hospital dentro do tecido urbano adjacente.

Entretanto, o que se percebe na prática é a materialização de conceitos híbridos. As diversas analogias ocorrerem simultaneamente, embora sempre haja uma maior ênfase numa ou noutra. Se, na esfera do discurso, essas metáforas, devido ao fato de implicarem diferentes graus de sociabilidade e de privacidade, poderiam parecer antitéticas, o que se percebe na prática é a possibilidade de sua coexistência sem o registro de conflito algum: estas permitem sua hibridação e adequam-se a diferentes unidades do hospital.

Entre metáforas e práticas híbridas, o conceito de humanização hospitalar permanece aberto. As diversas noções e experimentações projetuais sobrepõem-se e somente o tempo poderá permitir que entre essas camadas alguns elementos solidifiquem-se, que venham permitir a compreensão do conjunto e contribuir, portanto, para a construção de uma definição única de humanização.

notas

1
DE GÓES, Ronald. Manual prático de arquitetura hospitalar. São Paulo, Edgar Blucher, 2004.

2
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de janeiro, Editora Graal, 1989, p. 99.

3
Remete-se o leitor aos seguintes textos: SILVA, Kleber Pinto. A idéia de função para a arquitetura: o hospital e o século XVIII – parte 1/6. Considerações preliminares e a gênese do hospital moderno: Tenon e o Incêndio do Hôtel-Dieu de Paris. Arquitextos, São Paulo, ano 01, n. 009.05, Vitruvius, fev. 2001 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/01.009/919/pt>; PEVSNER, Nicolaus. Hospitales. In: Historia de las Tipologias Arquitetonicas. Barcelona, Gustavo Gili, 1980, p. 165-382.4; SILVA, Kleber Pinto. A idéia de função para a arquitetura: o hospital e o século XVIII – parte 6/6. Função, um conceito?: aprendendo com Tenon e considerações finais. Arquitextos, São Paulo, ano 02, n. 019.05, Vitruvius, dez. 2001 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/02.019/823>.

5
SILVA, Kleber. Op. cit., 2001

6
No Brasil esse movimento teve seu ápice na 8º Conferência de Saúde em 1986, cujo resultado principal foi à proposição do Sistema Único de Saúde na Constituição de 1988.

7
FIGUEROLA, Valentina. “Em dia com a saúde”, AU, set., 2002, p. 24-29.

8
KARMAN, J. “Tratamento e humanização”, Projeto Design, n. 214, nov. 1997, p. 44.

9
MIQUELIN, Lauro. “Um lindo hotel, parece um hospital”, Projeto design, nov., 1997, p. 104-107.

10
Idem, ibidem.

11
LIMA, João Filgueiras. O que é ser arquiteto: memórias profissionais de Lelé (João Filgueiras Lima). Depoimento a Cynara Menezes. Rio de Janeiro, Record, 2004, p. 50.

12
Idem, ibidem.

13
Idem, ibidem.

14
COSTA, José Ricardo Santos de Lima. “Espaço hospitalar: a revolta do corpo e a alma do lugar”. Arquitextos, n. 013, 2001. Disponível em: <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/bases/texto079.asp>. Acessado em 19 de Janeiro de 2009.

15
COSTA, José Ricardo Santos de Lima. Op. cit., 2001.

16
Idem, ibidem.

17
Idem, ibidem.

18
Idem, ibidem.

19
FERMAND, C. Lês hôpitaux et les cliniques. Paris, Édition déléguée, 1999, p. 79-80, passim – tradução nossa.

20
KARMAN, J. Op. cit.

sobre os autores

Marieli Azoia Lukiantchuki é arquiteta e urbanista, graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Estadual de Maringá, mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Arquitetura, Urbanismo e Tecnologia da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo

Gisela Barcellos de Souza é arquiteta e Urbanista pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestre em Projet Architetural et Urbain pela Université de Paris VIII, doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura e urbanismo da Universidade de São Paulo, Professora Assistente da Universidade Estadual de Maringá – Departamento de Arquitetura e Urbanismo

 

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