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my city ISSN 1982-9922

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DIAS, Fabiano. O muro (e o arquiteto). Minha Cidade, São Paulo, ano 04, n. 048.01, Vitruvius, jul. 2004 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/04.048/2008>.


Morro da Rocinha no Rio de Janeiro, alvo de mais um muro da vergonha


 

O historiador francês do séc. XIX, Fustel de Coulanges, nos relata em seu livro “A Cidade Antiga” (La Cité Antique) como se formaram as cidades dos primórdios de nossa Antiguidade Clássica, com base na formação social e religiosa da família. O pai, líder máximo de cada família, juiz, sacerdote e na sua pós-morte, elevado a condição de um Deus dentro do Panteão doméstico de cada família, tinha ainda em vida, a obrigação sagrada de delimitar sua terra, o seu lugar por direito sagrado, através de um arado puxado por animais e por todo um rito religioso onde a família ali participava. Consagrando-se o lugar e pedindo a benção aos seus deuses domésticos, se erguiam as cercas e muros, os limites sagrados do seu solo, futuro lugar de seu descanso eterno. O lugar de criar sua família, seus animais, de plantar e colher seus frutos, de assar seu pão e de enterrar seus mortos (1).

Esta forma de demarcar os seus domínios, foi a forma da Humanidade de demonstrar que ela pertencia aquele lugar, sagrado no principio e que com o passar das Eras, transformado em sinônimo de poder e riqueza com o surgimento das primeiras cidades. As Cidades-Estados gregas se fortificavam em altos muros contra seus vizinhos; as cidades romanas se protegiam das invasões dos “bárbaros”, não civilizados pelo poder do seu Império, e assim foi até a sua destruição com suas muralhas subjugadas por esta mesma horda de bárbaros. Com a desarticulação do poder central de Roma, o Império se fragmenta em feudos na Idade Média, onde cada senhor feudal possuía seu castelo fortificado marcando a sede de seus domínios sobre a terra e seus servos. As cidades se reorganizam através do comércio e do poderio militar, e, portanto necessitavam de altas muralhas para assegurar sua prosperidade. As cidades crescem, se enriquecem, tornam-se grandes nós comerciais e do novo poder do Estado e do poder histórico da Igreja, verdade seja, há muito incrustado em suas fundações.

Mas a cidade começa a ficar pequena para a nova horda de invasores: os camponeses em busca de novas oportunidades e fugidos da servidão dos campos. Os antigos muros medievais agora se tornam obstáculos para o crescimento da cidade. Seu urbano se expande, sua população cresce rapidamente atraída pela oferta de empregos nas fábricas da Era da Revolução Industrial. A antiga cidade das muralhas se vê agora envolta no caos urbano e nas revoltas sociais. Estas urgências trazem novas idéias de cidades, mais abertas ao fluxo de pessoas e do exército, com amplas avenidas, organizadas em lotes privados e de desenho retilíneo, a exemplo das reurbanizações das cidades novecentistas de Paris de Haussmann e da Barcelona de Cerdá. A cidade se acelera, suas pessoas andam a passos largos e apressados; a cidade é tomada pela pressa e pela velocidade. A cidade não é mais contemplativa e sim, passageira. Ela se enfeia pelo esquecimento e o acelerar da vida já anunciada nos finais do séc. XIX. Como conseqüência, a vida social começa a se interiorizar, o espaço público perde seu significado e o burburinho tem lugar agora atrás dos muros das casas, no seu interior mais requintado do que o ambiente urbano. Os muros agora protegem o lote, o pequeno feudo de cada um, dos horrores da cidade moderna (2).

Nós, arquitetos das primeiras décadas do séc. XX nos empenhamos sob a égide do Movimento Moderno a buscar novos urbanos, novas cidades sem muros e barreiras para um novo homem universal e igualitário. Le Corbusier projeta o Plan Voisin para Paris e a Cidade para Três Milhões de Habitantes. Em sua Carta de Atenas, cria as bases para o desenvolvimento urbano das cidades modernas do séc. XX: cidade zoneada, planificada com grandes jardins, avenidas para a locomoção do automóvel e as superquadras pousadas sobre pilotis em áreas públicas, abertas a todos da cidade (3). Lúcio Costa e Oscar Niemayer cristalizam os ideais da Carta de Atenas e do Movimento Moderno no plano de Brasília, hoje, marco de uma Era de arquitetos idealistas. Os planos modernistas sucumbem aos interesses capitalistas e ao crescimento urbano desenfreado. A cidade contemporânea continua sendo loteada sempre em direção de sua expansão, seja ela para fora de seus limites antigos, ou, seja para cima com a construção de edifícios cada vez mais altos. Os muros são uma marca desta cidade que termina o séc. XX e inicia um novo século. Muros, grades e gradis são sinônimos não mais do lugar sagrado de cada família, mas de um dos sintomas desta nova Era: a insegurança. A insegurança de ir e vir, a insegurança de se pisar na rua e não saber se você vai voltar para sua casa, a insegurança com seus governantes e com a polícia... Os condomínios fechados, com toda a sorte de aparatos de segurança se proliferam em áreas nobres bloqueando a entrada de estranhos e criando verdadeiras cidades dentro da cidade original.

 

Mas o que nos espanta neste momento, é uma nova modalidade de muro (aparte dos muros virtuais da Internet com seus logins e senhas): é o muro que protege o morador dele mesmo! Enquanto tínhamos o conceito de muro como forma de bloquear a entrada de estranhos, de deixar do lado de fora a violência e insegurança de nossas cidades, e nós arquitetos aceitando ou não esta condição (e continuando a projetar sem nunca esquecer o muro), não nos era estranho. O estranho seria mesmo uma casa sem muros nos dia de hoje, fato a ser comentado por qualquer cidadão contemporâneo. Mas é na cidade do Rio de Janeiro, tão felicitada pelas suas belezas naturais, em contrapartida de toda sua violência urbana que alcançou um status de problema crônico, que surge de seu governo estadual e das mãos de seu Vice-governador e arquiteto, a idéia de se murar todo o perímetro do morro da Rocinha como forma de conter seu crescimento urbano, e, por conseguinte, o crescimento do poder das facções criminosas de traficantes que constantemente se enfrentam, sacralizando em frente às câmeras a tão especulada guerra civil nas cidades brasileiras. Como se o problema fosse simplesmente urbano e se, para piorar o efeito da proposta, um muro de três metros de altura conseguisse frear um problema social e político. A história não nos faz esquecer de algo semelhante ocorrido em tempos não muito distantes: o julgo nazista sobre a cidade de Varsóvia, em especial, sobre o bairro judeu conhecido historicamente como o “Gueto de Varsóvia”. O contexto é outro, logicamente, mas inevitavelmente caso a proposta venha a se consolidar, iria transformar a Rocinha em um “gueto” e criar um problema social muito mais grave do que o já instaurado, ou no mínimo, realçar as barreiras sociais que já transformam aquela região ou qualquer outra idêntica no País em um grande gueto de excluídos e marginalizados (4).

Vivemos ainda sob os efeitos das dicotomias Pós-modernas: de um lado, vemos o avanço da Internet, da computação e da comunicação global como forma de se quebrar as barreiras sociais, geográficas e políticas, diminuindo as distancias que separam as pessoas e suas diferenças sociais (pelo menos é o que se tenta propagar). Vemos programas sociais que sobem os morros e levam todos esses novos meios de comunicação e interação com o mundo a estas mesmas pessoas que agora são ameaçadas de ter o seu direito de ir e vir controladas por um muro, se já não bastasse o controle que o tráfico impõem a sua vida cotidiana. Ou seja, deste outro lado, se impõem agora barreiras físicas contra o problema social. Raros são os momentos que arquitetura e a política conseguem entrar em acordo, e o pior é quando a insensatez política consegue ser maior do que qualquer estudo urbano da cidade.

Não queremos aqui discorrer sobre os problemas sociais e políticos por que passam nossas cidades, pois esta não é nossa intenção. Mas com certeza, a idéia do muro é declaradamente um erro político e social, passando longe de ser uma solução urbana. Se dermos uma passada rápida por qualquer favela de nosso País, percebemos a primeira vista que o “muro” , como elemento físico, é quase inexistente, já que o loteamento do morro é algo que beira a ”subjetividade”, e que a vida da favela reside nesta mistura de vida público-privada, na mistura de cheiros e sons, nas pessoas se olhando, se vigiando como proteção ou mesmo no acobertamento. Na verdade, o muro da Rocinha seria uma grande agressão a vida que estas pessoas possuem, pois gostando ou não da paisagem “lá de cima”, é a vida que elas têm para viver e cabe a cada um de nós, buscar formas de cada vez mais melhorar sua situação, seja com políticas sociais, políticas habitacionais, políticas de melhoria de renda... Algo que já estamos cansados de ouvir e de falar.

notas

1
COULANGES, Fustel De. A cidade antiga. Juruá Editora. Vol. I, págs. 58-66. Curitiba, 2002. Esperamos não temos recorrido a nenhum erro histórico no decorrer desse texto, pois foi nossa intenção que o mesmo fosse breve e sucinto nas transformações urbanas da história das cidades.

2
Ver em especial: BENEVELO, Leonardo. A História da Cidade. Ed. Perspectiva. São Paulo, 1983.  Ou Ainda: LAMAS, José M. R. G.. Morfologia Urbana e o desenho da cidade. Fundação Calouste Gulbenkian/Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica. Lisboa, 1992.

3
Ver em especial: FRAMPTON, Kenneth. História crítica de la arquitectura moderna. Editorial Gustavo Gili. 6.ª edición ampliada. Barcelona, 1993

4
O cinema americano, prevendo um futuro caótico, conseguiu chegar bem mais longe neste conceito. Na década de 80 deste nosso último século, no filme de ficção-científica “B” “Fuga de Nova Iorque”, em um futuro não muito distante, a cidade de Nova Iorque, especificamente a Ilha de Manhatan foi transformada em um enorme presídio com todo o seu perímetro cercado por altos muros e guardas vinte e quatro horas. Um governo paralelo e anárquico se instalou em seu interior e a única possibilidade de se sair deste local, seria morto. O sucesso foi tanto que gerou uma continuação, a “Fuga de Los Angeles”, alguns anos mais tarde.

sobre o autor

Fabiano Dias é arquiteto-urbanista.

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