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my city ISSN 1982-9922

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ANELLI, Renato. Pedido de Tombamento do Conjunto Esportivo Constâncio Vaz Guimarães. Processo Condephaat n. 01238/2017. Minha Cidade, São Paulo, ano 21, n. 244.03, Vitruvius, nov. 2020 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/21.244/7950>.


Ginásio visto do interior do parque, com o lago em primeiro plano, o Monumento das Bandeiras à esquerda
Foto Renato Anelli


“A noção de monumento histórico compreende a criação arquitetônica isolada, bem como o sítio urbano ou rural que dá testemunho de uma civilização particular, de uma evolução significativa ou de um acontecimento histórico. Estende-se não só às grandes criações, mas também às obras modestas, que tenham adquirido, com o tempo, uma significação cultural”
Carta de Veneza, 1964

A decisão pela abertura ou não de um processo de tombamento de um bem deve estar embasada no conhecimento construído pela cultura de preservação de patrimônio cultural, consolidado nas cartas patrimoniais.

Partimos dos postulados enunciados na Carta de Veneza de 1964, documento do Segundo Congresso Internacional de Arquitetos e Técnicos dos Monumentos Históricos, de onde destacamos a epígrafe acima.

Iniciaremos a análise do Conjunto Esportivo Constâncio Vaz Guimarães pelo valor intrínseco de sua arquitetura e de sua inserção urbana; pelo testemunho do momento histórico no qual foi produzido e pela significação cultural que adquiriu com o passar do tempo.

Em seguida analisaremos a argumentação do Conselheiro Pedro Taddei, relator do processo, que recomenda a não abertura do processo de tombamento devido à falta de singularidade da sua arquitetura e à obsolescência do Conjunto Esportivo para os parâmetros funcionais atuais. Para isso utilizaremos a pioneira Carta de Atenas: restauração de monumentos históricos do I Congresso Internacional de Arquitetos e Técnicos em Monumentos (1931) e o Documento de Madrid: critérios para a conservação do patrimônio arquitetônico do século 20 (2011).

As variações do perímetro do Parque do Ibirapuera e a implantação do Conjunto Esportivo

O Parque do Ibirapuera ocupa uma gleba de terras devolutas, municipalizadas a partir de 1891 pelo Ministério da Agricultura. Em 1926, o prefeito Pires do Rio propôs que essa gleba fosse transformada em um grande parque municipal, ao que se seguiram diversos projetos até chegarmos ao parque que conhecemos hoje. Como exaustivamente comprovado pela literatura agenciada pelo estudo do DPPH, todos eles abrangeram a área da Invernada dos Bombeiros, onde se situa o atual Conjunto Esportivo com seu Ginásio.

Anotação em vermelho realizada pela UPPH aponta a localização da área ocupada hoje pelo conjunto Esportivo. “Levantamento cadastral de parte das várzeas do Ibirapuera e Caguassú”, de dezembro de 1926 [Processo n. 1982-0.015.231-6, fundo Parque Ibirapuera, caixa PI 14 (AHM) / in BARONE, Ana ]

Apesar da ocupação paisagística ter sido iniciada com o plantio de eucaliptos para drenar o charco, ainda na década de 1930, apenas duas décadas depois, as preparações para o IV Centenário da Cidade de São Paulo desenvolveram os projetos e obras do parque atual.

O propósito comemorativo exigiu o caráter monumental do conjunto como um todo, ainda que a divisão entre o evento cultural e o esportivo tenha estabelecido alguma diferença relevante.

Parque Municipal Ibirapuera. Planta do projeto de 29 de novembro de 1933 [Processo n. 2003-0.328.958-5, fundo Parque do Ibirapuera / Arquivo Histórico Municipal / i]

Criada em 1951, a Comissão do IV Centenário foi dirigida por Ciccillio Matarazzo, fundador do Museu de Arte Moderna de São Paulo e da Bienal Internacional de Artes de São Paulo. Coerente com sua visão de arte e arquitetura, Matarazzo contratou Oscar Niemeyer e equipe para o projeto dos pavilhões expositivos, teatro e marquise. Já os equipamentos que abrigariam o calendário esportivo do IV Centenário ficaram à cargo do Departamento de Esportes do Estado de São Paulo DEESP, que incumbiu o arquiteto Ícaro de Castro Mello para o projeto.

A divisão de responsabilidades ficou expressa na distribuição espacial. O Conjunto Esportivo foi alocado no último terreno transferido em 1943 ao município para a construção do parque. Situada no extremo norte da Invernada dos Bombeiros, acima da margem direita do córrego do Caguaçu, o Conjunto Esportivo teve de compartilhar a área com a Assembleia Legislativa e o Exército, ali instalado desde 1932.

No Decreto-lei 13.291/43, que autoriza a transferência desse terreno, estão claramente grafados o uso esportivo e o seu pertencimento ao conjunto do parque:

“Da área referida na alínea III supra, será reservada para a instalação escolar e esportiva da Diretoria de Esportes, uma fração, sita na sua extremidade superior, medindo 105.340,00 m2, podendo o Estado construir e fazer funcionar na mesma a citada instalação, sem outra restrição que a de manter o aspecto de parque e apresentar seus projetos à aprovação arquitetônica e paisagística da prefeitura, para harmonização do conjunto”.

Ora, é inequívoco que o Conjunto Esportivo foi construído em área prevista para o Parque do Ibirapuera desde 1926. Área que recebeu vários projetos até o definitivo, elaborado pela Comissão do IV Centenário e pelo DEESP. Também é inquestionável que o uso da área deve ser exclusivamente o esportivo e o educacional, enquanto o Decreto-lei 13.291/43 estiver em vigência.

O caráter monumental do Conjunto Esportivo e o sentido de unidade espacial e estética com o Parque do Ibirapuera

Construído em um momento de forte projeção internacional da arquitetura moderna brasileira, os edifícios projetados por Oscar Niemeyer e Ícaro de Castro Mello interpretaram o propósito monumental do conjunto em chave moderna. Seguiram os princípios da nova monumentalidade, sintetizados no documento dos arquitetos Sigfried Giedion e Josep Lluís Sert, e do artista Fernand Léger, Nove pontos sobre monumentalidade, 1943. Os princípios desse documento foram referenciais para a arquitetura do pós-guerra em todo o mundo. Teve fortes repercussões na arquitetura moderna brasileira, sendo Brasília sua aplicação plena.

A ênfase no arrojo estrutural e na clareza das formas como modo de destacar os monumentos na paisagem urbana é comum às obras do período. O ginásio, os pavilhões e a marquise do Ibirapuera associam-se à arquitetura monumental da Cidade Universitária da USP, do Museu de Arte de São Paulo, das escolas municipais do Convênio Escolar, das escolas estaduais do Fundo Estadual de Construção Escolar – Fece, da rede de equipamentos públicos do Plano de Ação do Governo Estadual – Page de Carvalho Pinto, enfim, de um expressivo conjunto arquitetônico disperso pelo Estado de São Paulo, capital e interior, que registra o esforço público para o seu desenvolvimento econômico e social ao longo de vários governos.

A escolha da forma circular para o ginásio, encimado por uma estrutura em cúpula, conferiu a ele um papel de destaque no conjunto composto pelos quatro pavilhões retangulares sobre pilotis, a cúpula do Palácio das Artes (atual Oca), e a verticalidade do obelisco. Em foto aérea da construção, que ilustra o Dossiê Preliminar elaborado pelo DPPH (p. 166), apenas a forma orgânica da marquise encontra maior importância visual.

A altura e forma do volume do Ginásio lhe confere forte presença urbana, inclusive no interior do Parque, superando os limites das volumetrias baixas da Assembleia Legislativa, da sede do Quartel General do Exército – 2ª Região Militar e das avenidas.

Parque do Ibirapuera no início dos anos 1950, com Ginásio em construção ao fundo, a cúpula do Palácio das Arte (atual Oca) no centro, junto à marquise
Foto Wernwe Haberkorn [Website Parque Ibirapuera Conservação]

Os vários estudos apresentados no Dossiê revelam que a concepção formal do Ginásio surge logo no início e permanece até o final, enquanto os demais equipamentos se alteravam. Define-se assim uma hierarquia na qual o volume principal do ginásio se impõe, enquanto um eixo de simetria na diagonal do terreno organiza o velódromo e o Ginásio Poliesportivo Mauro Pinheiro na outra extremidade. Tal implantação constitui um valor estético de grande relevância, tanto nas visadas a partir do solo, quanto naquelas aéreas.

Os projetos de outros ginásios projetados pelo arquiteto, reunidos no Dossiê, permitem identificar o lugar deste ginásio no desenvolvimento da poética formal do arquiteto. Todos buscam no perfil da cobertura um papel de destaque na paisagem urbana. A forma dessa silhueta evolui, do semicírculo, em Sorocaba (1949) e Ribeirão Preto (1950), às curvas compostas da piscina na Água Branca (1948) e no Ginásio do Ibirapuera (1953). Enquanto na piscina a cobertura de concreto armado apresenta na parabolóide hiperbólica o seu melhor desempenho estrutural, no Ibirapuera as delgadas treliças metálicas permitem o achatamento da cúpula, não mais a rotação de um semicírculo mas uma parabolóide elíptica horizontal rotacionada. O uso do arcos de madeira contraplacada no ginásio de Sorocaba, de arcos de concreto pré-moldados em diferentes altura na Água Branca e de treliças de ferro redondo de construção no Ibirapuera revelam um arquiteto em contínua exploração da forma estrutural de acordo com as potencialidades dos materiais. Deve ser lembrado que em 1953/54 as estruturas metálicas eram mais inovadoras que as de concreto, o que lhe confere um papel pioneiro em um momento que as estruturas em aço ainda era de difícil acesso aos construtores.

O perfil achatado da cúpula confere identidade própria ao volume do ginásio e constitui importante demonstração da relação entre forma e sistema estrutural na arquitetura moderna brasileira do período. A estrutura mista, de concreto armado nas arquibancadas e parte inferior da estrutura principal e de treliças metálicas na cobertura, permite uma seção que seria impossível às tradicionais cúpulas de alvenaria de pedra ou tijolo. Desse modo, o desempenho estrutural das treliças metálicas confere modernidade à cúpula, forma associada à monumentalidade desde a antiguidade clássica.

Corte do Ginásio do Ibirapuera. Observar o perfil em paraboloide elíptica das treliças que compõe a cobertura [In MELLO, Joana (Org.)]

As demais edificações que compõem o conjunto foram definidas em tempos diferentes, ainda que implantadas de acordo com o planejamento geral do arquiteto. O atual estádio de atletismo, construído como velódromo, foi a única delas a ser também projetada por Castro Mello. Concebido de modo a assumir o segundo lugar na hierarquia do Conjunto Esportivo, o velódromo foi caracterizado pela forma da arquibancada central. Nela, novamente o arquiteto usa de uma forma estrutural peculiar para adquirir destaque e dialogar com a volumetria do ginásio. Os pilares inclinados que suportam a parte posterior das arquibancadas são prolongados acima do teto, conferindo-lhes uma estatura que ultrapassa a altura da base do volume do ginásio. A repetição da forma triangular em forte ângulo agudo cria um ritmo de fundo para o perfil da cúpula do ginásio, facilmente identificável na iconografia reproduzida no Dossiê (pp 189 e 190). O valor estético desse procedimento formal na estrutura da arquibancada sobreviveu à substituição de seu uso, quando deixou de ser a arquibancada de um velódromo e passou a ser um estádio de atletismo em 1965. Nele, uma nova arquibancada circunda todo o estádio, em altura que não compromete o destaque da parte central coberta. As qualidades da pista são reconhecidas pelas várias gerações de atletas que ali treinam e competem, tendo sediado competições nacionais e internacionais ao longo de mais de 40 anos.

Inaugurado em 1968, logo em seguida à conversão do velódromo em estádio de atletismo, o setor aquático projetado pelo arquiteto Nestor Lindenberg segue o mesmo procedimento de Castro Mello na configuração da estrutura das arquibancadas.  Os pilares de perfil triangular, com as pontas agudas se destacando do plano da arquibancada são dispostos apontando na direção oposta da piscina, criando assim um interessante contraponto às arquibancadas do estádio, mas mantendo um mesmo padrão formal.

O Ginásio Poliesportivo Mauro Pinheiro, situado na extremidade eixo de simetria oposta ao ginásio principal, tem sua cobertura horizontal, como se não pretendesse competir com a verticalidade das arquibancadas, nem com a imensa cúpula. Internamente, os domus de iluminação zenital garantem uma luz difusa.

Os valores de testemunho histórico e de caráter estético do Conjunto Esportivo, em seu sentido monumental, devem ser reconhecidos. Já o foram para a maior parte do complexo do Parque Ibirapuera, dentro do qual foi concebido como parte das comemorações de um momento histórico, o IV Centenário de São Paulo.

Vista do conjunto em 2006
Foto Sergio Valle Duarte

O significado cultural do Conjunto Esportivo Constâncio Vaz para o esporte e a cultura

O significado cultural do Conjunto Esportivo combina a rememoração do IV Centenário com a memória do uso cotidiano dos equipamentos nos anos seguintes, através de políticas públicas de formação.

Como muitos monumentos, o Parque do Ibirapuera se apresenta como um todo, apesar das falhas de cronograma na conclusão das obras. A cronologia de inaugurações dos edifícios planejados para as comemorações do IV Centenário foi corretamente estabelecida pelo Dossiê Preliminar. Na data de 25 de janeiro de 1954 as principais obras ainda se encontravam em andamento, sendo os festejos oficiais de inauguração realizados junto à escultura-símbolo do evento. Curiosa coincidência ser a única a não estar preservada, pois desmoronou pouco depois da inauguração (p. 159-160).

A literatura agenciada pelo Dossiê explica o descompasso entre o ritmo de construção do Conjunto Esportivo em relação às demais obras. Diferentes modos de gestão entre a Comissão do IV Centenário e o DEESP parecem explicar os motivos que levaram o Ginásio a ser inaugurado apenas em janeiro de 1957, data bem posterior ao encerramento das comemorações.

Único equipamento esportivo inaugurado em 1954, o velódromo, também revelou problemas. Foi reformado em 1958 para atender novos parâmetros das competições internacionais, que exigiam adaptações no tamanho da pista e raios de curva. Mesmo assim, as adaptações não foram suficientes para que ele pudesse participar dos Jogos Pan-Americanos de 1963.

Encerradas as comemorações do IV Centenário e concluídas as obras do Ginásio, o Conjunto Esportivo tornou-se uma referência para os esportistas paulista. Inserido nas políticas públicas de formação do cidadão através da Educação, Cultura e Esporte, conforme bem apresentado pelo Dossiê Preliminar da UPPH, o Conjunto Esportivo reúne a promoção de grandes eventos à formação de novos atletas.

Depoimentos presentes no Dossiê e manifestações públicas de apoio ao tombamento, demonstram a eficiência das políticas públicas de formação esportiva, tanto no acolhimento de jovens atletas, como no aprimoramento de suas capacidades para competições de alto desempenho. Maurren Maggi, Ana Moser, Vera Mossa, Ricardo Prado, Rogério Bispo, Poliana Okimoto, Rafael Baby, Leandro Guilherme, Maju Herklotz, Heitor Shimbo e tantos outros alinham-se em defesa da preservação do Conjunto Esportivo.

Destaque-se que o desenvolvimento do esporte paulista teve como base a rede de equipamentos públicos, estaduais e municipais, das principais cidades médias. Construídos entre as décadas de 1940 e 1970, esses ginásios e conjuntos esportivos encontraram no Ibirapuera o centro de referência estadual para suas atividades, assim como o modelo de espaço físico para sua arquitetura e programa.

O Ibirapuera insere-se assim em uma rede que engloba desde os conjuntos esportivos do DEESP projetados por Ícaro de Castro Mello e listados no Dossiê (Sorocaba - 1949, Ribeirão Preto - 1950), até os conjuntos esportivos municipais como os de Piracicaba (1955, Ginásio Municipal Waldemar Blatkauskas), de Campinas (1957 Ginásio de Esportes do Taquaral), de Araraquara (1969, Ginásio Gigantão), entre tantos.

Como qualquer ginásio de grande porte, o Ginásio do Ibirapuera é flexível o suficiente para ser utilizado para outras atividades além dos esportes. Eventos religiosos, culturais, shows musicais de grande público estão presentes na sua história, atendendo público vindo de cidades de todo o estado de São Paulo.

A respeito do parecer do conselheiro relator

As relevantes manifestações afetivas de atletas e de vários segmentos da sociedade pela preservação do Conjunto Esportivo não foram consideradas. Ao afirmar que a “memória do esporte é melhor resguardada e difundida por projetos museológicos”, o colega relator descarta a relevância do sítio arquitetônico e urbano como testemunho dos fatos memoráveis, aspecto bastante reconhecido dentro do campo da preservação. Despreza a relevância do lugar marcado por experiências coletivas e individuais, cujo reconhecimento constitui um dos principais fundamentos das discussões sobre a preservação do patrimônio cultural, tarefa à qual se dedica este Conselho.

O fato dele ser o mais destacado exemplar de uma rede estadual de equipamentos esportivos não encontra eco no parecer do relator. Apesar da evidente relevância de sua forma monumental, o colega conselheiro relator não encontra na sua arquitetura, qualquer singularidade que justifiquem seu tombamento. Destaca as deficiências de projeto sem levar em conta que, a despeito de eventuais problemas, o Ginásio foi utilizado, com extremo sucesso, desde sua inauguração por diversos tipos de atividades esportivas e culturais.

Afirma que as grandes Arenas não realizam mais os grandes eventos e que a maioria do público é composto por convidados dos patrocinadores, citando como exemplo a gestão do Madison Square Garden. A gestão dos espaços não deve ser considerada como fator determinante para seu tombamento ou não. Pelo contrário, o reconhecimento do Patrimônio Cultural pode ser, também, uma forma de rever a gestão administrativa e financeira.

Os desafios da preservação frente aos novos parâmetros de uso e de políticas públicas

Aqui se impõe uma reflexão sobre o uso dos bens tombados e as eventuais necessidades de alterações. Dificuldades de adaptação para parâmetros contemporâneos dos bens tombados seriam as responsáveis pelo estado de abandono de regiões inteiras das cidades. Ainda que tal afirmação se imponha pela repetição e careça de comprovação, é nosso dever informar que a utilização de um bem tombado é reconhecida como essencial para a sua preservação.

Já na Carta de Atenas de 1931, pode ser lido que:

“a conferência recomenda que se mantenha uma utilização dos monumentos, que assegure a continuidade de sua vida, destinando-os sempre a finalidades que respeitem seu caráter histórico ou artístico”.

Foi esse postulado que levou a Itália a recuperar seus antigos edifícios semidestruídos pela II Guerra Mundial e os transformar nos mais importantes museus criados no período.

Também as edificações do século 20 vem sendo objeto de debate. Em 2011 o Comitê Científico Internacional para o Patrimônio do Século 20 do Icomos definiu critérios para sua conservação, reunidos no Documento de Madrid.

“Podem ser introduzidas pequenas alterações que melhorem o comportamento e a funcionalidade de um bem na condição de que o seu significado cultural não se veja prejudicado. Quando se pondera uma mudança de uso, deve ter-se o cuidado de encontrar uma reutilização adequada que conserve o significado cultural do patrimônio”.

São parâmetros razoáveis, que vêm fundamentando planos de preservação elaborados já há vários anos, inclusive no Brasil. Um caso de mudança de uso bem sucedido é o Sesc Pompeia, a adaptação de uma fábrica desativada para centro de lazer, cultura e esportes. Como manutenção do uso original podemos destacar o restauro das escolas públicas paulistas da primeira república, onde os edifícios foram adaptados sem descaracterizar a arquitetura.

Definido o valor cultural do Conjunto Esportivo do Ibirapuera, a questão central será garantir o uso adequado às características que se pretende preservar. Seja ele o uso original, seja um novo uso a ele agregado, o importante é que ele favoreça a preservação.

Maquete da proposta de Hector Vigliecca e equipe para o concurso público nacional de projetos de modenização do Conjunto Esportivo, promovido pelo Governo Estadual e IABSP em 2003 [Website Vigliecca & Associados]

Por último, é necessário informar ao Conselho que já foi promovido um concurso público nacional de projetos para a modernização do Conjunto Esportivo em 2003, promovido pelo Governo do Estado com apoio do IAB-SP. Mesmo sem o seu tombamento, o projeto vencedor de Hector Vigliecca, Luciene Quel e equipe, respeita as características culturais do conjunto arquitetônico, sem deixar de acrescentar 45% de área construída.

Posteriormente ao pedido de vistas, o IAB SP promoveu debate público sobre o futuro do Ginásio do Ibirapuera, que foi acompanhado por diversas manifestações nas mídias impressas e digitais pela sua preservação. Fica clara a necessidade de desenvolvimento de estudos que aprofundem o reconhecimento do valor cultural e histórico do conjunto, assim como a avaliação de usos que sejam compatíveis com sua preservação.

Voto

  • Pelos seus valores intrínsecos de sua arquitetura e de sua inserção urbana, exemplares da interpretação dos princípios da nova monumentalidade na arquitetura moderna brasileira;
  • Pelo seu papel como testemunho do momento histórico no qual foi produzido, as celebrações do IV Centenário da Cidade de São Paulo;
  • Pela sua significação cultural, que adquiriu com o passar do tempo graças ao seu uso intenso por esportistas em formação, atletas de alto desempenho e público em geral.

Voto pela abertura do processo de tombamento do Conjunto Esportivo Constâncio Vaz Guimarães, o qual permitirá o aprofundamento do debate público sobre seu uso e critérios de adaptação.

São Paulo, 26 de novembro de 2020

referências

MELLO, Joana (Org.). Ícaro de Castro Mello. Coleção Portfolio Brasil. São Paulo, JJ Carol, 2006.

Processo n. 1982-0.015.231-6, fundo Parque Ibirapuera, caixa PI 14 (AHM). In: BARONE, Ana Cláudia Castilho. Antes do Parque Ibirapuera: a história do vazio (1890-1954). Anais do Museu Paulista, v. 25, n. 3, set./dez.2017, p.167-194 <https://bit.ly/2VhOHX3>.

Website Parque Ibirapuera Conservação <https://bit.ly/3o69IQQ>.

Website Vigliecca & Associados <https://bit.ly/39rt92p>.

sobre o autor

Renato Luiz Sobral Anelli, arquiteto e professor aposentado do IAU-USP São Carlos, é representante do IAB SP e Conselheiro Relator do processo.

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