Berlim é uma cidade múltipla. Um canteiro experimental de longo prazo, construído e destruído entre cenários de dores e prazeres, que vem somatizando aspectos positivos na história de sua estrutura espacial. Entre as áreas de renovação urbana de Berlim, o exemplo mais marcante continua sendo Potsdamer Platz. Formando um espaço público amplo com edifícios imponentes e verticais, esta área representa uma nova centralidade para a cidade, situado entre avenidas importantes como a Potsdamer Straße, Ebertstraße e Stresemannstraße, e próximo de pontos referenciais como o Bradenburger Tor, Tiergarten e Berliner Philharmonie.
Apesar do contraste de representação do conjunto arquitetônico de Potsdamer Platz, tão contestado pelo discurso conservador dos anos de 1990, é inevitável reconhecer seu caráter inovador na paisagem berlinense de hoje. Através de fotografias coletadas entre agosto de 2016 e janeiro de 2017, a intenção deste artigo é renovar a impressão de Potsdamer Platz como parte de um estilo arquitetônico intruso, demonstrando a imagem atual desta área vinculada à pluralidade urbana de Berlim, como parte integrante de sua história e do seu fator de atração como metrópole.
Desde o início de sua formação territorial em 1237, no vale do rio Spree (principal rio que atravessa a malha urbana), a cidade vai agregando mudanças que passam pelo crescimento comercial e industrial enquanto capital da Prússia (entre o final do século 18 e no século 19), pelo desenvolvimento cultural e social da República de Weimar (1918-1933), como sede do III Reich (1933-1945) sob o governo de Hitler, até os dias de hoje como capital da principal potencia econômica e política da União Europeia. Nestes distintos processos históricos as reconfigurações urbanas de Berlim poderiam ser consideradas tão radicais e contrastantes quanto às reformas de Paris e Viena no final do século 19.
Entre as principais transformações de Berlim, marcando a história do Ocidente ao longo do século 20, a destruição da cidade durante os bombardeios sistemáticos de 1944 e 1945, durante a Segunda Guerra Mundial, representa a memória mais marcante de alteração do cotidiano de uma metrópole europeia consolidada. Com a derrota da Alemanha pelos países aliados, o território de Berlim foi dividido entre as quatro potencias vencedoras: Estados Unidos, França, Inglaterra e União Soviética. Após o cenário devastador da guerra e da evasão populacional, a cidade foi se refazendo com os edifícios remanescentes e os grandes vazios urbanos. No rastro da história de extermínios e do totalitarismo nazista, a Alemanha se voltava para a reconstrução de sua legitimidade como nação, procurando maneiras de avaliar o passado recente e assegurar políticas democráticas para o futuro (1).
Mesmo depois da Segunda Guerra Mundial o território da Alemanha ainda foi campo de disputa na Guerra Fria, durante o conflito indireto (econômico, tecnológico e ideológico) entre os Estados Unidos e a (antiga) União Soviética. Ainda mais emblemático foi o processo decorrente desta disputa, que tornou Berlim uma cidade dividida pelo Muro (entre 1961 e 1989), separada entre a porção urbana oriental, mantida pelo regime soviético, e a área urbana ocidental, mantida pelo regime capitalista estadunidense. O Muro representou uma fronteira física imposta sobre a cidade para impedir a evasão da população do regime socialista (Berlim Oriental) para o oásis urbano do capitalismo (Berlim Ocidental), confinado no meio da Alemanha Socialista.
Com a divisão da cidade entre os sistemas políticos da Guerra Fria, os contrastes entre o lado ocidental e o oriental tornaram-se mais evidentes. Apenas com a queda do Muro em 1989 a cidade ampliou suas proporções de vazios urbanos e das áreas a serem revitalizadas, tendo que conciliar as diferenças de configuração urbana, social e cultural entre os regimes políticos. Ainda que Berlim tenha sido designada, a partir de 1991, como a capital da Alemanha unificada e democrática, até hoje a cidade está longe de corresponder a um ambiente homogêneo e padronizado.
Na ampliação das relações comerciais e das políticas internacionais estabelecidas ao longo do século 20, as guerras, que aconteceram em território europeu, significaram um meio importante na reconfiguração de um sistema de governo imperialista predominante para o sistema de acordos políticos e econômicos liberais (2). Podemos considerar que estes eventos também ocasionaram alterações drásticas no cotidiano da população, prejudicando a formação de uma identidade coletiva crescente devido aos benefícios promovidos pela vida urbana, tanto na Berlim dos anos de 1920, no auge criativo da República de Weimar, quanto no período de reunificação dos anos de 1990, com a possibilidade de recriar partes da cidade junto aos movimentos sociais. Estas alterações em diferentes períodos históricos, provocadas por estados de exceção e o uso do território alemão como campo de guerra, foram eventos de extrema hostilidade para (re)estabelecer o controle sobre os meios de vida no espaço urbano. Uma oportunidade para refazer a sociedade diante das dinâmicas sociais, culturais e artísticas, que poderiam desviar a perspectiva hegemônica de controle institucional e territorial (3).
Exemplo desta disputa ideológica infiltrada nas relações de poder e materializada na superfície renovada de Berlim, seria a reforma urbana promovida em Potsdamer Platz a partir da queda do Muro. No início do século 20, esta área demarcou um dos cruzamentos viários de maior dinamismo urbano na Europa. No fim da Segunda Guerra Mundial Potsdamer Platz foi o ponto mais atingido pelos bombardeios sistemáticos antes da tomada de Berlim pelo exército vermelho. Com a divisão da cidade entre os aliados, este importante espaço de centralidade urbana tornou-se o maior terreno baldio berlinense, configurando a fronteira mais ampla da Guerra Fria na divisão com o Muro de Berlim.
Após a queda do Muro, com o surgimento de projetos de revitalização da cidade, Potsdamer Platz tornou-se um dos canteiros de obra mais importantes da Europa e, por certo, o mais criticado pelos alemães. Na atualidade, Potsdamer Platz, conjugado com Leipziger Platz, representam importantes centros comerciais e empresariais da cidade. Destacam-se em sua configuração a concentração de edifícios altos e contemporâneos em contraste com o predomínio morfológico de uma metrópole histórica e horizontal, criando uma atmosfera renovada e receptiva para o processo de abertura ao turismo e aos investimentos internacionais.
Intervenções como a de Potsdamer Platz, com o apoio financeiro de empresas como a Daimler Bens, Sony e Asea Brow Boveri, representou a oportunidade de arquitetos e urbanistas executarem seus projetos inovadores, articulados com uma infraestrutura urbana intensa, condições materiais privilegiadas e negociações constantes com os atores sociais. Sem dúvida, a realidade promovida por estes ambientes torna-se um parâmetro importante para compreendermos a formação da cultura material ocidental e contemporânea. Entretanto, a substituição das referências urbanas anteriores, marcadas por signos históricos e práticas de vida cotidianas, por uma imagem inovadora, tecnológica e impessoal, também predispôs a condição de perdas inestimáveis para a memória da cidade.
De acordo com Andrea Huyssen (4), a materialização da imagem de Potsdamer Platz e de Leipziger Platz, com edifícios feitos de metal e vidro, representa a ideia de sucesso almejada no uso de tecnologia high tech, ao mesmo tempo em que cria uma arquitetura berlinense pós-nacionalista, sem memória e sem noção de lugar. Hoje em dia, na consolidação dessa área com o restante da cidade, observar a paisagem e circular pelas ruas e avenidas de Potsdamer Platz significa encontrar um ponto em comum entre diferentes metrópoles. Um lugar de representações icônicas, que permite vincular a cidade com outros cenários espetaculares e, ao mesmo tempo, promovendo o contraste de Potsdamer Platz com as áreas vizinhas de Mitte e Kreuzberg, por exemplo, por serem bairros mais representativos para o cotidiano de seus moradores.
É este tipo de combinação que torna Berlim múltipla. São diferentes acontecimentos acumulados nas dinâmicas espaciais da cidade. Mas, será que a substituição das cicatrizes urbanas por obturações e próteses inovadoras tornaria a capital alemã uma cidade bonita? Pela sugestão de Peter Schneider (5), a Berlim de hoje é atraente, justamente, pela combinação de particularidades distribuídas no amplo território de topografia plana. Para o autor, o motivo que atrai um número crescente de visitantes são os aspectos não encontrados em outras cidades, mais “bonitas” e espetaculares. Aspectos promovidos pela descontração, informalidade e segurança, de uma estrutura urbana e social provida de áreas públicas livres disponíveis às pessoas, sem estabelecer restrições de comportamento e acesso, como garantia de controle e lucro. Neste sentido, a derrubada do Muro de Berlim configura uma lição importante para esta cidade de acessibilidade e mobilidade facilitadas. Uma cidade que não precisa de catracas para o acesso à plataforma do metrô ou de pavimentação demarcando os percursos dentro do parque.
Consideramos que o caráter “mosaico” da cidade não é artificial, com o intuito específico de potencializar o turismo. Nem é uma característica restrita ao conservadorismo de uma capital marcada por sua história descontínua. Pelo contrário, a pluralidade de Berlim se faz presente pela marca dos diferentes sedimentos ao longo do tempo. São aspectos que se misturam na percepção visual e tátil ao longo da construção e manutenção da cidade, de maneira simples e detalhada. Estas ações estão relacionadas pela boa forma e funcionalidade, entre valores estéticos herdados pelo estilo Bauhaus e incorporados na organização descontraída deste espaço urbano cosmopolita.
Berlim é uma cidade diferente das outras capitais do oeste europeu e que mantém o diálogo possível entre passado e futuro. Ainda que não seja um lugar de perfeições, é uma cidade de vazios, de silêncio e, acima de tudo, despretensões.
notas
1
HUYSSEN, Andreas. Seduzidos pela memória: arquitetura, monumentos, mídia. Rio de Janeiro, Aeroplano, 2000.
2
HOBSBAWN, Eric. A era dos extremos: o breve século XX – 1914-1991. Tradução de Marcos Santarrita. Revisão Técnica Maria Célia Paoli. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.
3
PEDRO, Joana Maria. As guerras na transformação das relações de gênero: entrevista com Luc Capdevila. Estudos Feministas, vol. 13, n. 1, Florianópolis, jan./abril 2005, p. 81-102 <www.scielo.br/pdf/ref/v13n1/a06v13n1.pdf>.
4
HUYSSEN, Andreas. Op. cit.
5
SCHNEIDER, Peter. Berlim now: the rise of the city and the fall of the wall. Londres, Penguin Books, 2014.
sobre o autor
Marcos Sardá Vieira é arquiteto, urbanista e professor da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). Atualmente, doutorando interdisciplinar em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).