Tem cerca de duas semanas que vi pela primeira vez o anúncio da Nuit Blanche (1) numa das ruas daqui de Paris. Eu estava com um amigo em algum lugar próximo da linha 8 do metrô quando me deparei com a publicidade. Não fazia muitos dias, o cartaz da edição 2017 do evento tinha caído na rede. Com uma imagem meio crepuscular ao fundo, mas que, através de uma linha horizontal de gradientes de cor laranja, anunciava claramente uma aurora por vir, lia-se em destaque: NIUT BLNAHCE 7.10.2107. “Mas como será possível que esse povo solta uma arte desse jeito, assim, com um erro tão grosseiro?” – perguntei-me. Agora quem tinha caído na rede era eu.
O conceito visava justamente a afirmar que a marca Nuit Blanche já é algo tão forte, tão presente e esperado a cada edição, que não importa a mera troca de letras: quem bate o olho compreende logo do que se trata. O mesmo se dá para os algarismos trocados de lugar: ao invés de uma data que saltasse 90 anos à frente, como se poderia pensar, todo mundo deverá saber que se trata, de fato, do ano de 2017. Então o evento e a festa estavam à venir, logo ali, bastava aguardar. A partir de então, dia após dia, mais e mais cartazes figurariam pelas ruas e estações de metrô da capital francesa.
Desde a véspera da minha chegada aqui, quando ainda me preparava para o estágio doutoral que estou realizando e atualizava meu projeto de tese, a Nuit Blanche havia sido algo obrigatório para a minha pesquisa, figurando, inclusive, como uma das justificativas para a obtenção da bolsa de estudos. Seria um trabalho de campo, uma parte, talvez um capítulo da minha tese – com toda a pressão pessoal que possa ser querer apreender, durante cerca de doze horas, o mundo gigantesco e plural de lugares que fazem parte da programação do evento.
A Nuit Blanche, promovida pela prefeitura de Paris desde 2002 – e cujo modelo foi, posteriormente, exportado para várias cidades do globo, seja sob a mesma marca ou na forma de eventos e/ou festivais explicitamente nela inspirados, como é o caso da Virada Cultural de São Paulo –, prevê, a cada ano, um roteiro distinto a ser percorrido pela cidade. O objetivo é promover um espaço-tempo de atividades artísticas e culturais noite adentro, num prolongamento do dia e das atividades diurnas: que a noite seja iluminada, tornando-se, enfim, uma Noite Branca. Diversas apresentações são propostas ao público, como performances, esculturas, instalações de arte, projeções de vídeo etc.
Para esta 16ª edição, que trazia na chamada a ideia de “trabalhar em equipe” (faire œuvre commune), foram propostos dois percursos principais por Paris – Centro e Norte –, que podiam ser acompanhados pelos participantes por uma faixa de cor laranja marcada no chão – a linha do horizonte crepuscular teria saído do cartaz e ganhado corpo nas ruas? Ambos os percursos traziam atrações do tipo IN (projetos artísticos convidados pela diretora artística do evento) e OFF (projetos artísticos curados pelas subprefeituras da cidade, museus, galerias, associações e artistas independentes). Além disso, também faziam parte da programação oficial atrações “fora de percurso”, que tinham lugar, inclusive, fora da cidade, na Grande Paris.
Assim, um público ávido por um evento-festa de tamanha grandeza – e que, certamente, não custa nada pouco aos cofres públicos – invadiu espaços públicos e privados por cerca das 19h do último dia 17. Igrejas, museus, institutos, centros culturais, galerias de arte, bibliotecas, escolas, ginásios desportivos, piscinas públicas, jardins, praças, parques, pontes, estações de trem, subprefeituras e, claro, o largo da prefeitura principal da cidade (Hôtel de Ville de Paris) propuseram estar de portas abertas até meia-noite, 2h, 4h, 7h da manhã – mesmo que uma legião de pessoas tenha reclamado de ter esperado muito tempo nas filas gigantes para participar de algumas atrações.
Toda uma divulgação especial envolveu a Nuit Blanche. O site do evento trouxe um teaser em vídeo e toda a programação, bem como sugeriu um aplicativo de celular que pudesse ajudar o participante a filtrar seus percursos e pontos de interesse em tempo real. Um sistema especial de transporte público foi colocado à disposição (duas linhas de metrô funcionariam fora do horário normal, com acesso gratuito, ao passo que as linhas dos ônibus noturnos seriam adaptadas e reforçadas) – e isso mesmo que a mesma legião de pessoas tenha reclamado de ter esperado ainda mais tempo pelos ônibus lotados para voltar para casa. Além de mediadores culturais, pontos de informações foram dispostos pelos percursos, de onde era possível retirar, de modo metaforicamente participativo, os cadernos da programação do evento, oferecidos aos montes por meio de esteiras-rolantes-instalações.
É interessante notar que, ao longo do ano, Paris é repleta de propostas como esta: eventos urbanos cuja premissa é promover o acesso à cultura em grande escala, fazendo com que as pessoas (não apenas turistas, mas muitos moradores, sobretudo os próprios parisienses) saiam para as ruas – mesmo se a temperatura já não seja mais tão aprazível como nas noites de um verão recém recolhido. Durante aquela noite, meu movimento foi de transitar pelo espaço público e, sobretudo, pelas diversas experiências que eu pudesse ter, observando a movimentação, as pessoas, fazendo ambos os percursos e vendo tudo o que eu pudesse ver enquanto o tempo insistia em passar depressa.
Exausto, depois de me perder nas linhas de transporte público por algum tempo e da bateria do meu celular ter-se esvaído, deixando-me na mão, cheguei em casa quase junto da aurora. Ainda não sei exatamente o que pensar. Como estudioso da experiência da noite nas cidades, poderia aqui continuar criticando tal tipo de política pública, tal forma de colonizar, docilizar e diurnificar a noite, mas é preciso tempo de sedimentação para refletir e tentar dar mais sentido a estes espectros. Fato é que foi incrível ver cardumes de gente em vários cantos da cidade. Isso foi o que mais me chamou atenção naquela noite, fazendo com que eu continue acreditando na potência de vida dos espaços-tempos da rua.
notas
NA – Para ilustrar este texto, solicitei a alguns amigos que me enviassem algumas fotografias de suas próprias experiências da Nuit Blanche. Penso que a ideia seja oportuna, uma vez que havia muitos lugares a percorrer naquela noite, tantos que qualquer impulso de ser onipresente seria em vão. Através da instantaneidade das fotos feitas pelo celular, assim, de modo despretensioso, quis retratar um pouco essa imersão pelas ruas parisienses; uma imersão que acabaria dali a pouco, após uma fila longa, após um transporte despreparado, após o corpo cansado. Agradeço imenso pela generosidade e pronta contribuição desses fotógrafos dessa nossa noite comum, assim como agradeço a Marcelo Terça-Nada, Janaina Chavier e Tiago Fazito pela companhia naquelas andanças.
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Para mais informações sobre a Nuit Blanche de Paris 2017, conferir o website http://quefaire.paris.fr/nuitblanche, o perfil do Facebook https://www.facebook.com/NBParis e o hashtag #nuitblanche.
sobre o autor
Osnildo Adão Wan-Dall Junior é arquiteto e urbanista graduado pela Universidade Federal de Santa Catarina, com período de mobilidade acadêmica na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. É mestre e doutorando em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal da Bahia, onde é membro do grupo de pesquisa Laboratório Urbano (CNPq/MCTI) e da equipe de produção editorial da revista Redobra. Atualmente, desenvolve estágio doutoral (bolsa PDSE/CAPES/MEC) no Laboratoire Architecture/Anthropologie (LAA/UMR LAVUE 7218 CNRS) da École Nationale Supérieure d’Architecture de Paris La Villette.