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drops ISSN 2175-6716

abstracts

português
Quando a prática arquitetônica se reduz à produção em série, os espaços tornam-se lisos e genéricos. Sem detalhes, respeito com o entorno, cultura e história local, muito da produção arquitetônica contemporânea já nasce sem vida.

english
When the architectural practice is reduced to a serial production, spaces become smooth and generic. Without details, respect to its surroundings, culture or local history, much of the contemporary architectural production is born without life.

español
Quando a prática arquitetônica se reduz à produção em série, os espaços tornam-se lisos e genéricos. Sem detalhes, respeito com o entorno, cultura e história local, muito da produção arquitetônica contemporânea já nasce sem vida.

how to quote

BUTINHOL, Brendow; CÔBO, Caio. Quando há a morte da arquitetura. Drops, São Paulo, ano 21, n. 166.03, Vitruvius, jul. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/21.166/8181>.


Reforma de casarão no bairro Paraíso, Zona Sul de São Paulo
Foto divulgação [redes sociais]


Eis aqui um manifesto de um arquiteto cansado. A arquitetura, em seu estado mais bruto, é imperfeita e inacabada. Imperfeita e inacabada, pois firma sua existência num espaço caótico que compreende o encontro da sutileza da arte e dos sentimentos com a dureza sistemática dos cálculos, técnicas e orçamentos. Existindo sem nunca encontrar o equilíbrio, com a balança pendendo ora para um lado, ora para o outro, a arquitetura retira desse caos ordenado sua essência - e, por ventura, sua vida.

Há vida na arquitetura quando esta está impregnada de detalhes. Detalhes construtivos, detalhes de acabamento, detalhes na execução, mas também detalhes incorpóreos. A unicidade, a biofilia, o respeito com o contexto cultural e histórico, a adequação ao terreno, o entendimento da escala de quem vive aquela arquitetura. Tais detalhes imateriais e que – em sua maioria – não podem ser precificados, dão vida à arquitetura. Fazem com que seu esqueleto de concreto e vergalhões não seja reduzido a um único uso, elevando a experiência, o uso, a ocupação e a identificação com aquela arquitetura.

Há vida na arquitetura quando laços afetivos inventam de seguir os rumos das amarras e das armaduras, percorrendo toda a edificação. Há vida na arquitetura quando não há a hegemonia da visão – descrita por Pallasmaa como aquilo que pode levar a arquitetura à extinção (1) – , quando os outros sentidos e a memória se deixam explorar e degustar o espaço. Há vida na arquitetura quando não há a perfeição, pois é perfeito tudo aquilo que se esgotou em suas possibilidades, aquilo que não demanda mais nenhuma criatividade, nenhuma inserção. A perfeição é a morte da criação. É na imperfeição que os olhos divagam, as mãos percorrem saliências e reentrâncias, a mente alça voo e a memória se refugia num canto ou outro e a experiência toma forma. É na imperfeição que a mente é atacada, provocada. Nas palavras do filósofo e também poeta Jacques Derrida (2), não há poema sem acidente, não há poema que não se abra como uma ferida; não há poema, contudo, que por sua vez também não fira. Sem ferimento não há poesia nem arte. Nem arquitetura. E não há na lisura da arquitetura perfeita e asséptica espaços que permitam a fixação da memória, o abraço do afeto. Tudo escorre na superfície espelhada.

Na era da reprodutibilidade técnica, da arquitetura “copia e cola” e do alisamento cultural (onde se cria um amálgama de diversas culturas que, na colisão do todo, perdem sua especificidade, seus detalhes e ramificações, criando, assim, uma “superfície lisa”), parece que a vida deixa a arquitetura cada vez mais, vaza através de cada projeto replicado, de cada elefante branco edificado. Em “S, M, L, XL” Koolhaas (3) descreve um cenário de produção arquitetônica onde símbolos históricos e culturais se tornam tão diluídos dentro da população que a produção arquitetônica contemporânea se torna vazia de significado - e de vida - reduzindo-se a um eco de uma identidade que não pertence verdadeiramente à aquele lugar. A cidade genérica de Koolhaas poderia ser replicada em todas as partes do mundo, uma vez que ao mesmo tempo em que pertence a todas elas, não verdadeiramente é produto daquele meio, sendo mais um fruto da vida moderna aglomerada, alisada e globalizada do que uma produção que acompanha as transformações históricas e culturais de uma região as levando adiante. Koolhaas trata a cidade genérica tanto como um germe, que se alastra e aparece em vários cantos do globo, quanto como molde futurista a ser alcançado, onde as cidades seriam projetadas a partir deste olhar mundial, como uma verdadeira revolução urbana da globalização.

A cidade genérica não se preocupa com questões como a produção do espaço urbano defendida por Cullen e Lynch, ou mesmo com o promenade arquitetônico de Corbusier. Ao invés de se pensar o espaço com a atenção que lhe é devida, os projetos perdem a oportunidade de serem obras mais pessoais e pontuais, decisões que contemplariam a história e a cultura de um determinado lugar são logo substituídas por aquelas que produzem resultados mais fáceis, tornando a experiência do observador e o contato com seu entorno irrelevantes neste contexto impessoal e distante. Pensada para aqueles que estão sempre em movimento, a cidade genérica rapidamente abandona o que julga não funcionar, expandindo-se quando necessário e abrindo mão das relações interpessoais em prol de um progresso imaginário.

Quando focada no observador, tratando detalhes com atenção e dando o devido cuidado ao seu contexto socioespacial, a arquitetura transmite a mentalidade de que se observa o mundo através de um conjunto de fotografias, como defendido por Susan Sontag (4). A produção do espaço consegue estender um filtro sobre a realidade, atribuindo sensações e transformando a maneira de interagir com o espaço.

Sontag dizia que “ao preencher esse mundo já superpovoado com outro duplicado pelas imagens, a fotografia nos faz sentir como se o mundo estivesse mais disponível do que na realidade está” e a arquitetura possui o mesmo poder. A arquitetura consegue cativar, inspirar, carregar memórias, dialogar com quem transita por ela, e que consegue transformar os espaços urbanos em experiências únicas.

Então há de se refletir sobre a produção arquitetônica e urbana das últimas décadas, que precede o início da crescente onda humanista que se vê nos últimos anos. O fantasma do modernismo deixou a sua marca e muitos espaços estéreis foram produzidos, ditados unicamente pela forma e pela função. Quantos desses espaços são genéricos? Impessoais? Des-humanos? Quantas histórias, marcas e experiências foram soterradas por fachadas sem graça, sem cor, sem detalhe? Segundo Byung-chul Han (5), renomado filósofo sul-coreano, o liso é a marca do presente, pois é nele que a estranheza do outro, da negatividade, encontra seu fim. O liso é a marca de uma sociedade que peca pelo excesso da positividade, o liso não quebra e não oferece nenhum tipo de resistência - e o que é a memória senão a resistência do tempo? O liso é a marca de uma sociedade que vendeu sua alma em troca de likes, e arquitetura segue pelo mesmo caminho.

A reforma de um casarão no bairro Paraíso, Zona Sul de São Paulo, ganhou notoriedade em abril deste ano, onde a fachada neocolonial, em salmão, com traços chamativos e elementos históricos da arquitetura brasileira, foi substituída por um acabamento liso em cinza e sem ornamentos.

A descaracterização deste casarão localizado na esquina das ruas Desembargador Eliseu Guilherme e Abílio Soares se mostra um belo exemplo, e quase uma caricatura, do alisamento cultural na arquitetura. Ao descartar os elementos históricos do edifício, a reforma cortou, de maneira abrupta, sua ligação com a história e a cultura do lugar, sequestrando sua identidade e descolando-o de seu passado.

Mesmo não se tratando de um edifício tombado, este era responsável pelo diálogo com quem transita pela região, trazendo um pedaço da história do Brasil para os tempos modernos, encantando quem vê um resquício do passado em meio à grandes arranha-céus e estimulando a memória de quem convivia com aquela fachada há muitos anos. Entretanto, o casarão que se destacava dos arredores e era um pedaço da história da região, se tornou semelhante a tudo que o cerca, onde o moderno e o progresso habitam sob sua antiga identidade, deixando-o invisível onde antes contava sua história para quem quisesse ouvir.

É perceptível, em dadas produções, a carência de expressões com as quais as pessoas possam se identificar, um vazio interior que busca sentido na reprodutibilidade técnica e nas grandes tendências. Beira a ironia como uma arquitetura tão asséptica, estéril e higienizada de seus detalhes e laços se reproduz de modo tão viral. Na época das rápidas transformações, onde muito se busca o resultado fácil e rápido para logo se direcionar para a próxima demanda, a arquitetura se encontra surpreendentemente sólida, intransponível e intransigente, propondo soluções rígidas, lisas, insensíveis, banais, imperturbáveis e superficiais. Falta a ela mutabilidade e liquidez, no sentido mais baumaniano da palavra, abraçando o contexto local, abraçando as pessoas, se moldando conforme a necessidade e propondo novas experiências para o espaço. Falta arquitetura à arquitetura.

notas

1
PALLASMAA, Juhani. Os olhos da pele, a arquitetura e os sentidos. Porto Alegre, Bookman, 2011.

2
DERRIDA, Jacques (1990). Apud HAN, Byung-Chul. A salvação do belo. 3ª reimpressão. Petrópolis, Vozes, 2020, p. 53.

3
KOOLHAAS, Rem; MAU, Bruce. S, M, L, XL. 2ª edição. Nova York, Monacelli Press, 1997.

4
SONTAG, Susan (1986). Apud PALLASMA, Juhani. Op. cit., 2011, p. 29.

5
HAN, Byung-Chul. Op. cit., p. 7.

sobre os autores

Brendow de Souza Caldas Butinhol, bacharel em Arquitetura e Urbanismo pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais (2019). Especialista em Neuroarquitetura pelo IPOG – Instituto de Pós Graduação e Graduação. Afinidade nas áreas de produção textual, teoria da arquitetura, paisagem urbana e psicologia ambiental.

Caio de Castro Côbo Oliveira, bacharel em Arquitetura e Urbanismo pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais (2021). Afinidade nas áreas de produção de imagem, produção de cenários virtuais, teoria da arquitetura e paisagem urbana.

 

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166.03
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