Your browser is out-of-date.

In order to have a more interesting navigation, we suggest upgrading your browser, clicking in one of the following links.
All browsers are free and easy to install.

 
  • in vitruvius
    • in magazines
    • in journal
  • \/
  •  

research

magazines

drops ISSN 2175-6716

abstracts

português
Carlos Martins, professor do IAU USP São Carlos, comenta episódios recentes no cenário político-cultural brasileiro, marcados pela presença do fogo.

how to quote

MARTINS, Carlos A. Ferreira. O fogo e as cinzas. Entre o renascimento de Fênix e a punição eterna de Prometeu. Drops, São Paulo, ano 21, n. 166.06, Vitruvius, jul. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/21.166/8184>.


Prometeu acorrentado, Peter Paul Rubens, 1611
Imagem divulgação


Da tocha olímpica, ao Borba Gato e a uma parte ainda não mensurada da cultura cinematográfica brasileira, o fogo esteve presente na nossa vida mental e afetiva de forma particularmente intensa nos últimos dias.

Poder roubado aos deuses por Prometeu para presentear os mortais, segundo a mitologia grega, que não esquece de agregar a eterna condenação sofrida pelo traidor, o fogo aparece ao longo dos tempos e mitos associado duplamente à vida, conhecimento e poder, mas também à destruição e à condenação.

Na tradição grega, equivale ao conhecimento e embasa uma certa tradição, entre o literário e o arqueológico, que identifica no seu domínio um momento central na constituição do humano, juntamente com o surgimento do ritual mortuário, expressão de consciência da própria morte e do erotismo, derivação especificamente humana da sexualidade.

Na judaico-cristã, é de fogo a espada que expulsa Eva e Adão do paraíso, após a heresia do conhecimento, condenando-a às dores do parto e a ele ao suor do trabalho. Mas sobretudo ameaçando-nos com a danação eterna no fogo dos infernos, o que nunca é demais lembrar no ano do hepta centenário de Dante, aquele que ao descrever os círculos do inferno criou também uma das primeiras línguas modernas.

A tocha olímpica nos lembra que o fogo é energia vital que deve ser preservada entre um e outro ciclo da vida e conduzida por aqueles que melhor expressam as virtudes da justiça e da pureza.

Mas uma vez acesa nos expõe não apenas ao inevitável ciclo de vitórias e derrotas, mas às dificuldades inerentes a esse processo de transferência afetiva que caracteriza o esporte moderno.

Exaltamos, com razão, a vitória da jovem negra e pobre que tem a ousadia de levar o Baile da Favela para o centro do Olimpo, mas fingimos não perceber que reduzir o esporte a histórias de superação individual é uma maneira nada sutil de evitar a denúncia do sucateamento do pouco que o Brasil havia construído em termos de apoio sistêmico ao esporte.

A decisão de atear fogo, novamente mais simbólico que real, a um monumento que exalta um personagem narrativamente construído a partir da necessidade de afirmação simbólica do estado de São Paulo depois da derrota de suas elites em 1930, poderia suscitar reflexões e debates muito mais consistentes do que vimos até agora.

Mas nada justifica que os autores desse suposto vandalismo estejam presos e os que realizaram a batalha das propinas à custa de meio milhão de mortos não. Que para a nossa mídia, frequentemente autoproclamada opinião pública, destruir uma vitrine seja vandalismo e destruir um país, não.

Falta espaço para falar do crime doloso perpetrado contra a Cinemateca ou para lembrar que por sorte apenas presidentes que prezam a nossa língua (os de Portugal e de Cabo Verde) estiveram presentes à reinauguração do Museu da Língua Portuguesa, obra do mestre Paulo Mendes da Rocha, que literalmente ressurge das cinzas nesta semana.

E terminamos sem saber se toda esta digressão serve para perguntar se nosso país ressurgirá, qual fênix, de todas as suas queimadas ou apenas para desejar que os responsáveis ardam no fogo dos infernos.

nota

NE – A publicação original do texto ocorreu no Facebook do autor.

sobre o autor

Carlos Ferreira Martins é professor Titular do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP São Carlos e gostaria de ter estado presente à reinauguração do Museu da Lingua Portuguesa, após a reconstrução levada a cabo sob a coordenação de seu amigo Pedro Mendes da Rocha.

 

comments

166.06 política
abstracts
how to quote

languages

original: português

share

166

166.01 política

O toque de recolher

Sobre o negacionismo de esquerda

Carlos A. Ferreira Martins

166.02 homenagem

As arquitetas e os livros

Dia nacional da arquiteta e urbanista

Abilio Guerra

166.03

Quando há a morte da arquitetura

Brendow Butinhol and Caio Côbo

166.04 política

Praça, Supremo, cemitério

Milton Hatoum

166.05 crise

Pela preservação da Escola de Artes e Arquitetura Professor Edgar Albuquerque Graeff

Rodrigo Bastos

166.07 eventos extremos

Velhos desastres, mesmas cidades

Alexandre Augusto Bezerra da Cunha Castro and Karla Azevedo dos Santos

166.08 instagram e pesquisa

Narrativas fotográficas no Instagram

Eduardo Oliveira Soares

166.09

O pobre desempenho ambiental dos escritórios por trás da caixa de vidro

Perspectivas futuras (parte 08/08)

Joana Gonçalves, Roberta Mülfarth, Marcelo Roméro, Alessandra Shimomura, Ranny Michalski, Eduardo Pizarro, João Cotta, Guilherme Reis, Paula Lelis and Juliana Pellegrini

newspaper


© 2000–2021 Vitruvius
All rights reserved

The sources are always responsible for the accuracy of the information provided