Your browser is out-of-date.

In order to have a more interesting navigation, we suggest upgrading your browser, clicking in one of the following links.
All browsers are free and easy to install.

 
  • in vitruvius
    • in magazines
    • in journal
  • \/
  •  

research

magazines

drops ISSN 2175-6716

abstracts

português
Luiz Amorim e Frederico de Holanda fazem uma homenagem ao arquiteto e professor Geraldo Gomes da Silva, falecido recentemente em 6 de agosto de 2021.

how to quote

AMORIM, Luiz; HOLANDA, Frederico de. Geraldo Gomes da Silva. A ida final do arquiteto, professor, pesquisador, gestor e fotógrafo. Drops, São Paulo, ano 21, n. 167.05, Vitruvius, ago. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/drops/21.167/8201>.



Perdemos Geraldo Gomes da Silva em 6 de agosto de 2021, arquiteto destacado em muitas frentes – profissional, professor, pesquisador, gestor, com marcantes realizações no campo do restauro do Patrimônio Histórico. Os que lhe eram próximos, como nós, sofreram o falecimento com mais força: nesta hora triste, eles lembram o querido mestre Evaldo Coutinho, seminal referência filosófica dos três: “[registro-me] falecido no falecimento de outrem, indo-me, com todo o resto, no repertório de quem veio a se extinguir” (1).

De minha parte, Fred, a relação com Geraldo foi muito próxima, enquanto estudante. Fui vice-presidente do Diretório Acadêmico quando Geraldo era presidente. Por ocasião da invasão da Faculdade de Arquitetura pelas “forças da ordem” em 1964, coube a mim “receber” os militares no seu lugar (naquele momento, Geraldo conseguiu escapar da sanha persecutória, não depois – tinha forte militância política). De sua atividade como líder estudantil, ressalto a altivez na relação com os docentes nas reuniões da Congregação da escola, e a falta de condescendência com os malfeitos de seus colegas discentes.

Geraldo estava um ano à minha frente. Depois de concluído o curso, os encontros passaram a ser esparsos, cada um a desenhar sua própria geografia no planeta. Contudo, a firme amizade realimentava-se a cada encontro – em congressos, em Brasília, no Recife – e por correspondência, que marcava também sua generosidade: recém-lançado (1986), enviou-me um exemplar de Arquitetura do ferro no Brasil, com afetuosa dedicatória (2). O livro, publicado pela Nobel, resultou de seu mestrado, realizado entre 1980 e 1984. Neste último ano publicou um livro específico sobre o Mercado de São José, no Recife (3). Sua expertise resultou no convite para desenvolver o restauro do prédio. É de sua autoria o painel de proteção da rua interna, intervenção necessária para proteger os comerciantes que a haviam ocupado e que o projeto veio a consolidar. Hoje, definitivamente associada à imagem do histórico mercado, revela a abordagem adotada por Geraldo de permitir-se se fazer presente no ato do restauro, unicamente se assim necessário, e deixando evidente o traço do seu tempo.

Pesquisador rigoroso e meticuloso, ciente de que estava a abrir um campo ainda pouco explorado no Brasil, empreendeu viagens de pesquisa na Europa, em busca dos acervos das principais empresas produtoras de componentes arquitetônicos e, efetivamente, edifícios inteiros, para associá-las às edificações encontradas no país e entender como haviam sido adaptadas às condições programáticas, do sítio e climáticas.

Quando muito poucos ousavam fazê-lo, ele valorizou a arquitetura eclética, particularmente a metálica – essa “arquitetura de lata”, como diziam seus detratores, expressão que Geraldo gostava de referir com um risinho maroto entre dentes, muito à sua maneira. Em 1987 esteve entre autores dos quatro cantos do país – Annateresa Fabris, Carlos Lemos, Gunther Weimer, José Liberal de Castro e outros – que organizaram a coletânea Ecletismo na arquitetura brasileira, destarte publicado em conjunto pela Nobel/Edusp (4).

No doutorado, estudou o espaço da cultura do açúcar. Se a arquitetura do ferro o havia levado a entender as emergentes forças do capitalismo industrial e seu impacto na produção da arquitetura no mundo, seus estudos doutorais o trazem de volta à formação do estado brasileiro, às bases da sociedade desigual que, em sua contínua atuação política e profissional, contribuiu para tentar superá-la. Sua tese exemplar, Engenho e arquitetura. Morfologia dos edifícios dos antigos engenhos de açúcar de Pernambuco (1990), é publicada em duas versões com o mesmo título, em 1998 (5) e 2005 (6). Debruçou-se sobre a frágil arquitetura dos engenhos de cana de açúcar, que apelidara de Alka-Seltzer, em alusão ao comprimido efervescente, tal a fragilidade das construções, para compreender a lógica da indústria produtiva do açúcar e suas implicações na arquitetura da moita, mas também da estrutura social escravocrata e sua materialização no conjunto sócio-fabril que a compunha. Ambas as pesquisas, de mestrado e doutorado, foram realizadas na Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo, sob orientação do professor Carlos Alberto Cerqueira Lemos.

O historiador, porém, sempre caminhou de braços dados com o arquiteto. Ao conhecer os edifícios de lata e de barro cru ou malcozido, aprendeu a restaurá-los e preservá-los. Assim se fez na sua condução dos restauros do Mercado de São José e do Engenho Poço Comprido, em Vicência (PE). Contudo, voltemos um pouco no tempo.

Seus primeiros passos como profissional o levaram à Secretaria de Educação do Governo do Estado da Paraíba, onde atuou entre os anos de 1966 e 1969. Costumava contar episódios da morada improvisada, mas falava, sempre com orgulho, do projeto da, hoje denominada, Escola Normal Estadual Padre Emídio Viana Correia, em Campina Grande, grande complexo escolar no qual explorou o uso do concreto e do tijolo aparentes, mesma linguagem que utilizará no projeto, em parceria com Nehilde Trajano, da residência de sua família, no Recife.

Em 1969 assumiu a função de analista de projetos no Iphan, no antigo 1º. Distrito, sediado no Recife, dirigido pelo engenheiro e professor Ayrton de Almeida Carvalho. Dedicará sua vida profissional a partir de então à preservação dos bens culturais, na elaboração de planos de preservação e de projetos de restauro. Em 1972 foi agraciado com bolsa de estudos da Fundação Calouste Gulbenkian para investigar as origens portuguesas da arquitetura conventual franciscana no nordeste brasileiro, em muito intrigado pelos estudos de Germain Bazin. De posse de um carro, atravessou Portugal de norte a sul e de leste a oeste. Seus relatos de viagem nos brindariam com mais um belo livro.

Em 1974 fez parte da turma de pioneiros do curso de Especialização em Restauro e Conservação de Monumentos Arquitetônico, oferecido inicialmente em São Paulo, e, a seguir, de modo itinerante, no Recife (1976) e em Belo Horizonte (1978), para depois se fixar em Salvador, na Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia.

Geraldo deixou o Iphan em 1975 e, no ano seguinte, ingressou como professor colaborador no curso de arquitetura e urbanismo da UFPE, sua casa, deixando-a apenas como professor aposentado, como docente efetivo desde 1978. Sempre atuando como docente, pesquisador e consultor, tornou-se docente de referência, pelo rigor como conduzia seus seminários nas disciplinas de história da arquitetura do Brasil, disciplinas anteriormente ministradas por Ayrton Carvalho, ou pela exemplaridade dos seus trabalhos profissionais. Concebeu um sistema de condução do seminário em suas disciplinas que obrigava a todos os alunos lerem os textos base e a prepararem as respectivas apresentações. Organizava, com certo prazer, presumimos, o sorteio dos temas e dos infelizes alunos responsáveis por tornarem público, para os colegas, o resultado do trabalho em grupo. Se por azar um incauto irresponsável fosse sorteado, todos eram penalizados pela tentação de uma saideira e uma prorrogação de um apaixonado debate sobre liberdades políticas e redemocratização ou sobre o último filme de Bergman de quem, aliás, era apreciador.

Como profissional qualificado passou a ser convidado a atuar como consultor e coordenador de planos de preservação, como o Plano de Restauração dos Monumentos do Estado do Piauí (1975), o Plano de Preservação dos Sítios Históricos da Região Metropolitana (1977), o Plano de Preservação do Litoral Brasileiro (1979), o Plano de Preservação da Cidade de Marechal Deodoro  (1980) e o Plano de Preservação dos Sítios Históricos do Interior de Pernambuco (1981). Também foi autor de vários projetos de restauração, a destacar a Casa da Pólvora, em João Pessoa, além dos já comentados.

Seu interesse de outrora pela fotografia já o havia tornado um raro arquiteto-fotógrafo ou fotógrafo-arquiteto, tal a exemplaridade dos seus registros que, há muito, haviam deixado de ser ferramentas para seus estudos e se tornado peças artísticas. Em seu escritório, em um belo sobrado novecentista por ele restaurado, situado na Rua da Aurora, com frente para o encontro entre os rios Beberibe e Capibaribe, com fundos para a Rua da União, a metros da casa do avô de Manuel Bandeira e a mirar o Teatro de Santa Izabel, obra neoclássica de Vauthier, responsável pela construção do Mercado de São José, revelava suas fotos, a buscar a exposição e corte ideais. Seu acervo fotográfico é inestimável, pelo seu conteúdo e por revelar o homem por trás da lente. A iluminar a sala da casa de Fred em Brasília está a imagem do Engenho Poço Comprido. Tendo saído de madrugada do Recife, registrou o conjunto edilício ao nascer do sol – a fotografia parece uma gravura de Frans Post! Noutra oportunidade, em julho de 2002, levou-nos, mais Nehilde Trajano, a visitar o engenho em sua companhia, no Land Rover que adquirira como ferramenta de estudo doutoral e o levara a todos os engenhos estudados. Com ele, ao sabor dos seus relatos, serpenteamos pelos atoleiros entre canaviais...

Em 1992 foi agraciado com o título de Professor Honoris Causa, pela Universidade Federal do Pará. Geraldo esteve várias vezes em Belém como consultor em diversos projetos, notavelmente a desmontagem e remontagem campus daquela universidade da residência Eugênio da Silva Gaspar, um dos chalés de ferro de origem belga a serem edificados naquela cidade.

Suas últimas investigações estavam voltadas à arquitetura moderna em Pernambuco, dando continuidade aos estudos iniciados no livro Delfim Amorim arquiteto (7), edição do Instituto de Arquitetos do Brasil – Departamento de Pernambuco, que dirigiu e ao qual esteve sempre filiado, e em capítulos de livros e artigos científicos. Seguia o método rigoroso de sempre. Tendo abraçado as arquiteturas dos séculos passados, o fim do século 20 e o início do novo milênio o viram olhar para o moderno. Teria sido mais uma obra excepcional e referência obrigatória.

Eu tive o primeiro contato com a pesquisa científica quando fui convidado pelo colega de turma Paulo Sérgio Santos para conhecer o professor Geraldo Gomes, que iniciava a montagem de uma equipe de estudantes para auxiliá-lo na elaboração de livro sobre a obra do meu pai, o arquiteto Delfim Amorim. Ao me conhecer e ao tratar da investigação que iniciava, não disfarçou a emoção, e falou da honra de ter sido seu aluno e do suporte que sempre dele teve. A partir daquele encontro, passei a frequentar seu escritório e a ser por ele orientado.

Anos depois, aluguei uma sala no seu sobrado para tocar meu pequeno escritório de arquitetura, inicialmente no térreo, depois no primeiro andar, olhando para o mesmo Teatro Santa Isabel e a metros da casa do avô de Manuel Bandeira. Lá trabalhamos na segunda proposta de restauro do Mercado de São José e no projeto do Mercado de Santa Rita, edificação que seria ocupada transitoriamente pelos comerciantes durante a obra de restauro do primeiro, infelizmente nunca construída.

Às cinco, a hora do chá, sob telha vã, reuníamos para tratar dos assuntos do dia, dos planos futuros e das memórias de sempre. Àquela hora era comum aparecerem amigos para usufruírem da sua presença. Este era o horário certo para visitá-lo e muitos o fizeram.

Compartilharmos a vida universitária, trocamos ideias sobre estudos. Alfinetava-me com considerações sobre a análise morfológica que adotara, elogiava-me ou criticava-me, quando lia algo da minha lavra que o agradava ou o desagradava. Como dileto aluno, seguia o mestre, como ainda o faço.

Foi poupado de ver a escuridão em que estamos metidos. Sigamos, navegar é preciso, se possível em um Land Rover, singrando os canaviais sem fim.

[...]

Meu Deus! Já deixamos
a praia tão longe…
No entanto, avistamos
bem perto outro mar…

Danou-se! Se move,
Se arqueia, faz onda…
Que nada! É um partido
já bom de cortar…

Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar…

[...]

Trem de Alagoas, Ascenso Ferreira (8)

notas

1
COUTINHO, Evaldo. O lugar de todos os lugares. São Paulo, Perspectiva, 1976, p. 18.

2
SILVA, Geraldo Gomes da. Arquitetura do ferro no Brasil. São Paulo, Nobel, 1986.

3
SILVA, Geraldo Gomes da. O Mercado de São José. Recife, Fundação de Cultura da Cidade do Recife, 1985.

4
FABRIS, Annateresa et al. Ecletismo na arquitetura brasileira. São Paulo, Nobel/Edusp, 1987.

5
SILVA, Geraldo Gomes da. Engenho e arquitetura. Tipologia dos edifícios dos antigos engenhos de açúcar de Pernambuco. Recife, Fundação Gilberto Freyre, 1998.

6
SILVA, Geraldo Gomes da. Engenho e arquitetura. Recife, Massangana, 2005.

7
AMORIM, Luiz; GONDIM, Djanira; NASCIMENTO, Marcus Antonio Sales; SANTOS, Paulo Sérgio de Souza; SILVA, Geraldo Gomes da (Org.) Delfim Amorim arquiteto. Recife, Instituto de Arquitetos do Brasil – Departamento de Pernambuco, 1991.

8
FERREIRA, Ascenso. Cana Caiana. Rio de Janeiro, José Olympio, 1939, p. 66.

sobre os autores

Luiz Manuel do Eirado Amorim é arquiteto e urbanista, formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE, 1982), PhD em Advanced Architectural Studies na Bartlett School of Graduate Studies (University College London, 1999). É professor titular do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFPE e autor do livro Obituário arquitetônico: Pernambuco modernista e coautor de Delfim Amorim arquiteto.

Frederico de Holanda (n. 1944, Recife) é arquiteto (UFPE, 1966), PhD em Arquitetura (Universidade de Londres, 1997), pesquisador colaborador sênior e professor emérito da Universidade de Brasília e autor dos livros O espaço de exceção (2002), Brasília: cidade moderna, cidade eterna (2010), Oscar Niemeyer: de vidro e concreto (2011), 10 mandamentos da arquitetura (2013, 2015) e Construtores de mim (2019). Pesquisador sênior do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq.

 

comments

167.05 homenagem
abstracts
how to quote

languages

original: português

share

167

167.01 homenagem

Vera Magiano Hazan

Covid-19 interrompe uma vida cheia de realizações e promessas

Otavio Leonidio, Fernando Espósito and Marcelo Bezerra

167.02 racismo

Por causa da cor

Sobre o racismo cordial e estrutural do Brasil

João Sette Whitaker

167.03 crítica

Um Niemeyer possível

Thiago de Almeida

167.04 política

O projeto "fazendão" cabe numa democracia?

Carlos A. Ferreira Martins

167.06 manifesto

“O MEC não pode ser vendido!”

Manifesto contra ameaça de venda do Palácio Capanema

Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil CAU/BR, Conselho de Arquitetura e Urbanismo do RJ CAU/RJ, Instituto de Arquitetos do Brasil IAB/RJ, Sindicato dos Arquitetos e Urbanistas SARJ, Associação Brasileira de Ensino de AU ABEA, Assoc. Brasileira de Arquitetos Paisagistas Abap, Federação Nac. de Estudantes de AU do Brasil FeNEA, Sociedade dos Engenheiros e Arquitetos RJ SEAERJ and Fórum de Entidades em Defesa do Patrimônio Cultural Brasileiros

167.07 política

O importante é destruir

Para desministro da educação a universidade é para poucos

Carlos A. Ferreira Martins

167.08 política

Uma disciplina chamada mentira

Agulhas Negras e a formação militar

Milton Hatoum

newspaper


© 2000–2021 Vitruvius
All rights reserved

The sources are always responsible for the accuracy of the information provided