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my city ISSN 1982-9922

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TEIXEIRA, Carlos M. Escala 1:1 Uma cidade protegida debaixo d’água. Minha Cidade, São Paulo, ano 07, n. 082.01, Vitruvius, maio 2007 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/07.082/1926>.



 

“En aquel Imperio, el Arte de la Cartografía logró tal Perfección que el mapa de una sola Provincia ocupaba toda una Ciudad, y el mapa del Imperio, toda una Provincia. Con el tiempo, esos Mapas Desmesurados no satisficieron y los Colegios de Cartógrafos levantaron un Mapa del Imperio que tenía el tamaño del Imperio y coincidía puntualmente con él. Menos Adictas al Estudio de la Cartografía, las Generaciones Siguientes entendieron que ese dilatado Mapa era Inútil y no sin Impiedad lo entregaron a las Inclemencias del Sol y de los Inviernos. En los desiertos del Oeste perduran despedazadas Ruinas del Mapa, habitadas por Animales y por Mendigos; en todo el País no hay otra reliquia de las Disciplinas Geográficas”.
Jorge Luis Borges, Del rigor en la ciencia

As cidades de Remanso, Santo Sé, Pilão Arcado e Nova Ponte estão todas elas submersas, esquecidas sob colunas d’água de até 50 metros (1).

Remanso, Santo Sé, Pilão Arcado e Nova Ponte são como um registro de um fotógrafo documentarista obsessivo, em que todas as perspectivas, todo o conjunto arquitetônico permanece guardado nas profundezas dos lagos. Intactas, ilesas, longe de qualquer possibilidade de alteração: a inundação causada pelas represas como uma fotografia que eterniza uma cidade; como uma cidade-museu onde tudo está conservado para consultas futuras de historiadores, arqueólogos e mergulhadores em busca de referências da cultura do século XX; como um gigantesco museu de arquitetura em escala real. Exatamente como no mapa imaginário de Borges, onde todas as informações de uma cidade não caberiam em representações: para que tudo, absolutamente tudo de uma cidade fosse incluído num mapa, nem mesmo as menores escalas (ou os maiores mapas) seriam suficientes: uma cidade só cabe na escala 1:1. Já que o desenho é sempre uma forma de representar uma cidade, as cidades inundadas permitem uma representação ideal: cidades onde representação e objeto convergem para o objeto.

Como uma lição de conservação de Patrimônio Histórico: cidades submersas como herança completa de uma cultura esquecida, recurso radical contra as mudanças do presente, submersas e pra sempre protegidas das alterações sofridas por todas as cidades vivas. E por isso mesmo sem as dicotomias das cidades reais, estas que hesitam entre eficiência e tradição, destruídas e congeladas pelo passo do progresso. Uma estratégia fatal que termina o impasse entre memória e esquecimento, conservação e destruição – dualismos que, como as cidades submersas nos ensinam, só serão resolvidos plenamente se optarmos pelo desaparecimento daquilo que queremos proteger.

Em poucos lugares esse dualismo é tão bem ilustrado como na pequena cidade de Fama (MG). Uma parte de Fama está inundada, uma outra não. Quando a represa de Furnas enche, a parte protegida (ou submersa) de Fama aumenta. Quando a represa seca, Fama emerge exposta e desprotegida, sujeita às intempéries e à fatalidade de usos que deprecia todos os bens e todos os imóveis de qualquer cidade. Uma linha vacilante, que é o nível d´água de Furnas, representa esse impasse entre destruição e construção, memória e esquecimento, as dúvidas sobre a condução do passado e o porvir das cidades. Nesta linha está a essência das cidades americanas: ela é a camada de história que luta para se manter à tona, mas que o tempo se encarrega de afundar até que ela desapareça sem deixar vestígios...

Numa viagem a Fama, feita depois de um croqui publicado no portal Vitruvius (2), eu esperava encontrar as duas cidades – a submersa e a real – lado a lado, numa paisagem quase romântica que traduzisse essa questão de maneira diagramática. De um lado da linha a cidade real. Do outro, bem no meio do lago, um casebre afundado com a cumeeira ainda visível, paredes em ruínas com o nível d’água a meia altura, a ponta da chaminé de uma fabriqueta qualquer. Mas o que encontrei foi uma paisagem mais expressiva: quarenta anos depois da construção da represa, claro que a cidade submersa está totalmente esquecida sob a lâmina d’água e nada emerge mais. A tal linha d’água só passou a ter sentido depois que descobri o lado secreto (e realmente interessante) daquele lugar: mergulhando com minha câmera fotográfica à prova d’água, vi galpões e casas e padarias e vendas, todos maravilhosamente esquecidos sob cinco ou dez metros de coluna d’água.

Mas se enxergarmos o nível de uma represa sem qualquer especulação – quer dizer, de um ponto de vista estritamente técnico, ou do mesmo ponto de vista dos administradores da represa – então podemos concluir que o nível de Furnas deve mesmo tender mais para alto que para baixo. Pelo seguinte: na estação seca, o nível d’água baixa e a capacidade de geração das turbinas fica comprometida, o que é ruim. Mas nas chuvas, Furnas trabalha com sua potência máxima, o que é bom. Por que quanto mais alto o nível d’água, mais energia – e mais importante ainda, mais protegida fica a arquitetura submersa de Fama. Ou o contrário: quanto menos água na represa, menos energia e mais prejuízos para Fama, desprotegida e sujeita a mudanças e imprevistos que essa cidade congelada estaria.

[texto publicado originalmente na revista AR n. 3. Curso de Arquitetura e Urbanismo, Unileste-MG".]

notas1
O Brasil é um dos países com mais usinas hidrelétricas do mundo e o terceiro ou quarto em número de cidades submersas. São 34.000 km2 de terras inundadas para a formação de represas, o que gerou o deslocamento de aproximadamente 200.000 famílias. In Almanaque Brasil Sócio-Ambiental 2005, Instituto Socioambiental, 2005.

2
BUCCI, Ângelo. “Pedra e Arvoredo”. Arquitextos nº 041.01. São Paulo, Portal Vitruvius, out. 2003 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq041/arq041_01.asp>.

sobre o autor Carlos M. Teixeira é mestre em urbanismo pela Architectural Association, sócio do escritório Vazio S/A e autor do livro "Em Obras: História do Vazio em BH" (CosacNaify).

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