"A obra do arquiteto é o próprio edifício construído e isto é, evidentemente, impossível de expor" explica Kazuyo Sejima numa das salas do MUSAC de Leon, nas quais se apresenta até primeiro de maio a exposição dedicada à arquitetura do SANAA, o escritório que dirige em Tókio junto a Ryue Nishizawa desde 1997, e à produzida por ambos em seus respectivos escritórios. Mas exibir arquitetura é possível desde uma concepção abstrata dela. E é o que demonstram estes arquitetos fazendo com que a matéria de sua exposição seja a idéia que se encontra contida em seu específico mundo projetual e sua intenção, introduzir o visitante nele através de um percurso por três salas. A primeira contém um protótipo em escala 1:2 do projeto em construção Flower House, no qual se estampam a ligeireza e transparência distintivas da arquitetura do SANAA e as pesquisas que o escritório está desenvolvendo atualmente; a segunda sala abriga uma seleção de maquetes e peças de desenho industrial e na última se apresentam imagens (desenhos, fotografias, vídeos) de alguns de seus projetos. "Para nós, esta exposição foi um projeto de design. Não queríamos que se reduzisse unicamente a mostrar e explicar alguns de nossos trabalhos e sim conseguir nela exatamente aquilo que perseguimos em nossa arquitetura: gerar uma atmosfera. Todos os elementos que a integram criam uma instalação que deseja convidar a circular através do espaço e sentir essa atmosfera" acrescenta Sejima, afirmando implicitamente que sua preocupação como arquiteto não consiste em articular discursos teóricos, mas em concretizar através de formas e materiais a criação de um espaço que abrigue mental e fisicamente ao individuo.
No SANAA trabalham ensimesmados em conseguir a construção de uma arquitetura clara e básica, luminosa, distanciada de qualquer complexidade estrutural, cujos fundamentos se encontram na exploração e tradução ao vivível de concepções abstratas. Reintroduzem o postulado miesiano less is more na era da estética iPod, preservando latente a sensível intensidade da expressão estética japonesa. Com o projeto de ampliação do IVAM em andamento na Espanha e edifícios localizados no Japão, Europa e Estados Unidos como o Museu de Arte Contemporânea do Século XXI e o recém finalizado Museu de Arte em Toledo, a sede da Dior Omotesando, a Escola Zollverein, o Novartis Campus, o Stadtstheatre Almere, o Museu de Arte Contemporânea de Nova York ou a Casa num Horto de Ameixeiras, indagam a respeito de como criar limites que gerem tipos diversos de relações; como eludir a literalidade do sólido para conceber edifícios que sejam definidos pela soma das experiências de seus espaços e que ofereçam a seus usuários a possibilidade de imaginar suas próprias formas de ocupá-lo.
Ainda que especificamente tratadas para serem expostas, cada uma das peças integrantes desta mostra é um elo dentro do processo de desenho de cada uma das obras do SANAA, um processo que se baseia em analisar e desenvolver ao máximo a geração de variáveis possíveis que apresentem soluções adequadas e concretas. Querem que estes elementos expliquem cada projeto o mais objetivamente possível, assumindo que se imbuem de uma nova identidade ao situá-los no contexto do museu: os desenhos podem se transformar em pinturas e as maquetes, em esculturas. Sejima reconhece a complexidade que lhes apresentou o dialogar com os materiais e o espaço forte e preciso do edifício de Mansilla e Tuñón, adaptado mediante uma iluminação específica para imbuir-se da brancura própria do SANAA.
Em suas obras, o branco lhes permite gerar uma atmosfera e um espaço homogêneos, fenomenologicamente abertos à total ambivalência perceptiva e conceitual, articulando através de sua concepção arquitetônica o espírito da sociedade da informação.
SANAA elege o caminho da ênfase na vivência sensorial para constatar que a transição ao período em que vivemos agora operou transformações psicológicas sobre a consciência dos indivíduos, demonstrando que não é preciso recorrer à literalidade formal e material produzida por parafernálias tecnológicas para refletir a presença de questões específicas da contemporaneidade em seu pensamento. Agustín Pérez Rubio, curador chefe do MUSAC e comissário desta exposição que representa até hoje a única apresentação da obra do SANAA na Espanha e a mais ampla realizada na Europa, explica que seu objetivo foi tratar de apresentar com a maior precisão possível o caráter de uma obra sob cuja aparente simplicidade formal subjaz uma intensa compreensão e expressão do espírito deste tempo. Possuir isto é o que imbui à arquitetura de Sejima e Nishizawa a transcendência e energia conceitual e criativa que esta exposição revela, sendo o fator que persuadiu a esta entidade - em alerta para acolher manifestações criativas expressão do presente - para realizar esta mostra. Conjuntamente, SANAA e o MUSAC - rompendo com a tendência muito propagada de objetualização da arquitetura - propõem uma exposição a partir da aceitação de que ela deve ser compreendida como um todo e como uma tangível catálise do fluxo de nossas mentes e corpos situados na vivência do espaço e do tempo. Desta dimensão, refletindo sobre a natureza dos processos que a geram e evidenciando a irrefutável necessidade da experiência de sua realidade física, descrevem, desde a precisão do rigor e da sensibilidade, a complexidade e clareza profunda da arquitetura.
sobre os autoresFredy Massad e Alicia Guerrero Yeste, titulares do escritório ¿btbW, são autores do livro “Enric Miralles: Metamorfosi do paesaggio”, editora Testo & Immagine, 2004
Tradução Ivana Barossi Garcia