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my city ISSN 1982-9922

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LORDELLO, Eliane. Por um futuro mais doce para o Park Hotel. Minha Cidade, São Paulo, ano 08, n. 095.02, Vitruvius, jun. 2008 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/08.095/1889>.


Park Hotel: Vista lateral e posterior
Foto Eliane Lordello, setembro 2007


Parque São Clemente: Lago superior com jardins e gazebos
Foto Eliane Lordello, setembro 2007

Parque São Clemente: Lago e jardins na área central
Foto Eliane Lordello, setembro 2007

Park Hotel: o intervalo aberto no térreo
Foto Eliane Lordello, setembro 2007

Park Hotel: o nome na fachada em deterioração
Foto Eliane Lordello, setembro 2007

Park Hotel: visão geral da fachada e talude
Foto Eliane Lordello, setembro 2007

Praça Getúlio Vargas
Foto Eliane Lordello, setembro 2007

Colégio Anchieta
Foto Eliane Lordello, setembro 2007

Colégio Nossa Senhora das Dores
Foto Eliane Lordello, setembro 2007

Árvore de garrafas pet recicladas: representação da bandeira dos países de origem dos imigrantes
Foto Eliane Lordello, setembro 2007

 

Este não é um texto doce, embora seja fruto de um momento de lazer – a recente viagem que fiz para a Nova Friburgo (RJ), cidade onde passei a maioria de minhas férias escolares de infância e adolescência. Sim, infelizmente, seu motivo é bastante amargo: o tristíssimo estado de abandono do Park Hotel, memorável obra de Lúcio Costa.

Fruto de um projeto moderno em sua concepção espacial, estrutural e plástica, que conjuga os cânones do modernismo com os ensinamentos do passado colonial, esta obra prima por sua franca legibilidade. Sua importância é imensa, tanto para a história da arquitetura moderna brasileira, quanto para fins pedagógicos, pelos relevantes ensinamentos de arquitetura que contém.

Situado na área do Parque São Clemente, bem próximo do centro da cidade serrana de Nova Friburgo, o hotel foi projetado e construído nos anos 40, sob encomenda da família Guinle. Inicialmente, funcionou um período sob a administração dos proprietários, sendo depois arrendado a terceiros. Diz-se, na cidade, que o hotel conheceu seu auge sob a administração de uma senhora húngara, que o notabilizou pela excelente culinária de seu restaurante. Atualmente, está sem uso, e apresenta comovedor aspecto de depreciação.

Organizado em dois pisos, térreo e pavimento superior, suas dimensões são modestas, atendendo ao intuito de um hotel para poucos apartamentos. Estes, concentrados no pavimento superior em balanço, abrem-se para o sol da manhã, por varandas debruçadas sobre o parque. Tais apartamentos são acessíveis por uma circulação única, na parte posterior, atendendo à melhor orientação climática e ambiental para os quartos. No térreo, situam-se as áreas de convivência, tendo, entre as partes fechadas, um intervalo aberto em meio ao pilotis, atravessando o seu sentido transversal, franqueando a visão de frente e fundos do terreno.

Estruturalmente, o projeto é de uma transparência didática, pois toda a estrutura de madeira é independente, visível, e em acabamento natural, sem pintura. Pilotis e vigamento de suporte do andar superior são feitos por troncos rústicos, e os pisos que sobre as vigas repousam são em tábuas largas na cor natural da madeira. Priorizando elementos naturais como esses, e os de produção simples (como as telhas de barro), e encontráveis no local, Lúcio Costa criou um prédio de tocante singeleza material.

Justamente por ter sido erguida com materiais de grande simplicidade, é que a obra enfatiza, ainda mais, pela genialidade do projeto, sua imensa riqueza plástica. São as treliças das varandas, que evocam aquelas das cidades do período colonial; são os panos de alvenaria rústica, branca, em contraste com as madeiras da obra e das árvores do entorno. É, enfim, todo o repertório de soluções adotadas, que concorre para a harmonia do Park Hotel.

 Mais ainda, esse conjunto de soluções acontece em uma composição formal que privilegia a delicadeza no modo de inserir-se no verdejante ambiente que o circunda: nunca em ruptura com ele, mas sempre em um cativante jogo de avanços e recuos. Exemplares dessa tática são as laterais do prédio, que jamais oferecem diretamente uma empena cega. Em vez disso, concedem a beleza de três planos diferentes com tratamentos diversos entre si. São os planos descritos no parágrafo seguinte, segundo a seqüência do térreo para o andar superior.

Primeiro, no térreo, entre dois pilares de madeira, surge uma armação composta por troncos em X, tendo, por trás de si, o plano formado por peitoril em tábuas azuis e esquadria de vidro. Na seqüência, avançando levemente sobre o painel transparente da esquadria, há um pano de alvenaria branca, sobre o que se projeta o beiral aparente. Suavizando ainda mais a inserção de tal pano, aparecem: a treliça do guarda-corpo da varanda, na parte fronteira; e a vedação de madeira, em plano recuado, na parte posterior, com telhado mais baixo.

Tudo isso demonstra a variedade de possibilidades de jogos de planos, texturas e materiais na composição com um entorno que é, em si mesmo, um atrativo à parte. Falemos dele, pois.

O prédio situa-se em área silenciosa e de aparência silvestre, estando implantado em um talude, do alto do qual é avistado o parque São Clemente. Projetado em 1871 para ser a residência do Conde de São Clemente, o parque conta com jardins e lagos desenhados por Auguste Marie François Glaziou. Atualmente, funciona no local o Nova Friburgo Country Clube, mantendo o parque aberto ao público para visitação gratuita. Na sede da outrora residência do parque, pode-se ver um quadro com o projeto assinado por Glaziou para a área.

Além de sua inserção dar-se nesse belo local, há que se considerar a própria cidade onde foi edificado o Park Hotel, como justificativa da pertinência de sua manutenção como estabelecimento de lazer e turismo.

Palco de um projeto de colonização idealizado por Dom João VI, e efetivado a partir da década de 20 do século XIX por Sébastien-Nicolas Gachet, Nova Friburgo conta uma parte da história da imigração no Brasil. Inicialmente, para ali afluíram colonos suíços e alemães, o que propulsou sua ocupação, e atraiu a vinda de outros imigrantes, entre eles, os húngaros, os italianos, e os libaneses. Nova Friburgo cultua a história de seus imigrantes em várias manifestações. Entre elas, destacamos a árvore situada na Praça do Suspiro, formada por reciclagem de garrafas pet, representando a bandeira dos países de origem dos imigrantes.

A cidade é, portanto, de interesse histórico, o que consiste em um de seus atrativos como destino turístico.  Há ainda outros atrativos para validá-la na condição de semelhante destino, entre os quais, por imperativo de síntese, são citados, aqui, apenas dois, ambos arquitetônicos.

O primeiro é o elenco de tradicionais colégios que notabiliza a cidade, construídos, em sua maioria, entre o final do século XIX e meados do século XX. Despontam, nesse conjunto, os seguintes estabelecimentos de ensino: O Colégio Nossa Senhora das Dores, com sua bela arquitetura neoclássica; o também neoclássico Anchieta, que teve, entre seus célebres alunos, o poeta Carlos Drummond de Andrade; o Grupo Escolar Ribeiro de Almeida (atual Instituto de Educação Nova Friburgo), projetado por Heitor de Melo, com traços ecléticos de fortes influxos germânicos; e, finalmente, o Ginásio Nova Friburgo, outrora da Fundação Getúlio Vargas, atualmente sediando o Instituto Politécnico.

O segundo atrativo arquitetônico é composto pelos jardins desenhados por Glaziou. A convite do Imperador Dom Pedro II, Glaziou assumiu o cargo de Diretor de Parques e Jardins da Casa Imperial. Assim, este engenheiro e paisagista francês, autor do já citado Parque São Clemente, deixou na cidade sua marca em outras obras particulares e públicas.

Dentre estas últimas, destaca-se a praça central da cidade, projetada para urbanizar uma área antes problemática e alagada (o que talvez explique a presença das alamedas de eucaliptos), sob encomenda do 2º Barão de Nova Friburgo. Muito posteriormente, este logradouro recebeu o nome de Praça Getúlio Vargas, e até hoje é considerada o verdadeiro coração da cidade por friburguenses e visitantes.

Em suma: trata-se de um hotel lindamente projetado por um nome luminar da arquitetura nacional, situado em uma área desenhada por um nome célebre do paisagismo no Brasil, e sediado em uma cidade turística. Esta breve remissão de tudo o que foi dito acima, enseja as perguntas que não querem calar: Não são estes dados incompatíveis com o lamentável destino que hoje apresenta o Park Hotel? Tais fatores, por si só, não seriam motivos para sua nova viabilização como empreendimento de turismo?

Tudo no atual estado do prédio do Park Hotel clama por uma revitalização, um destino melhor. As memórias da arquitetura moderna brasileira, e do mestre Lúcio Costa, merecem este respeito; os estudantes de arquitetura, e todos os que têm o direito de apreciar e desfrutar dessa obra, também; a cidade de Nova Friburgo, igualmente. Por tudo isso, há que se trabalhar e torcer para que o Park Hotel possa ter melhor sina do que a que hoje apresenta. Este texto é uma pequena tentativa de contribuir para tornar mais doce o futuro dessa bela construção.

sobre o autor

Eliane Lordello, arquiteta e urbanista (UFES/1991), mestre em arquitetura (UFRJ/2003), é doutoranda do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Urbano da Universidade Federal de Pernambuco – MDU – UFPE

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