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my city ISSN 1982-9922

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A construção de novos edifícios projetados por arquitetos afamados do Jet Set internacional acompanharam o ritmo frenético dos jogos e evidenciaram a significação da cidade como centro cosmopolita que continua atraindo os investimentos estrangeiros

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SEGRE, Roberto. Londres. Além das Olimpíadas de 2012. Minha Cidade, São Paulo, ano 13, n. 146.06, Vitruvius, set. 2012 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/13.146/4497>.



No momento em que a Europa se debate em uma profunda crise econômica, Grã-Bretanha que, mesmo sendo um dos mais importantes membros do bloco econômico da União Europeia, nunca aceitou fazer parte do sistema monetário do Euro, vive uma euforia fugaz com Londres sediando as Olimpíadas de 2012. Sem dúvida, apesar do agravamento nos cortes de recursos para as obras sociais, o país ainda mantém uma estrutura significativa daquilo que se denomina como Welfare State que não se compara com outras nações do Continente. Como o país persiste em demarcar certa presença no contexto da Comunidade Europeia, é possível entender a expressão de autoconfiança que se manifestou no maravilhoso espetáculo da abertura desse grande evento. Um genial resumo da história do Reino Unido, evidenciando a sua marca no desenvolvimento político, social e cultural do Ocidente. Em poucas horas, foram encenadas passagens clássicas da história até a Revolução Industrial; de Shakespeare à Harry Potter; dos primórdios da técnica até a presença juvenil no Facebook. Tudo desenvolvido com uma imensa participação popular da assistência presente no espetáculo, e com o fino sentido do humor inglês que caracteriza a tradicional democracia mantida ao longo de séculos. A festa foi encerrada ao som de uma canção universalmente conhecida de Paul McCartney – Hey Jude –, entoada em coro pelos milhares de assistentes.

Anúncio da Coca Cola para as Olimpíadas
foto Roberto Segre

É uma opinião generalizada que em termos arquitetônicos e urbanísticos, estes Jogos vão ser os mais bem sucedidos do início do século XXI. Parece que não acontecera aqui o fracasso econômico e o precário uso do equipamento projetado por Calatrava em Atenas; nem a subutilização que está acontecendo em Beijing, nas originais instalações esportivas cuja escala excedeu em muito as atividades que posteriormente realizaria a população local. Em primeiro lugar, foi acertada a localização do Parque Olímpico Rainha Elizabeth (Queen Elisabeth Park) no East London. O Parque foi construído em uma das áreas menos desenvolvidas da cidade, não muito distante do centro. Com isso, espera-se uma transformação positiva da região, por meio da implantação de novos meios de transporte, mais empregos, um bairro com oito mil residências, além do parque com atrações esportivas e culturais de nível internacional. Grande parte da área era composta por indústrias e casas abandonadas, ou em mau estado, que dividiam o espaço com linhas de trem, metrô e estradas. Além disso, é também notável a originalidade, funcionalidade e qualidade técnica e estética dos edifícios principais do conjunto: o mais leve estádio olímpico construído até hoje, projeto do escritório Populus, com a participação de Peter Cook; o centro aquático de Zaha Hadid, com as tribunas laterais que se desmontarão depois dos jogos para diminuir a sua capacidade de público; e o elegante e sinuoso velódromo de Hopkins Architects. O único elemento negativo do Parque é a torre icônica dos Jogos – Mittal Orbit, com 115 metros de altura , uma estranha estrutura torcida de aço na cor vermelha – que mais se parece com os restos de uma montanha russa abandonada –; projetada pelo artista hindu Anish Kapoor com o arquiteto inglês Cecil Balmond, e financiada pelo excêntrico magnata do aço, o hindu Lakshmi Niwas Mittal.

Elementos do mobiliário urbano no passeio ao longo do Tamisa. Southbank
foto Roberto Segre

Mesmo com a agitação olímpica, o acontecimento mais significativo para a cidade foi a construção de novos edifícios projetados por arquitetos afamados do Jet Set internacional e espalhados pela City Londrina: acompanharam o ritmo frenético dos jogos e evidenciaram a significação da cidade como centro cosmopolita que continua atraindo os investimentos estrangeiros, em particular dos milionários russos e árabes. Entre os principais se poderiam citar a sede do Banco Rothschild no New Court, no coração da cidade, projetada pelo OMA de Rem Koolhaas; os escritórios The Walbrook de Norman Foster; os escritórios One New Change de Jean Nouvel, na frente da abside da Catedral de São Paulo; os edifícios de usos mistos no Rookery, perto da Oxford Street de Renzo Piano; os luxuosos apartamentos One Hyde Park de Richard Rogers e a original estrutura realizada como uma malha metálica, semelhante a uma árvore, no novo vestíbulo da tradicional estação de trem King’s Cross de John McAslan & Partners.

Os docks do porto de Southwalk recuperados e transformados em galerias, lojas e lofts de luxo
foto Roberto Segre

Os docks do porto de Southwalk recuperados e transformados em galerias, lojas e lofts de luxo
foto Roberto Segre

Os docks do porto de Southwalk recuperados e transformados em galerias, lojas e lofts de luxo
foto Roberto Segre

Foi objeto de um ácido e intenso debate a construção do arranha céu de 72 andares e 310 metros de altura – The Shard of Glass –, até o momento o mais alto da Europa; projeto de Renzo Piano e situado aos pés da London Bridge Station, um dos principais centros nevrálgicos da circulação londrina, cujo acabamento está previsto para o final de 2012. A silhueta piramidal de vidro sobressai isolada no skyline urbano, e se destaca com uma dimensão desproporcionada sobre o conjunto de prédios mais baixos concentrados no centro financeiro localizado no The Canary Wharf, que estabelecem o contraste entre o espaço moderno da cidade e o centro tradicional. Ao mesmo tempo, é uma torre bem original, que segundo Piano vai funcionar “24 horas por dia” como uma cidade em miniatura, dada a sua diversidade funcional: 27 andares de escritórios; 3 de restaurantes no meio da torre; 19 ocupados pelo hotel Shangri-La; os 13 superiores de apartamentos; e no topo 5 pavimentos de galerias panorâmicas, abertas e fechadas. Vista em perspectiva não se percebe a particularidade original das fachadas da pirâmide: constituem oito lâminas de vidro que não se tocam entre si, característica que diminui o impacto volumétrico do edifício. Nas proximidades da torre foram restaurados os armazéns do porto Southwark, transformados em luxuosos lofts, escritórios e restaurantes, que se comunicam ao longo do Tamisa com um passeio de pedestres que chega até o Royal Festival Hall no South Bank Center. Ao longo do percurso se identificam pequenos stands de madeira que apresentam temas brasileiros na exposição Rio Occupation – London Launch.

Módulos de exposição situados ao longo do Tamisa, Southbank. Dedicados a temas relacionados com o Rio Occupation Festival
foto Roberto Segre

Módulos de exposição situados ao longo do Tamisa, Southbank. Dedicados a temas relacionados com o Rio Occupation Festival
foto Roberto Segre

Módulos de exposição situados ao longo do Tamisa, Southbank. Dedicados a temas relacionados com o Rio Occupation Festival
foto Roberto Segre


Acompanhando este conjunto de obras, nos Kensington Gardens, concretizou-se a décima-segunda versão do Pavilhão Serpentine, que vem se desenvolvendo anualmente desde o ano 2000 sob a direção de Julia Peyton-Jones, entusiasta curadora da Serpentine Gallery, pequeno centro de arte localizado em um edifício clássico. A proposta apresentada a todos os arquitetos de renome convidados é o de criar um local leve e provisório no espaço do jardim, que promovesse, com a sua inovação e originalidade, uma maior presença de público nas atividades culturais e sociais organizadas nos meses de verão. Desde o primeiro, projetado por Zaha Hadid (2000), o caráter das propostas evidenciou o desejo de gerar espaços cobertos por materiais leves, que estabelecessem uma continuidade entre o pavilhão e o jardim circundante. Cada arquiteto materializou o seu “estilo” pessoal, adequado as condições específicas determinadas pelo pavilhão: Daniel Libeskind (2001) desconstruiu o espaço utilizando peças irregulares de alumínio; Toyo Ito (2002), definiu um volume semitransparente composto de elementos triangulares; Oscar Niemeyer (2003) deixou suspensa no ar uma leve tenda branca e vermelha; MVRDV (2004), sem dúvida o mais original, criou uma montanha verde encobrindo o prédio clássico, por onde se podia subir até um mirante; Rem Koolhaas e Cecil Belmont (2006), sobre um cilindro de vidro translúcido inflaram um grande globo de plástico; Jean Nouvel (2010) desenhou um complexo sistema de espaços com todos os elementos, desde os estruturais até o mobiliário, na cor vermelha, em contraste com o verde da grama; e segundo a minha opinião, o mais bem sucedido foi o de SANAA (2009), definido por uma fina cobertura de alumínio com formas curvilíneas que se espalhava pelo parque, sustentado por colunas também finas, e com a superfície interior espelhada, que criava um ambiente quase irreal, em que não se percebia onde começava o pavilhão e onde terminava o parque.

Vistas do arranha-céu The Shard of Grass de Renzo Piano
foto Roberto Segre

Vistas do arranha-céu The Shard of Grass de Renzo Piano
foto Roberto Segre

Vistas do arranha-céu The Shard of Grass de Renzo Piano
foto Roberto Segre

Surpreende o repentino desnível de qualidade estética nos dois últimos pavilhões. Em 2011, o convidado Peter Zumthor projeta uma caixa retangular cinza totalmente fechada, evitando a conexão entre o parque e o interior do pavilhão, definido por um canteiro de flores – inspirado nas flores holandesas –, com chaises longues espalhadas no espaço, talvez buscando a dimensão espiritual da calma monástica de um claustro; ou seja, um retorno ao horto conclusus dos conventos medievais. Proposta estranha ao espírito festivo e de intensa vida social que sempre caracterizaram todas as propostas precedentes. No atual (2012), a solução elaborada por Herzog & de Meuron, em colaboração com o artista chinês Ai Weiwei, configura uma imagem minimalista, de nada ou quase nada. Uma cobertura circular sustentada por doze colunas – uma referência aos doze pavilhões construídos –, com um espelho de água na parte superior da cobertura que se eleva a 1.40 metros do nível do chão, sendo o espaço interior aberto e semienterrado, reservado para as atividades culturais. O piso de terra e cerâmica marrom pretendeu expressar uma busca arqueológica dos traços dos pavilhões precedentes, uma espécie de resgate da memória histórica de um processo construtivo que ocorreu ao longo de doze anos. Formulação teórica totalmente abstrata, porque a maioria dos pavilhões, concebidos com extrema leveza, não necessitaram de escavações: somente o de Niemeyer, propôs um semienterrado para localizar o bar. Na maioria dos pavilhões anteriores, o bar ficava incluído no espaço do edifício como lugar de convívio social; neste o bar foi colocado no jardim em um anônimo trailer comercial. No meu caso particular, foi uma triste experiência, ter uma única oportunidade de visitar o pior exemplo da série dos Serpentine. Nem todos concordam com a minha visão crítica: é o caso do magnata indiano, Lakshmi Niwas Mittal, que já o adquiriu para levá-lo para Índia depois do encerramento das suas atividades no dia 14 de outubro.

Mas sem dúvida, a melhor exposição na cidade aconteceu no Victoria & Albert Museum, onde se apresentou um denso conjunto de trabalhos do designer Thomas Heatherwick – designing the extraordinary –; quem ficou famoso pelo insólito pavilhão do Reino Unido na Expo Mundial de Xangai de 2010, um volume biomórfico construído com miles de fibras ópticas de acrílico. Em um reduzido espaço do museu se apresentaram as inúmeras experiências, protótipos, maquetes, modelos, elaborados no seu escritório, em que se procura descobrir as inéditas possibilidades de diferentes materiais, tanto tradicionais como a madeira, o vidro e os tecidos, quanto o uso de plásticos e metais leves, procurando texturas e geometrias provenientes do estudo do corpo humano e a natureza. As pesquisas desenvolvidas por Heatherwick com a sua equipe de 80 colaboradores, se desenvolvem em um trabalho em equipe que funciona como um permanente workshop; e compreendem desde objetos de uso cotidiano – uma bolsa feminina configurada por um sistema de zíperes que pode duplicar o seu tamanho –; até um novo modelo do típico ônibus londrino de dos andares – o Routemaster –, cuja escada ficou contida um uma envolvente helicoidal de plástico transparente. Em conclusão, a exposição foi um verdadeiro festival de criatividade e imaginação.

sobre o autor

Roberto Segre, arquiteto e crítico de arquitetura, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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