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my city ISSN 1982-9922

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português
O grupo ”O vão livre do Masp merece um abraço de São Paulo!” convoca o público para a manifestação que acontece no vão livre do Masp, no dia 7 de dezembro de 2013, às 11h. Renato Anelli, coordenador do grupo, argumenta sobre a questão.

how to quote

ANELLI, Renato. No aniversário de Lina Bo Bardi, um abraço pela liberdade. Minha Cidade, São Paulo, ano 14, n. 161.01, Vitruvius, dez. 2013 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/14.161/4982>.


Museu de Arte de São Paulo, arquiteta Lina Bo Bardi
Foto Abilio Guerra


“O que eu quero chamar de monumental não é questão de tamanho ou de ‘espalhafato’, é apenas um fato de coletividade, de consciência coletiva. O que vai além do ‘particular’, o que alcança o coletivo, pode (e talvez deve) ser monumental”.
Lina Bo Bardi (1)

A atual dimensão do Masp na consciência coletiva paulista torna o debate sobre a situação de segurança pública no seu vão livre um condensador dos dilemas e agruras por que passam as grandes cidades brasileiras. Ao ver acontecer ali o que acontece há muito em outros lugares da cidade, certos setores da sociedade apresentaram a proposta de fechamento noturno desse espaço. A forte reação da opinião pública contra tal proposta, ocorrida nos últimos dias em redes sociais e na própria imprensa, demonstra que a liberdade simbolizada pelo vão do Masp produz ainda enorme reverberação no imaginário social. Tal polarização só é útil se levar ao debate e a novas propostas para enfrentar o problema.

Ao comemorarmos a data na qual Lina Bo Bardi completaria 99 anos (5 de dezembro), é mais do que oportuno direcionar o debate para a atualidade da sua concepção e os desafios para sua preservação.

O vão livre é o segundo aspecto central do caráter arquitetônico e cultural do Masp a ser comprometido.

O primeiro foi o modo de expor concebido pelo casal Bardi – Lina e Pietro. Os dispositivos de exposição do acervo, com placas de vidro temperado para suportar os quadros, procuravam aproximar as obras do público – mostrando-as sem qualquer suntuosidade. As fachadas transparentes lançavam as obras de arte ao espaço urbano, tirando “do museu o ar de igreja que exclui” as pessoas simples.

O vão livre é uma interpretação radical da dimensão pública do solo urbano, estendido a partir da Avenida Paulista e dividindo o museu ao meio. Vão livre e terraço configuram uma praça seca sobre a parte inferior, abrigando sob a parte superior uma infinidade de usos, como qualquer espaço público deve fazer.

Ambas as ações se complementavam: o museu aproximava a arte da vida citadina e criava um espaço público urbano sem barreiras. Concepções modernas que apontam para a emancipação dos sujeitos em uma sociedade democrática. Não por acaso são ameaçadas na condição contemporânea, acusadas de utópicas e irreais. A primeira foi totalmente suprimida a partir de 1996, alijando o museu da principal estratégia programática, a transparência. E agora a radicalidade da segunda está sob forte ataque.

O passar do tempo coloca novos desafios para a preservação de qualquer arquitetura, ainda mais as que pretenderam ser inovadoras. Sua preservação não pode nem ignorar a realidade atual, nem comprometer o seu significado original.

Não podemos nos resignar com a chegada da violência urbana paulistana no vão livre. Seu enfrentamento exige políticas públicas integradas, envolvendo além dos organismos de segurança, o planejamento de ações sociais e de saúde pública. O Instituto Bardi acredita que somente através de planejamento e gestão adequada do poder público, estadual e municipal, poderá ser revertida a degradação do espaço do vão livre. Além disto, propomos uma ação conjunta com instituições não governamentais, universidades e o próprio museu, para torná-lo, no ano do centenário de Lina Bo Bardi, uma nova referência de espaço público na consciência coletiva paulista: livre, seguro e inclusivo.

O Masp e seu vão livre não deveriam ser cercados, mas sim abraçados pela sociedade paulista (2). Um abraço que defenda a liberdade política que ele representa, que o proteja da violência urbana a que está sujeito, que ampare aqueles que ali estão e necessitem de ajuda. Um abraço que represente o afeto desta sociedade pelo museu que ela reconhece como seu principal ícone.

Museu de Arte de São Paulo, arquiteta Lina Bo Bardi
Foto Abilio Guerra

notas

NE
O portal Vitruvius tem publicado artigos sobre o tema desde a publicação do editorial do jornal O Estado de São Paulo defendendo o fechamento do vão livre. Abaixo temos os links para quem quiser acompanhar a discussão.

É preciso preservar o Masp. Editorial. O Estado de S.Paulo, São Paulo, 20 nov. 2013 <http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,e-preciso-preservar-o-masp-,1098579,0.htm>.

GUERRA, Abilio. Os retrógrados. Sobre o fechamento do vão livre do Masp. Minha Cidade, São Paulo, ano 14, n. 160.05, Vitruvius, nov. 2013 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/14.160/4961>.

PERROTTA-BOSCH, Francesco. Occupy vão livre. Minha Cidade, São Paulo, ano 14, n. 160.06, Vitruvius, nov. 2013 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/14.160/4968>.

FABIANO JR, Antonio. Vão do Masp. Uma viagem no tempo e a dura realidade atual. Arquiteturismo, São Paulo, ano 07, n. 081.01, Vitruvius, nov. 2013 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/07.081/4969>.

1
BARDI, Lina Bo. O novo Trianon, 1957/67. Mirante das Artes, n. 5, São Paulo, set./out. 1967, p. 20-23.

2
”O vão livre do Masp merece um abraço de São Paulo!” é o título da manifestação convocada para acontecer no vão livre do Masp, no dia 7 de dezembro de 2013, às 11h.

sobre o autor

Renato Anelli é professor titular do Instituto de Arquitetura e Urbanismo (IAU) da USP São Carlos e diretor do Instituto Bardi.

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