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my city ISSN 1982-9922

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Com os rolezinhos, acirram-se os debates sobre o fenômeno dos espaços privados como lugares de lazer

how to quote

JOANILHO, André Luiz. Rolês e urbanidade. A vitória do shopping center e o fracasso do espaço público. Minha Cidade, São Paulo, ano 14, n. 162.06, Vitruvius, jan. 2014 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/14.162/5031>.


Vale do Anhangabaú
Foto Abilio Guerra [divulgação]


Que espécie de indigência urbana se chegou quando passamos a considerar um shopping center lugar de lazer? Sabe-se de longa data que a classe média brasileira adotou, nas grandes cidades, este modelo de lazer em nome de uma pretensa segurança, mas que na realidade, eram locais de exclusão que se tornaram extremamente visíveis agora que as máscaras caíram. Exclusão da classe média do resto da sociedade.

Não é a segregação do pobre, mas a negação ou a negligência do espaço público, como democrático no qual a cidadania poderia ser exercida, por parte daqueles que se sentem superiores em termos de posses – talvez não seja possível dizer de classes superiores, já que o shopping é um espaço de demonstração de ascensão social quando, por exemplo, algumas famílias conseguem fugir do que se considera a vala comum e passam a frequentá-los.

O mais notório nos debates a respeito dos rolezinhos é a disposição de todos em discutir o lazer em espaços privados como modelo de ocupação da cidade, demonstrando a completa falência do urbanismo brasileiro na forma de planejamento de espaços públicos. Os centros das cidades vazios, já há algum tempo, tornaram-se tão corriqueiros que não se pensa mais em ocupá-los como é comum em cidades europeias.

Associa-se tranquilamente um lugar de utilidade comercial, os shoppings, com lazer, enquanto a cidade passa a ser o espaço humanamente vazio e vinculado unicamente ao trabalho, quer dizer, é a total ocupação capitalista. O espaço urbano é só um negócio: quanto mais perto de shopping centers luxuosos, maior o valor do imóvel.

É evidente que a relativa ascensão, ou melhoria econômica, de vários segmentos da nossa sociedade colocou em cena personagens que estavam afastados economicamente e socialmente da classe média, mas, ao mesmo tempo, não se criou nenhuma condição para que o lazer fosse ofertado pelo poder público para toda a população. Não na forma que tradicionalmente é feito com parques fora dos centros da cidade e de acesso à classe trabalhadora, mas estipular o espaço urbano como o local de ocupação por excelência. Não há nenhuma política nesse sentido.

Os rolezinhos o demonstram. Nasceram da simples diversão, quer dizer, da busca de lazer nas inóspitas cidades brasileiras, mas, para espanto geral da classe média, o alvo eram os shoppings. Ora, nada mais natural, já que é o nosso modelo de lazer mais significado: consumir=diversão.

A estratigrafia social que a classe média desenhou para se excluir do resto da sociedade está sendo questionada, mas isso não significa inclusão de jovens da periferia na cidade, pelo contrário, é a total vitória do modelo capitalista de ocupação urbana, dirigindo a vida para a via do consumo extremado e fútil. Produz-se uma imensa massa vazia de relações culturais, limitadas às formas de expressão que a mídia utiliza para atrair este público.

Pode-se perceber este fenômeno através da música. O funk, o sertanejo, o pagode funcionam como veículos por excelência de um estilo de vida que só consegue enxergar nos espaços privados o momento de lazer. Deve-se pagar para isso. Por outro lado, os centros culturais, que muitas vezes oferecem espetáculos de graça, estão restritos aos poucos que atravessam o limiar da cultura de massa e se podem arrogar de cosmopolitas, produzindo uma verdadeira exclusão de classe por meio da aquisição de cultura erudita.

Os rolezinhos, mesmo que se lhe queira dar uma significação política ou social, só denotam a falência das cidades como espaços públicos. A classe média pode se assustar e exercitar o seu horror àquele mundo de não brancos, mas ela não pode dizer que o seu modelo não é vitorioso. Os shoppings são os grandes beneficiados dessa falta ou talvez da concretização de políticas públicas.

sobre o autor

André Luiz Joanilho é professor associado do Departamento de História da UEL.

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