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my city ISSN 1982-9922

abstracts

português
Em tempos de pandemia, pessoas em situação, preocupados com o futuro das praças das cidades, revelam algumas essências que compõem esses espaços mágicos.

english
In times of pandemic, beggars, concerned with the future of city squares, reveal some essences that make up these magical spaces.

español
En tiempos de pandemia, los mendigos, preocupados por el futuro de las plazas de las ciudades, revelan algunas esencias que componen estos espacios.

how to quote

BARBOSA FILHO, Nelson Machado. Chão da praça. Espaço público e população em situação de rua. Minha Cidade, São Paulo, ano 20, n. 240.04, Vitruvius, jul. 2020 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/20.240/7850>.


Praça da Costa e Silva, Teresina PI
Foto Nelson Barbosa, 2016


A crise mundial travada hoje, causada pela pandemia do novo coronavírus, vem obrigando países a adotarem uma série de medidas de contenção ao vírus, alinhadas as recomendações propostas pela Organização Mundial de Saúde – OMS, ressignificando comportamentos sociais já consolidados. Dentre as medidas adotadas, o isolamento social forçado, incontestavelmente, é a forma mais eficaz de frear a contaminação entre pessoas nos territórios nacionais.

Privilégio de algumas classes, o distanciamento social, importante no combate à crise instalada, aflora problemas que o Brasil carrega desde sua origem. Um desses problemas, o direito à moradia, ironicamente, coloca em xeque a própria política de isolamento em questão, onde o próprio Estado, protagonista nas ações e estratégias de embate ao vírus, não soluciona eficientemente os problemas habitacionais do país, levando uma parcela da população a viver em situação de rua. Em 2016, por exemplo, em pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea, estimava-se que cerca de 101 mil pessoas viviam em situação de rua no país (1).

Em Teresina, capital do Piauí, o levantamento do perfil da População em Situação de Rua realizado entre setembro de 2011 a maio de 2013, pelo Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua – Centro Pop – mostra que 210 pessoas adultas viviam na rua, sendo 171homens (81,4%) e 39 mulheres (18,6%) (2). Mesmo desatualizada essa pesquisa revela a existência dessa população ao mundo, que levam uma vida marcada pela negação dos direitos básicos.

Essas pessoas estão desigualmente distribuídas na geografia das cidades onde atuam diretamente na produção do espaço. Ocupando áreas públicas e privadas, de forma temporária ou permanente, essa parcela da população que não tem acesso à moradia e possui os vínculos familiares fragilizados vivem em eminente situação de risco e, sem escolha, utilizam a paisagem urbana como moradia e forma de sustento.

Dentre os espaços públicos que a população de rua ocupa um em especial é de preferência do grupo: as praças. Espalhadas no tecido urbano elas apresentam funções, cores e texturas diferentes. De acordo com Vivian Dall’igna Ecker (3), elas são públicas por excelência, padronizando gestos, posturas e atitudes, que estimulam ações coletivas e estabelecem, ainda, não apenas relações do indivíduo com o outro, mas também com o lugar.

As pessoas que percorrem a cidade em tempos de pandemia certamente devem perceber o aumento do número de moradores de ruas ocupando as praças. Contrariando os protocolos de segurança para evitar contaminação do novo Covid-19, essas pessoas se aglomeram em grupos para se proteger e chamar atenção das ONGs e entidades sociais que distribuem alimentação, roupas e equipamento de proteção.

Para Walter Benjamin (4), a cidade é o chão sagrado do flanêur, figura utilizada pelo autor para descrever o panorama urbano de Paris, capital do século 19. Sergio Paulo Rouanet (5) ao analisar o flanêur o considera “alegorista das cidades, detentor de todas as significações urbanas, do saber integral das cidades, do seu perto e de seu longe, do seu presente e do seu passado, reconhecendo-a sempre em seu verdadeiro rosto”. Flanêur do seu tempo, as pessoas em situação de rua tem uma visão diferenciada e importante sobre os espaços públicos urbanos que deve ser considerada no momento do planejamento urbano democrático das cidades.

Preocupados com o futuro dos espaços públicos das cidades brasileiras, em especial das praças, após a crise sanitária viral instalada no mundo, os grupos sociais em situação de rua, ou Flanêur, deixam aqui sua leitura que fazem desses espaços contribuindo com arquitetos, engenheiros, urbanistas, planejadores urbanos, paisagistas e todos os grupos que atuam diretamente na produção das cidades.

As praças, essencialmente temporais, são álbuns de memórias da sociedade urbana, escritos constantemente por aqueles que por ali se encontram, se perdem, passam, sentam, conversam, vagueiam, dormem, enfim… contribuem com suas vivencias para a compilação desses álbuns que em um simples folear de páginas, nos presenteiam com histórias que nos ajudam a entender a formação de ricas culturas ao passo que podem, também, revelar feridas mal cicatrizadas derivadas de conflitos sociopolíticos travados pelas diversas classes sociais que circulam nesse palco.

As praças, essencialmente espaciais, são os vazios urbanos planejados que defendem suas áreas do faminto mercado imobiliário, sempre pronto para incorporar novas terras com a finalidade de explora-las financeiramente. Podem ser espaços ativos ou marginalizados, podem ser símbolo de liberdade ou insegurança e podem ser ainda, abertas ou fechadas. Sim, elas podem ter grades! Triste realidade de uma sociedade que não mergulha na sua história para pescar a origem dos seus diversos problemas sociais. Lugar para alguns, território para outros e paisagem para aqueles que se permitem desfrutar das áreas públicas das cidades.

As praças, essencialmente naturais, são a reconciliação do homem com o ambiente em meio ao caos organizado da zona urbana. São pinturas expostas em galerias a céu aberto. São esculturas naturais em eterno crescimento. São poesias traduzidas pelas composições dos mais diversos estratos vegetais que perfeitamente se associam para compor paisagens que aguçam os sentidos de quem por aí passar. É o grande jardim coletivo. Endereço de pássaros e outros animais que se perdem de suas raízes e na tentativa de lembrar-se do seu habitat natural fazem moradia nessa natureza artificial projetada pelos homens.

As praças, essencialmente artificiais, são produtos de técnicas construtivas, adestradas pelo homem e expressas pela composição de materiais com formato, dimensões, naturezas e cores diferentes. Espaço “organizado” fruto de um programa de necessidades ordenado verticalmente e elencados por lideranças, nunca pela comunidade. E concreto desenhado em bancos, postes, paradas de ónibus e lixeiras. Tudo em quantidade, nunca em qualidade.

As praças, essencialmente moradia, são refúgios de homens e mulheres que ali encontram condições mínimas para fazer estadia. É cozinha, sala, quarto e banheiro ao mesmo tempo. É a construção de uma nova família para quem ali vive e tudo partilha. É casa que só existe uma torneira para dividir e suprir as necessidades dos moradores e suas plantinhas. É não ter se quer uma marquise para se proteger das chuvas do inverno ou do sol escaldante do B-R-O BRÓ, é ter sua privacidade diminuída ou simplesmente não tê-la.

Nessa tentativa de descrever a essência das praças, ou simplesmente traduzir o espaço onde vivem, os moradores de rua ou com aqui sugerimos, flanêur, fazem de sua voz um importante instrumento na (re)construção das praças pós pandemia, onde valores como segurança, inclusão, respeito e liberdade sejam garantidos. Esse último valor, para David Harvey (6), é “muito mais que um direito de acesso àquilo que já existe: é o direito de mudar a cidade mais de acordo com o desejo de nossos corações.

Dessa forma, quando essa “poeira” abaixar, espera-se que mulheres, crianças, jovens e idosos, independente da etnia ou classe social, voltem a circular pelas praças em uma cidade (re)pensada coletivamente, onde todos possam, juntos, como cantava Morais Moreira em seus trios elétricos, fazer balançar o chão da praça (7).

notas

1
INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA - IPEA. Estimativa da população em situação de Rua no Brasil. Brasília, Ipea, 2016.

2
PREFEITURA MUNICIPAL DE TERESINA – PMT. Plano de reordenamento dos serviços de acolhimento para pessoas adultas e famílias em situação de Rua em Teresina – PI. Teresina, 2013.

3
ECKER, Vivian Dall’igna. O conceito de praça para a qualidade da paisagem urbana. Revista Projetar, v. 5, n. 1, jan. 2020, p. 101-110.

4
BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas III: Charles Baudelaire um lírico no auge do capitalismo. São Paulo, Brasiliense, 1994.

5
ROUANET, Sergio Paulo. É a cidade que habita os homens ou são eles que moram nela?. Revista USP, n. 15, 1992, p. 48-75.

6
VAINER, Carlos; HARVEY, David; MARICATO, Ermínia; BRITO, Felipe et al. Cidades rebeldes. Passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. São Paulo, Boitempo/Carta Maior, 2013. p. 28.

7
MORAIS MOREIRA. Chão da praça. São Paulo, Som livre, 1979 <https://www.youtube.com/watch?v=9J06xT9c2_s>.

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