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my city ISSN 1982-9922

abstracts

português
O artigo aproxima a constituição de dois bairros a partir da questão simbólica estabelecida pela passagem da linha do trem ao final do século 19. Os bairros de Padova Nord, em Pádua, região norte veneziana na Itália e a Vila Industrial em Campinas SP.

english
The article approaches the constitution of two neighborhoods based on the symbolic issue establised by the passage of the train line at the end of the 19th century. The neighborhoods of Padova Nord, in Padua, Italy, and Vila Industrial in Campinas, Brazil

español
El artículo aborda la constituición de dos barrios a partir de la cuestión simbólica que estableció el passo de la línea del tren a finales del siglo XIX. Los barriso de Padova Nord, en Padua, Italia, y la Vila Industrial em Campinas, Brasil.

how to quote

ANDREOTTI, Maria Beatriz. A constituição de alteridade a partir da linha do trem. O Bairro Padova-Nord em Pádua (Vêneto, Itália) e a Vila Industrial em Campinas (São Paulo, Brasil). Minha Cidade, São Paulo, ano 21, n. 248.03, Vitruvius, mar. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/21.248/8052>.


Acesso ao túnel de pedestres, que liga o Vila Industrial ao Centro
Foto Paulo Humberto [Wikimedia Commons]


A Vila Industrial, em Campinas, constituiu-se como bairro apenas no século 19 com identidade fortemente marcada pela delimitação imposta pelos limites do trem. Com a chegada da ferrovia à cidade, em 1870, foi claramente definida pela linha férrea a demarcação entre o centro e a Vila Industrial. Local onde eram implantados os equipamentos urbanos degradados, para excluí-los da ‘cidade’, foi também posto de moradia da população operária e pobre. A partir da apropriação simbólica da linha do trem, estabeleceu-se uma dicotomia entre seus dois lados (1), onde o lado da Vila Industrial seria o receptor daquilo que deveria ser invisibilizado.

O Bairro Padova-Nord, por sua vez, está situado ao norte da cidade de Pádua, Itália. Experimentou grande crescimento a partir do século 19, embora seu povoamento remonte ao período anterior à ocupação romana. Assim como o observado na constituição do bairro campineiro, seu desenvolvimento urbano foi fortemente marcado pela implantação da ferrovia, em 1842. Embora com características diversas daquelas apresentadas em Campinas, houve igualmente uma apropriação simbólica da divisão sugerida pela linha do trem. Isto porque o bairro concentra grande parte dos imigrantes residentes na cidade, uma população marginalizada, cuja tentativa também é de ocultá-la e distanciá-la da parte central e turística.

Padova-Nord, Pádua, Itália

Pádua, na região do Vêneto, Itália, possui atualmente cerca de duzentos mil habitantes, divididos em seis bairros (2): Centro, Norte, Sudeste, Sudoeste, Leste e Oeste. A parte central da cidade encontra-se bem delimitada pelo desenho da muralha medieval e os demais bairros vieram a se consolidar neste perímetro, constituindo assim suas primeiras periferias.

A delimitação atual do bairro norte, Padova-Nord, foi definida pela municipalidade nos anos 2000, sendo reconhecida principalmente pelos limites físicos impostos pelo Rio Brenta, pela autoestrada A4 e pelas linhas ferroviárias que cortam a região.

Uma das hipóteses para sua ocupação está ligada à atividade de agricultura, favorecida pelas inundações do rio (3), como também pela presença das rotas romanas de acesso à cidade (4). No período medieval seriam implantados na área o monastério de “Santa Maria de Cella” e os “Fradi Minori”, com objetivo de dar assistência aos jovens e pobres que habitavam o local (5). Sua população era numerosa, reconhecidamente popular, “popolo minuto”, já que vivia do próprio trabalho.

Mapa de Padova Nord, em Pádua, região norte veneziana, Itália
Imagem da autora

Outros dois importantes aspectos são fundamentais para entender a ocupação do bairro. Na metade do século 19, deu-se início o projeto de retificação do Rio Brenta, favorecendo a sua ocupação. A chegada da ferrovia, em 1842, iria alterar significativamente as relações deste bairro com o restante da cidade, influenciando definitivamente o seu grande desenvolvimento urbano.

Seu crescimento seria acentuado no período pós segunda guerra, momento em que o plano de recuperação da área busca reconstruir o bairro, um dos mais afetados pelos bombardeios. A autoestrada, aberta na mesma época, estabeleceu claramente os limites norte da cidade, apresentando um crescimento contido neste traçado.

Vila Industrial

A consolidação do bairro da Vila Industrial, Campinas, está intimamente ligada à chegada da ferrovia, uma vez que a implantação da estação ferroviária delimitaria claramente “centro” e “periferia” (6).

Os subúrbios da cidade começaram a surgir no final do século 19, época em que se inicia uma primeira diferenciação para além da ocupação do centro (7). Com a valorização dos terrenos do núcleo urbano, a Vila Industrial passaria a abrigar também a população de renda mais baixa, operários e trabalhadores da estrada de ferro (8). O local era potencial pela proximidade com a ferrovia, pelo baixo valor da terra, pela presença do rio Anhumas e pela oferta de mão de obra, já que ali se instalaram diversas vilas operárias já no início do século 20 (9).

Mapa da Vila Industrial em Campinas SP Brasil
Imagem da autora

O bairro concentrou, portanto, a instalação de indústrias, da população e todo o tipo de equipamentos que se queria distante e oculto, apropriando-se também de um discurso higienista que legitimou a segregação da pobreza (10). Assim o cemitério, o matadouro e a cadeia, antes na área central, seriam deslocados para a Vila Industrial, depois da linha do trem (11). A área sem ocupação existente entre estes equipamentos e o centro seria densamente ocupada até 1960, momento em que o desenvolvimento urbano alcançou estes antigos limites e distanciou cada vez mais a pobreza do centro.

***

Embora diversos em relação a sua ocupação e características urbanas atuais, os bairros da Vila Industrial em Campinas e bairro Padova-Nord em Pádua, possuem veementes semelhanças. Os dois locais foram escolhidos para locação de equipamentos “degradantes”, como os lazaretos (12). Ambos foram reconhecidamente espaços da população pobre e excluída. Mas é, sobretudo, a separação imposta pela linha ferroviária que os aproxima.

A implantação da ferrovia trouxe dificuldades em relação ao estabelecimento da circulação entre os dois lados das cidades. No caso de Campinas, a solução adotada seria a criação de uma passagem subterrânea de pedestres, em 1901. Contudo, por conta dos limites impostos pelo trem, pelo rio e pela estrutura viária, o bairro apresentou um ‘crescimento isolado’ dos demais (13). Em Pádua, a busca por uma solução mais moderna para transposição da ferrovia, levaria à construção de um viaduto apenas sessenta anos depois da implantação da linha férrea, em 1903. Assim, o bairro apresentaria características diferenciadas dos demais, a Nova Pádua, “uma espécie de cidade economicamente e demograficamente – e ainda morfologicamente – nova e diversa da matriz antiga” (14).

Em ambos os casos, a linha do trem foi apropriada enquanto valor simbólico, limite existente capaz de constituir uma oposição entre centro e periferia e a diferenciação entre seus habitantes com os demais. No caso de Campinas, a área seria reservada aos curtumes, aos pobres e operários, e no caso de Pádua, à população imigrante de menor poder aquisitivo.

Trabalhando sobre o caso da cidade de Campinas, Silvana Rubino afirma que “a divisão espacial construída por uma estrada de ferro, [...] dividiu a cidade em ‘antes’ e ‘depois’ [...] e desenhou também uma clivagem no espaço- social e geográfico – constituindo duas paisagens distintas, sítios de representações ao que os dados indicam, duradouras” (15). Características que são igualmente perceptíveis no bairro Padova Nord.

Em Pádua, a constituição de um locus segregado do centro para a classe imigrante é conveniente para a municipalidade, uma vez em que exclui da cidade turística e do centro histórico a presença “inquietante” do estrangeiro imigrante. A comunidade imigrante, por sua vez, apropria-se deste território ‘novo’, de arquitetura pós-guerra, identificando-se também como novo elemento da paisagem, o outro, em contraposição à identidade histórica oferecida pelo centro medieval e renascentista. Da mesma forma que a ferrovia representou um projeto de modernidade, está também associada a um preceito diferenciador. Assim, tanto em Campinas como em Pádua, podemos afirmar que existem "os dois lados da linha do trem".

notas

NA – Texto publicado como anexo na dissertação de mestrado da autora: ANDREOTTI, Maria Beatriz. Vestígios industriais em Campinas: deslocamento produtivo e patrimônio industrial. Orientadora Cristina Meneguello. Dissertação de mestrado em História. Campinas, IFCH Unicamp, 2015.

1
Conforme explicitado em estudo por RUBINO, Silvana. Os dois lados da linha do trem: história urbana e intervenções contemporâneas em Campinas SP. In: FRUGULI JR, Heitor; ANDRADE, Luciana Teixeira de; PEIXOTO, Fernanda Areas (Org.). As cidades e seus agentes: práticas e representações. São Paulo, Edusp, 2006, p. 68-97

2
Para este texto, iremos assumir a tradução de quartiere como bairro, uma vez que podemos considerar como termos correspondentes. São uma divisão política da ocupação urbana, criada em 2000 para administração da cidade. GULLINO, Giuseppe. Storia di Padova: dall’antichità all’età contemporânea. Verona, Cierre edizione, 2009. Segundo dados da secretaria municipal da cidade: Comune di Padova Settore Programmazione Controllo e Statistica, setembro 2013 <https://bit.ly/3m6Z4cF>.

3
SARACINI, Leopoldo. Padova Nord: storia di um quartiere. Comune di Padova, 2002, p. 13.

4
Duas estradas romanas de direção norte sul cortavam este território: via Aspetti e via Bassano. Idem, ibidem, p. 15

5
Idem, ibidem, p. 15.

6
RUBINO, Silvana. Op. cit.

7
LAPA, José Roberto do Amaral. Cidade: os cantos e os antros. São Paulo, Edusp, 1996, p. 52.

8
SEMEGHINI, Ulysses. Do café à indústria: uma cidade em seu tempo. Campinas: Unicamp, 1991, p. 121.

9
A Vila Industrial possui duas vilas operárias tombadas pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas: A Vila Manoel Freire e A Vila Manoel Dias, instaladas no final do século XIX. Dados retirados de: CONDEPACC, Processo de Tombamento 003/90. Resolução nº 19 de 24/11/1994 <https://bit.ly/2O5xGPQ>.

10
HELENE, Diana; ANDREOTTI, Maria Beatriz; MARINO, Filipe. A segregação espacial planejada: uma análise da urbanização da cidade de Campinas-SP. Anais do XVIIII Semana de Planejamento Urbano e Regional. Rio de Janeiro, IPPUR/UFRJ, 2013.

11
LAPA, José Roberto do Amaral. Op. cit., p. 83

12
O lazareto da cidade de Pádua foi estabelecido no bairro Norte em 1509. O lazareto da cidade de Campinas foi estabelecido na Vila Industrial em 1878.

13
RODRIGUES, Ana Villanueva. Preservação como projeto. Área do pátio ferroviário central das antigas Cia. Paulista e Mogiana – Campinas SP. Dissertação de mestrado. São Paulo, Universidade de São Paulo, 1996, p. 32

14
SARACINI, Leopoldo. Op. Cit., p. 67.

15
RUBINO, Silvana. Os dois lados da linha do trem: história urbana e intervenções contemporâneas em Campinas, SP. In: FRUGULI JR, Heitor; ANDRADE, Luciana Teixeira de; PEIXOTO, Fernanda Areas (Org.). As cidades e seus agentes: práticas e representações. São Paulo, Edusp, 2006, p. 73.

sobre a autora

Maria Beatriz Andreotti é pesquisadora do LEAUC IAU USP, onde desenvolve sua pesquisa de doutorado em arquitetura e urbanismo. É arquiteta pela Universidade Estadual de Campinas (2008) e mestre em História pela mesma universidade (2015). Desenvolveu parte de sua pesquisa de mestrado na Università Degli Studi di Padova.

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