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my city ISSN 1982-9922

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Covid-19 pode causar a maior alteração na vida urbana desde a consolidação das grandes cidades modernas, com salutar revalorização do espaço doméstico, mas com mais individualismo e segregação. Desigualdade demandará políticas públicas mais ousadas.

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BONDUKI, Nabil. Os impactos da pandemia no futuro das cidades. Da revalorização das moradias à segregação. Minha Cidade, São Paulo, ano 21, n. 249.05, Vitruvius, abr. 2021 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/21.249/8068>.


Abrigo de sem teto durante a pandemia de Covid-19, São Paulo
Foto Abilio Guerra


As cidades são, por excelência, lugares de aglomeração. Por isso, sempre foram os focos preferenciais das epidemias. Suas condições físicas e sanitárias – alta densidade populacional, saneamento deficiente, moradias superlotadas e intensos contatos entre as pessoas – propiciam a proliferação de doenças contagiosas, tanto do aparelho respiratório como do digestivo.

O médico inglês John Snow —o pai da epidemiologia moderna que, em 1854, descobriu que o cólera-morbo se propagava através da água contaminada pelo esgoto— verificou a forte correlação entre a disseminação dos vírus e a moradia. “Era entre os pobres, com famílias que viviam, dormiam, cozinhavam, comiam e se asseavam juntas em um único cômodo que o cólera se expandia”.

Além de impactar a vida urbana, as epidemias também impulsionaram políticas públicas estruturantes. Entender os impactos da Covid-19 nas cidades e formular estratégias para enfrentar os novos desafios é fundamental. É o que propomos neste artigo, iniciando por uma breve revisão histórica da relação entre as epidemias e as cidades.

A peste negra dizimou cerca de um terço da população europeia no século 14, gerando forte impacto social e urbano. Reduziu drasticamente o número de trabalhadores na agricultura, ampliando as pastagens e as florestas. Abalou o regime de servidão. Nos burgos e nas cidades, interrompeu o renascimento urbano, comercial e cultural da Baixa Idade Média, que levou décadas para se recuperar.

As pandemias do século 19 foram decisivas para impulsionar a regulação urbanística e a habitação social. Na esteira da intensa urbanização provocada pela revolução industrial, surgiram várias epidemias, agravadas pelas péssimas condições sanitárias das cidades.

Friedrich Engels, no clássico livro “A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra” (1845), revelou, de maneira contundente, a pobreza e a precariedade dos cortiços, caracterizados pela insalubridade, exiguidade de espaço e superocupação.

Para enfrentar as epidemias, reformadores sociais e médicos, como John Snow, defendiam maior intervenção estatal, com normas sanitárias e urbanas que restringissem o laissez-faire; contudo, nos países capitalistas, como Inglaterra e França, prevalecia o liberalismo. O mercado atuava sem regulações sanitárias, enquanto grandes pandemias se espalhavam pelo mundo, fazendo milhões de vítimas nas cidades industriais.

Em 1848, sob o impacto da terceira pandemia de cólera na Inglaterra (1846-54), que matou dezenas de milhares de trabalhadores, o Parlamento aprovou a primeira Lei Sanitária. Segundo o arquiteto e urbanista Leonardo Benevolo, a legislação gerou grande polêmica e protestos por parte dos liberais, que se opunham à interferência do Estado nas atividades econômicas.

Vários historiadores urbanos, como Enid Gauldie e Roger Guerrand, mostraram que as epidemias geraram um clima político que favoreceu a adoção do controle sanitário e urbanístico e a promoção da habitação social.

Engels, em 1891, no prefácio da edição inglesa de seu livro já citado aqui, quase 50 anos após a primeira edição, reconheceu a melhoria das condições sanitárias. “As ocorrências repetidas de cólera, tifo, varíola e outras epidemias mostraram ao burguês britânico a necessidade urgente de saneamento de suas cidades e vilas. Consequentemente, os mais gritantes abusos (observados em 1844) desapareceram ou se tornaram menos perceptíveis”.

No livro “Origens da Habitação Social no Brasil”, mostro como as epidemias do final do século 19 impulsionaram as primeiras ações concretas do poder público voltadas para enfrentar as condições sanitárias das cidades.

Na década de 1890, enquanto epidemias de varíola, cólera e febre amarela se espalhavam pelo estado, o governo paulista estruturou um imenso aparato sanitário, com viés repressivo, para intervir nas habitações insalubres e em várias esferas da vida econômica. Para acelerar a implantação de redes de água e esgoto, indispensáveis para conter as doenças, o governo encampou a Companhia Cantareira de Águas e Esgotos, até então uma empresa privada.

Em 1894, impôs o Código Sanitário, um complexo regulamento que originou a legislação urbanística e o Código de Obras, com enorme repercussão. A exigência de ventilação e insolação naturais levou à extinção das alcovas (cômodos sem janelas), tradicionais na arquitetura colonial, e à obrigatoriedade dos recuos, ainda presente nas normas urbanísticas.

As epidemias sempre geraram transformações nas cidades, interrompendo processos em curso, reforçando tendências latentes ou impulsionando novas políticas públicas. Como no passado, tudo indica que o mesmo ocorrerá agora. Identificá-las, estudá-las e formular políticas para enfrentar as novas questões que estão surgindo é fundamental.

No início da quarentena, muitos previram que a excepcionalidade seria breve, que rapidamente voltaríamos à vida “normal”. Com a vacina, acreditou-se que a pandemia iria terminar rapidamente. Hoje, no pior momento da crise, acredita-se que conviveremos por muitos anos com esse vírus.

No Brasil, 6% da população tomou as duas doses da vacina. Apenas em 2022 todos os brasileiros estarão imunizados. Não se sabe, contudo, por quanto tempo as vacinas protegerão as pessoas, nem se são igualmente eficientes para as variantes. Infectologistas preveem o surgimento de novos vírus.

Por isso, as recomendações de evitar aglomerações e de ficar em casa permanecerão. A longa duração da pandemia tende a consolidar as novas tendências de mudanças de comportamento urbano, positivas ou negativas, afetando todos os aspectos da vida nas cidades —habitação, trabalho, educação, cultura, espaço público, mobilidade e lazer.

Baseado em nossas pesquisas e em inúmeros estudos que se debruçaram sobre esse tema, sintetizei em 22 pontos os principais impactos da pandemia na vida urbana.

1. A habitação se torna o lugar central da vida familiar, profissional e social. Além de moradia, passa a ser o lugar do trabalho, do estudo, do lazer, do exercício físico, do relacionamento social. O direito à habitação ganha maior importância, reforçando a necessidade de políticas públicas que atendam a população mais vulnerável.

2. Empresas, ONGs e órgãos públicos se reorganizam para manter o home office, ainda que de forma híbrida. Com ferramentas digitais sofisticadas, inteligência artificial e câmeras abertas, as empresas controlam a distância os funcionários e realizam reuniões de trabalho online. Os escritórios corporativos se mantêm, mas com espaço (e custos) reduzidos. Novas questões trabalhistas se impõem, como os gastos adicionais gerados pelo home office ao empregado.

3. No ensino fundamental e médio, as aulas presenciais permanecem, mas cresce a participação de atividades virtuais. No ensino superior e pós-graduação, as aulas online, com os melhores professores e conferências e debates com especialistas de todo o mundo, se tornam frequentes. A globalização na educação se intensifica.

4. Essas mudanças exigem moradias maiores, conectadas à internet rápida e com espaços específicos e silenciosos para o home office e a educação a distância. Esses requisitos são indispensáveis para os empregos qualificados e a formação profissional. Apartamentos minúsculos e estúdios, tendência recente do mercado imobiliário, tornam-se inadequados.

5. Sem políticas públicas para garantir o acesso de população de baixa renda a uma habitação com esses requisitos, a desigualdade social e urbana se tornará ainda maior.

6. Embora já fosse evidente, a pandemia reforçou a necessidade de urbanização e saneamento dos assentamentos precários para garantir a prevenção sanitária das cidades.

7. A longa permanência na moradia requer repensar o espaço doméstico para compartilhá-lo, de maneira harmoniosa, com os outros moradores, com ambientes mais funcionais e acolhedores para as novas funções.

8. Os espaços abertos na habitação, como quintais, jardins, varandas e áreas livres nos condomínios ou na vizinhança, tornam-se necessidade e objeto de desejo, sobretudo nas famílias com crianças.

9. Como nem sempre esses requisitos podem ser atendidos, os conflitos familiares crescem, gerando separações ou reforçando a tendência dos casais morarem separados. Em 2020, os divórcios cresceram 15% em relação a 2019, aumentando a demanda por moradias.

10. Com o home office, o deslocamento moradia-trabalho torna-se eventual, permitindo maior flexibilização do local da habitação e reduzindo o tempo e o custo do transporte.

11. Muitas famílias nos estratos médios e altos de renda podem morar longe do local do trabalho, em condomínios fora da cidade, na praia ou no campo. Cerca de 10% dos moradores dos bairros nobres de São Paulo passaram a quarentena fora da cidade e se acostumaram. A custos mais baixos, podem ter uma casa maior, com generosas áreas livres. A dispersão urbana e segregação socioterritorial se aprofundam.

12. O comércio virtual torna-se mais frequente, afetando lojas físicas e shopping centers, que entram em crise com a perda da clientela e da receita. Em compensação, os centros logísticos de distribuição de apoio ao comércio online crescem.

13. Ao trabalharem em casa, as pessoas circulam mais em seus bairros, fortalecendo relações de vizinhança e as redes de solidariedade local. Isso pode gerar novo impulso do comércio e de serviços locais.

14. Já os bairros centrais, que concentram os empregos no setor terciário, perdem atratividade. A redução dos escritórios amplia a disponibilidade e derruba o valor do aluguel de imóveis e áreas corporativas, cuja vacância alcançou, estima-se, até 22,4% no último trimestre em São Paulo. O comércio e os serviços do entorno, como restaurantes, perdem parte da clientela.

15. Outrora pujantes, esses bairros podem se tornar decadentes, caso não se transformem em áreas de uso misto, com mais habitações. Facilitar o retrofit, para converter os edifícios comerciais em residenciais, é indispensável.

16. A moradia torna-se local de entretenimento. Além da TV, plataformas digitais pagas (Netflix, Globo Play etc.), espetáculos teatrais online e lives musicais ampliam o acesso doméstico à cultura, substituindo cinemas, teatros e casas de show. Equipamentos de projeção e telas grandes exigem salas maiores e mais reservadas.

17. Espaços culturais e de gastronomia, como teatros, cinemas, casas noturnas, bares e restaurantes, sofrem forte redução na frequência e perdem sustentabilidade econômica com o prolongado isolamento, o entretenimento na moradia e o delivery. Sem programas de apoio, podem fechar definitivamente, abalando a vida cultural da cidade.

18. Esse setor é ainda impactado pela redução do turismo de negócios e eventos. Reuniões de trabalho, congressos profissionais e simpósios acadêmicos tendem a se manter virtuais, afetando a infraestrutura criada para atendê-los. O turismo de lazer é menos atingido.

19. Embora o desejo de frequentar espaços e equipamentos públicos continue forte, seu uso para eventos culturais de massa, tendência antes da pandemia, deve ser controlado para evitar aglomerações, perdendo audiência.

20. A procura por locais para recreação, como parques, praças e áreas livres, tenderá a crescer, ampliando a reivindicação por mais espaços abertos.

21. Os modais individuais motorizados (carros e motos) e ativos (bicicletas e a pé) aumentam sua participação na mobilidade por garantirem maior isolamento e por estarem mais adequados à flexibilidade das novas relações de trabalho, em detrimento do transporte coletivo.

22. Em consequência, aprofunda-se a crise do sistema de transporte coletivo, cujo equilíbrio financeiro requer uma lotação mínima e demanda regular. Para se viabilizar, requererá mais subsídio e medidas de prevenção sanitárias.

Esse cenário trará, provavelmente, a maior alteração urbana desde a consolidação da cidade contemporânea e da concepção de Le Corbusier, expressa na Carta de Atenas, baseada na separação das quatro funções em torno das quais a cidade se organiza: habitar, trabalhar, recrear e circular.

As mudanças tornam necessária uma reformulação do pensamento urbanístico, ainda fortemente marcado pelo movimento moderno, lançando novos desafios para o planejamento urbano.

O modo de morar e de viver, preconizado por esse cenário, embora tenha alguns aspectos positivos, tende a reforçar o individualismo, o isolamento entre as pessoas e a segregação, além de desestimular a convivência no espaço público. Ele pode gerar uma cidade ainda mais desigual, em que grande parte da população é excluída. A riqueza da vivência urbana que conhecemos poderá desaparecer.

A perspectiva promissora que se vivia nas cidades na última década, com valorização do espaço público, maior compartilhamento e convívio social, fortalecimento das arenas culturais e busca de adensamento em oposição à dispersão urbana, poderá se perder se políticas públicas que se contraponham a essas tendências não forem formuladas e implementadas.

nota

NE – publicação original do artigo: BONDUKI, Nabil. Saiba quais serão os impactos da pandemia no futuro das cidades. Caderno Ilustríssima. São Paulo, Folha de S.Paulo, 24 abr. 2021.

sobre o autor

Nabil Bonduki, ex-secretário de Cultura de São Paulo (2015-2016, gestão Haddad), é professor titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e professor visitante Fulbright na Universidade da Califórnia.

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